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ANJOS
Esmeraldo Lopes

Esmeraldo Lopes

Olhe a história do homem. O que ele chama de virtude é uma pequena gota, uma gotícula, depurada do oceano de desgraças que pratica. A existência humana é feita com dor, com lágrimas, com todo o tipo de crueldade, de canalhice que se possa imaginar. O homem, por muito que se banhe nas águas de religiões, de súplicas aos deuses, do conhecimento filosófico, do conhecimento científico..., não pode, nunca vai conseguir, se desvencilhar do egoísmo, da crueldade. Egoísmo, crueldade, temperos essenciais de seu ser. Pode, é verdade, por motivo de reconhecimento da condição de miséria de si, ver-se no espelho da miséria dos demais, a eles se afeiçoar, e se derramar em compaixão ou em revolta ou em compaixão e revolta. E, em estado de compaixão, de revolta, ver-se-á inclinado, em luta intensa, a reprimir, a sufocar sua essência, desafiando o ser que é. E nesse sufocamento de si, passa a ser um quase não-ser-humano, ganhando contornos de mutilado, de louco, de idiota. Estrangeiriza-se,  leva vida de estrangeiro e como estrangeiro passa a ser considerado. Mas ser assim, coisa para uns alguns bem poucos, uns nada no meio de milhares, de milhões. O quase absoluto dos humanos apenas em vista de si, vendo na desgraça alheia a condição de seu bem-estar, o critério de avaliação de seu progresso. Disputas, lutas encarniçadas.

A sociedade se fazendo pelo aprisionamento dos homens a deuses, a reis; por imposição de ordem amarrada em costumes, em mandados, em leis; pelo estabelecimento de mecanismos de controle; pela visão do estandarte do medo, da vergonha, tremulando, acenando ameaça. Tiranias, monarquias, democracias, aristocracias, ditaduras. E eis que entre vindas e idas, tropeços e solavancos, calmarias e procelas, pensadores proclamando o sonho do nascimento do cidadão. Cidadão: ser aureolado pela ideia de liberdade, de igualdade; cultivando dignidade, responsabilidade; armado com a aspiração de justiça. Cidadão: guerreiro da democracia. Na democracia, um estatuto comum articulado em formato de lei, criado na refrega de embates ardentes. Embates animados ao som de liberdade de expressão, e ao ritmo de participação. Aí, a sociedade avistada como espaço de conflitos; a democracia como terreno para confrontos sem choque físico. O estatuto comum articulado dentro dos princípios básicos de igualdade, de liberdade, mediando as relações sociais, prescrevendo direitos, deveres, proibições, deixando no aberto amplo espaço para ações individuais, grupais. E entrechoques entre os limites da esfera da liberdade e da igualdade; entre os limites da esfera individual e da esfera coletiva; e entrechoques entre grupos, entre indivíduos. No embalo desses entrechoques, o surgimento de problemas infinitos, a infinda busca de soluções, estimuladas, conduzidas pela liberdade de pensamento, de expressão, de manifestação. E se outras liberdades aceitam poda, encurralamento, a liberdade de expressão, de pensamento, requer plenitude, não pode existir pela metade. E vem a necessidade dos membros da sociedade se moldarem no chacoalhar dos confrontos, aprenderem a assimilar açoites verbais, e com açoites verbais se defenderem, atacarem. Por esse meio se compreenderem, por ele, arranjarem maneira de se tolerarem. Limite de intromissão posto por lei apenas para calúnia, para devassa de transcorrido na intimidade de espaço da vida privada. Mais que isso, censura vinda pelo autocontrole ditado por valores éticos, por temor de recriminação moral.  Mas, mesmo com todo esse festival de liberdade, o estandarte do medo, da vergonha, tremulando no ar. Tremulando no ar com seu suporte fincado na convicção de que os homens, por muito que possam querer, não conseguem se transformar em anjos, mas sem esforço nenhum se igualam a diabos.

