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O CÉU DE MARIA
Esmeraldo Lopes

Profundamente em todos os sentidos: o Céu. Profundamente escuro, profundamente claro, profundamente triste, profundamente alegre. O Céu é assim: pelas suas próprias leis se varia. Quem variaria o Céu? Nesse Céu uma menina se ver encantada entre o finito e o infinito. Olha e medita. O nome dela?

- Maria. Bem visto, diz Maria, o Céu é sempre bonito. Tem mistérios, faz encantos. Ela gira a cabeça, pendula o olhar do centro à linha do horizonte. Pura impressão. O Céu é só horizonte, Maria. Há horizonte além do além, para onde só se viaja na imaginação. Horizonte sem fim. Ela não ouve, ela não sabe mas no aterrador silêncio dos espaços vazios corpos se movem, gemidos ecoam, o desconhecido se guarda. Mas ela, humilde, contenta-se com o acompanhamento das faces que o Céu faz, sempre diferentes, sempre iguais. Ora todo azul, ora todo cinza, ora manchado de nuvens em movimentos errantes a se chocarem, fazendo desenhos que logo se desfazem; ora escuro, escuro... pintado de estrelas alegres a brilhar.

A face de Maria se confunde com a face do Céu. O brilho das estrelas traz-lhe esperança, o nevoeiro traz-lhe indiferença, o azul límpido calma. O Céu se reflete na face de Maria. Quando o Céu risca-se em faísca e estronda em trovão, ela sabe: é ira. E se deixa bater pelo vento forte, pondo-se a mirar nuvens negras que lhe jogam lágrimas em despejo, alimentando a vida, provocando destruição. Mas o normal do Céu é serenidade. Pouco se ira, chora mais de felicidade, também de piedade. Aí suas lágrimas calmas dançam pelo ar e escorregam sem precipitação, pelo chão. Fica, às vezes, sereno demais e, então, faz brotar uma mancha com jeito de eterna despedida descambando no horizonte.

Quando Maria se pega no Céu assim, fica a pensar: "Que motivos teria ele para entristecer-se ou para chorar?"

Maria vê encantos no Céu. Dos encantos mais se encanta com as estrelas, sempre imponentes, brilhantes, distantes a romperem do infinito silêncio dos mistérios. A estrela d'Álva, as Três Marias, os Três Reis Magos... constelações. As estrelas fazendo os mesmos caminhos, ponto por ponto. Em olhar sem rumo certo ela as contempla. Vai ao Céu, vem à Terra, mergulha em ilusões. Mede-se, medita. O passado, o futuro, o eterno. Quantos foram os que as contemplaram? Quantos ainda as contemplarão? Elas costuram todos os seres. Encruzilhada do encontro de todos: os que foram, os que estão, os que virão. Maria desperta e vê-se nada, insignificante, impotente. Um véu de pensamento traz-lhe uma certeza: "Depois de mim elas continuarão a brilhar. E eu, qual o meu destino?" No alto, indiferente, o Céu com suas estrelas. No fundo, no fundo também medita e eterniza Maria. Eterno testemunho da vida, casa de todos os mistérios: o Céu.

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