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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

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ContosEsmeraldo Lopes
APARIÇÃO
Esmeraldo Lopes

A noite. Os mesmos acontecimentos de sempre de toda noite: a chegança de um, a chegança de outro... Cada quem se ajeitando no improviso de agasalho de algum encosto para o corpo. As conversas anunciando os ocorridos do dia, mas os ocorridos sem variação para atenção curiosa. E no logo, logo dos ditos dos acontecidos no de ontem para o hoje, os contados sabidos, sabidos, sabidos, repetidos, repetidos... mas sem atração de cansaço, prendendo a atenção, puxando imaginação. Desejo: que sempre fosse assim que notícia nova, notícia de morte por morte, de morte por assassinato. Notícia de morte por morte, choro, tristeza; notícia de morte por assassinato, o correr no daqui a pouco de poucos dias, de outros assassinatos por vingança. Melhor o ali. Naquele ali, a variação das noites pelo truvo clareado pelo pouco alumiar da fogueira, pelo clareado despejado pela brancura da luz da lua. Esse assim, esse assim... Mas em uma noite... Nessa noite o avistar ia até o longe do alcance das vistas. O céu estava nu, as estrelas se mostravam serenas no firmamento, a lua esparramava branquidão. E foi que um chiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii..., abafado, assoprou no mundo. Era um chiiiiiiiiiiii... sem subir e sem descer de tom, sem ir e sem vir, manso, assoprando sem sinal de rumo. E uma cabeça voltou os olhos em outra direção: “O que é aquilo?” A gente foi com as vistas na posição da cabeça dos olhos que viam. Vimos a aquilo que vinha. Vinha do lado do Sul. E aquilo vinha carregado com cores de todas as cores, derramando claridade colorida sobre as árvores, sobre o chão, desfazendo o clarear da lua. E lá vem, e lá vem, serenando no rumo, mantendo a altura que estava do chão, sem subir e sem descer, navegando na linha de prumo reto. O Chiiiiiiiiiii... manso, contínuo. Nós: o silêncio, a contemplação, o enfeitiçamento sem piscado de vistas, e não nos víamos. Todo o nosso olhar era para o que víamos. A coisa se mostrando. Era grande-grande, em vôo baixo, rasante. Ainda no longe de nosso avistar, o que se via era um misturado de cores piscando, um misturado de cores em linha reta, que logo se embaraçavam, formando cauda, correndo atrás. No aproximado da passagem dela, fileiras de luzes coloridas piscando do lado, em baixo, em ritmo de cadência, no correr de todo o seu tamanho. No aproximado bem próximo, a claridade da mistura das luzes se batendo sobre nós, o chiiiiiiiiiii... sem pausa, continuado. Na cauda não havia piscar de luzes. Havia misturado de cores alinhadas, e que depois se enleavam. Eram muitas cores luminosas. Ficamos vendo o seu ir escorregando suave para o Norte. E a coisa foi, foi... até o desaparecimento do alcance de nosso enxergar. E não sabíamos o que a coisa era, mas não houve medo. Contemplávamos serenando, no sereno, calados. No quebra do silêncio, uma voz: “É sinal do fim dos tempos”. Depois soubemos: outros viram o mesmo ver, e todos ficaram no mesmo sem saber.


 


Aparição na Caatinga de Curaçá – BA, em meados da década de 1960

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