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ORAÇÃO
Esmeraldo Lopes

Esmeraldo Lopes

Visagens não existem, mas elas não deixam de nos acompanhar, de nos atormentar, de nos esperançar, de nos desesperar. Por muito que não liguemos para elas ou não as percebamos, elas se plantam em algum canto de nossas memórias, e ficam lá, prontas para entrarem em ação, trazendo-nos céus, infernos, às vezes ambos ao mesmo tempo. Um barulho, uma imagem, uma lembrança, um movimento inesperado, uma ocorrência qualquer... e o desabrochar de visagens portando estandartes e neles, estampadas cenas do vale de lágrimas da tragédia humana, cenas denunciadoras de traços nefandos de nosso caráter, cenas de situações que gostaríamos de não lembrar, de atos de injustiça, de crueldade, de omissão, de atos de conivência, testemunhados, praticados por nós. Não há como se esconder, como negar, como escamotear. Pelo exame dos acontecimentos desnudos de disfarce, o assombroso relato da verdade soando manso: “Foi o que ocorreu”. E cada um, como testemunha integral de si, conhecedor dos detalhes, milímetro por milímetro, enxergando o feito, o não feito, o intencionado, a trapaça pura, a trapaça disfarçada em grandeza, o pensado, o julgado. Aí, o golpe da introspecção, as chicotadas do sentimento de culpa, a reflexão estirada no silêncio interior. As virtudes em insignificância. E desponta, revelado em esplendor, sem direito a ofuscado, a segredo de sombras, um ser minúsculo, miserável, covarde, mesquinho, banhado de vergonha. Os olhos de nossa consciência, desapontada, o identificam: “Este sou eu”. E este “eu”, acabrunhado, se envolve no próprio corpo, exprimindo o eterno interrogar: “Por quê?” “Por que” e “porquês” infinitos lançados no infinito. Não há resposta. Solidão. O “eu” desta agonia, em retrospectiva da vida, avaliando seu ser, seu ter sido, seu estar, ao embalo de sofrimento abrasador, enreda e compõe, palavra a palavra, frase a frase, uma oração. E, em cadência doída, a pronúncia desta oração para si mesmo, no cenário do mundo mudo, surdo, indiferente. Corpo em pausa, olhos em sereno, um ummmm ofegante cortando silêncio. Aí, o gemido de São Paulo, o santo: “... não faço o bem que quero, mas justamente o mal que não quero é que eu faço”; o murmúrio de Schopenhauer: “O homem é livre para fazer o que quer, mas não para querer o que quer”; a conclusão de Sócrates: “É melhor sofrer uma injustiça que praticá-la”; a angústia de Camus: sobra-nos a revolta.

Infelizes seres, os que precisam compor sua própria oração; os que não conseguem sufocar as visagens no lago do esquecimento e nem conhecem o milagre da indiferença; infelizes aqueles que não sabem se guardar, por omissão, para o gozo de felicidade no aquém e preparo para a felicidade eterna no mundo do além;  infelizes os que não procuram sufocar suas culpas com as cordas do recital de orações encontradas prontas, em forma escrita ou aprendidas pela audiência do seu pronunciar vindo do púlpito de algum templo; infelizes os que não sabem lavar suas culpas nas águas do perdão, e não sabem fingir se compadecer dos sofrimentos ocorrentes no mundo por dever de devoção. Infelizes os que não conseguem se fechar nas preocupações de satisfazerem a si, a seus instintos e necessidades, e reservar afeição apenas a seus familiares. Infelizes os que não desdenham dos espantalhos que se abrigam dentro de si ou nãos os exorcizam a custo qualquer. A estes infelizes, o degredo perpétuo na introspecção; condenação à composição de orações, sem fim.

06-04-15

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