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BAQUE
Esmeraldo Lopes

Esmeraldo Lopes As pessoas felizes são autoconfiantes. Habitam em um oceano de certezas incontestáveis. Carregam consigo a convicção de que suas ações, conivências, cumplicidades ou omissões nunca concorreram e jamais concorrerão para o sofrimento do mundo. Aliás, erro, elas nunca se vêem como omissas ou coniventes ou cúmplices. Ao serem alcançadas por gemidos de injustiças, por cenas da miséria humana põem os olhos em atenção de curiosidade calada, os ouvidos em escutar mudo. Declaram não ter responsabilidade sobre as ocorrências que parem dor, desgraça. Portanto, não precisam de absolvição. Com a certeza que cabe dentro de mil mundos e de todos os séculos, os felizes afirmam ser inocentes. E dormem com espírito manso, sem tormenta.

Diante dos males do mundo, os felizes – não importa que sejam religiosos ou ateus - deitam lado a lado no leito da indiferença. Os religiosos recitando: “Deus sabe o que faz”; os ateus em coro com os religiosos, declamando: “É o sistema”, “É o governo”. Se não dá para responsabilizar o sistema, o governo, não se embaraçam: articulam frases e apontam um culpado difuso:“Foi outro”, “Foram eles”. Para sacramentarem sua inocência, arrematam: “Ninguém pode ser responsabilizado pelo erro dos outros”. Banhados nas águas da cegueira mental ou da má fé justificada, seguem em marcha tranquila, com atenção em si, cuidando dos seus, perturbando-se apenas com problemas que lhes possam chegar ou que lhes chegam nas asas de insatisfações nascidas de imprevistos, de desejos materiais frustrados, de frustrações decorrentes de insatisfação com a posição social que ocupam, com a melhoria ou manutenção da própria condição financeira. E por que estou a escrever isto? Porque me vem a imagem do acontecimento de um baque.

A noite em início de fim. O movimento no bar diminuindo, os músicos guardando os instrumentos. O som desafinado de vozes voando de algumas mesas, dissolvendo-se no silêncio da rua. Entre burragens e besteiras, na mesa onde eu estava, a conversa fluindo tranqüila, descomprometida, descontraída. As palavras desaparecendo nas frases e as frases esquecidas no mesmo ritmo de suas pronúncias. E no relance de um golpe de vista, um colega atingido pela figura de um catador de lixo empurrando uma carroça entupida de papelão, de plástico – o olhar dele, do colega, puxando o nosso, empurrando-o na direção do seu mirar. E vagarosamente o catador de lixo indo, indo, indo, dobrou a esquina, sumiu. Por necessidade de algum falar, o colega soltou um perguntar, perguntar vazio, sem pretensão, sem necessidade de ser acudido por explicação:

- Por que no Brasil ainda existe isso?

A resposta relampejou de minha boca:

- Porque o Brasil é feito por traidores!

Sua esposa despertou a alma, ele se aprumou na cadeira em jeito de guerra, mirando-me com olhar flecheiro:

- O que você acabou de dizer é muito sério. É pesado demais!

E acendeu os ouvidos, no aguardo de escuta. Fulminado, pedi intervalo. Lembranças de situações, de atitudes minhas, de fatos testemunhados por mim desde o tempo de menino; retalhos de acontecimentos, informações recebidas por visão, por bocas e através de escritos se entrechocando, circulando desconexos em minha mente, misturadas com imagens há muito agasalhadas nos recônditos da memória. Recompus-me. Pus-me em andar de fala para fundamentação curta do dito afirmado:

