Nem tão distintos: Renato e Zidane brilham no comando com vestiário na mão
Preço médio da gasolina fica praticamente estável na semana, acima de R$ 4 por litro, diz ANP
Volkswagen Polo 1.6 x Fiat Argo 1.3: comparativo
Maranhão possui maior proporção de pessoas em condições de pobreza extrema, segundo IBGE

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 2/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 3/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 4/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 5/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 6/6
ContosEsmeraldo Lopes
MAGNÓLIA
Esmeraldo Lopes

A claridade, o calor saídos de dezenas de velas acesas, sufocados pela luz e quentura do sol. Mas, ainda assim, as velas atraindo atenção pelo queimar de suas ceras defumando o ambiente com cheiro de morte. Um coro desentoado, descoordenado de vozes lamentosas, chorosas, agoniadas, recortadas por gritos de dor desesperada, chegando de outras salas, dos corredores. E na vaga de algum silêncio, o barulho pálido do crepitar das velas queimando, acompanhado por vozes murmuriantes dos poucos presentes, e pelo som sem cadência vindo das bocas de gente com olhares silenciosos, remoídos, sem ânimo, refugiados debaixo da sombra rala de um arbusto acanhado, e aprisionado dentro de um minúsculo círculo livre de cimento em um chão varrido, nu, sem vida. Esticando as vistas no seguir do pátio, vários grupinhos de pessoas se arrodeiam, lamentando ou forçando respeito de condolência aos mortos que lhes trouxeram ali, indiferentes aos mortos dos outros. Mas algumas dessas pessoas saindo da roda, pondo a curiosidade para passear na face da morte estampada em cada rosto de finado exposto nas salas de velório. Não miram apenas a morte, examinam os que sofrem, os que fingem sofrer, os que apenas se põem em postura respeitosa. E elas medem a dor que explode pela boca e invade o corpo, e a alma dos que se quedam na impotência diante do irreversível ocorrido com um dos seus. E, quando a curiosidade dessas pessoas deixa de encontrar amparo, voltam para os conhecidos. Umas viajando no profundo de si, quase todas farejando o que mais ver, assistindo, assistindo, vigiando o andar lento dos minutos no relógio. De momento em momento, sem obediência a regularidade de tempo, o aparecimento de um coveiro empurrando um carrinho para transporte de mortos, na direção a uma das salas de funeral. O altear do tom de choros. E o coveiro pronto para guiar o cortejo. O cortejo sai, vai, e desaparece. Rearrumação da sala desocupada. Outro finado chegando, e com ele, outras pessoas. Renovar de lamentos iguais. No final do corredor, a preparação para mais uma caminhada fúnebre.

Daqui a três horas, sem nenhuma dúvida, um coveiro retornará e repetirá o proceder, com os mesmos gestos, soltando a mesma comunicação, sem gasto de pensamento, sem consumo de emoção. Dessa feita virá na direção de nossa lamentação e nos movimentará.

Magnólia se findou sem aviso de doença. Ora ali, velada por uma, duas... cinco pessoas. Quietude, desassunto na sala. O vazio querendo se preencher. Buscou vida. A voz dela se acendeu, seu corpo começou a se animar lá no fundo do atrás. O passado jogou o presente no ausente, se fez presente. E, nisso, ilustradas por gestos serenos, iluminadas por olhar esperançoso, as palavras saindo de sua boca para certificar o despontar de um período novo de sua existência. O emprego que conquistou sólido, salário suficiente, as relações com os colegas, com a vizinhança, sem abalo para queixumes, e para aumento da fortuna, seu nome acabara de ser sorteado para a obtenção de uma casa com financiamento feito nas facilidades do governo. Os filhos estudando em escola particular. Não precisava mais desaguar raiva sobre o marido por este não se por em providência para resguardar a família de situação de precisão. Tolerava-o perto de si, e até o mantinha, por não achar certo separar os filhos do pai, também por ver conveniência em ter alguém para, em uma terra estranha, anunciar como marido. Mas sentia falta da família - mãe, pai, irmãos, sobrinhos, primos, parentes de sangue um pouco mais afastado, cunhados; falta da cidade, dos lugares onde sempre pisara; sentia a ausência dos conhecidos com quem fizera história, de quem testemunhara acontecimentos... Vê-se como uma estrangeira na cidade onde está. Não consegue viver longe de seu lugar, da família. “Família é tudo, vocês não acham?” Não, quer ter o que já tem, mas no seu lugar, do jeito seu, junto dos seus! E junto aos seus, viverá a felicidade de casa cheia, de visitas de abraços apertados, aconchegantes. Aí, será o céu. O emprego... Poderá solicitar transferência; a casa, venderá. E com a condição que já dispõe, aliada ao apoio da família, às facilidades que advirão pelo domínio sobre o ambiente de sua intimidade, e decorrentes dos relacionamentos pessoais, em muito melhorará a condição de sua vida e dos filhos, e dará início à realização do alvo principal de seu sonho.

