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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

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ContosEsmeraldo Lopes
DESENCANTO
Esmeraldo Lopes

Um dia como era todo dia sem novidade. Meninos zanzando, os bares na quietidão, o chiado de vassouras, de panelas nas casas, um barulho de lenha sendo rachada longe, um doido caminhando de cabeça baixa, o som dos rádios dando ilusão de festa. Um homem andando com os olhos pregados no chão. Ele não vê e não ouve a mulher que o cumprimenta da janela. Anda no rumo certo do lugar que vai. Chega a um armazém, pede o valor devido da conta, paga, recebe o troco e sai. Na porta pára, mira o dinheiro na mão e fala alto para si mesmo: "Não preciso disso". Em pensamento conclui: "A alma a Deus é meu único dever". Sem olhar para trás joga o dinheiro no esgoto e, apressado, escapa das vistas do dono do armazém. O dono do armazém fez de logo o cálculo: "Diocêncio ficou doido". Olha para o dinheiro no esgoto, estica as vistas na rua sem ninguém e volta a recostar-se no balcão, fazendo juízo sozinho.

Diocêncio atravessa uma rua, mais outra, e outra e as ruas se acabam. Ninguém o vê. Ele não olha para trás. O juízo remói, o corpo esquenta, a garganta se fecha, os olhos se enchem d'água, as pernas querem andar, andar, andar e vai sem direção de caminho e nem com motivo de lugar. Segue uma estrada que ele sabe vai longe, adiante esguia-se dela e toma o mato, sem preocupação de roteiro. Não quer pensar mas a cabeça trabalha sem dar sossego. Pára, encosta-se em uma pedra e bota os olhos no se por do sol. O sol some e as luzes da cidade começam a brilhar.

Há muito Diocêncio andava revolto com os ocorridos da vida. Não escondia a contariação. As diferenças do mundo, o jeito novo das coisas, uma danação do que é ruim. Quando ainda podia enfrentar a labuta de frente, não se queixava da vida. Também as eras eram outras. Vivia no meio dos bichos. Não havia motivo para lamentação. Ele e os bichos se conheciam e se compreendiam. Agora não. Velho, vivia na rua. A mulher, doente, não dava fuga de sono, merecendo cuidado em tudo por tudo. O único filho em casa era doentinho por motivo de nascença, mal que doutor nenhum resolvia e ele se mantendo com dinheiro miúdo de aposentadoria do governo. Os outros filhos vivendo no aperreio das dificuldades. "Só eu sei" - dizia sem explicar o saber que tinha. Os camaradas se acabando, não tendo quase com quem prosear assunto de importância. Vivia uma vida de silêncio sem haver a quem dizer, sem haver de quem escutar. Sozinho em teima com o mundo, desentendeu-se com os seus. "Êta mundo virado. Onde já se viu filho dizê que leva pai pro juiz?" Seu sentir ficava só roendo, preso no peito, fruviando nas idéias, futucando as visões que o pensamento fazia.

A vida na rua não dava animação. Diocêncio ocupava o tempo com o que sabia fazer: matar criação, cuidar do sitiozinho que tinha, campear bicho manso, desempenhar algum serviço de ganho por dia, na conformidade de suas forças e de suas vistas. Trabalhos sem vantagem e sem ganho de futuro. Nas sobras do tempo batia perna pelas casas de um e de outro conhecido, para a casa dos filhos, dando atenção aos netos. Raro achava esticar de conversa. Bar! Não. "É ocupação pra vadio". Quando era mais novo, quando seu tempo ainda estava inteiro não pensava assim. Gostava de se chegar a um boteco, encontrar com os companheiros, tomar umas pingas e aboiar tirando versos de putaria. Agora não, a situação era outra. Preferia sentar-se à sala de sua casa, virado para o sem movimento da rua. Ali ficava horas e horas com os olhos espichados. Fora homem feito, destemido e agora ali sentado em uma sala, sem assunto com o mundo. Quando o pensamento lhe pegava, danava-se a recordar os casos acontecidos. Os pés-de-pau lhe vinham e ele os via sempre nos mesmos lugares que haviam de estar. O sol escorregando em arco do nascer ao se por, no sempre do mesmo caminho, clareando e truvando o mundo no passo do canto dos passarinho que alteava, desaparecia, tornava a alteava e sumia. A lua girando na curva do céu grandão e as estrelas piscando, piscando... de vez em quando caindo para o mar. "O mar... cuma é que é o mar? Não consigo pensar como é um céu de água"... De pouco em pouco sua face mudava. Ficava vibrante, ficava esmorecida, ficava angustiada. Pensava, recordada e acordava. Logo, logo, vinha a lembrança do netinho morto afogado, com poucos dias passados. Emperriava-se, levantava-se e saía por aí, cuidando.

No tempo de menino, Diocêncio acostumou-se com os bichos. Também pudera, vivia com eles no sol e no sereno. Quando os da casa saíam, ia dormir com as vacas no curral. Confiava em tudo por tudo no cavalo e no cachorro. No bater do olho, via o pedido de clemência no olho do bicho doente, sofredor de aperriação provocada por algum mal. Foi assim que pegou o jeito dos animais, o cheiro deles e até o corpo aguentava tudo que fosse comum os animais aguentarem. Falava pouco a fala dos homens com os homens. Falava muito a fala dos homens com os bichos, na brutalidade e no dengo que eles entendiam.

