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CULPADO HISTÓRICO
Esmeraldo Lopes

Esmeraldo Lopes

Toda época tem suas modas, suas verdades, suas manias. No tempo presente, um dos principais elementos da moda, da verdade é o culpado histórico. No passado de não muito tempo, essa figura sem existência, e ao que hoje se atribui a ele, atribuía-se à índole dos indivíduos, ao destino, à sina, à vontade de Deus, à tentação do Diabo. Assim o mundo girou até que veio o nascimento da convicção de que todas as ocorrências humanas nascem, se transformam, se sustentam e findam pelo acontecer inspirado, provocado sob a batuta da supremacia, sob a exclusiva direção dos interesses, da vontade dos mais fortes. E os paridores desse pensar começaram a desresponsabilizar Deus, o Diabo, a aposentar o destino, a sina, a extinguir a índole dos indivíduos. Deram à luz o culpado histórico. No mesmo ato de seu parto descobriram que ele nascia com o feito de trazer consigo uma cria: a vítima histórica. E se para os que acreditam na existência do Diabo, os homens podendo colocar oposição às suas investidas; se para os que aceitam a ideia da existência de inclinações naturais, os homens podendo reagir contra elas, diante do culpado histórico, este ser irrefreável, responsável absoluto por todas as desgraças, um oceano de vítimas especiais: seres passivos, incapazes, indefesos, totalmente irresponsáveis, padecendo de inocência crônica. Coitadas eternas, estas vítimas históricas, irremediavelmente esculpidas e constantemente retocadas ou, ainda em forma bruta, esperando a ação de escultor.

No ver dos apregoadores do culpado histórico, a cara dele no feitio de demônio mais poderoso que Lúcifer. E eles o figuram e o transfiguram em variedade de imagem, de dizer: sistema, capitalismo, opressor, explorador, colonizador... E ora sendo avistado em cara de gente, ora em representação de instituição, ora no formato de conduta, de ação, mas sempre exalando o cheiro de monstro, exibindo garras de fera, bafejando fogo no fazer de dragão. E o divisar deste ser em cultivo do solo do Vale dos Impotentes, nele implantando, mantendo um vasto estatuário. E aos milhares, estátuas de oprimidos, de explorados, de colonizados, de marginalizados, de discriminados. Todas em faces múltiplas, suspirando lacrimejar de acocorados. Vítimas históricas em lamento eterno. E ainda que os apregoadores do culpado histórico vejam essas vítimas sorrindo, dançando, sonhando, em remanso de sossego, declaram-nas mergulhadas em um mundo de alienação, de estupidez, motivo de sua satisfação – coitadas. E ainda que as vejam estuprando, assassinando, explorando, oprimindo, vagabundeando, proclamam-nas inocentes por serem suas ações reflexas, derivadas, por elas terem sido moldadas ao som da violência dos golpes de seus escultores. São como são por terem sido feitas assim. E por esse assim, aqueles que, não sendo também vítimas, sofram golpes de atos violentos seus, devem calar em penitência, assumir a condição de réus.

Os apregoadores do culpado histórico estufando indignação, se pondo em posição de salvacionistas, reclamando, requerendo reparação, medidas compensatórias de danos ocasionados no passado, se autodeclarando combatentes em vigília de salvaguarda das vítimas históricas. E delas tudo a ser aceito, entendido, tolerado. Exigem que o culpado histórico manifeste sentimento de culpa, dobre o corpo diante delas, reverenciem-nas, a elas se submeta, corrija seus pensamentos, suas palavras, suas atitudes para não constrangê-las. E por considerarem as vítimas históricas carentes incorrigíveis, incapazes, os apregoadores do culpado histórico as paternalizam, colocam-nas no colo, carregam-nas pela mão, orientam seus passos, catequizam-nas. Põem-se em batalha para a criação de leis que lhes proporcionem condição especial, ascensão social a facão, através de reservas de espaços exclusivos, de cotas. Embalam-se com o gritar: “Inclusão! Inclusão!” E condenação à meritocracia, combate a posturas de rigor educacional, recusa terminante a qualquer ação que vise refinamento cultural, autonomia intelectual. E o a se entender, desentendido. No mesmo ritmo dessas condenações, da batalha por criação de leis especiais, de reserva de espaços exclusivos, o esbravejar contra todo tipo de discriminação, o ecoar de suas vozes reivindicando liberdade de expressão, igualdade de direitos, educação de qualidade.

Culpado histórico... Quem? Os apregoadores do culpado histórico em enxergar o cenário social com olhar zarolho-zambeta, lançando mão de régua biruta para fazer classificações. E por essas classificações, marcada com o carimbo de culpado histórico, gente descendente de possuidores de riqueza e de poder no atrás da história; gente portando título de estudo elevado ou com o possuir de alguma posse, com posse de riqueza grande ou média ou em cargo de importância; gente de pele branca, branca mas pobre. Toda essa gente marcada pela posição econômica, pela situação social, pela descendência, pelo manchado da pele.

Vítimas históricas... Quem? Negros, índios, mestiços, pobres. Mas eis que o existir de negros, de mestiços em possuir de riqueza, com grau de estudo elevado, montado em cargo importante, em situação de conforto, em condição estimada. Aí, cúmplices do culpado histórico, culpados também, entrando na conta para pagamento de dívida às vítimas históricas. E, no correr ligeiro do olho, o avistar de brancos mourejando em dificuldade, deitados na pobreza, mas sem lograrem perder a classificação de aparentado do culpado histórico, pela denúncia da cor.

No ponto de fim, vítimas históricas, quem? No ver do olhar zarolho-zambeta dos apregoadores do culpado histórico, auxiliado por medida feita com régua biruta, vítimas históricas, aqueles que perderam a força de andar sobre os próprios pés; os enganchados nas beiras dos caminhos; os que se sacodem ao ritmo do vento; os embalados pela esperança de socorro de ajuda; os desalentados; os desajustados de todos os tipos. Também coletividades de negros, de índios, desde que renunciem a bom gosto, à busca de desenvolvimento cultural, intelectual, à aspiração por vida digna, querer de autonomia, como todos os que aceitam e se cobrem com o manto purificador da condição de vítimas, e com orgulho estufam o peito e gritam: “Eu sou vítima, eu sou excluído!”

30/04/15

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