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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 6/6
ContosEsmeraldo Lopes
URUBU ENCOMENDADO
Esmeraldo Lopes

A teima teria sido uma teima qualquer. Um simples desencontro de palavras sem motivo de agravo sério. Mas os olhos, a espera da platéia, um ar de tensão nas expectativas. Os cochichos: “Deno não é homem de levar desfeita”, “Zé é de fama de pescoço duro. Isso não vai terminar só em arrelia”. Deno e Zé ali, no palco, arrodeados de atenção. Cada um de seu lado, os dois homens, viam-se sem traçado de ódio no sangue. Os circunstantes não viam, mas eles viam as considerações dos seus, os entrelaçados de parentesco, de amizade. Não podiam alimentar a desgraça. Vai que não vai, não viam como sair dali sem honra comprometida. Na entreteima de palavras medidas, no começo do altear das vozes, Deno, atinando juízo, diz que Zé não era lá homem de lhe meter medo, dá as costas e se vai pela porta da rua do armazém sem olhar para trás. Zé se volta para o balcão e pede cachaça, aliviado. O silêncio dos ouvidos pescando. Zé mudando de conversa, desalimentando o acontecido.

As conversas. As conversas se aumentando, plantando raiva: “Deno correu”, “Deno é macho. Deu as costas e Zé se afrouxou”. Sem resposta de ação, se enfraqueceram, perderam ressôo. Os homens se botaram indiferença de atenção de cumprimento, mas no se alcançarem pelas vistas acendiam os cuidados.
Não decorrera muito tempo do que sucedera. Deno tomava fuga no oitão da casa, correndo a malhada com as vistas. Os cabritos pulando, os bodes bodejando, as ovelhas procurando sal, as vacas lambendo os bezerros. Um urubu em arrodeio, baixando vôo, lá vem, lá vem. Pousa aconchegado na galha de uma imburana seca. Deno planeia os afazeres de nestante. Levanta, se vai ajeitando o chapéu.

Zunira foi a primeira que levantou suspeita. Quando deu com o urubu no entrar da porta da casa, de logo viu que ele não era como os outros. Ameaçou-lhe com uma vassoura. Ele, sem dar ligança, só saiu quando foi empurrado, e ficou arrodiando a casa, com um andar de desengonço. Ela, pasmada, fez o contado preciso de sete voltas. Nascera nas caatingas, vivera sempre nas caatingas. Nunca vira coisa assim. De assim, só a estórias de mandado de feitiço. Sete, sete... “Só pode ser feitiço”. Quando Deno chegou, ela lhe passou o acontecido. Ele voltou as vistas e viu o urubu caminhando na malhada. “É besteira, mulher. É um urubu véio, sem prumo de voar”. No outro dia, no outro dia e no outro dia... o urubu lá. Quando se descuidava, “ói ele entrando em casa!”. E ficava do terreiro para o chiqueiro, do chiqueiro para a imburana. Mais tempo no galho alto da imburana. E ele foi ficando do lugar, sem motivo de assombração grande. Quando o povo da casa se reunia no descanso, lá se vinha o urubu, mancando. E ficava ali perto, olhando, assuntando as conversas. “Parece que esse bicho tem pensamento de gente”, tinha quem dissesse, já estimando a ave de mau agouro. Zunira foi que manteve o desconfio, tecendo reza para espantar o demônio. E um dia, um dia quando voltaram da feira viram criação morta na malhada: cabras, ovelhas, cabritos. Dez cabeças, depois de feito o catado. O urubu lá, na galha, se misturando com o escurecer do dia. Zunira perdeu o desconfio: “É o urubu, não disse!” Deno ficou calado, sem aceitar o fundamento do achado de Zunira. “É coisa do tempo, mulher”, mas começou a olhar o urubu com cisma.

No soltar das cabras pela manhã, viu que umas não foram para o mato. Ficaram zanzando na malhada, sem alegria de andar. As cabras estavam gordas, cabelo bonito, mas tristes. Deno recorreu a seus recursos: alho, sal e óleo queimado despejados na garganta dos animais. Resultado sem valia, que no pino do meio dia estavam todos mortos. O urubu lá, olhando. O fundamento de Zunira tinha sentido. Os acontecidos recomendavam ida a feiticeiro. Olhou o urubu caminhando: “Será que é aquele fio da peste preto da cor do cão?!” Como tratou de tirar o couro dos animais, não viu o tempo passar. Quando o sol enfraqueceu, a criação começou a chegar. No meio das chegadas, umas que iam tremendo, tombando, morrendo. Sem se agüentar com aquela morrinha, Deno danou-se para casa, pegou a espingarda: “Vou acabar agora com aquele cão desgraçado! Vou botar ele de volta pro inferno, agora!” Zunira saiu correndo, a filha também, clamando não fosse feita aquela desgraça. “É o que o cão quer, home!, se pregar aqui quando o sangue do urubu cair no chão”. Deno esbravejava, derramado de raiva: “Toco fogo, toco fogo naquela desgraça! Ele vai ver”. Zunira não deixou. Convenceu o marido. O urubu, manso, apreciando no jeito de acabrunho. No outro dia foram procurar feiticeiro.

O feiticeiro, já no chegar deles foi dizendo: “Já sei. Não precisa falar nada. É o cão encomendado”. Descreveu as características do encomendador. Deno,e Zunira fizeram a identificação. Era Zé. “Fie duma égua. Se eu tivesse aprontado aquele desgraçado não tinha nada disso”. O feiticeiro perguntou: “Quer que eu vire o feitiço pra ele?” “Deixe aquele peste pra lá, que isso não trás nada de bom”. O feiticeiro fez garantia: “Quando vocês chegarem lá não vão mais encontrar o encomendado”. De volta, Deno fazia plano: “Se topar com aquela desgraça, meto bala, que se dane o sangue. Eu queimo, eu toco fogo. Toco fogo!... Desgraçado, como é que manda uma peste desta pros outros!” Quando avistaram a casa viram o urubu voar do galho da imburana, num vôo manso, indo, indo, indo... “Nunca mais a desgraça apareceu. Era feitiço. Prejuízo... “Mas só foi assim porque as mulé não deixaram eu fazer o serviço. Vem peste, de novo!!! Ainda hoje eu lembro daquela desgraça agourenta”.

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