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DOIDOS DA CIDADE
Esmeraldo Lopes

Não é saudosismo, mas lembro com saudade... Não é saudade. Talvez... recordação serena. Pois é, lembro com recordação serena, mas viva e alegre, dos doidos de minha meninice. E por essa recordação vou percebendo que através da observação do comportamento dos doidos, a gente chega logo à conclusão que a doidice varia no jeito de existir. Nessa variação, um tipo de doido quase sem ser doido. Doido apenas por proceder em pequeno desajuste com a maneira, com o ritmo que a gente achava que deveria ser. Às vezes em grande desajuste, mas, mesmo assim, ele, o doido, embutido na companhia da gente, acompanhando-nos no nosso seguir, mas a seu modo. Referindo-se a ele, a gente dizia: “É abestalhado!”, “É doentinho...” Outro tipo de doido: o doido quieto. Um doido, simplesmente doido. O tempo todo dentro de si, em nada e em ninguém mexia e nem dava ligança para o mundo. Pelo que a gente notava, vivia no viver de uma planta, de um bicho inofensivo. Não dava para saber o que ele pensava, nem se pensava. Acho que vivia pelos sentidos. Existência inexistente. Do seu interior a estampa da imagem da felicidade, indicada pela postura de indiferença com as coisas, com as pessoas ao seu redor. O povo botando roupa nele, intentando cobrir-lhe “as vergonhas”. Ele urinando, defecando na calça, deixando-a cair, livrando-se dela, da camisa, pelo comando de alguma ordem da vontade. Quando agoniado, lançava as mãos sobre a cabeça, esfregava a face com força, coçava a barriga, a virilha e saia em passo apressado seguindo rumo incerto, olhando o mundo sem atenção. E nesse seguir, quando andava nu, ao passar por alguma rua onde houvesse moças, meninas, acontecia de alguém soltar um grito de aviso no ar: “Entrem em casa. Vai doido nu aí!” As meninas, as moças entravam correndo e tomavam posição com os olhos acesos para curiarem, pela gretas da janela, da porta, “as coisas” do doido.

O doido manso... Esse tipo de doido também não oferecia nenhum perigo. Não enquanto doido! Havia doido manso gracista. Esse gostava de contar histórias, explicar o motivo, o sentido dos acontecimentos. Histórias, explicações, às vezes, na maioria das vezes sem tino. E embora as histórias fossem sempre as mesmas e as explicações não variassem de natureza, quando se punha a falar, ouvidos desocupados, poucos ocupados, saltavam para os olhos procurando ouvir bem. E risos, gaitadas redobradas. Alumiado por felicidade, o doido se ia de canto em canto presenteando sua alegria, divulgando verdades sem cabimento de lógica nenhuma ou com lógica, mas sem rastro de acontecer, com acontecer falseado. E suas histórias, suas explicações, colocando todos no mesmo sentir pelo mesmo ouvir; rolando de boca em boca na rua; preenchendo os espaços vazios de assunto; transformando o doido em celebridade, alongando sua vida na memória do lugar. Havia o doido manso que não era gracista, mas se dava à serventia de todo mundo que o solicitasse. Chamado, estava pronto a serviço pequeno, ligeiro: dar recado, ajudar em alguma arrumação, fazer transporte de objetos..., mas sem regra de seguimento. Uma vez uma coisa, outra vez outra; hoje aqui, amanhã ali. Agia no querer da vontade da hora, não se via na obrigação de atender a ordem de ninguém. Mas quando aceitava algum mandamento, não admitia sua alteração. Não se dava a seguro de segredo, a invencionice de mentira. Cuidado com ele! Sem reserva de conseqüência, ato visto, ato anunciado; palavra escutada, palavra propalada. O pensar, o achar de doido assim!? Só doido pergunta. A vida desse tipo de doido, correndo mansa, mas um dia, alguém dizia uma palavra, uma frase que o doido não gostava. Pronto! O nascimento de um apelido. O inferno! Aí, ao grito do apelido, o doido fora de tino, ensandecido, jogando pedra, pegando facão, soltando palavrões. De doido manso passava a doido varrido. E as pessoas de bom estar anunciavam a sentença pública: “O que ele fizer de mal terá por responsável aquele que o aperreou”.

Fazendo-se íntimo de todos, com liberdade de entrança em qualquer lugar, escolhendo as casas onde fazia ponto para tomar café, beber água, comer ou só para sentar e se por em silêncio ou a falar, o doido ensimesmado. Não, não! Recebia e devolvia cumprimentos, oferecia respostas a perguntas, mas respostas curtas, no atendimento exato da pergunta. Suas perguntas? Raras. Palavra dirigida a alguém? Apenas o suficiente para manifestar o querer que queria. “Quero água”, “Quero café”, “Tem pão?, “Quero farinha” ...  Na casa, no ambiente onde chegasse, sentava-se, recostava-se na parede ou na guarnição da porta, punha-se a debulhar palavras. Não se dava a entabulamento de conversa. Pouco ou nada se interessava pelo que os outros diziam, mas manifestava entendimento na conformidade do seu querer. Falava sem necessidade de ter quem o ouvisse. De vez em quando, falava mirando o ar, dando a impressão que conversava com alguém. No seu falar, assuntos do tempo que não era doido ou que era pouco doido, assuntos do seu mundo particular, com situações possíveis e impossíveis, com personagens próprios, desconhecidos dos ouvintes. Ora por outra, o aparecimento de referência a situações conhecidas, o nome de gente com existência certificada pelos mais velhos, mas vivente láaa atrás. E um assunto agarrando outro, saindo em murmúrio sem segredo. E um gole de café, e uma baforada no cigarro de fumo-de-rolo. A fumaça dançando, espraiando-se no vento, temperada pelo cheiro forte de fumo. De repente, silêncio, os olhos do doido serenando em passear vago. Sem anunciação, levanta, sai alardeando seu ir com o chap-chap da chinela. Vai. E vai rua acima, rua abaixo, rua abaixo, rua acima. Todo dia nesse zanzar assim, esperando a hora do sol deitar, para deitar também, e levantar amanhã na madrugada ainda escura, para esperá-lo acordar.  

