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ESPERANÇA VENCIDA
Esmeraldo Lopes

Trasanteontem, Amina, a moça que faz a faxina em meu apartamento chegou justificando seu atraso: “A menina que cuida de meus filhos, quando saio, não pode cumprir o horário”. Há uns dias, ela me fez aviso: “Não posso vir no dia combinado para a próxima vez, porque vou levar meu filho para consulta no Postinho”. Não sei por que, aqui e ali, tanto um como o outro dizer danou a revoar ao redor de meus ouvidos. E a eles foram se juntando outros, chegados aos pedaços: “Só saio de casa depois que dou café aos meninos”; “O lugar onde moro não é de confiança, não posso deixar meus filhos sozinhos”; “Não tenho mais nem pai e nem mãe, nem tenho marido, só os filhos”; “Meu estudo é pouco, só fui até metade do terceiro ano”; “Minha filha, que tem treze anos, desembaraça um pouco na leitura, mas meu filho, que tem onze, só sabe ler tropeçando com dificuldade, quase nadinha”; “Não deixo meus filhos perderem aula nem um dia, quero que eles se desenvolvam e tenham uma vida melhor”. E o som da martelada dessa esperança me trouxe, na velocidade de relampejar, os olhos, o mexer da boca, as palavras de José. José, dono de sítio pequeno, arrodeado por muitos outros sítios de tamanho, de aparência igual, falando de sua labuta para prover a vida: “Minha terra você tá vendo aí, não tem suficiência para agricultura, nem pra capim que baste para as vacas que crio. Vivo do leite delas, mas ele é pouco e é barato. O dinheiro dele não dá para comprar as coisas, sobra pouco do que gasto com ração. Meu pai me adjutora com alguma coisinha do aposento dele. Você quer saber mesmo? O que sustenta minha família é a Bolsa-renda (...) O futuro que vejo para meus filhos? Tenho dois, um menino, uma menina. Tem uma escola ali, você passou por lá. O futuro, esperança para os filhos... Só o estudo! (...) Se a escola está fazendo o serviço que a gente espera dela?” Os olhos dele dormitaram, emoldurados na face cozida pelo sol. Passeou as vistas no rumo da estrada, circulou a cabeça com a mão, voltou-se para mim... Respondeu: “A gente espera isso!”

O soar da última frase de Amina, o retrato da esperança de José nadando em meu juízo, puxando lembranças de ocorridos no percurso de minha vida como professor; ressuscitando imagens, manifestações, procedimentos de colegas, de diretores, de coordenadores - não vou me referir aos “profissionais” entulho, debulhadores do terço da idiotice paulofreiriana -. E, invadindo-me, a lembrança de colegas corrigindo provas, trabalhos, com passada apressada de vista e visto ligeiro de caneta para dar nota oito, nove, dez sem ligança para o sentido, para a consistência, para a estrutura de raciocínio apresentada nas respostas - aliás, essa ligança só raramente pode acontecer, pois a prática geral é a aplicação de provas, de exercícios com base em questões de múltipla escola, em questões de completar -; e colegas mandando alunos fazerem “trabalho para ajudar na nota” ou simplesmente distribuindo notas por simples indisposição em aplicar provas; e colegas aceitando, como respostas, como desenvolvimento de atividades, cópias, defendendo essa aceitação dizendo “que pelo menos aprenderam alguma coisa enquanto copiavam”; e colegas justificando a ausência às aulas com o argumento que estava no período de colheita de safra na sua fazenda ou que tinha afazer urgente em sua empresa ou que tinham ido ao médico ou que foi levar filho para exame ou que estava em acompanhamento de doente da família; e colegas em descompostura de trajes, arrastando chinelas, usando boné, bermuda, calça em feição de pijama, expondo sexualidade vulgar nos ambientes da escola; e colegas deixando os alunos no absoluto de liberdade no correr da aula; e colegas ministrando assuntos que deveriam ter sido estudados em séries bem anteriores, alegando que os alunos não desempenham; e colegas na frouxidão de fazerem o que quiserem, sem preocupação de preparo das aulas, de observação ao cumprimento do programa, do currículo. E doutrinação ideológica de cor política, religiosa; e doutrinação relativa a raça, a gênero, a minorias. E diretores, coordenadores sem atenção de controle dos procedimentos, das atividades dos professores, sem observar o efetivo cumprimento da carga-horária, sem dar importância ao atendimento do currículo; e, pelo mesmo modo, deixando os alunos livres para vadiagem nas dependências da escola, para se comportarem no gosto do desleixo de costumes, de vestimenta qualquer, de modos despranaviados, de à-toismo generalizado.

Os alunos se afeiçoando à estética do ridículo, tomando-a como referência, vivendo vida liberta, incapazes de autocontenção, de crítica, de autocrítica, de disciplina, mas especializando-se no conhecimento que assopra e rodopia no mundo do acontecer fácil. Para esses alunos, a escola é o que sempre viram; educação é escola; professor é o ser sem ser que se posta diante deles, e atribui notas e que não se importa; estudar é o simples ato de comparecer à escola, à aula; aula, presença à sala. Qualquer exigência é chatice nascida na cabeça de algum metido. E vão rumando na trajetória que aponta felicidade estúpida. Mas, no meio deles, há alunos que carregam orientação de querer ser outro tipo de ser, isolam-se, aprendem a se agasalhar nos cantos, adotam o silêncio, o fingimento de cumplicidade como recurso de sobrevivência, e se põem no rumo dos estudos, aproveitando as migalhas de conhecimento que lhes chegam do ambiente, através de algum escrito, de alguma reportagem, dos ensinamentos de algum raro professor. Mas tudo aproveitado pelas franjas, no limite de suas dificuldades, de suas possibilidades. São habitados por insuficiências de conhecimento, carências intelectuais, deficiências instrucionais. O passado lhes amarra, o presente lhes embarreira, o espaço onde vivem lhes castra. Mas no deserto de pobreza humana em que estão, despontam como flor em pedregulho. E, os professores, os meus colegas professores!, enchem-lhes de elogios, pavimentam-lhes a vida estudantil com facilidades fáceis, coroam-lhes com nota dez, plantam e fertilizam relaxamento em seus espíritos, e esses alunos, se baixam a guarda da crítica, da autocrítica – e comumente o fazem -, fenecem na miudeza da mediocridade, com o peito carregado de orgulho. Mas o mais grave: são sempre alvos de pseudo-professores que os assediam na tentativa de cooptá-los para o desempenho de “atividades revolucionárias” em alguma organização salvacionista.

A esperança de Amina, de José, nadando em redemoinho contra correnteza forte, assistida por indiferença cínica, perseguida por uma multidão de demônios inclementes. Tudo está contra eles, contra seus filhos, mas eles não sabem. E, porque não sabem, simpatizam os professores, acreditam na educação, vêem bom futuro para seus filhos e suportam o peso dos sacrifícios que jogam sobre as costas, sem queixa. Mas estão condenados ao alto risco de verem seus filhos periclitarem nas veredas de percursos cruéis e a assistirem suas esperanças despencarem no abismo das desilusões tardias, mais uma vez respirando impotência, fracasso.

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