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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 6/6
SÓS
Esmeraldo Lopes

Lá vem Valmir empurrando sua galeota, procurando carreto, serviço de levar ou de trazer coisas, de limpeza de terreno, limpeza de chão de muro, de varreção, qualquer labutar que dê ganho e o ganho que procura o que lhe derem pelo serviço que faça. Rua acima, rua abaixo, ele assim todo dia. Desde menino nesse mesmo. E, desde que engrossou a voz e a barba rompeu, pegou gosto por cachaça. E, por causa da cachaça, deu para errar o caminho de casa, dormir em qualquer lugar, largar a galeota por aí, não terminar serviço. Isso contrariou dona Joaninha. Ele era seu único filho. Ela não tinha marido. Tinham parentes. Mas no certo mesmo é como se pode dizer: eram os dois no mundo. Ele, o sonho todo dela. Ela, o único ser que se importava com ele.

Quando dona Joaninha sentiu cheiro de cachaça no filho, entristeceu-se. Rezou rosário em rogo para ele ser desviado do descaminho. Mas depois que Valmir exagerou nas faltas, ela perdeu a confiança nele. Daí por diante, onde ele, ela. E se ela em trabalho de lavação de roupa na beira do rio, ele obrigado a ficar por perto, debaixo de vigilância bem feita, sem descanso. E ele vigiando a atenção dela, olhando-a com os olhos disfarçados por trás da aba de seu chapéu de palha. E, no primeiro descuido de dona Joaninha, fuga na rapidez de flecha! Ao se dar conta da escapada do filho, ela largando a roupa aos cuidados de colegas para ir ligeiro, ligeiro atrás dele. Às vezes o encontrando ainda a tempo, às vezes ele já com o juízo melado. De um jeito ou de outro, Valmir obedecendo, pondo-se na direção ordenada pela mãe, caminhando na frente. Dona Joaninha atrás, com uma varinha, açoitando-a leve no corpo dele toda vez que desconfia de tentativa de enganação. A cada açoite, Valmir fingindo dor com palavras, mas rindo, escondendo seu rosto dos olhos dela: “Ai, mãe! Ai, mãe! Ui, ui, ui!” Ele já à beira dos 40 anos. Ela, velhinha, com o corpo chupado pela vida, sem força...  E os dois se encaminhando para a retomada do fazer que ela estava fazendo antes.

Dona Joaninha cercando Valmir por todos os lados e modos para não deixá-lo beber, mas não tem jeito, ele vai beber. Se de umas vezes Valmir forçado a acompanhar a mãe ao trabalho dela, de outras ela o seguindo enquanto ele procura ou desempenha serviço. E assim os dois vultos subindo, descendo, andando para um lado, para o outro compondo a paisagem móvel da cidade. Ele acelerando o passo, esperando o alcançar de alguma esquina para, ao desaparecer dos olhos da mãe, atiçar-se em carreira e tomar destino de liberdade. Ela querendo se apressar, mas suas passadas miúdas, suas pernas cansadas... Valmir escapole. Entra em uma casa, em outra... vê dona Joaninha passar com a varinha na mão, com os olhos fogueteando. Ela não pede informação a ninguém a respeito de seu filho, ninguém lhe avisa nada. Vai para um lado, ele para outro. Às vezes acaba descobrindo a localização dele pelo som de vozes de malandros gritando: “Macacuí, Macacuí!”. “Tabaco da mãe, cabra corno, filho de puta! Traga tua irmã aqui que eu quero é comer ela! Traga! Traga a rapariguinha, viado de pai xibungo!” Não precisa dizer que por vezes ele tirava os documentos e “É com esse aqui que eu arrombo ela!” E pedra zoando no espaço, estraçalhando-se no chão, arrancando reboco de parede. Dona Joaninha chegando: “O nome dele é Valmir. É Valmir! Vamos, Valmir, vamos!” Ela olha para todos, mas não mira ninguém. Ali não pode haver alguém merecedor da consideração da um olhar, do endereçamento de palavra. E vai com o filho, atingida na alma, ferida no coração pela desfeita do tratamento que deram a ele. Atrás fica a cidade alegre, sorridente, indiferente às lágrimas que invadem seu sentimento.

Acontece de Valmir não querer fugir da mãe ou não poder. Aí se encaminha certo a procura de serviço. Se acha, quando a labuta é cavar chão, varrer, remover entulho, fazer algum transporte, dona Joaninha vigia o briquitar dele acocorada ou colada nos passos dele, com sentidos em alerta para evitar que ele escape e vá beber. Mas ele já sabe disso. Preveniu-se. Por saber o lugar de despejo dos entulhos, de antemão, deixa lá, entocada, garrafa de refrigerante cheia de cachaça – é a meiota. E, quando vai fazer o despejo, aproxima-se do esconderijo, dá umas bichadas às escondidas. Às vezes coloca a garrafa dentro da cueca e vai bebendo nos espaços do descuido da mãe. E aí, quando dona Joaninha percebe já é Valmir sem conseguir botar governo na galeota, varrendo sem rumo... soltando gaitada, assoviando, conversando sozinho, gritando: “Iquiô!”. Dona Joaninha se arria na tristeza. Dá-lhes umas varadas. Ele se encolhe aceitando a peia: “Ai, ai, ai”. E ela o toca no caminho de casa: “É minha cruz. É sina que Deus me deu”, se consola. Em casa, ele é botado de castigo. O castigo: não sair. A noite deita e dona Joaninha também. “Valmir, tá na hora de dormir. Ande logo!” Ele se estira na esteira. Fica quieto, quieto, calado esperando a mãe ressonar. E quando um ressono da mãe se emenda no outro em continuado, ele levanta devagarzinho, abre a porta e... Dona Joaninha acorda com o barulho de Valmir entrando: “Aonde você vai?” “Fui mijar, mãe”. Mas o cheiro de cachaça... “Tava era bebendo, safado!” “Não mãe, abença!” “Deus que lhe bote juízo... e corrija sua safadeza”.

Dona Joaninha e Valmir. No turvo da noite, no clareado do dia, dois vultos se movendo na cidade. Vultos... O que pensam? Sonhos... O que sonham? Dores... há? Necessidades? Quem quis saber, quem perguntou, quem se interessou? Quem prestou atenção à dor escorrendo nos olhos de dona Joaninha ao ver seu filho zombado, diminuído, caído bêbado na rua? O que se sabe e é certo é que um dia eles se foram. Levaram consigo suas silhuetas. Deixaram atrás de si uma cidade que nunca os viu e que por certo já os esqueceu.

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