Doido apertado tinha. Doido por aperto do juízo na conformidade com o tempo, com a situação. O sujeito era... digamos, quase normal, mas vinha uma fase da lua, um acontecimento e ele apertava. E quando apertava, entrava em fúria louca. Então, ter cuidado, esperá-lo voltar para posição reaprumo. E ele se mostrando empirriado, com os olhos agitados, com cara azeda, desconfiado, esticando os ouvidos para assuntar o que falavam... se a respeito dele. E todo mundo murchando de prevenição. Aí, um dia, o doido se desdoidava. A cara, o jeito, o proseado, tudo voltava ao normal do acostumado. Mas mesmo assim, a turma, por perto dele, pisava com jeito, atentava em cuidado de falação evitando inflamá-lo. 

O doido varrido atinava uma besteirinha. No que aceitasse qualquer comida que a boca não enjeitasse, bebesse a água que o nariz não recusasse, segurava roupa no corpo, circulava com rumo traçado, elegia lugares de predileção para o seu visitar, mas não se ligava a ninguém, embora aceitasse chegança distante de familiares com contato continuado. Só falava quando perguntado. E quando perguntado, as palavras descosturadas, referindo-se a assuntos salteados, com tudo se desencontrando. Vivia em agonia, subindo, descendo, entrando nos armazéns, saindo sem atenção de comprimento a quem quer que fosse. Como vivia sob o mando do querer do corpo, sem freio a regulamento de norma, que todo mundo se prevenisse contra o que ele pudesse fazer. Os comerciantes, quando o viam se aproximar, corriam para proteger os sacos de farinha, de açúcar..., as rapaduras. Em descuido, lá se ia a mão dele mergulhando na farinha, no açúcar, para sacudir punhados na boca. Nas andanças, quando passava perto de uma mulher desprevenida, o estalo de palmada na bunda dela. E quando a mulher se assuntava para o ocorrido, o doido já batucava em outro canto. Mas no seu ir, no fazer que fazia, não punha ninguém em risco de vida. Quer dizer, se ninguém lhe agoniasse! Quando lhe agoniavam, aí pedra viajando sem destino, esturros, palavras sem nexo voando. Aí, o doido correndo aloprado, empurrando, esmurrando quem em sua frente. Por ser assim, o dizer repetido, insistente dos adultos, divulgado por todo mundo: “Não aperrei fulano. Ele é sem culpa. Não atina nada! Cuidado, cuidado!”

Não, o aqui escrito não abarca o jeito de todos os doidos. Cada doido com seu jeito e eram muitos sujeitos com jeito de doido. A doidice rejeita qualquer tipo de enquadramento, até o do emolduramento por palavras em papel. A cidade sabia disso e se esforçava para tolerar suas manias. Quando algum doido aloprava em fúria braba, lá se iam os homens junto com os policiais para pegá-lo e levá-lo para a cadeia ou amarrá-lo. E ele era mantido nesse estar até ser atingido pelo estado normal do seu ser. Mas a cadeia era pública, pública no sentido de ser aberta ao público. Só a cela era fechada.  Aí a gente ia ver o doido na cadeia para saber se ele já tinha se acalmado. Era no clima dessas linhas que a vida dos doidos ia se tramando na cidade.

Depois, já no tempo do agora, fiquei sabendo. Para a doidice, a pior forma de maltrato é a solidão. O tempo mudou, ou seja, mudaram as formas do acontecer das coisas. Pessoas foram embora, pessoas que ficaram tiveram ideias, costumes, comportamentos modificados; pessoas estranhas assentaram residência na cidade; policiais, juízes, promotores, delegados desembaraçam suas ações alheios ao entrelaçar vida do povo, sem pesar o drama, as relações, o jeito de viver dos habitantes. Para o bem retratar da coisa, não há mais habitante na cidade. Nela só moradores. Em verdade a cidade desapareceu tomando forma de acampamento. Sobraram algumas ruas, algumas edificações, mesmo assim em outra cara. E aí, os doidos, coitados, caíram em estrangeiramento. Estranharam o mundo, foram estranhados por ele. Os comerciantes os repelem, as casas com as portas fechadas, as pessoas não toleram suas manias, sentem-se agredidas, ameaçadas por eles e, em resposta, os agride; no mínimo de alteração, a polícia os prende. E os doidos tornaram-se anônimos. Agora, sem nome, sem conhecimento, sem lugar, tomaram forma de sombras semoventes. Os doidos novos se agasalham constritos em casa ou se expõem aos abusos de estranhos; os doidos velhos zanzam pelas ruas, por estradas, procurando a cidade perdida, sozinhos.

20-06-17

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