- Do que eu, tanto quanto você, sua esposa, delegados, professores, deputados, médicos, advogados, empresários, militares graduados... fomos feitos? Com que matérias foram feitas as pessoas que portam conhecimento, possuem o poder da palavra, recursos para agir com mais eficácia no mundo e ocupam posições e cargos que lhes possibilitam tomar decisões que interferem na vida das pessoas, na sociedade? [silêncio] De outro modo: quantas mortes e abreviações da vida de garis, lavadeiras, domésticas, operários, trabalhadores rurais, feirantes, carregadores, filhos de trabalhadores... foram necessárias para nos fazer como somos? E quanto o empreendimento desse nos fazer e nos manter custou e custa em sofrimentos, desgraças, fomes... dessa mesma gente? [pausa] É verdade, é verdade. Isso, por si, não nos faz traidores. O que nos faz traidores, entnão? A nossa postura, meu caro. O que devolvemos a essa gente além da indiferença, do abandono, do descompromisso? Sua ridicularização, humilhação, marginalização, discriminação, barbarização e até migalhas no formato de caridade, de ações e de decisões políticas enganosas. Você, como eu, é professor. O que dizer do docente que para o conforto do seu pouco fazer e cultivo de sua paz, desleixa o seu trabalho, atribui notas graciosas a seus alunos e nunca os repreende nas faltas disciplinares e nem se indispõe contra os malfeitos, contra as malandragens de colegas e contra irresponsabilidades e descasos de órgãos de direção, hem?! Que avaliação fazer dos sujeitos que se enfronham nas posições destinadas a intelectuais, nelas garantem assento, prestígio e consideração pelo jogo de simpatia forçada, postura servil, adoção de convicção fundada em raciocínio de conveniência, e se recusam a denunciar trapaças, injustiças e a se confrontar com o poder, com o propósito de salvaguardar suas condições, suas existências? Como classificar a postura do médico que convive sorrindo com a desassistência dos doentes e não se rebela contra o ambiente infecto de postos de saúde e de hospitais? Como definir a conduta de delegados, juízes, promotores que silenciam diante das condições injustas de aplicação da justiça? Funcionários públicos, com exceções mínguas, não se põem no poleiro dos parasitas, dos que tratam a população sem trato de respeito? Não farei referência a políticos, a empresários. Não é necessário prosseguir nesse dizer, mas é necessário dizer que nossa situação é de privilégio, privilégio pago com as moedas da cumplicidade, da conivência, da omissão. Os que não aceitam essas moedas são tão raros que quase não podemos vê-los, mas existem. Existem, e pelo desaforo da recusa são condenados a viver no exílio do deserto da solidão, encarcerados em si mesmos.

- Mas eu estou fora disso! Minha mãe é dona de casa, meu pai foi oleiro, agora está aposentado. Meu estudo se deveu aos sacrifícios da família e minha condição aos meus esforços. Não fui feito da desgraça de ninguém! – interveio indignado, o colega.

- Há quem tenha se erguido com o apoio principal do próprio corpo, vencendo dificuldades, humilhações. Há quem tenha sido empurrado, transportado nas costa da família. É o seu caso. Você foi feito das dores de seus familiares, mas não só. Foi feito também dos sacrifícios da sociedade que, bem ou mal, lhe ofereceu segurança, escola, saúde, o seu colo, o seu seio. E quem sustenta sua situação, hoje? A diferença entre você e os membros da elite, é que eles requerem mais privilégios e custaram a vida e a dor de muito mais gente desde os tempos dos bisavós, dos tataravós, e impuseram esse custo sobre a população com o uso inclemente da chibata, de maus-tratos morais. Bem pensado e melhor visto, nessa diferença pode estar a semente do fustigar maior do seu calvário. Alguém com origem na elite e que negue compromisso com a população, é mais explorador que traidor. Aliás, nem é traidor, é inimigo nato, congênito! É o inimigo vencedor. Vencedor e explorador. E na condição de inimigo vencedor e explorador impõe sua força, seu querer, subjuga o vencido na medida suficiente para manter o seu estar, garantir o seu querer. Não nega a si, aos seus iguais, a sua história. Ao contrário, esse é o território de sua auto-afirmação, de seu orgulho. Alguém como você, como eu, custou a dor, o sacrifício da família, de conhecidos que nos ajudaram, toleraram nossas faltas, se esforçaram para nos compreender e nos perdoaram. Custamos a dor, o sacrifício da população difusa, no meio da qual vivemos, aprendemos, compartilhamos. Mas esses custos foram oferecidos com sorriso e esperança. Portanto, nossa dívida é imensurável. E como decorrência, se negamos compromisso com a população, se não nos alinhamos no mesmo alinhamento dela, somos traidores. Mas traidores não apenas dela, também de nós mesmos, de nossa origem, de nossa história. Aí, inscrevemo-nos como traidores plenos. Só não nos colocamos em situação pior que a do pior tipo de traidor social, que é aquele, que independentemente de origem, dos meios que utiliza, identifica as dificuldades, as situações de sofrimento do povo para roubá-lo ou fingir agasalhá-lo, com o objetivo de agasalhar melhor a si mesmo.

Enfim, a noite em fim. Os garçons na espreita para a última tarefa, esperando o vagar de nossa mesa. A esposa, já de pé, mirou o colega e o intimou para ir embora.

- Tudo o que ele falou é besteira, bem. Não leve nada a sério, não. Ele é um revoltado, cheio de frustração, infeliz! A gente sai para se divertir e às vezes topa com pessoas como ele. A presença dele faz mal. Vamos!

Exalando angústia, respirando mal-estar, o colega levantou e se foi com a esposa na direção do carro, sem me cumprimentar, abjurando a carona que me prometera.

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