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ENGASGO
Esmeraldo Lopes


Há o nebuloso do tempo, mas inda me deparo com a imagem da agonia de Japi. Um osso se enganchara em sua garganta e ele se debatia com desespero, soltava tosse rouca, insistente, sem cadência; gania, não conseguia latir. Os olhos não sabiam para onde olhar, esbugalhados, e nós ao seu redor, providenciando solução com reza, com tapa em suas costas. Houve quem aventurasse enfiar a mão na garganta dele e tentar arrancar a causa do tormento, inglório; houve quem se lembrasse de despejar óleo de rícino em suas goelas, inglório. Se alguém se afoitou em feitio de promessa para socorro dele, não sei. Se aconteceu, também inglório. Não havia outros recursos, nada mais a ser feito. Plantamo-nos na tristeza de velar com nossa impotência aquele sofrer, de acudi-lo com as lágrimas de nosso compadecimento. Daí para frente não lembro mais, a não ser que Japi morreu arrodeado por nós, engasgando nossos sentimentos, se inscrevendo em lembranças, lembradas e relembradas por anos, mas que lentamente foram morrendo, persistindo, em descambo de ponto final, em dois ou três de nós, que ainda vivem. Na bruma, procuro ver: éramos oito ou nove ou dez, ali.

No tempo de Japi, tratamento dado a gente quedada em agonia de doença, de aflição causada por dor séria no corpo, não diferia muito do destinado a ele. Digamos: a atenção era redobrada, mais insistente, mais cuidadosa, recoberta por preocupação atordoadora, atingia muito mais gente, mas o rodopiar em torno dos mesmos recursos. Os recursos no canto de uma gaveta, pendurados em algum canto da casa dentro de embornal; trazidos na cabeça pelo saber fazer beberagem com raízes, com folhas, com cascas de paus; pelo saber de alguma oração; pelo socorro de rezador, de “cientistas”, de promessa a santo forte. No mais, que a providência divina acudisse. E enquanto a situação não resolvida, o moribundo no agasalho de sua doença, entregue ao a acontecer, se tornando alvo de atenção. Nesse estar, recebia tratamento, carinho, nunca a ele destinado no correr da vida. Sobre ele, o despejar de cuidados por parte dos parentes próximos, de consideração de visita atenciosa por parte de parentes distantes, dos vizinhos, dos conhecidos. E sua casa, no correr do dia, ponto de convergência de passantes que quebravam a estrada e lhe vinham dar um adeus, manifestar desejo de melhora, sentar para uma palestra sobre acontecidos e esperados; no entrar da boca da noite, ponto de encontro dos moradores do lugar, o destaque da presença de algum visitante mais de longe. O moribundo no centro, lamuriando, contando, recontando, detalhe por detalhe, o sucedido que lhe levara àquele acontecer, narrando a movimentação, os passos, o caminho do andar do mal afligidor em seu corpo, ajudando o entendimento com gestos de demonstração. Por fim, o pronunciar: “Estou nessa situação, nas mãos de Deus!” Os presentes, condolentes, se exprimindo em voz pesarosa: “Vai ficar bom, se Deus quiser!” E a benzedeira chegando para mais uma benzida, e uma comadre aparecendo com uma beberagem, e a hora do remédio do “cientista”, a chegada da hora de tomar o remédio de farmácia divulgado em propaganda de rádio.

A notícia do moribundo correndo as redondezas, alimentado assunto: “Tá melhor”; “Piorou!”. No cerco de complicação, a sentença: “Só está esperando a hora marcada pelo querer de Deus”. A hora do querer de Deus chegada. E a morte sem míngua de assistência, sem engasgo, ao embalo de choros mansos, de choros escandalosos. A sentinela alimentada por recordações de acontecidos testemunhados por alguns presentes, e todos os presentes querendo declarar algum testemunho. Depois, o funeral no conforme do desenrolar ditado pelo costume. O moribundo virara finado, e como finado, só iria entrar em ponto final do existir em lembrança depois do transcorrer de duas, de três gerações.

