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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 6/6
ContosEsmeraldo Lopes
A mulher que virou alma
Esmeraldo Lopes

O curso era noturno e, embora fossem ainda os primeiros dias de aula, já se percebia o cansaço invadindo o corpo das pessoas. Por muito que os professores tentassem, a platéia divagava em olhares distantes. Todo o esforço do aprendizado se resumia no silêncio dos alunos. Milton, jovem de 16 anos e cuja única ocupação era o estudo, destoava do restante dos colegas, todos mais velhos e ganhadores do pão com o suor do próprio rosto. Distinguia-se dos demais também pela atenção que dedicava aos professores. Ir para aquela escola, estudar naquela turma já estava se tornando uma tarefa sem proposto até que foi tragado pela atenção exagerada de uma moça. O nome dela era Madalena e tinha de
22 anos. Ela era bonita e desembaraçada. Nem tão bonita, mais desembaraçada que bonita. Um tipo daqueles que arrepia o desprecatado só por causa do embalançar da saia.

De início, pela diferença de idade, ele achou que ela simplesmente se aproximara dele por pura necessidade de amizade. Essas coisa de gente que se vê só em ambientes hostis. Ela lhe falava de sua vida amorosa com o rapaz de quem era noivo, de seu trabalho e de assuntos distantes. Nestas conversas sempre pedia a opinião de Milton, e ele, se esforçava o mais que podia para oferecer uma resposta à altura da idade dela. Nessa que nessa, ela ganhou confiança e deu para falar de suas intimidades com o noivo, ao mesmo tempo em que interrogava Milton sobre sua vida amorosa e se surpreendia por estar diante de alguém com muitos poucos problemas a esse respeito. Evidentemente que ele os tinha e muitos, mas quase todos eram de ordem imaginativa, por isso preferia calar-se. A amizade deles crescia dia-a-dia, e da parte dele passou a ser o único estímulo para continuar freqüentando aquela sala de aula. Mas, mais o interesse dele aumentou quando ela lhe falou que tinha vontade de saírem juntos. Ele, tímido, imobilizou-se diante da declaração, e entre dúvidas e tremores, convidou-a para um passeio fora do recinto da escola, proposta que ela aceitou de pronto. Quando já estavam na esquina ela parou e disse: “É bom a gente voltar, que meu noivo anda muito por aqui e pode nos ver juntos”. Ele sentiu-se amedrontado, mas ela, sem perceber o pânico do adolescente, pediu o número do seu celular. Daí em diante foram mensagens por cima de mensagens, enviadas todas pela internete. Eram declarações de amor que falavam em vontade de encontros, de desejos sexuais desmedidos e acalorados. O seu celular, que até então servira quase que exclusivamente para rápidos contatos da mãe, enfim, ganhava uma utilidade preciosa. A partir daí a proteção do aparelho se fazia como a de um tesouro. Não se desgrudava dele nem em momentos como do deslocamento de urgência para um banheiro, aliás, por vezes e vezes, ele era mesmo o motivo de tal e destabalhoada ida àquele recinto de intimidades.

Na aula as trocas de olhares e os arrepios. Ela jogava todas as suas carências sobre Milton e, quando oportuno sensualizava mansinho sua voz no ouvido dele. Como ele não era desses que avança, mantinha-se sempre na retaguarda, o que a inflamava para os sucessivos ataques. “Me dê o número de seu celular!”. Ela sempre se esquivava, alegando o mesmo motivo: o noivo. Alimentava-o, entretanto, prometendo-lhe esperança: “Um dia vai dar certo!” E ampliava: “Você não sai de meus pensamentos. Sonho toda noite com você”. Se cada dia passou a ser um dia de decepção, o próximo dia sempre consistia na esperança para ele. Até que um professor avisou: “No próximo final de semana vai ser o serão do curso!” Esse serão duraria por toda a noite. Eles combinaram, reafirmaram, confirmaram, garantiram. Eis que um problema: na sexta-feira, véspera do serão, Milton sofreu um ataque de dengue e só o pesadelo da perda da possibilidade subsistiu. Oito péssimos dias de ausência, e mensagens sucessivas em seu celular, aliás, a causa principal de sua sobrevivência em tão boa forma, afora os cuidados da mãe, para regozijo do médico que se auto-atribuía o milagre da tão boa e inesperada recuperação.

O ansiado retorno aconteceu, mas Madalena havia sumido da sala sem deixar rastro. Só as mensagens subsistiam. Mensagens de fundo falso, pois todas vindo diretamente da web, sem possibilidade nenhuma de retorno. Ela, nesse tempo todo de contato, sequer lhe deixara um endereço, mesmo que fosse do trabalho. Sabia ele apenas que ela trabalhava em uma empresa agrícola, e que tencionava se mudar para São Paulo, em companhia do noivo, quando de seu casamento. Pronto! Tudo e nada mais. A ânsia, a ânsia... Um dia as mensagens sumiram: o desânimo, a mortificação. Três meses: a desesperança, abandono do curso, o esquecimento.
Um tempo sem sonho, sem espera, de vida para frente. Esquecimento e procura de novos olhares. Como Milton era recatado, nunca tomava iniciativa, e assim mantinha-se no resguardo do mundo. Sofria, diga-se, mas não acalentava ilusão. Madalena fora uma miragem, um pesadelo como todo pesadelo: desproprositado. Não o perturbava mais. Enfim, livre de ansiedade, da espera pelo amanhã. Que viesse o amanhã na ordem natural, sem pressa.

O sono fundo. O celular toca. “Onde você está? Acabei de sonhar com você, delírio dos meus desejos! Senti seu corpo dentro do meu! Você nem imagina a loucura!”. Milton suspirou e não dormiu mais, imaginando. E as mensagens... E as mensagens se sucedendo. Tudo voltou no vácuo. Os sonos se desregularam, a concentração se espraiou. Os desenhos na memória, a imaginação, a criação de um ser: ela foi ficando cada vem mais bonita, bonita!, a voz ganhando aspecto de encanto extremado, o cheiro, o cheiro acalentante, o caminhar, os gestos... Nem se pode imaginar... E mensagens! Milton se agoniando e se esmorecendo para o resto do mundo, mas como encontrá-la? “Será que ela existe mesmo?”, questiona consigo.

O adolescente encolhido. Melhor dizendo: murcho, sem vida. Ela não é humana, ela é apenas uma entre milhões de coquetes que existem neste mundo! Toda coquete é como sombra de alma penada.
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