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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

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ContosEsmeraldo Lopes
CHEGADA
Esmeraldo Lopes

Esmeraldo Lopes



A idade de Ernesto, 13 anos. Mas os 13 anos dele, fora do tempo. Aliás, fora do tempo ele... seu pai, sua mãe, seu irmão. Seu irmão, pequeno, com entendimento pouco sobre o mundo..., ainda pedindo amparo de braço por cansaço ou por sono, nos momentos de locomoção. O pai, pedreiro, daqueles que trabalha por conta própria... em serviço aqui, depois acolá...  O tempo todo, ele, o pai, fazendo plano para ganho, se esforçando para não deixar faltar o preciso de primeira necessidade em casa. Trabalho mais sacrificante, o da mãe, pois o pai botando o dinheiro na mão dela e ela no empenho de sair acundindo as precisões... se esforçando para não deixar faltar tanto em canto nenhum. Tudo regrado. E todas as vezes que os filhos requerendo algo fora do dispor, o “Se Deus quiser, um dia”; “Os pais deles podem”, “A gente não pode fazer tudo o que quer ou que deseja, mas só o que é possível”... De tanto que ouvindo as mesmas explicações, Ernesto, colocando-as no juízo do irmão, e os dois aprendendo a viver contidos, debruçando os olhos no futuro, montando na esperança. O futuro, campo de redenção: “Quando a gente crescer aí vai poder, Epaminondas” - expressão batida e surrada de Ernesto para o irmão ao se defrontarem com algum desejo avistado longe. A vida de Ernesto e do irmão: culto aos domingos; frequência à escola; executar os deveres de estudo; ajudar a mãe em algum fazer; jogar bola em um campinho perto de casa; ouvir do pai, da mãe, todo dia: “Cuidado com as amizades”; “Do campo para casa”; “Da escola para casa”; “Respeite os mais velhos”, “Não procurem briga...”. No mais, as alegrias do mundo vistas através da janela, sorrindo em exposição dentro lojas, deslizando nas calçadas, no meio da rua, retratadas nos programas de televisão... E um irmão falando para o outro, pensando calado: “Quando a gente crescer...”, “Quando a gente crescer... aí vai poder ter”.



A mãe de Ernesto vendo nele algo diferente, mas sem perceber o quê. Coloca-o na mira do olho, no matutar do juízo. Vai observando-o. E o percebe com força minguante, manifestando indisposição... Seu olhar com perca de atenção, cochilando sereno, e a pele... O médico sem dar ligança, comprimidinho esse, vitamina aquela, exame um... outro... A alegria de Ernesto... sucumbindo. E, no briquita que briquita com ele para cima, para baixo, à procura de recursos... Depois de périplo grande, um médico botou atenção mais apurada e... A notícia veio com arrodeio de delicadeza de palavras, no preparo de tempero para evitar desespero, lastreando esperança: câncer. Câncer: há decreto mais terrível para uma pessoa que viva em um país que não conhece pena de morte? Nos ouvidos, no âmago, das pessoas mais simples, essa palavra estrondando com ecoar de morte certa, irrefutável, inexorável... Morte no acontecer do já do daqui a pouco. Ao ouvi-la, a mãe de Ernesto se inundou com lágrimas internas, silenciosas, disfarçadas, e olhou para ele fingindo apenas susto de surpresa. Ele com algum entendimento a respeito. Sempre que ouvindo menção a essa palavra, observando espanto saltando de dentro das pessoas, e o nomeado, derreado em tristeza morrente, desesperada. Câncer! Os pais de Ernesto se sabendo fracos diante do monstro. Mas vieram-lhes com socorro de assistência ao filho. A mãe viajando com ele. E eles pegando intimidade com enfermarias, laboratórios, consultórios; conhecendo palavras, expressões, que nunca tinham ouvindo; e o se acostumar com cheiro de hospital, de doença... curativos, injeções, remédios nos medidos de tempo, essa coisa toda. E nesse ir de um lado para outro, Ernesto enxergando o ar de outros meninos ao seu lado. E nele, sorrisos dentro de rostos com encanto esmorecido, gaitadas desafinadas, sonolências cansadas, olhares lerdos... animação de palavras dentro de corpos frágeis...dengosos. As mães desses meninos se expressando fraquejadas, acalentando os filhos, falando com outras mães sobre os filhos ausentes, sobre suas ausências de casa, e sobre esse viver sem pouso, incerto, inseguro, indo do temor à esperança, deslizando entre a esperança e o pavor. E o medo... Medo de tudo. Só o passado seguro, mas se dispersando na instabilidade do presente. O futuro..., sombra.