O desenrolar da vida social na direção do acontecer falado, mas eis que uma ideia mirabolante: os homens são anjos. E aqueles que se apresentam em cara de diabo, assim o fazem por culpa de traumas, de maus-tratos recebidos, “São vitimas!”, “Vítimas!”, mas podem e devem ser anjificados. E os agarrados nesse pensar, se jogando no mundo em pregação, recitando versos da reza da paz: “só faz o mal quem não conhece o bem”; “o homem pode ser melhorado”; “o homem é construído”; “o homem é o que fizeram dele”... Para melhorá-lo, para reconstruí-lo como um ser bom, abolir punições, julgamentos, medidas repressoras, constrangimentos, ameaças, amarras morais. Pautar-se por ações de “sedução”, de “compreensão”, de “conscientização”. Nestas palavras, o caminho da redenção do mundo. Sim!, compreender para seduzir, seduzir para conscientizar. Conscientização, eis aí o novo estandarte. O estandarte da paz total. O homem apanhado como tábula rasa, como ser indefeso, como vitima, como incapaz completo ou como um monstro em armação de carne com feição de humano. Mas assim até ser tocado pela vara miraculosa da conscientização sob a batuta de missionários conscientizadores. E a espera pela ocorrência do milagre de despir os conscientizados de todos os preconceitos, e os levar a se porem em obediência absoluta aos mandamentos de vida reta: “aceitar as diferenças”; “concordar com o diferente”; “não julgar”; “não discriminar”; “tolerar”... Mas vem que o poder do milagre é fraco, requerendo de seus destinatários postura de permissividade excessiva, de tolerância auto anulante, de insensibilidade transcendental, e se transforma em fermento de reação. 

Os autodeclarados “diferentes” se dizendo oprimidos, massacrados, incompreendidos, discriminados, se juntando, formando subcultura, criando identidade própria. Descobrem-se minoria. Por esse se ver, rejeitam o estatuto comum da sociedade, embora se apoiem nele para reivindicar, para assegurar direitos. Acusam-no de opressor, de cerceador de seu querer, de seu ser. Reivindicam respeito à particularidade. Exigem direitos especiais. Instituições públicas, privadas, agentes institucionais em cumprimento de mandatos ou de carreira, enquadrados no discurso dos missionários conscientizadores, das minorias, em busca de afeiçoamento às metrópoles, para afinado de discurso com o Iluminismo. E minoria uma, e minoria outra, e mais outra... minorias surgindo, se conflitando. Cada minoria se pondo na consideração de centro da sociedade, querendo avanço, destroçando o território das outras minorias, da maioria, rasgando o estatuto comum, pisoteando os princípios de cidadania, se impondo sem atenção de limite, de respeito. A sociedade em fragmentos, sem passo de encontro, em cara de colcha de retalhos. A maioria anêmica, em estado de acefalia, se vendo forçada a tolerar o intolerável, observando o acontecer em indignação silenciosa, mastigando raiva, nutrindo ódio, ansiando redentor, esperando o grito de estouro. De dentro dela, reações camufladas, explícitas, violentas. De quando em quando, um pensar contestando em bradejo; manifestação de objeção; proclamação de posição contrária, de negação. Refrega. Os missionários conscientizadores se sentindo ofendidos, os membros de alguma minoria se declarando constrangidos. Então, seus “Os Desfensores” se erguem montados em razão rasa, vomitando espanto, invadidos por convicção fanática, pronunciando os gritos de guerra: “Absurdo!” (“...”) A intolerância dos pregadores de tolerância aflorando com virulência de tempestade. E desabam tropeçando sobre os mandamentos que apregoam. Reclamam punição para os que não aceitam o seu querer, o seu ser, o seu pensar. Julgam-nos, discriminam-nos, vilipendiam-nos, defenestram-nos. E cada missionário conscientizador, cada minoria, se agarra ao sonho de censura a palavras, a expressões, a manifestações, a pensamentos que decretam inconvenientes; e deseja a ampliação das prisões; e propugna por medidas segregacionistas; e se incute a ideia de superioridade. E missionários conscientizadores, membros de minorias, imaginando as vantagens de algo semelhante à Santa Inquisição para o êxito da obra de eliminação dos preconceitos, para implantação inconteste de seu querer, para a submissão ou aniquilação completa de seus opositores. Paz total. Uma sociedade de anjos. De anjos atentos, encarniçados guerreiros do bem. Do bem, movidos a ódio, em luta contra o mal.

15/04/15

 

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