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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

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TRANSTORNO TRANSCENDENTAL
Esmeraldo Lopes

Esmeraldo Lopes

Nelson Rodrigues dizia que os imbecis iriam tomar conta do mundo. Aliás, afirmava já o terem feito. Ele morreu. Seria ótimo que certas criaturas fossem eternas, e em sua eternidade se pusessem a nos lançar o brilho de suas ideias, de seus dizeres, de suas observações, de seus feitos, de suas belezas ou simplesmente de suas existências. 

Outro dia, folheando um livro, me deparei com uma fotografia estampando a imagem de uma atriz brasileira, me parece que da década de 1930. Não retive seu nome. Descansei minhas vistas sobre ela, e ela me levou em viagem a algum lugar nenhum. Lugar suave, sereno, bonito, muito bonito: sublime. Pelo bem ou mal, talvez por ambos, a morte nos surrupiou a presença dela, ao impedi-la de seguir no tempo. Restou-nos uma fotografia. E a fotografia a salvou das engelhas da velhice, lhe arrancou da miséria da condição humana. Aí foi que eu vim entender o motivo de gregos, de romanos, de pintores e escultores, anônimos e célebres, terem se gastado tanto esculpindo, gravando, imagens de deuses. Buscavam conservar a personificação de virtudes em um presente purificado, o estancando na eternidade, para a própria apreciação, para a contemplação de seus contemporâneos, da posteridade ou buscavam simplesmente se libertar de inquietação de ânimo. Nessa busca, gasto físico, cansaço mental, frustrações, angústias à dimensão de montanhas. Por fim, a imagem, imponente, majestosa, assentada em ponto qualquer para apanhado livre de vistas. E, enquanto as pessoas transitando ao seu redor, ora em remoer de dramas, ora se confrontando, ora em obra de simples transitar, ora a contemplando. A imagem ali, indiferente, insensível, às circunstâncias, ao tempo, em expressar inalterado. Os dias, os anos, os séculos.

Desejar a perenidade de criaturas geniais, virtuosas, é um ato egoísta. Tem cara de condenação a castigo cruel demais. Imagine-se o sofrimento de um ser que fosse forçado a conviver com todas as mediocridades humanas, a suportá-las, em infinito. Nem Deus, se existisse, suportaria. Revogaria toda a obra de sua criação, apagaria sua memória, se asilaria no nada. Mesmo assim, em manifestação de profundo egoísmo, desejamos que algumas criaturas fossem eternas, e até quase todos nós desejamos a eternidade. Mas felizmente a morte é cega, democrática. Sai ceifando, sem considerar apelo por clemência, sem tomar conhecimento da palavra exceção. Sábia, desconsidera o apelo dos estúpidos pela eternidade; é justa e piedosa: não aguentaria presenciar o suplício perene de criaturas geniais, virtuosas.

Poderia ser outro ou outros, mas como abri este escrito com Nelson Rodrigues, o retomo. No correr de sua vida, fugiu de agasalho na altura dos muros, não se deu a proceder por comando externo, nem se fez por simpatia de conveniência. Lançou-se na tempestade da vida sem temeridade, guiando-se nela por leitura própria, se posicionando pelo prumo de suas convicções, não se pondo em silêncio de observações caladas. Foi o que foi, e como foi no próprio de seu ser, procedendo, se expressando pelo autêntico de seu pensar, acabou atacado pelos esquerdistas, pelos direitistas, pelos de centro, pelas feministas, por machistas, por intelectuais, pelo povo, pelos homossexuais, pelos religiosos, pelos ateus... E foi agraciado com as alcunhas de “tarado!”, “reacionário!”, “machista!” “pornográfico”... Morreu se debatendo contra o mundo que não o entendia, que protestava contra a sua existência; se revirando na solidão do leito de morte de intelectual que não faz concessão a maneirismos de dândis.

