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COLONIZADO VOLUNTÁRIO
Esmeraldo Lopes

Há colonizados e oprimidos que incorporam de modo tão forte essa condição, ao ponto de não conseguirem vislumbrar qualquer perspectiva de viver autônomo. E quando se descobrem lançados, pela independência e pela liberdade, no oceano da solidão, buscam desesperadamente se agarrar a algum modelo, seguir caminho feito. Não sabem ser independentes, temem ser livres. Não querem viver correndo os riscos que a independência e a liberdade arrastam consigo. A liberdade só lhes serve para que possam escolher um senhor. Um senhor que lhes diga o que são, como devem ser, pensar, caminhar, cantar... E surge assim um tipo paradoxal de colonizado: o colonizado voluntário.

O mais constrangedor na existência do colonizado voluntário é que ele não sente nenhum tipo de constrangimento ao fechar os olhos para a sua história e se jogar servilmente aos pés do senhor que escolheu. Mas o senhor foi escolhido, não o fez, não o coloca em sua conta, estranha-o, desconhece-o e o quer longe de sua pessoa, por considerá-lo um ser sem orgulho, sem brilho, inferior. Entretanto, o colonizado voluntário é insistente, não desiste, quer incorporá-lo, e o segue, e observa seus detalhes para reproduzi-los em obra de imitação. E a imitação, a incorporação ganham figura zambeta-zarolha-fonhem. Mas ele, alheado de si, do seu mundo, não consegue enxergar a mediocridade do papel que desempenha. Não fosse o ridículo, assemelhar-se-ia a médium em centro espírita ou em terreiro de umbanda incorporando entidade. Onde quer que esteja, o que quer que faça, sempre, sempre estará seguindo e professando a orientação que supõe indicar a imagem, o gostar, o ser e, principalmente, o dizer e o pensar do “seu” senhor, e pelos olhos dele enxergando. E no ser desse estar, vê-se feliz, forte, superior.

No Brasil, a universidade é o grande celeiro de colonizados voluntários. Aliás, na área das ciências humanas – embora não seja sua exclusividade -, quem não se submeter a abraçar com sorriso largo o modo colonizado de ser, não encontra, não encontrará abrigo para futuro. Na universidade brasileira, este tipo de colonizado se faz por treino sistemático, aperfeiçoa-se na arte do disfarce, do oportunismo, da má fé, e se mantém pelo caminhar nos trilhos do arrivismo. Aquele que, dentro dela, arredar disso, colocar-se em ação por olhar próprio, respirar gosto por autonomia, sentencia-se ao ostracismo. E quem não quiser ostracismo, que faça a escolha de um senhor que goze de prestígio e respeito internacional – não basta que seja estrangeiro, tem que ser americano ou europeu - e esteja sempre afiado para demonstrar que conhece suas obras, para reproduzir seu pensamento, salivar seus conceitos, e apoiar todo dito que disser com a muleta de citações. Quem não entrar nesse proceder ouvirá perguntas: “Quem disse isso?”, “Você está falando com base em que teórico?” Se a resposta for “com base em meu pensamento, em minhas observações”, os ouvidos se fecham e o interrogado inexoravelmente desprezado, colocado na fila dos ninguém.

O colonizado voluntário tem vida sem sacrifício, responsabilidade de alcance curto. Não precisa criar nada, não quer criar nada, já não sabe criar nada. Pega tudo pronto, por hábito, por atrofia. Apenas reproduz. E reproduz por enquadramento forçado, por imposição de discurso sem base, sem atenção nos modos de nosso acontecer. E assim como reproduz o ver alheio, reproduz-se: por vômito. Põe-se a vomitar os ditos, o pensamento de “seus” senhores nas escolas de nível médio, de nível fundamental, nas igrejas, nas reuniões de movimentos, de organizações sociais, nas conversas de bares, nos livros, nos meios de comunicação, onde quer que possa existir ouvido desprevenido. Assim vão se multiplicando, avolumando-se, tornando-se multidão. Nesse acontecer, os brasileiros sendo areados; o Brasil avistado com olhar estrangeiro, explicado através de pensamento importado, visto nas cores pintadas por gringos, interpretado com o emprego de palavras estranhas. Aí, o nosso redefinir alheio à nossa história, à nossa cultura, à nossa memória, à nossa geografia, a nós. A anulação de nós. Sim, porque de repente nos impõem a condição de país de imigrantes; e se decretou o fim dos pardos, dos mestiços porque agora impuseram que esses são negros; e todo negro é afrodescendente; e os órgãos sexuais não definem gênero, não definem nada, porque gênero é pura ideologia. Brasileiro... Joga-se no lixo a ideia de sermos brasileiros. Agora somos um país multicultural e o que importa são as etnias. Etnias: ciganos, quilombolas, afrodescendentes, índios esses, índios aqueles... Minorias... Minorias desfilando em rosário: minorias religiosas, mulheres, homossexuais – e de novo, ciganos, afrodescendentes – populações tradicionais – já tem gente gritando: populações periféricas, moradores de rua. O rosário segue. E segue agora com um estandarte anunciando em estampa multicolorida o nome diversidade. Diversidade: aceitação ampla, irrestrita e inquestionável de todos, de tudo.

Pelo pensar que habita o colonizado voluntário, o brasileiro é um ser nada. Ser nada disposto a aceitar tudo, a ser qualquer coisa. Deve se sujeitar a adaptar sua cara a qualquer mascara, dissipar-se de todo conceito e de todo preconceito. E deve ser solidário aos povos do mundo, para assim merecer o nome de civilizado. E sonha em ver o povo brasileiro gritar: “Que venham os povos!”, “Aceitamos todas as religiões, todos os costumes dos povos do mundo!”. Ele, o colonizado voluntário, detesta a ideia de pátria, odeia a noção de Brasil, de Brasil como um país nacional. Renunciou a si, agora quer forçar todos os brasileiros a o fazerem também.

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