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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

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ContosEsmeraldo Lopes
O SONHO
Esmeraldo Lopes

Esmeraldo Lopes



Adriano embalança um copo com uma dose de cachaça dentro, bebe um gole. O cheiro dela desperta nele a lembrança de um sonho que fica voltando sem lhe dar trégua. A bem dizer, o sonho só foi sonhado uma vez, contudo seu contínuo reacontecer transportado pela recordação, como se fosse o sonho mesmo!... sonhado agora! E ele, o sonho, insiste, e persiste, e lhe cutuca nos momentos de alegria, de tristeza... e fica fustigando-o, espetando-o... Nesse sonhar, imagens, personagens, situação, sensações, sentimento... tudo muito vivo! Tão vivo que toda vez que Adriano desperta do sonho recordado, vê-se pasmado, estatelado, olhando vazio. E se apavora ao desconfiar que o sonho não seja um sonho. Recapitula-o, e tudo lhe vem muito... muito real, ainda quente, e se enxerga observando Castanho caminhando trôpego, sozinho, indiferente a seus chamados, magoado..., tristemente magoado, desprezando-o. E ouve o toc toc toc, com ritmo quebrado de passadas mancas exalando dor.



Na tentativa de se livrar da lembrança do sonho que o atormenta, Adriano já encomendou trabalho a feiticeiros, já carregou cruz em romaria, já recebeu benção em igreja evangélica, já se socorreu procurando adjutório de psiquiatra, já... Nunca encontrou jeito de colocá-la na prisão de algum canto, de enviá-la para agasalho no degredo do esquecimento.



Castanho fora um cavalo da pertença de Adriano. Um cavalo, não! Fora o cavalo, não só por ter sido o único de sua vida, mas principalmente por terem se feitos parceiros nas pegas de boi, nas andanças no campo, nas festas de vaqueiros, nas peregrinações a bares na cidade, e em povoados, nos dias de feira. Onde um, o outro e ambos se fazendo o mesmo. Enquanto Adriano escorrendo a mão na crina, alisando o lombo de Castanho, despejando sua voz anunciando a capacidade, a grandeza os feitos de seu cavalo, Castanho seguindo-o, parando quando de sua parada, esfregando sua testa, seu focinho, nas costas, na cabeça, de seu parceiro, mantendo-se na porta onde ele entrara, esperando, sem necessidade de amarradio de cabresto. E quando Adriano afogado em cacha, o pipocar de elogios: “Castanho é cavalo bom! É meu amigo! Abaixo de Deus, de meus pais, ele! Nem mulher bonita, ‘porque mulher bonita não é tão difícil, sempre se acha. Mas achar cavalo bom... Aí preciso ter muita sorte!”.



A história dos dois vindo de muito tempo. O pai decidira que o potrinho castanho seria para pertença e montaria de Adriano. Daí por diante, o potro cresceu sob seus olhos, debaixo de seus cuidados. Quando o tempo certo de doma bateu, Adriano deu início à preparação. E no vem cá e vai lá, aceita e recusa, a vitória da disciplina imposta. O potro resistiu com brabeza, mas em um momento se viu forçado a obedecer a cabresto, depois a aceitar montaria. E foram se compreendendo, firmando amizade... Quando pensa que não, estavam se adivinhando.



Se Adriano compreendia Castanho, Castanho mais ainda o compreendia. E se confiavam, e se zelavam. Adriano sem se permitir descuidar da ração, do conforto da sela, do banho de Castanho. Castanho guiando Adriano, sem erro, pelos caminhos de noites claras, de noites escuras, mato adentro, mato afora; abaixando-se, desviando-se dos paus, dos espinhos, evitando saltos perigosos nas barrocas, para livrar Adriano de estrepadas, descangotadas, aleijões. E quando, nas corridas com gado, depois de dar o bote, Adriano se desgrudando da sela, lançando-se sobre a rês, cuidando para mantê-la no chão. Aí, Castanho se aproximando dele, de ré, facilitando seus quartos para que ele alcançasse a corda amarrada na garupa da sela, e amarrasse o animal caído. E, durante todo o prosseguir da ação de Adriano, Castanho ali, parado, aguardando o fim da movimentação, com atenção atenta.



No girado do tempo, Adriano entrou na influência de vida na capital. Esse... caminho apontado para os jovens do lugar. E ele se botou nas providências de fazer apurado para arranjar recursos para a viagem. Vendeu tudo: ovelha, cabra, as duas vacas e as três garrotas que tinha. Castanho não entrara no contado. Mas veio um e veio outro...: “E o cavalo? Quer quanto nele?”. O dinheiro apurado no menos. A esperança de vida nas novidades da capital se clareando nas iluminações da mente de Adriano. Na onda da elevação das ofertas no cavalo, ele fechou negócio no grito do melhor preço. E o comprador já saiu do bar onde o negócio foi feito acompanhado pelo irmão pequeno de Adriano, para ir buscar Castanho na fazenda. Castanho foi levado encabrestado, puxado por um estranho. Aqui, ali, ele volteando o pescoço para trás, estranhando o assunto do acontecer. Quem estava na casa dos pais de Adriano ainda ouviu um relinchar forte de Castanho, ao  sumir na curva da estrada, como se estivesse chamando, pedindo ajuda.



Quando Adriano voltou para a fazenda, Castanho entrou a figurar no quadro de lembranças. O lugar onde ele deveria estar, vazio... e o silêncio de seus assopros. “Meu cavalinho...” Esse, o lamento. Acabou. Seus pais, irmãos, dizendo que ele não poderia ter feito o que fez, que desfizesse o negócio. Mas Adriano retrucando: “Homem não desmancha a palavra.” E a viagem, e as luzes da capital, o novo viver... E anos corridos e correndo. Castanho virou história, depois estória, depois um contadinho longínquo, sem atenção de audiência. O mundo do tempo de Castanho desamparado de apoio para lembrança, para significação, desaparecido.



