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A PAZ DOS SUICIDAS
Esmeraldo Lopes

                         

A cidade plantada em idos longínquos, mas vingou sem força... e mirrou. Esse é o dizer de agora. Lá atrás, era avistada como lugar de progresso. Tinha padre, juiz, escrivão, major, capitão, fazendeiros. A feira era grande!, juntava para mais de cento e cinqüenta pessoas, quando as coisas andavam boas. Todos, ricos, pobres, moravam nas terras das fazendas. Para melhor entender, a feira pariu a cidade. Foi ela quem fez enxame de gente. Aí um padre botou ideia de construir igreja no lugar de seu acontecimento. E levantada a igreja, ao seu redor, foram construindo casas. Cada pessoa graúda mandou levantar a sua, para pouso confortável em dia de feira, para agasalho da família nas ocasiões de acontecimentos religiosos, para marcar posição de distinção. E não se sabe se resultou de combinação ou de determinação, mas sucedeu que as casas foram alinhadas no formato de retângulo. Na cabeceira, a Igreja. O cemitério defronte a ela, mas lá no fim da rua, fechando o retângulo. A Igreja olhando o Cemitério, o Cemitério olhando a Igreja. Olhando a Igreja e o Cemitério, uma fileira de casas de um lado, outra do outro. Bem no meio do retângulo um cruzeiro de madeira de lei, fincado com firmeza, assistindo o vento caminhar levantando poeira, vendo a luminosidade do sol se chocar contra a terra e a quentura efervescente tremeluzir rastejando pelo chão. Ah! Na parte do fundo da Igreja, fazendo-lhe guarda e se guardando, a casa do juiz, a casa do padre, a casa do major. Na medida em que a rua em aproximação com o cemitério, as casas se amiudando em altura e se estreitando na largura. O rastro de tudo isso está lá, gravado nas ruínas morrendo, morrendo nas ruínas mortas. E no acurado de vista curiosa, de ouvido afinado, sinais de viventes dos tempos de longe avistados nas lápides dentro da Igreja, nas sepulturas do Cemitério velho, nas casas que insistem em afirmar testemunho de algum dia de esplendor, embutidos na memória dos vivos, dos vivos que gostam de repetir os ditos dos pais, dos avós, de contar casos que lhes chegaram pela sombra de memória retalhada.

O Cemitério velho em ruína arruinada, morto, sem defunto novo. O seu portal pela metade, suas sobras querendo desabar; o muro desmoronado sobre o alicerce, arrodeando sepulturas rachadas, esburacadas, afundadas no chão, desmanchadas pelo tempo; arrodeando ossos humanos expostos, cruzes pendidas, apodrecidas, despedaçadas, despencando, desaparecidas. E do lado de fora, na frente do Cemitério, pedras semi-encobertas e esbandalhadas sobre suaves elevados de terra desalinhados, quase imperceptíveis, os ainda perceptíveis. Resquícios de covas, sim! “Enterram mortos aqui por que não havia mais espaço lá dentro?” “Não, aqui fora estão só as pessoa que se mataram. Quem se mata fica pecador condenado às trevas, sem salvação. Cemitério é terra de campo santo, sagrado. Em antiga data era assim: quem fazia esse serviço ficava condenado a viver sem a proteção da benção divina. Não tinha nem direito a cruz na cova.” Silêncio. Vento quente soprando sem força; o sol tinindo; o tuin de cigarras atravessando o calado; portas e janelas abertas, sem gente; a Igreja só; um menino caminhando atrás de uma velha que atravessa a rua, arrasta um brinquedo. Olhares escorregam pelo chão, procurando rastro de covas. Mas o tempo...

