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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

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FIM DO MUNDO
Esmeraldo Lopes

Esmeraldo Lopes

Senhor chegou perguntando pelos de casa. Vinha cansado, suado, mastigado pelo sol, assoprando quentura, sonhando com água fresca. Se bem que fosse criado e feito no mato, agora se vestia e falava no jeito de gente da rua. Não era mais tabaréu. Ao convite da dona da casa, se abancou na sala em prosa de querer saber dos sucedidos nos chãos de nossos pisados. Ninguém havia morrido, nenhuma moça bulida, nenhuma notícia de roubo de bode, ausência de sinal de chuva. Na vaga desse desassuntado, Senhor se pôs a anunciar a iminência do fim do mundo, a chegada de Deus com seu exército tocando trombetas. E começou a zombar dos pais que colocavam filhos na escola, de quem em preocupação com futuro longínquo. “Deus tá chegando! De que adianta botar os filhos na escola, se o mundo tá pra se acabar?! O fim tá próximo e Deus vai julgar todos. Ninguém se esconde!” Flechado por convicção assim, restando preparação da alma, se cuidar contra tentação do Coisa Rúim, se postar em espera. Espera pelo fim do mundo debaixo de estrondar vindo do Céu, de tremor embalançando a terra. Os meninos, em amedrontamento pavoroso, com os olhos espichados, imaginando a bagaceira de um Deus raivoso indicando o caminho do inferno aos “caídos”. O inferno cheio de pecadores atirados ao fogo. E cães enfiando-lhes espetos de ferro, se redobrando em gargalhadas ao verem os pecadores se saracoteando no meio das lavaredas à imagem da imagem vista na capa de um catecismo católico. Os anos. Perfilado com os guerreiros de Deus em luta visível e invisível contra o Diabo, em obra de glorificação do Senhor, Senhor se colocou no certo da ideia de que quem não entrincheirado do seu lado, partidário do “Inimigo”, causa de todos os males. Não percebeu o morrer, o nascer, o decair, o brotar de tempos. O ontem, o hoje, o amanhã, tudo na iguala da mesma coisa. O marco da divisa do mundo: o Grande Dia, o Dia do Juízo Final.

O discurso, o proceder de Senhor, tidos e havidos, por gente detentora de algum saber mais pensado, como coisa de ignorante, de alienado, de fanático. De fato, esse achado, difícil de negar, confirmado, sustentado, apenas por quem pensa e procede como ele.  E ao dizer isso, nada estou falando além do óbvio. Mas é que preciso falar desse óbvio para me reportar a outro. A outro óbvio, emprenhado nas universidades, que berra nos salões de academias, dorme em livros, ruge em programas de televisão, late nas rádios, esturra nas ruas e, mesmo assim poucas pessoas o percebem. E dessas poucas que o percebem, quase nenhuma ousa proclamá-lo.

Quando me joguei na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, era 1977. Ditadura. Passeatas, palestras, debates, atos públicos, leitura de jornais, conversas em botequins, assembleias estudantis, passada de olhos em livros-catecismo. Vi-me banhado em um rio de sabedoria plena, completa, à disposição de quem em querença de encontro com a verdade. O se preencher com sabedoria, o encontro com a verdade, não requeriam sacrifício de pensamento, nem angústia de dúvida, nem estudo sistemático dosado com disciplina intelectual. Ao contrário, a sabedoria, a verdade, eram cristalinas, e uma vez a gente dando um passo em sua direção, elas nos atingiam por ofuscamento da consciência. Socialista: rótulo da glorificação. Tinha-se que ser socialista, se se pretendesse algum merecimento em ambiente de sapientes, em espaço de cultivo da verdade.  Aquele que buscasse alcançar alguma verdade, algum nível de sabedoria, através do sacrifício de pensamento, da angústia de dúvida, de estudo sistemático dosado com disciplina intelectual, teria existência de zumbi nos meios de frequência da gente. Com sorte, seria classificado como alienado, peso morto da história; entretanto, no geral, acusavam-no de ser elitista burguês, opressor da classe operária, travanca da liberdade, da igualdade, da justiça. Para o alcance da sabedoria, encontro com a verdade, bastava correr os olhos nos escritos de Karl Marx ou ler rabiscados ou ouvir ditos de seus discípulos santificados. Engolir as palavras impressas nas contas do rosário da religião do saber sem dúvida: revolução proletária, luta de classes, contradição, mais-valia, exploração, emancipação..., trazer na mente trechos de algumas orações: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”; “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”. No mais, explicação das causas dos males do mundo em uma frase: “O problema é o capitalismo”. Depois daí, buscar respeito de consideração intelectual, reconhecimento de revolucionário, de combatente contra a Ditadura, pela vomitação das palavras, das orações da reza revolucionária, pela produção de análises-reprodução, de análise-reconfirmação, dos afirmados marxistas; pelo se fazer presente em manifestações políticas em prol do proletariado, participar de atos contra a Ditadura, pelo combate aos adeptos do sistema. E como alvo final, no daqui a pouco, a derrubada da Ditadura militar, no depois, em um depois não muito distante, o fulgor da liberdade, da igualdade, iluminando o mundo através dos raios da Grande Revolução Proletária. E “Viva o Socialismo!” Aqueles sem esse acreditar, quem fora do piado piado por Marx, por seus discípulos santificados, por discordância,  por questionamento, por pensar autônomo; quem em dizer algum dizer de aceitação, de tolerância com algum ato, com proceder do governo,  inimigo dos trabalhadores, reacionário, defensor da Ditadura militar, agente do capitalismo, excluídos do rol dos aceitos, dos perdoados, à chegada do breve, do revolucionário acontecer.