No tempo de criança, Magnólia sempre arranjara maneira de ir para a casa da avó. Para ela, a casa da avó era parecida com o lugar que a professora do catecismo falava que os anjos moravam. Ficava em uma rua descalça. Quase todas as casas construídas grudadas umas nas outras, com umas mais altas, outras mais baixas, mostrando paredes desaprumadas - puxadas para frente, puxadas para trás -, e separadas da rua por uma calçada estreita, mas estirada, viajando em curvas mansas. A casa de sua avó em diferença. Ao invés de parede, um muro baixo no alinhamento da calçada. Por entrada, uma cancela pequena de duas bandas. Depois da cancela, ao alcance de umas oito ou dez passadas sem pressa, a construção. A construção: paredes bem alinhadas, boa de altura, a porta da frente ladeada por janelas, janelas também olhando para as paredes laterais do muro situado a uns oito metros. A cozinha cumprimentando um alpendre. E avistado do alpendre, lá na divisa com o vizinho do fundo, um galinheiro, protegido pela sombra de uma mangueira. Por toda a área livre do terreno, plantas de frutas, plantas de flores, enraizadas, plantas pequenas em caqueiros e dentro de latas, e o chão varrido, asseado. Tudo na medida de suficiência para agrado de menino inventar brincadeira, e brincar! Pisando no piso pisado por Magnólia, também alguns primos, alguns meninos vizinhos. A cancela sem por barreira a chegante. E, no brinca que brinca, a voz da avó chamando: “Meninos, venham merendar!” Na mesa - mesa coberta com toalha de retalhos coloridos -, rapadura raspada, farinha, colheres, copos de alumínio areados. Ao lado, um pote, e, ao lado dele, duas moringas com os gargalos vestidos com enfeite de bordado servindo como tampa. E os meninos esticando os olhos: “É jacuba!”. Rapadura, farinha e água misturadas no embalo do mexido de colher remexendo dentro do copo. Às vezes, pisado de coco com farinha e açúcar; às vezes, café com farinha; às vezes, pedaço de rapadura; conforme o acontecer do tempo, a oferta na mesa, fruta. Acontecia da avó não chamar, não oferecer nada. Magnólia pausa, põe a mão no queixo. Um suspiro comprido, fundo: “Era tudo muito bom!”

À tarde, depois da hora da merenda, a avó na sala, sentada - “Parece que estou vendo... e ouvindo!” - pondo-se a mexer em bordado ou em renda ou agasalhada atrás da máquina de costura dando alguma providência em pano, sem compromisso de pressa. E entre um movimento e outro, o passear das vistas no muro, no movimento dos meninos, na rua, respondendo ao aceno de alguém que lhe joga cumprimento lá de fora. Ora por outra ela levanta, vai até a cancela para olhar a rua, deseja boa tarde aos que passam, dá adeus aos que também apreciam o acontecer da tarde. Entre esse ir e voltar, em um sempre se repetindo a atenção dela chamada pela gulodice de sabiás coca, de currupiões pinicando mamão, pinha, goiaba; pelo canto de cardeais, pelas piruetas e gritar barulhento de bem-te-vis, por zunidos das asas de beija-flores, pendurados no ar, beijando flores... Assim até o momento em que o apito da fábrica de cerâmica avisa o encerramento do dia de trabalho. Aí a avó se movimenta para ligar o rádio e ouvir “as preces das Ave Maria” e colocar uma toalha e uma bacia com água na jardineira. Logo, logo, os trabalhadores começam a aparecer. Uns passando, outros se achegando em suas casas. O avô de Magnólia entra vestido em roupas de panos grossos, soltando seu cheiro de fumo misturado com suor, assoprando cansaço. Abençoa os netos, fala com a mulher, lava as mãos, asseia o rosto, se enxuga. Caminha para a frente da casa e joga o corpo sobre um banco. Abre a camisa, solta os pés, e os dedos dos pés tomam ar, dançam em gozo de liberdade. O cheiro de café fugindo da cozinha, perfumando toda a casa, se lançando no quintal. O bule chegando, expirando fumaça. Café quente, forte, fresco! Um vizinho, um compadre, um colega, um parente em puxado de conversa, um ou outro filho aparecendo - filho sempre em aparecimento. E, ligeiro, a noite no silêncio do sono. Quando Magnólia acorda, o avô já saiu. Seu café na mesa e a avó, com a cabeça toda enrolada com um pano, em labuta de varrer o quintal. E nessa labuta, o chap-chap da vassoura de palha, a terra dançando no vento, o aspergir do chão para suavizar a poeira. Depois, molhar as plantas com água carregada em balde, da cisterna. A arrumação da casa... E a retomada das passadas dos passos de ontem, de anteontem, todo dia, todo dia...