... Se aconteceu de alguém deixado à míngua? Houve suceder assim, em um caso ou em outro, por um ou por outro motivo, por motivo de nenhuma ligança. Se o abandonado, gente de reputação sem mancha, um calado em torno do ocorrido com ele, mas sempre alguém a se penitenciar pela lembrança da culpa do próprio proceder: “Morreu à míngua, sozinho, sem ninguém pra adjutorar. Não sei por que deixaram isso acontecer”. E um osso invisível deslizando no vazio do silêncio, futucando gargantas, acordando lembranças postadas em querença de se esquecer.

O andado do tempo. O Estado se botou na obrigação de fornecimento de tratamento de saúde para todos. Hospitais, médicos, remédios de farmácia. O decreto científico de condenação dos recursos do passado. O povo pegou crença em hospital, em médico, em remédio de farmácia. No correr de pouco tempo, doenças, situações matadeiras perdendo vigor. A medicina, as ciências, galopando progresso. E os médicos fazendo milagre, consertando gente quebrada, arrancando mal complicado; e os remédios destruindo doença rúim, afastando dor, pondo acerto em desmantelo de saúde. Aparelhos enxergando doenças no recôndito de doente. Exames, exames, exames, revelando problemas, conhecimentos científicos indicando soluções. Os médicos se especializando, se afunilando em conhecer, aumentando a capacidade de ação. Remédios baratos, remédios caros, remédios muito caros, remédios com preços muito altos comprados no estrangeiro. O surgimento de equipamentos complexos, custosos, requerendo instalações sofisticadas. E o anúncio que para problema esse, para problema aquele, existindo tratamento em cidade mais ou menos, em capital longe, em cidade do estrangeiro. A medicina em vanglória de quase Deus. Médicos solicitando exames, exames, indicando tratamentos com remédio, com aparelhos, como medida para conquista de cura.

Especialistas, equipamentos complexos, instalações sofisticadas, medicamentos a custo alto, tratamentos complicados, onerosos, exames e mais exames... O Estado de boca aberta, se declarando incapaz, sem suficiência de recursos para bancar o comprometido. O povo avançando sobre os hospitais, procurando médicos, exigindo tratamento. E os hospitais públicos em falência. Filas, enfermarias entupidas, UTIs sem suficiência para atendimento, corredores carregados de doentes. Faltança de coisas, mau cheiro no ar, piso sujo... As instalações e os equipamentos dos hospitais em bagaço. Casas de saúde: depósitos de desgraça, focos de infecções. E os médicos em insatisfação, em trabalho de trabalho porco, se queixando de falta de recursos, de ganho minguado, de excesso de gente para atender, da precariedade das casas de saúde. Enfermeiros, assistentes de enfermagem, em aperreio, sobrevivendo pelo não enxergar, pelo não ouvir, se insensibilizando para cheiro ruim, abandonando atenção em norma de higiene.

Lágrimas de abandono despejadas em macas, em leitos desassistidos. Gritos, lamúrias, chamados. “Ai”, “Me ajude aqui!”, “Tragam um médico!” “Eu quero ir no banheiro!”, “Tô com sede”... E em alguma cabeça, o ricochetear da voz do médico especialista dizendo: “O remédio é tal, mas o governo não fornece. Tem que comprar nos Estados Unidos. Custa vinte mil para um mês”; o timbre indiferente ou compadecido da voz da funcionária dizendo não ter como atender. A distância de tempo longo para a feitura de cirurgias urgentes. Laboratórios... Fila de meses, de anos, para realização de exames. Mais outra fila no perdido do tempo para consulta de retorno ao médico. Gemidos explodindo da alma, olhares desalentados em entrever, pensamentos embalados por desesperos. Pessoas assistindo o progredir de doenças fatais dentro de si, machucando-as, as empurrando para a morte. Dor no corpo, dor na alma. Angústia desabalada. A impotência clamando em agonia, gritando no deserto. O se ver apodrecer na solidão de desamparo absoluto. E o doente engasgado, em engasgo solitário, sem ter quem lhe escute, sem ter de quem ouvir, sem ver movimento de ação em sua direção para lhe acudir. Morte à míngua. Pena de morte sem a companhia de clamor. E, de verdade, a ele, ao morrente, ao morto, alguma saudadezinha leve trazida por recordação ligeira, raros, raros suspiros de sentimento, na semelhança dos vários que foram dedicados a Japi.

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