Desejar a eternidade a um gênio não é prêmio. É punição. Imagine-se Nelson Rodrigues ainda vivo, hoje. Não conseguiria trabalho em nenhum meio de comunicação; colecionaria moitas de processos; receberia uma reprimenda a cada palavra escrita, a cada palavra pronunciada; acabaria como inquilino de cadeia, acusado, ao mesmo tempo, por uso de expressão de homofobia, de discriminação racial, de desrespeito a minorias, de constrangimento cultural, étnico, sexual, e o que mais possa ser imaginado. Pela via mais rápida, seria estapeado ou apedrejado nas ruas, em ambientes de trânsito coletivo. Faça-se outro imaginar. Suponha-se Nelson Rodrigues ressuscitado. Ele, ainda batendo o pó da terra impregnada em sua roupa, se deslocaria pelas ruas de seu antigo pisar. E a cada passo, um espanto. Os olhos se acendendo, os cabelos se levantando, a cabeça girando em desassossego de admiração. No prosseguir de algum ver, de algum ouvir, perceberia que havia sido transformado em celebridade elogiada, objeto de estudo em escolas, alvo de citação no mundo da cultura. Ali, mais acolá, vir-lhe-ia um batido no ouvido: “mulher rodriguiana”, “personagem rodriguiano”, “frase rodriguiana”... Dar-se-ia que tipos sociais que o denegriam, e a quem ele respondia com frases cruelmente ferinas, agora aureolam seu nome com panegíricos, às vezes, até com expressar soando estranho: “Nelson Rodrigues é simplesmente f a n t á s t i c o. Eu o adoro, ai que homem brilhante!” O endeusamento de suas peças, de seus livros, de suas crônicas. E ao ser convidado a “fazer um t o u r ” pelos teatros, se defrontaria com atores, com diretores, no formato de gente macia, aveludada, “civilizada”, entoando delicadamente frases pungentes brotadas pelo correr do sangue de sua imaginação. Não reconheceria sua produção no presente. Vendo-se no olho do vazio do mundo, entraria em introspecção impotente. Mas alguém lhe acudiria: “Agora vivemos a época do politicamente correto. A humanidade está em trabalho de banir os preconceitos do mundo”. Nelson Rodrigues pediria detalhamento de explicação. E ouviria da boca da universitária sua anfitriã, sua guia, a informação de que os escritores clássicos escreviam de modo elitista, afastando as pessoas da leitura. Por isso, “haviam estruturado um maravilhoso projeto de reescrita de obras de escritores clássicos, simplificando-as com a finalidade de torná-las acessíveis a estudantes de ensino médio, e ao povo em geral, para despertar a curiosidade de leitores novos. Machado de Assis era elitista. O senhor conhece bem o elitismo da escrita dele. Escrevia de modo inacessível ao povo”. Os ouvidos de Nelson Rodrigues se afinariam ainda mais, os olhos serenariam, um fio de baba escorregaria pelo seu beiço, mas ele não perceberia. No continuar do ouvir, escuta: “Monteiro Lobato. Monteiro Lobato era racista, preconceituoso, instigador de violência contra os animais. Estamos nos movimentando para censurar, para corrigir algumas passagens de seus livros. Imagine que ele escreveu: ‘Negrinha era uma pobre órfão de sete anos’. Viu o absurdo! Isso não pode ser dito, nem ser escrito, nem pensado. E a cantiga ‘Atirei o pau no gato’?! Absurdo, absurdo! Agora ensinamos as crianças a catarem assim: ‘Não atirei o pau no gato, porque isso não se faz. O gatinho é bonzinho e devemos proteger os animais’. O senhor também é instigador da violência contra os animais? Espero que não! Seria uma decepção! Uma decepção!” Nelson Rodrigues em suor, sem saber se acordado, se dormindo, se vivo, se morto, se presente, se ausente. Mas a voz da universitária, incessante, cortando o universo: “O senhor passou alguns anos afastado, não sei onde, mas está havendo muito avanço. Estamos abolindo a comemoração do Dias dos Pais e do Dia das Mães. Eu sou órfã de mãe e sofria muito no período de comemoração do Dia das Mães. Por causa dos órfãos, já falavam em acabá-lo. Mas agora vão acabar mesmo com essa comemoração. Ainda bem. Nas escolas do município de São Paulo já a acabaram. Mas lá por causa dos filhos dos homossexuais...” Levantando rápido, Nelson Rodrigues interpelaria a universitária: “Como? Filhos de quem!!!!????!!!!????” A universitária retomaria: “Filhos dos homossexuais. Como ficariam os filhos deles na comemoração do Dia dos Pais ou do Dia das Mães? A proposta agora é comemorar O Dia de Quem Cuida de Mim. Senhor Nelson, está provado: sexo é besteira, é um simples aspecto da natureza. A natureza não é nada. Tudo é uma questão de construção social, de escolha. O senhor é preconceituoso, homofóbico? O que vale é a escolha.” E Nelson Rodrigues sentiria abalos de ataque cardíaco fulminante. Abandonaria a companhia de sua anfitriã. Entraria em um botequim, o último botequim do tempo de seu tempo. Pediria um copo de leite. Viria cachorros vira-latas famintos, com olhos tristes espiando galetos girando na assadeira elétrica. Não entenderia nada ao ver os cachorros tratarem com indiferença pedaços de carne assada, enfiados em espetos, postos ao alcance de suas bocas. Ao perguntar ao dono do botequim o motivo dos cachorros não comerem aquela carne, ele responderia: “É uma carne que comprei para fazer churrasquinho. Todo mundo fala nela, todo mundo fala e ressalta as virtudes dela, mas ninguém a quer comer, nem os vira-latas. É carne de politicamente corretos”. Nelson Rodrigues sentiria vontade de beijar os cachorros, um a um. Ainda pensando no que lhe fora dito pela universitária, se interrogaria em meditação: “Irão eles mandar matar todas as mães do mundo? Não consigo imaginar um mundo sem mães!”. E se encaminharia na direção do cemitério, procurando lembrar a localização de sua tumba, matutando meio rápido de se suicidar, selando morte para a eternidade do sempre.

28/03/15

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