As impressões, as observações, os acontecidos nunca adormecidos, os achados pelo rebusco da memória, os marcos destacados no mapear do futuro saindo da boca de Magnólia no salteado de horas, de dias, de semanas, conforme a ocasião dos momentos, sem enredo de fala conjuntada, reta, contínua.

Mirando o futuro, Magnólia desenhara para si um querer inspirado no retrato do ambiente de vida de sua avó. Por ele, via-se, logo depois do sair do sol, com um pano amarrado na cabeça, empunhando uma vassoura de palha, varrendo o chão do jardim de sua casa. No jardim haveria plantas grandes, plantas em caqueiros, plantas rastejando o chão, dando abrigo a calangos, protegendo caseiros de formigas. Colocaria comida em vasilhas para os passarinhos se contentarem. Procuraria aproximação com eles, dar-lhes-ia nomes e vê-los-ia pular de galho em galho, saltitar pelo chão limpo... E, sua voz se levanta tangendo o silêncio: “Todo mundo tem um sonho. O meu é esse!”

A vida, o mundo. Magnólia se transferira para sua cidade, vendera a casa, pusera-se em proximidade dos seus. Os filhos crescendo em tamanho, em exigência, abraçando querer de ser em conformidade com os brilhos avistados, difundidos, se negando a sacrifício, a responsabilidade, trapaceando os estudos, desbancando todo assento de disciplina. Ela, fugindo de confronto com eles, se alimentando com a esperança de que os filhos mudassem, alcançassem compreensão; cedendo a pedidos, a expectativas de parentes. O salário se esfarrapando no contar de poucos dias. A casa? Moradia alugada. O preço do aluguel empurrando a moradia para mais longe. Mas não para tão longe. Os filhos sem aceitar condição de dificuldade de residência muito distante. Então, acumular endividamento de aluguel, suportar ameaças de proprietários, esperar sentença de despejo. Netos aparecendo, abrigados na avó. E a resolução de um filho de morar em casa outra, e de outro filho também, em atendimento às imposições de suas mulheres. Despesas se acrescentando, despencando sobre Magnólia, e ela em valia de cartão de crédito um, cartão de crédito outro, mais outro; empréstimo no banco “a”, empréstimo no banco “b”; empenho do décimo terceiro salário... Descontentamento de filhos, pedidos chorosos de netos. Insatisfações, oceano de insuficiências, mergulho na impotência. “Incompetente!” E o rosto de Magnólia engelhando, engelhando, os olhos ganhando fosco; os cabelos embranquecendo, caindo, secando; o corpo curvando murcho. Murcho, vestido com panos comprados em barracas de roupas baratas, na feira do bairro, com assinatura em ficha de crediário. E, depois de se aposentar, evitou visitar os colegas que permaneceram na ativa, mas não foi esquecida. E passou a não atender os convites deles para encontros festivos, de final de tarde de alguma sexta-feira. Segredou, serenamente, a uma amiga que lhe apertou em cobrança de presença: “Não tenho roupa, não tenho dinheiro para colaborar com nada, não tenho como pagar o transporte. Tenho vergonha!”. Esse estar a se aprofundar dia a dia, mês a mês, ano a ano. Aí, ela ouviu um estalo, um estalo acompanhado por um fisgado que relampejou forte, bem forte, dentro de si. E não viu mais nada.