Agentes da Ditadura, defensores do capitalismo, se agarrando na veneração de seu acreditar, seguros de suas verdades eternas, em prevenção total contra o Apocalipse Comunista. E contra este apocalipse, tudo permitido. “O comunismo é o inferno!”, “Os comunistas são demônios, causadores das desgraças sociais!” “O capitalismo é paraíso”. E quem quer que dirigisse censura a atos da Ditadura, à mazelas do capitalismo, vilipendiado, acusado de ser comunista, inimigo da pátria, encarcerado, torturado, morto. Mas tudo isso tendo como pano de fundo argumentos bem ensebados, vestidos em teorias com cheiro de erudição, recitados em voz de eloquência sublime.

Impressionante. Deitado, com a cabeça fora do mundo, fui pego com minha memória jogando meus olhos no passado. Veio-me Senhor, depois o final da década de 1970, a Escola de Sociologia e o seguir, chegando por fim aos dias atuais. Comecei a rir de minha imbecilidade dos anos de sapiente. Eu tinha resposta para tudo. Todos os problemas seriam rapidamente resolvidos. A causa de todos eles era o capitalismo e a solução, o socialismo. O Grande Dia viria, como sem dúvida. E pensei sobre os argumentos, sobre as convicções e posições dos defensores das ideias capitalistas. Qual é mesmo a diferença fundamental entre o eixo do pensamento dos comunistas, dos capitalistas e o de Senhor? Sem saber como e nem porque, antes de tentar resposta, me vieram imagens da manifestação convocada por sindicalistas, petistas, organizações sociais, em defesa de Dilma, da Petrobrás. Inscrições em cartazes acusando os contrários de direitistas, fascistas, inimigos do Brasil. E a minha tristeza ao ver a tristeza daquele povo uniformizado, caminhando sem entusiasmo de vida, sem assento de razão, sem convicção de ideais, servindo para defesa de falcatruas, se autoproclamando socialistas, se manifestando ao preço de ajuda de custo. Veio-me também a imagem de minha imagem no cenário da manifestação Fora Dilma, Fora PT. Eu ali, atraído pela palavra de ordem motivo do movimento, dissolvido na multidão, embalado por convicção concorde no atacado, destoante no varejo, invadido por barulho de apitos, por bater de panelas, por gritos de “fora comunistas”, “fora Dilma”, “abaixo a esquerda”, “impeachment”, “cadeia para os corruptos”, “fim da corrupção”.    E faixas permeadas por inscrições “quando a pátria chama”, “a Camargo Correia é séria”, “Loja Maçônica...”, “Pela intervenção militar”, “fora Dilma”... A alegria barulhenta dos manifestantes. Manifestantes diferentes daqueles que eu houvera acostumado a me ombrear em tempos outros. Diferentes pela estampa física, pela indumentária, pela disposição. E a voz da galega bem nutrida, cheirando a improbidade administrativa, gritando: “Fora corr u p t o s!”; a madame em passo suave demonstrando empolgação através dos gestos, desabafando: “Vá embora vagabunda!”. O locutor sem saber o que dizer, sem palavra de discurso, chamou outro que também não sabia o que dizer. Então, “vamos agora ouvir respeitosamente o hino nacional”. E o hino nacional uma vez, duas vezes, três vezes. E no que não é de se esperar, lá vem o “caminhando e cantando...” Eu ali, oprimido, sufocado, deslocado, procurando lugar naquele lugar, convicto de que apesar de tudo, nesse contexto, meu lugar é ali. E ali, como zumbi, fiquei, gritei, sorri, observei. Mas quando, em de repente, o locutor conclamou os manifestantes para rezarem o Pai Nosso, orei: “Senhor, eu sou ateu, mas como seria bom que existisse mesmo, e já tivesse acontecido, o Juízo Final”.

23/03/15

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