A esposa de Adriano em polvorosa diante da tormenta manifestada pelo marido, dizendo: “Isso não aconteceu! Isso não aconteceu! Eu não mandei. Não foi...Não existiu!” E ao acender a luz, ela se deparou com o e esposo em pé, pálido, tremendo, olhando na direção da parede como se estivesse vendo, acompanhando algum acontecimento. E novo falar: “Você não pode tentar de novo, não faça outra vez! Eu não recebi o dinheiro!” A esposa queria saber, mas a resposta dele, balbuciar de palavras desencontradas, soltas, tremelico das mãos, beiços sem sangue. Ela, então, ministrou-lhe dose forte de calmante. Ele quedou na cama, com expressão de angústia dolorida.



Quando Adriano acordou, as cenas do sonho voltaram com a mesma força. Ele parado, concentrado, assustado, proclamando para si: “Foi só um sonho!” A esposa no pergunta e insiste, ele tergiversando: “Tive um pesadelo, coisa confusa, sem significância. Só isso, mesmo.” Mas ela percebeu traços de incômodo inscritos em sua face. Daí por diante, no inesperado de qualquer horário, de qualquer lugar, as cenas do sonho arrastadas pela lembrança chegando cristalinas, vibrantes, em acontecimento. E embora nunca mais o sonho lhe tenha vindo enquanto dormia, sucedeu-lhe pior: além das recorrentes visitas dele, pela lembrança, frequente, algo o acordando no mais profundo de seu sono, quase todas as noites. E nesse acordar, o barulho e as cenas do sonho desfilando em sua mente, zoando em seus ouvidos, chegando pela recordação, na quietude da solidão e do silêncio noturno. E aí, a vivacidade do passo a passo das cenas do sonhar:



Adriano montado em Castanho no caminho de um açougue. Caminho conhecido, corriqueiro. Parou diante dele, apeou. O açougueiro, sai. Examina Castanho. Avalia seu peso, sua qualidade, canta o preço. Adriano se surpreende. A oferta superior ao que imaginara, aceita. Retira a sela. O açougueiro amarra as pernas de Castanho, derruba-o, com a ajuda de Adriano. E entra no açougue. Sai em seguida com uma faca grande na mão. A lâmina da faca solta reflexos que vão bater dentro do olho de Castanho. Castanho dobra o pescoço mirando o fundo dos olhos de Adriano, com estranheza. Observa o açougueiro se aproximar... se aproximar... dele, segurando a faca nua, limpando-a no pano de um saco. Um camarada do açougueiro chega para ajuda. Empurra o pescoço de Castanho sobre seu corpo, com grosseria, e o segura firme nessa posição. Todas as partes do corpo de castanho tremem, tremem muito! Adriano assiste... calado, imóvel. O açougueiro soca a faca com força, em movimento rápido, à procura do coração de Castanho. Repete o movimento, e o de novo de outra vez, e mais uma. O sangue esguicha forte, lançando-se longe, depois vai minguando e forma uma poça. Castanho se estrebucha, se bate, sacode o rabo, solta sons abafados..., esmorece..., aquieta-se. Seu pescoço derreia na terra..., amolecido. O açougueiro entra, chama Adriano para lhe fazer o pagamento. Quando retira o dinheiro do caixa, admiração:



- Ele levantou, vai saindo! Corre!, pega!



Adriano se volta e vê Castanho se encaminhando na direção de lugar que ele nunca foi, com andar trôpego, dolorido, mas cadenciado; e vai com os olhos decepcionados, magoados, sem brilho, mas bem abertos. O açougueiro corre com a faca para lhe atacar, entretanto, trava, fica parado sem poder ir, nem vir. Adriano também se lança no seguir do andar de Castanho, quer ajudá-lo. Não quer mais vendê-lo, não quer mais que ele seja morto. Castanho, indiferente, em marcha, não sangra mais. E caminha, caminha... Adriano para, descabreado, desencontrado de si. Estático, com olhar imóvel em direção fixa, pôs-se a acompanhar o ir de Castanho. E ele indo, ficando pequeno, desaparecendo na distância. Adriano, com o corpo preso, sem força para sair do lugar. O coração acelerado, a alma sofrente.  E aí, ouve  o “toc, toc, toc...” descompassado de caminhar manco, dolorido, o “fru, fru, fru” de assoprar de cavalo pelas ventas. Com esforço, Adriano consegue voltar o olhar para o lado do açougue, e vê Castanho fazendo o mesmo caminho que já fizera, partindo do lugar onde fora sangrado. E vem, vem coxeando, mancando na mesma cadência do andar de há pouco. O buraco das facadas aparece, mas não há sangue, só o furo seco. Castanho se aproxima em sua marcha, indiferente, sereno. Seu olhar é opaco, morto de esperança. E Adriano sente seu cheiro. Quer se aproximar dele, acena, fala, mas Castanho não olha para ele, não o vê, e passa, “toc, toc, toc...”, sobranceiro.



A cena final do sonho desfilando indefinidamente no olhar, nos ouvidos, de Adriano, imobilizando-o. Castanho sumindo, Castanho recomeçando seu andar a partir do mesmo lugar, no mesmo rumo, na mesma cadência, exprimindo o mesmo sentir, manifestando a mesma indiferença... tudo igual. E Adriano tendo que se arrancar da situação, para não ficar eternamente no mesmo ver, no mesmo ouvir, no mesmo sentir.



 



16-12-18


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