Nem tão distintos: Renato e Zidane brilham no comando com vestiário na mão
Preço médio da gasolina fica praticamente estável na semana, acima de R$ 4 por litro, diz ANP
Volkswagen Polo 1.6 x Fiat Argo 1.3: comparativo
Maranhão possui maior proporção de pessoas em condições de pobreza extrema, segundo IBGE

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 2/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 3/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 4/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 5/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 6/6
A MISSA
Esmeraldo Lopes


Outro dia, circunstâncias me levaram até uma igreja para assistir a uma missa. Quando cheguei, a celebração ainda em fase preparatória. Pessoas com rastros de sono nos rostos adentrando, dirigindo-se mansas no rumo de assento; membros do coral tomando posição; auxiliares do padre, uns se paramentando, outros em preparação dos apetrechos da cerimônia. E, entrecortando o silêncio, murmúrios, pigarreados, barulho descompassado provocado por batidas involuntárias nos bancos, sons de pisadas, espirros, chiado de microfonia, notas desalinhadas de instrumentos musicais. O padre em pronto, saindo da sacristia acelerado, atraindo chamamento deslumbrado de atenção, com movimento de olhar ligeiro despejado sobre os fiéis, sobre a equipe celebrante, fingindo inspecionar o ambiente. E circula pelas laterais, vai até a porta, verifica a rua. Examina a batina com as vistas. Corre as mãos sobre a cabeça e ajeita o chapéu quadrado. Desloca-se pela nave na direção do altar, retorna para a sacristia. Os fiéis em espera, e na espera tentando encher a cabeça, ocupar os olhos... Mas, com o quê? Minha infância rebrotando na memória, perguntando: “Cadê o ar, o cheiro de igreja?” O altar desertado, com a escultura de um santo expressando expressão nenhuma, em solidão; mobiliário parco, banhado em singeleza pobre; assentos para o assento do celebrante, de dois auxiliares; as paredes laterais em descampado. E a luz do sacrário? Não, não há tremeluzir, e nem flamância. Ah!, a luz não vem de chama, não há fogo, não há ardência, vem de lâmpada em avermelhado fixo. Um pontinho fraco, anêmico. A presença de Cristo lembrada ali. Templo, um nome nomeando espaço cru, despido de mistério. Nada para contemplação, nada puxando meditação. Deus..., nenhum deus pode ter querença de atender chamado para fazer pouso ali. E o tédio se preenchendo em mim pelo viajar de minhas lembranças nos ditos soltos nos ventos de 1725 pelo padre Nuno Marquez Pereira:

Vistes já uma Igreja bem armada, e paramentada de fino ouro; rica prata, luzidos espelhos, perfeitos quadros, custosas sedas, crespos volantes, vistosos frisos, branca cera, flamantes luzes, e em fim fragrantes (...); e ser tudo isto ou parte deste adorno emprestado? Não porque a Igreja para ser digna de todo culto e veneração lhe seja necessário este custoso aparato; porém sim, permite este asseio, e alinho, para lisonja do gosto, agrado da vista, recreio da vontade.

“... lisonja do gosto, agrado da vista, recreio da vontade”.

Cânticos. A entrada da missa. O padre, atento ao seu visual, observa-se, conserta-se. Emenda a postura de componentes do séquito, corrige suas posições pelo reordenamento dos apetrechos. O encaminhar-se organizado na direção do altar. E cada um toma o seu lugar. O padre procede a celebração no passo a passo de receituário. Suas palavras não contêm fé, não carregam mensagem, não transportam convicção. Alcançam os ouvintes em som oco. Seu olhar não se fixa. Não, não há circunspecção nele. Seus auxiliares, envoltos em pauperismo indumentário, reprimem bocejos enquanto aguardam o momento para reprodução dos movimentos da próxima passagem do ritual.

Comparecentes à missa: fiéis, não religiosos - sentados em mistura. Os fiéis, na obediência do senta-se, levanta-se, ajoelha-se, canta, escuta, responde, benze-se... Entre eles, vê-se claro, quase todos em proceder por imperativo exterior, com pensamentos voantes, olhares desprendidos, ouvidos dessintonizados. Poucos fiéis com força de fé. E fé forte, ali, ou alimentada pelas lembranças de outras situações ou arrancada nas profundezas de si. Mas por uma ou por outra dessas situações, o aparecimento de manifestações de fervor aqui e acolá, percebidas pela exaltação sincera de vozes, pelo vigor de gestos, pela visão de semblantes crispados. Os comparecentes não religiosos, em silêncio, assistindo a cerimônia, fazendo acompanhamento aos fiéis por replicação respeitosa de proceder. E o fim. O fim, a missa terminou!

Desacontecimento. O padre, seus auxiliares, voltados para si, em trabalho de desapetrechamento, de desparamentação, desmanchando as marcas da cerimônia. Os comparecentes em desarrumo para preparo de partida. Uns conversam por um lado, outros por outro, alguns saindo em despedida com aceno de mãos, alguns escorregando sem despedida. O barulho de vozes se escasseando, se escasseando. Deserto. Na calçada, um pequeno grupo se segura em conversa. Uma batida de porta. A Igreja fechada. Os componentes do grupo à sorte da rua. Como os demais comparecentes à missa, dispersamo-nos sem deixar sinais de estada ali. E o ali, agora apagado, indistinto, perfilado no comum das edificações da rua. O sentido de meu ter ido lá? Agasalho para ausência inexorável. Mas acabei no nada de uma igreja, de uma missa, na forma de formas sem conteúdo.

Transeuntes, carros, buzinas, semáforos, mais uma esquina, outra rua, o sol... Meu juízo preso na missa, na Igreja. E, no batuque de cabeça, me ocorreu: é preciso que haja templos, mas templos que sejam templos, monumentos sólidos, cerimônias cultuadas, para servirem de coberta à miséria da condição humana. Pensei isso sentindo o frio do nada, enquanto me veio a lembrança de um cruzeiro de beira de estrada. Cruzeiro fincado no frontal de uma curva suave, para destaque inevitável de avistar de andante. Armado em madeira grossa, pintada de preto, apresentava-se com um lençol branco deitado ao longo de seu travessão, com as extremidades pendidas para o chão, na feição de mortalha descansando; fitas coloridas, de coloridos diversos, tremulando, amarradas e deixadas por devotos naquele marco como marco de lembrança, como profissão de fé; sua base arrodeada de pedras pequenas, em formato de monte, postas, uma a uma, por veneradores, como testemunhos eternos de suas reverências. E, nesse cenário, a figura de um senhor, prostrado, indiferente aos ruídos do mundo, no calor do sol, aquecendo seu espirito com oração.

Voltar | Enviar por e-mail
escort bayan
Júpiter.com.br - Esmeraldo Lopes - Todos os direitos reservados