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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 2/6

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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 6/6
ContosEsmeraldo Lopes
O CANTO
Esmeraldo Lopes


Enfeiava o dia uma massa de nevoeiros, mas alguns meninos alegravam a rua fazendo lauza em disputa de bola. Bidóia caminhou na direção dos meninos e chamou:

- Alfredo, vem cá!

Alfredo olhou desorientado do meio da confusão. Viu Bidóia chamando-o com a mão e o atendeu.

- O que é?
- Vamo ali!
- Pra onde?
- Aculá fazê uma coisa.

Foram-se caminhando os dois, Bidóia à frente, até que sem anúncio de chegada entraram na casa de seu Fortunato. Apontaram na sala do fundo e, cara a cara, sobre tamboretes botados nas cabeceiras de uma mesa velha e rachada, sentaram-se sem palavras. Bidóia olhou por alguns instantes a face de Alfredo e se enfiou dentro dos olhos dele. O menino abaixou a cabeça e sacudiu as pernas com as mãos, nervoso. Estava receoso. Ele sabia que Bidóia estava tuberculoso.

O povo se protegia de Bidóia. Suas mãos, seu cuspe, o vento de sua boca, o calor de seu assento, tudo isso transmitia a doença. Um copo separado para se ele pedisse água, nas casas onde ele tinha conhecimento aproximado com os donos. As pessoas temiam sua visita em casa, mas caso isso ocorresse até que lhe davam consideração de entrada e atenção de perguntas, mas queriam que ele se compreendesse sua situação. Tinham mesmo era pena e medo, mais medo. Medo dos castigos que podiam vir do céu, por fecharem as portas a um necessitado. Se guardavam na história. Aquilo podia ser uma provação.

Alfredo assustado inundava-se das prevenições do povo, mas não podia fugir. De fato a aparência do homem não era boa. As bochechas afundavam na boca, os olhos se metiam dentro da face e essas marcas naquele corpo magro e alto transformavam-no em uma visagem apavorada. Variava o menino em pensamentos e se confundia: "Aquele homem não era o mesmo Bidóia contador de pilhérias, tocador de cavaquinho, animador da festa de Reis, vagabundo alegre e inofensivo da cidade? Era sim!" Enquanto se inquietava, Bidóia o vasculhava com os olhos e com o pensamento e é bem possível que se espantasse ao se ver nas imagens que rodeavam a cabeça de Alfredo. Não se encabulou, pois que aquilo era verdade e coçou o bolso de sua camisa, enfiando os dedos dentro dele retirando uma folha de papel e um envelope, depois uma caneta. Esticou o corpo sobre a mesa e pôs tudo ao alcance de Alfredo. Mais uns instantes de silêncio. Ao lado, agachado em um canto, um velho alisava um bastão correndo a mão acima e abaixo. Era Virgílio, que em sua surdez não ouvia e nem interrompia o silêncio que os dois faziam e permanecia completamente só. Bidóia passou os olhos pela sala e falou em voz serena:

- Alfredo, escreva uma carta pra mim. É uma carta pra minha mãe, Vá escrevendo o que eu for dizendo.

Alfredo, tremendo nas mãos, ajeitou o papel, pegou a caneta e a voz de Bidóia começou a chegar dolorosa em seus ouvidos:

“Minha mãezinha, peço qui a sinhora me abençoe e desejo qui teja gozando de saúde juntamente com os nosso. Tenho saudade de vocês daí e sonho muito cum a sinhora me abraçando e tombém eu abrançando a sinhora e tombém abrançando Nininha. Peço qui a sinhora me perdôe pur fazê tempo qui nun apareço por aí e num mando notícia. Eu aqui ando duente e já tive muito mais, mas agora já tô cum muita miora, com as graças de Deus, do povo do posto e do povo qui tem me ajudado. Eu tô, mãezinha, cum a duença, a bicha, mas o dotô já disse qui em breve vô ficá bom. A sinhora num imagina meu sofrimento. Teve dias qui de desejei morrer de agunia. Mas o mais ruim é qui o povo tem muito medo de pegá tombém e inté Isabel, minha namorada, se assombrou e num mi quis mais e eu tô proibido e num aguento trabáio. Tô assim minha mãezinha, mais cum as graças de Deus com pôco irei aí, bom. Sei qui a sinhora precisa de ajuda mais eu num tô pudendo. Quando pudé num vô faltá cuma nunca faltava.
“Me dispeço aqui pedindo a benção e desejando felicidade pra sinhora e pra todos e peço qui dê lembrança ao povo daí.
“Um abraço do fio qui num lhe esquece

Bidóia.”

Enquanto escrevia, Alfredo cobria parte do rosto com a outra mão, para não mostrar seu choro. Suas emoções iam sendo consumidas e as palavras de Bidóia depuravam-se em sentimentos. Havia descoberto que Bidóia tinha família, que ele sabia o que as pessoas pensavam a seu respeito e que sofreia com isso, que ele conhecia a gravidade de sua doença, que entendia o medo das pessoas, que vivia constrangido e que homem chora. No apurado do pensamento certificou-se de que todo homem acaba por ser um homem e, mesmo sendo considerado um traste, sabe perceber o que acontece na cabeça dos outros.

Começara, é verdade, a escrever a carta com medo, sem querer, mas dali por diante escreveria tantas quantas fossem as vezes que Bidóia lhe pedisse. Aquele era um serviço de muita, muita responsabilidade. Tinha que se considerar como sendo, naquele assunto, apenas as mãos de Bidóia. Fazer de conta que não houvesse acontecido. Guardar segredo eterno.

Bidóia passou os olhos sobre o escrito, dobrou o papel, o envelopou e colou o envelope com a língua, sob o olhar de seu Virgílio que continuava coçando o seu bastão. Agradeceu a Alfredo e sem nada recomendar saíram desconhecendo a presença do velho. Apartaram-se na porta. Bidóia encaminhou-se apressado em busca de portador. Alfredo, mais parado, não sabia bem para onde. Seus colegas já não jogavam e o sol estava forte.

Seu Virgílio ficou só, lá no seu canto, como há muito fazia. Passava e repassava as lembranças da vida. Não tinha muito do que sorri, mas uma vez ou outra animava o semblante. Podia, se quisesse, dada a inexistência de testemunhas, transformar tudo pela fantasia. Não o fazia. Não se interessava pelo dia a vir. Não possuía destinatário para notícias sua. Se ditasse escrito, o destino só poderia ser o mundo. Essa idéia nem de longe lhe chegava, uma pena: tinha muito a dizer. Ele guardava uma bomba dentro do peito. Se falasse, a memória, por certo, explodiria. Um homem velho, sem pretensão e sem ninguém não tem limites e, se na desgraça, pode ser autêntico demais. Mas ele só estava tocaiando a morte, e com a sua morte o livro que ninguém nunca leu não haveria de ser e, então, o vazio que ocupará aquele canto nem se dará conta de sua ausência, assim como Alfredo, assim como Bidóia.

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