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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

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RITMO DA PRAIA, OH! LINDA
Esmeraldo Lopes

Esmeraldo Lopes

O sol, pendente, escondendo-se atrás das edificações, mas teimando, despejando o que resta de sua claridade sobre a noite que se anuncia pelo marcado do tempo, provocando festival de cores ao lançar raios sobre nuvens dispersas no céu. O mar como caminho infinito, como esteira para carreira do vento, e o vento se batendo contra as águas, provocando ondas, assoprando a areia, se batendo contra as folhas dos coqueiros. As ondas se chocando, se chocando contra o vento, roncando, rodopiando na beira da praia. Nesse embalo, o roncar incessante das ondas, o contínuo do som das batidas das folhas de coqueiros, sem premeditação, compondo uma canção, a canção da praia. E ao som dessa canção, ao ritmo do vento, folhas de castanholas, lixo avulso, dançando no chão, vozes indivisas vozeando perto, longe, alto, baixo, à direita, à esquerda, à frente, atrás. E, no passo a passo de seu andar pelo caminho da orla, o caminhante vendo o ambiente mudando, vendo pessoas em estar de muitos jeitos. Pessoas na água tomando banho, surfando, pescando. Pessoas na areia da praia jogando bola, fazendo malabarismos, praticando exercícios, andando. Pessoas sentadas nas cadeiras das barracas bebendo, conversando, se beijando, remoendo pesadelos. Pessoas nas calçadas, paradas, se movimentando, curiando a movimentação. Pessoas enfileiradas em agasalho no estirado do banco da orla em simples descanso, em pose de apreciação do mar, em se abraçar em jeito de namoro calmo, de namoro acochado, em deitado de olhar no infinito, infinito espremido longe entre o céu e o mar, em viagem por dentro de si, em assuntamento silencioso do mundo, em conversa assuntada, em conversas sem fundo de valia séria... E o caminhante avistando outros que vem, outros que vão. Caminhantes em passo de exercício físico, em passo de desopilação, em andar de idade avançada, em andar de carrego de gordura pesada, em ritmo desenfreado de juízos curtos depositados dentro de idades mínimas. No mesmo trajeto do andar, mães passeando filhos, mulheres passeando cachorros, alaridos de jovens em encontro de alegria, velhos jogando dominó, hippies ofertando penduricalhos para enfeite, garçons atendendo fregueses, adolescentes deslizando sobre esqueites... E a aporrinhação de ciclistas abandonando a faixa própria para seu ir, invadindo o espaço de transeuntes a pé. Policiais em distinção de autoridade, circulando, se esforçando para não enxergar, indiferentes ao dever, em imagem de espantalhos que não assustam. O lixo das barracas, dos prédios plantados ao lado, amontoados no passeio da orla, atrapalhando o andar, agredindo a paisagem, ferindo a visão, rações para gatos colocadas sobre o assento do banco, no chão; no chão, excrementos de cachorros. No certo de certos pontos na direção do norte, mijões mijando na rua, sem reserva de respeito, sem desconfiança de medo. E o mijo anunciando existência pelos molhado no passeio, pelo fedor. O fedor mergulhando nos narizes dos caminhantes, explodindo pulmão adentro, atrapalhando a respiração. E som de música anima-mundiça invadindo o espaço, sufocando, enfeando a canção da praia. Isso, a normalidade de todo dia. Mas a noite em breve engolirá o dia. A praia se retomará. Desvencilhar-se-á provisoriamente da poluição humana. Animais bípedes têm hábitos diurnos.

13/03/15

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