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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 6/6
A CERIMÔNIA
Esmeraldo Lopes

Foi no dia da festa maior da cidade. Agora já não sei como dizer. Antigamente a festa maior era a festa do Padroeiro. No dia desse dia, todo mundo quedado no dever da celebração em homenagem a ele. Homenagem com procissão, com missas. Reza, reza... cânticos! Os demais lugares da cidade deitados em silêncio, descansando entregues à solidão. Só depois de todo o acontecer dos rituais de louvor ao Santo é que o povo tomava o destino que quisesse. E no fim, a multidão se desmanchava em rumas. E em rumas as pessoas iam se distanciando da Igreja. Nesse distanciar, as rumas se esgarçando em magotes. Mogotes de gente para um lado, para outro, seguindo em frente... No andar das passadas, pessoas ficando por aqui, pessoas se encaminhado na direção da rua da direita, na direção da rua da esquerda, pessoas se açoitando no rumo da testa. Nisso, os magotes se dissolvendo de pouco em pouco até desaparecerem. Sim, alguns desses magotes eram mais crescidos e crescidos permaneciam até alcançarem a praça onde a moçada procurava encanto, sonho de ternura ou emburacarem em alguma casa onde houvesse comemoração de festa de casamento, de batizado, onde estivesse marcado encontro entre parentes ou adjunto de confraternização de pessoas de amizade aprochegada. No mais se avistava gente andando sozinha, em dupla, em trio... à procura de algum lugar que lhe oferecesse bastança para encher os olhos, animar-se com alegria de conversa, de bebida, de dança ou na esperança de satisfação de algum desejo escondido. E para o satisfazer desses tipos de querer, casa de conhecidos, balcão de botequim, principalmente salão onde tivesse acontecendo samba para dançar forró, para ficar curiando. A Igreja ficava só, fechada e o Padroeiro descansando.

Voltando a dizer. Foi no dia dedicado ao Padroeiro da Cidade. Agora, nesse dia, os acontecimentos que mais atraem gente deixaram de ser os voltados para os festejos dele. A procissão, a missa no mesmo tocar, mas com multidão fraca, com fiéis de fervor magro e rezas que não mostram força de fé. O badalar do sino soa sufocado e até as chamas das velas parece que ficaram preguiçosas, aproveitam qualquer assopro do vento para dormir. Os outros lugares da cidade em animação de música alta, de gente se movimentando entre palcos, bares, barracas e amoitados em torno de carros de som barulhentos, em festival de bebidas. E quando o padre pausa ou afrouxa a voz, o barulho da alegria da rua vem rodopiar na nave da Igreja e atentar os ouvidos dos fiéis. Assim! E nesse assim, o padre vai lá, vem cá, faz o proceder de todo padre em celebração de missa, até pronunciar as palavras esperadas por muitos dos poucos jovens presentes: “Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe!” Ele, o padre, cansado, vê-se. Também ansiava pelo momento de pronunciar essas palavras. E no que o fez, o povo se derramou portas afora. E, fora algumas pessoas de idade alta, as outras foram invadidas pelo chamamento do barulho da música, e, em formato de procissão desorganizada, rumaram na direção dela. Em mão contrária ao ir dessa procissão, dois pequenos agrupamentos. Um na frente, outro atrás, mas em distanciamento próximo.  No agrupamento da frente, em terno branco, arrodeado por pessoas também em trajes aprumados, um homem com o corpo, com o rosto bem chicoteados por traquejo de labuta nos campos da Caatinga. Carrega consigo o transcorrer de mais de sessenta anos e a nomenclatura: viúvo. No agrupamento logo atrás, em roupa branca, cabeça decorada com coroa de flores também brancas, carregando um buquê na mão, uma mulher. Mulher não!, moça velha. No ver e rever de seu ser cheio de rastros deixados pela lida, depositado nela o transcurso de uns cinquenta anos, talvez quarenta cinco, não menos. Noivos. Sem dúvida, cortejo de casamento mirando o rumo da Igreja. Mas cortejo solene, solene mesmo, com há muito não se via. Foi abrindo caminho entre as pessoas que andavam em sentido contrário, induzindo-as a lhe darem passagem, a se afastarem para os lados. Nesse ir o espaço ficando limpo de gente. A Igreja desertada. Dentro dela, três ou quatro pessoas caladas, conversando sozinhas em silêncio de segredo, além do padre, de seu auxiliar. O padre bocejando, à espera do último compromisso embutido na ocasião do festejo do Santo, acompanhou sem entusiasmo a entrada de pessoas na Igreja pelas laterais. Viu nisso aviso da chegada dos noivos. Os noivos - ele levado pela madrinha, comadre sua, ela conduzida por um irmão -, tomaram o destino da entrada principal da nave. E adentraram no recinto em cadência de passo ritmado. Ele adiante, ela um pouco atrás. Ambos andando com majestade, fitando o altar, alvejando o Santo, dispensando atenção aos circunstantes. A assistência dispersa pela nave, quase toda formada por curiosos. E os curiosos prendendo risinhos nos cantos da boca, soltando olhar zombeteiro, murmurando, exibindo postura cínica. Concentrados perto do altar, os membros do cortejo, acompanhando o desenrolar do acontecimento alimentados por transbordar de respeito, de consideração, de admiração.

O padre apressado. À chegada dos noivos ao altar, sem prolegômeno nenhum, deu início à celebração do casamento, encaminhando a cerimônia ligeiro, soltando palavras sem eco. Os noivos não viram padre naquele padre. Mas foram envolvidos pela atmosfera da Igreja, alcançados pelo cheiro das flores que enfeitavam o altar, invadidos pelo resto do cheiro do incenso queimado na última missa; viram-se envoltos no colorido da decoração feita para enfeitar o agasalho do Padroeiro no seu dia e até desconfiaram que os santos lhes houvesse cumprimentado. O lugar era aquele, mas faltava padre, um padre mesmo.  Aí, sem combinação, os noivos se refugiaram na recordação do ser de uma cerimônia de casamento. E ouviram as palavras cadenciadas, banhadas em mistério divino, saindo da boca do padre de outro tempo que saltou ali arrastado por suas lembranças. A voz dele com timbre forte, ecoando no ambiente. Os noivos absortos. E de repente ouviram a voz do outro padre, do padre presente ali, cortando a voz do padre da recordação, trazendo para perto de si a atenção dos noivos pela insistência da repetição da pergunta: “Cadê as alianças?” E no seguir: “Agora diga comigo: Eu...” Foi atendido. O ato praticado.

Os conjugues recebem ainda na Igreja os primeiros cumprimentos. Mas o lugar marcado para o recebimento deles era outro. A face da esposa, resplandecente, aureolada por um sorriso plácido, natural; o esposo sério, deixando escapar alegria orgulhosa pelos olhos. Os curiosos, pasmos, despidos do cinismo. Não zombam mais. Observam os movimentos em silêncio reverenciador, mas não entram na atenção dos conjugues. E estes, encaminham-se no rumo da saída da Igreja, altivos, embebidos de dignidade, em passos firmes, seguidos pelo cortejo. Retomam o caminho do lugar de onde vieram e vão passando cerimoniosamente por ruas desertas, por ruas enfeadas pelo tumulto de gente estabanada, pelo ribombar desordenado, esvoaçante de sons desconexos, desarmônicos, temperados com palavras estúpidas.

28-061-17

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