Naquele chão, desprotegidas das santidades, das bênçãos dos padres, dia e noite, covas de suicidados se mostrando para os olhos de quem olhe na direção do Cemitério, de quem entre, de quem saía da cidade. E a cada olhado o retorno à memória da marca de algum conhecido enterrado ali, o rebrotar na mente do saber das agonias eternas destinadas às almas dos suicidas. Agonias, aflições, provadas pelos esturros, pelos gemidos, pelas latumias, pelas gaitadas assombrosas vindas da direção daquelas covas, à noite... nas noites de lua, nas noites de breu. E, por vezes, o apiedamento duro: “Coitados! Estão condenados!” Um rogar fraco enviado na intenção deles, mas se sabendo sem valia nenhuma. “O Cão é inclemente, ri de nossas preces”. Mas às vezes, o ressoar mudo de sentença impiedosa, vinda de inimigo, de reprovadores de quem vai contra a vontade de Deus: “É o merecido!” E o desespero impotente, envergonhado, de familiar querendo acudir morto seu vivente naquela situação. O amedrontamento com o futuro de si: “Deus!, livrai-me de fraqueza para que eu  não caia nessa tentação!” E o familiar atolado na lembrança última da cena de morte de seu morto que se matou; a lembrança dos zumbidos cochichados pelo povo a respeito do ato rodopiando seu ouvido; a rememoração do castigo de não poder levar o morto para a última reza de corpo presente na Casa de Deus, de não poder lhe ofertar a benção do padre; a volta do sofrimento por ter sido obrigado a cumprir o dever de enterrá-lo do lado de fora do Cemitério, na parte do chão destinado aos desgraçados. O ver e rever eterno daquelas covas, e o remoer e remoer de compaixão por ter certeza do destino inexorável de seu morto. E o familiar compassivo plantando-o na cabeça, reavivando-o em seus sonhos, projetando suas sombras nos sombreados da casa, escutando acordado lamúrios agonientos vindos do terreno de enterro dos suicidas. E acende vela, e reza, e reza e suplica a Deus. Dorme vencido, inundado em água de piedade. Sem agüentar a dor, procura o padre. Escuta: “O que você ouve, o que você vê, não é a voz e nem é seu filho. É o diabo dentro da alma dele ou fingindo ser ele para fazer à senhora cair em tentação, também”. Aí, de recurso, só o caminho da casa do feiticeiro, para dar cumprimento a trabalho de despacho da alma do suicidado, para domação das estrepolias dos diabos. Esse recurso usado em segredo, mas todo mundo sabendo e comentando em cochicho silencioso.

Na claridade da presença dos outros, o familiar cala. Mas não consegue deixar de ouvir as histórias sobre as presepadas das almas dos suicidas, sobre seus aparecimentos mal-assombrados nos caminhos, em todos os lugares. Também escuta os gritos, as lamúrias, que partem da direção das covas deles. Sabe que existe invenção, mas acredita que quase tudo é verdade. Abala-se ao ouvir o grito dos meninos: “Passe por longe das covas dos condenados, doido, senão a alma do finado fulano lhe agarra!” E o converseiro na feira sobre a assombração do finado beltrano aparecendo no pé de quixabeira, enforcado, embalançando e gemendo; e o testemunho de alguém que garante que quase morria por uma alma ter agarrado na mão de sua montaria e a botando no chão, quando passava, ao anoitecer, perto da cova do finado sicrano. Tira o chapéu, levanta a perna da calça, abre a camisa e mostra os estragos. E ao ouvir isso, do meio do ajuntamento que escuta com os olhos esbugalhados, uma confirmação exclamada: “Uma burra forte como a sua, compadre, cair!? Perto da cova do finado sicrano?! Ráaa. Só pode ter sido a alma dele mesmo que agarrou a mão dela, sem dúvida!, ordenada pelo diabo para fazer o mal!”  

Um prefeito resolveu melhorar a cidade. “Este cemitério não dá mais agasalho a mortos novos, não cabe.” É verdade que a população cresceu pouco... Não, a população não cresceu, até diminuiu, mas o cemitério é pequeno, pequeno, apertado. Do lado de fora, as covas dos suicidados vão andando, tomando o lugar do povo caminhar, dos veículos circularem. O prefeito soltou: “Desse jeito não dá!” Resolveu fazer cemitério novo, um pouco afastado da cidade. Fez. E nesse fazer, decretou o sepultamento dentro dele de todo tipo de morto. “Assim fica melhor”, disse. O padre fingiu que não gostou, mas não fez nada contra. O povo também não botou contrariedade. E o Cemitério velho foi entregue ao descanso do abandono.

Muitas covas de suicidados enterrados ao redor do Cemitério velho, há tempo, sumiram completamente do alcance das vistas das pessoas. Os enterrados nelas, agraciados com o esquecimento, fundidos no mesmo nome: suicidados. E suas almas rebatizadas com o chamado de espírito rúim. Os suicidados em datas mais recentes, também envelhecendo, suas covas minguando, se escondendo debaixo do chão, suas feições se esvaindo, suas histórias silenciando. E deixaram de fazer assombração, de gemer, de lamuriar. Vão escapando da lembrança do povo no ritmo da carreira do aumento da idade dos vivos. Raros ainda possuem nomes, mas estes estão trancafiados na cabeça dos mais velhos, vindo ao som de boca com raridade. E suas histórias perderam força de amedrontamento, não atiçam medo, não encontram quem queira escutá-las com olhos acesos. Seus sofrimentos... Quem se apieda deles? Estão seguindo, se aprofundando na trilha dos esquecidos e em breve, a morte de suas almas.

30-072017

                                                                    

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