Ernesto foi se acostumando ao novo viver. E um viver no que vendo, pegando, ouvindo, falando... Outro viver oculto, de segredo secreto, invisível, inaudível, captado no silêncio, no disfarce das expressões dos outros, na quietude dos colegas de tratamento, na respiração profunda das mães, no cuidado delicado das enfermeiras, dos médicos... no deserto  de companheiros que... nunca mais, nas evasivas de respostas à suas perguntas. Mais que isso, também o viver oculto, de segredo secreto, por ter descoberto que, ao expressar dor do corpo, dos sentimentos, sua mãe, seu pai, seu irmão, invadidos por desespero condolente, impotente, sofrente, mas a dor lá, futucando... futucando... inclemente. E descobriu a necessidade de calar, de adotar modo de viver fingido. “Nunca perguntar, esconder, disfarçar”, concluiu. Então, mergulhar em si, captar as ocorrências, enxergar o invisível, ouvir o inaudível, sentir o sensível oculto e se fingir bem, se fingir de ignorante, para não fazer sofrer e, talvez, para não sofrer. “Viver, tão-somente viver. E viver.” Esse modo de ser aprendera devagarinho, catando detalhes, amarrando-os um ao outro, alinhavando-os com pensamento. E os detalhes vindos do que vendo, ouvindo de colegas, escutando de psicólogas, de enfermeiras, de médicos, aspirando dos ambientes, interceptando-os no silêncio das reflexões, mas também chegando pelos sonhos, pelo decifrar de rostos, pelo ditos e trejeitos de seus colegas, pelas palavras escapando dos olhos das pessoas que o olhando... Acostumou-se nisso e construiu uma casa-agasalho para si. E dentro dela, imaginários-reais. Imaginários-reais: sua mãe, seu pai, seu irmão. Com esses podendo se enredar em trama de vida livre, aberta; podendo conversar sobre tudo, e conversando; podendo dizer tudo, e dizendo. E eles lhes falando sem simulação, e Ernesto ouvindo.



Quando a doença de Ernesto controlada, dominada, a vida se retomou em via normal. Embora isso, ele, outro; seu pai, sua mãe, seu irmão, de outro jeito. Os nós entre eles, bem acochados..., e tão próximos entre si que, seguro e certo dizer, mesmo avós e tios, sem encontrar espaço para se agasalharem ao calor deles..., estrangeiros. Estes não se percebendo tratados assim, mas o núcleo familiar de Ernesto fechado, formando universo trancado, segredado. Claro que ele, Ernesto, seu pai, sua mãe, seu irmão, circulando pela cidade: indo à escola, ao trabalho, à feira, ao mercado, à igreja... Ernesto e Epaminondas perderam o gosto pelo jogo no campinho, e as camaradagens, se já raras e frouxas antes, agora inexistentes. Os atropelos e algazarra das brincadeiras com outros meninos, substituídas por leitura, por brincadeiras e conversas entre eles. E fora disso, acompanhar o pai, a mãe, em alguma saída, caminhar para a escola, e na escola se sentar assistindo os colegas brincar durante o recreio. E como todos da família evitando as casas dos outros, as outras pessoas, até parentes, se esfriando nos achegos com eles. E os meses. E um ano e meses. E, de novo ela, a doença. Mas veio lenta, mansa... Os médicos no logo, logo, botaram freio nela, e a controlaram. Ernesto sem necessidade de tratamento fora de casa, mas a vida pegando cor amarela. Uma nuvem de mau presságio pairando no ar, se condensando, se esvoaçando... Os médicos olhando dentro dos olhos de Ernesto, de sua mãe e: “Vencemos!”. Sorriso sincero, tapinha nas costas, cumprimentos apertados de mão alegre. E a vida.



O tempo andando. Os sobressaltos da doença se desmanchando na cabeça de Ernesto, fugindo da preocupação familiar. E as conversas dos irmãos entre si, com os pais, no embalo do “quando a gente crescer mais...” E a casa respirando vida comum, com o resto do hoje, com o que fazer amanhã, delineados. E em um domingo com a mesma cara e com o mesmo jeito dos outros domingos, Ernesto, pai, mãe, irmão, da igreja para casa, após o culto da noite. Epaminondas enzamboado pelo sono, pendurado no braço da mãe, querendo braço, mas ele já grande para isso. O pai, como de costume ao chegar àquele ponto da rua, retirou a chave da casa do bolso, entregou-a a Ernesto para ele tomar a frente, abrir a porta. Fez esforço, tomou Epaminondas nos braços. A mãe de parelha com o pai, segurando a mão do filho menor. E ao se aproximarem de casa, ao mesmo tempo em que perceberam que Ernesto ainda não havia chegado e aberto a porta, ouviram sua voz atrás: “Pai, tome a chave. Vão na frente que eu vou devagarinho. Não consigo andar ligeiro. Estou cansado, estou travando. Pai..., mãe..., ela... ela estava escondida. Ela voltou . Ela chegou de vez. Está forte. Eu não vou conseguir chegar lá”. Os pais foram em sua direção. Epaminondas atordoado, Ernesto vencido, tombando, já de joelhos... E se fecharam abraçados, murmurando pranto surdo, abafado, eterno.



23-02-20


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