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ContosEsmeraldo Lopes
O ESTRANHO VULTO
Esmeraldo Lopes

Tudo corre normalmente. A rua repousa em sua monotonia de todo dia. Gritos de meninos, a voz de alguém que reclama a presença de um filho, o badalar de chocalhos de animais... No "Luar do Sertão" rapazolas recostam-se pelas calçadas, rebuscando no fundo das memórias algum assunto. De repente uma voz espantada chama atenção:

- Vejam!

Todos olham e vêem uma figura que se mexe lentamente em direção ao local onde estão. Assustados, os rapazes não despregam os olhos da figura.

- É doido! - diz um.
- É um andarilho! - fala outro.
- É um retirante! - atira alguém.

À medida que a figura se aproxima as dúvidas vão crescendo. É um homem branco, de olhos verdes, magro, barbudo, longos cabelos lisos, usa roupas largas e bastante sujas e está descalço. Aquela figura descompõe o cenário de normalidade da cidade. É em tudo diferente ao que ali existe de fato.

Paulatinamente a memória das pessoas vai entrando em confusão. Imagens emergem do passado, transportadas pelas lembranças das estórias contadas no idos e nos ditos dos mais velhos: pessoas que, no sertão nordestino, aparecem anunciando o fim do mundo, condenando a devassidão; misteriosos fatos que ocorreram sem explicação; mensageiros de Deus; profetas anônimos; penitentes; almas perambulantes... Tudo como se o passado estivesse trazendo sua prova ao presente.

O homem avança e avança em passos macios e constantes. Ao passar pelo "Luar do Sertão", já uma porção de pessoas o acompanham. Assustadas, olhos esbugalhados, desconfiadas e com expressão de medo, as pessoas vão seguindo passo a passo os passos do homem.

O homem dobrou a esquina, com jeito de quem conhece a cidade, sem se dar conta do amontoado humano que o segue. Mais adiante toma o batente da porta de uma casa abandonada e vira-se para a multidão debruçada em seu olhar distante. O homem ali como se imitando estátua, sereno, calado. O tempo passando e o povo aparece cada vez mais de todos os lados. A multidão de assustados cresce e do meio dela algumas beatas rompem. Uma delas olha o homem de cima abaixo, aproxima-se mais um pouco, pega-lhe as mãos e olhando-as murmura:

- É Cristo! Olhe as chagas!

Corre no meio da multidão um zoar baixo de vozes. Alguém chega ligeiro com um copo de água e outro de leite. Oferece-os ao homem. O homem aceita a água nas recusa o leite.
- Cristo não precisa de alimento! - ouve-se uma voz.

Ali parada a multidão está e não sabe como proceder. O homem não fala, não acena e nem nada. Alguém tem a idéia de levá-lo para a igreja, ele resiste. Não adianta.

A noite desce. Conversas em cochichos e por fim uma idéia se espalha: Levá-lo para o abrigo São Vicente de Paula. Pagam-lhe pelo braço e lá se vão, o homem e a multidão. No abrigo, colam-no em um quarto com cama, lençol limpo e urinol. Por um tempo o povo ainda fica nas redondezas tecendo comentários. A noite se aprofunda e as luzes fracas da cidade tentam fazer jeito de claridade. O barulho do motor utilizado para gerar a energia fura o silêncio com seu barulho monótono. Ainda algum converseiro, mas de pouco em pouco o vazio de gente.

Em casa as pessoas também se aprofundam no encosto das dormidas, matutando o fato.

Quando o dia aparece algumas pessoas correm para o abrigo. Ao abrirem a porta do quarto, nada está lá dentro. A janela está aberta. O homem havia saído. O boato logo corre rua acima e rua abaixo. As dúvidas aumentam e todos se perguntam sem que ninguém saiba responder com convicção. Apenas nas lembranças, as velhas estórias cheias de mistérios, tal e qual o ocorrido.

O homem partira da mesma forma que havia chegado: misteriosamente. Dele notícias não houve, nem do antes e nem do depois e a cidade recolheu-se ao seu normal, com mais um mistério para alimentar a vida.






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