A sala de velório agora cheia. Gente da vizinhança de Magnólia, parentes, ex-colegas de trabalho chegando. Chegando no quase chegar do horário anunciado. Velas... Mais velas acesas, estalando. “Pai Nosso”, “Ave Maria”, palavras de despedida. E o som continuado do choro choroso de um menino agarrado ao caixão, entrecortando os dizeres, as rezas, fazendo minar lágrimas em alguns presentes. Choro mesmo, só o dele. Ele: neto de um dos irmãos de Magnólia. Sempre retribuíra os carinhos recebidos dela, chamando-a de avó e a tomando como avó de verdade, devotando-lhe obediência e muito querer bem.

O coveiro chegou procurando a sala de funeral pelo número escrito na ficha que carrega na mão. Quer confirmação da identidade da morta. E se aproxima do caixão. Nada de surpresa. O horário é sabido, as palavras já dadas, a reza rezada. A tampa do caixão... E soluços, soluços, respirações profundas... Caixão fechado. O coveiro encaminha o cortejo em seguir vagaroso. Segue, para. Gavetas de ossários se erguem do chão a mais de dois metros, enfileiradas de um lado e do outro do caminho – é uma rua. Vestidas de abandono, há gavetas expondo rachaduras, paredes descascadas, nomes e datas quase apagados, apagados. Em uma e outra, ossos se mostrando. Mortos esquecidos! Morte da morte! Poucas, poucas quase nenhuma, estampando rastro de vida cultivando memória. Em uma dessas gavetas, o nome do habitante, a data de nascimento, de falecimento reacendidos há pouco tempo com tinta preta, por mão sem traquejo em escrita, com uso de pincel improvisado, e o dizer: “Sempre na minha lembrança”. E um arrumado de flores de plástico, em cores fortes, dentro da imitação de um jarro, denunciando atenção de cuidado. O cortejo segue. Há cortejos adiante, há cortejo atrás. É uma fila! A fila agora se encaminha por uma avenida de túmulos, entra em uma rua na direção do destino. O ringir do sacolejo do carrinho, o barulho das rodas no chão, o chiado do movimento de pés pisando, algum respiro de soluço, alguma zoada de tosse reprimida. Tudo isso fazendo música ao adeus-até-nunca-mais. Uma área aberta, sem túmulos desponta cheia de covas alinhadas. De um dos lados dela, vêem-se quatro cortejos adiante, três atrás, todos enfileirados, parados. Estão no aguardo de chamada para consumação dos atos. Dentro da área, alguns coveiros preparando covas, outros executando sepultamentos, envoltos pelos acompanhantes de cada morto em enterro. E a execução de um sepultamento perto, outro mais à esquerda, mais um lá no final. Do outro lado, fazendo fundo a essa área de covas, ruínas de ossários descambando, na forma de desagasalho de favela feia. E lá se vai mais um cortejo na direção dos coveiros que chamam. Assim, até o chamado se dirigir ao nosso. Vamos! Vamos pisando por cima de covas de mortos recentes, de mortos não tão antigos, com os pés afundando na terra remexida, pisando sobre restos de caixões, fazendo curvas para nos desviarmos de covas abertas. Os coveiros indicam o lugar, assumem o caixão. A cova é rasa. Cova rasa!!! A tampa do caixão no nível do piso do chão. “Como isso pode ser?!!!” Põem-se a jogar terra sobre o féretro, cuidando em amontoá-la sobre ele de modo a não o deixarem à mostra, de modo a impedir fuga de cheiro. “É terreno da prefeitura. Cova provisória. No contado de dois anos os ossos terão que ser removidos”, circula a informação. As pessoas saindo. Não há marco para identificação da cova. As outras covas estão no limpo, sem números, sem cruzes, sem lápides. “Morte da morte”. Os primeiros sinais do crepúsculo se jogam como sombras douradas sobre manchas de nuvens que se esparramam no céu. Os coveiros entraram em providenciamento de outro proceder igual. Deixaram uma pá fincada em lugar próximo à cova de Magnólia , e pousado no seu cabo, um bem-te-vi trina, jogando vida naquele deserto de alegria, deserto de alegria onde sobras, lembranças de vida são sepultas sem deixar marca, e desaparecem no esquecimento eterno.

Voltar | Enviar por e-mail
escort bayan
Júpiter.com.br - Esmeraldo Lopes - Todos os direitos reservados