Os homens não atraíam Diocêncio. Era cada um de um modo diferente. Zoadentos, de muitos proceder, aperriadores do juízo alheio. Nas estradas do mato, ele fazia curcuviados danados para não topar com gente. Quando era de precisão dava uma palavrinha, "tomava uma "abenção", trocava um aperto de mão ligeiro, com chapéu fora da cabeça, de cima do cavalo mesmo, cuidando com atenção o jeito do outro proceder.

Menino beiçudo. Não aguentava com os gritos de um tio. Resolveu botar ponto no caso. Pegou um prato de farinha e uma rapadura e se embrenhou no mato, com o dito "minha casa é meu chapéu" na boca. Não desconfiaram que o caso era de propósito. Fizeram viração do mato e nada. Passaram-se dias. Desistiram, dando-lhe por morto. O dono de uma cacimba se assombrou com o sinal de gente deixado nela toda noite. Noticiou que só podia ser coisa de cabra de Lampião escondido. Os cabras do governo vieram. Montaram guarda e viram o vulto de um sujeito. Quando o sujeito se emborcou para pegar água, saltaram por cima dele. No fazer da conferência reconheceram o menino estribuchento.

O andar do tempo pôs Diocêncio rapaz. A agonia do corpo botou nele pensamento em mulher. Desbotava-se pelo medo e pela vontade. Uma mulher.... Arranjou camaradagem, desconfiado. Ficou mais perto dos homens. Deu resolução na questão: virou pai de família.

As línguas se batem na rua correndo com a notícia do feito de Diocêncio. Os ouvidos em atenção de pouco cuidar. "Alguma contrariação, logo se passa". O zum-zum-zum perde força. Fica o zanzar dos parentes sem muita preocupação: "vai aparecer logo, logo. Tá por aí remoendo desgosto, esperando o carrancismo passar".

O sumiço do homem já se vai com dois dias. Aparecem notícias sem rastro. "Passou em tal lugar, alguém o viu caminhando em tal direção. A família atrás e nada. Uma desorientação. Não! Ele haverá de estar por ali mesmo pelo pasto conhecido, amoitado, caído ou morto. O povo se mexe e começa a botar prontidão na casa dele. A vaqueirada se arrebanha e descamba aos magotes pelo mato, tocando buzo, futucando as furnas, os baxios, os descampados, os fechados de caatinga, tudo. Sabem que Diocêncio não está perdido. "Que suplício haveria de fazer um cristão obrar uma coisa dessas? Vôte!" Caçam na razão uma opinião querendo saber o motivo do exato do acontecido. Vão se desenganando com o suceder dos dias. Morto não está, os urubus não dão sinal. Haveria de ter se encaminhado para as terras de longe, onde ninguém nunca mais obtivesse notícias sua? Só a recorrência aos espíritos poderia situar o lugar certo de seu destino.

Na rua o povo se atulema com a demora da história. Ninguém calculava que ainda existisse homem de propósito assim no mundo. Os espíritos nos terreiros baixam para dar a indicação do rumo dele; gente de visão de ciência aponta notícia; os sonhos pousam em gente de palavra boa e em gente de palavra sem merecimento. Nada certo depois das verificações. Não se tem mais nem o onde e nem o quê. É só variação. As conversas, no encompridar do caso se amontoam sem fundamento de verdade. Todo mundo desencantado. Quem tem sentimento com o caso vai se silenciando, com entristecimento de culpa funda. "Poderia ter ajudado; poderia ter evitado no demonstrar de confiança séria". Quem fez do ocorrido assunto de conversa fiada começa a se amiudar, a se ver em importância pequena, sem merecer o respeito sério da atenção dos outros, minguando por dentro. Todos caem em pensar, no sentimento doído do nada se poder fazer.
No refletir do povo descobre-se o temperamento de Diocêncio. A natureza de sua cabeça dura, o seu apego à palavra dita: "o que é dito tem quer ser sendo", e vêm os casos comprovantes: "De uma certa feita se comprometeu a fazer um serviço longe de casa. Desentendeu-se com a mulher que fazia a comida e passou três dias sem comer, só tomando café preto que ele mesmo fazia. Se foi quando a tarefa finda". "Gostava de tomar uma. Depois de um acontecimento só passou a beber fora daqui. Em uma ocasião, bêbado, fez arruaça. Quando ficou bom falou: 'De hoje em diante não bebo mais nas terras dessa cidade'. Cumpriu o dito. Dali para a frente só se viu ele bebendo depois que atravessa a divisa do município e isso é coisa de raro acontecer. Sim! Um homem de propósito!"

Diocêncio não faz consideração para o toque dos buzos e nem dos gritos dos vaqueiros. Arreda do caminho deles. Escondido, espia a movimentação de quem o procura, se esquiando, arrodeando as moitas, assuntando com os ouvidos o passo dos animais, o rum-rum das falações. Quer que se desenganem. Afirma-se no capricho, cada vez mais arisco a gente. Dá intimidade apenas ao próprio pensar. Não varia das idéias, sabe o que quer e tem ciência dos lugares por onde anda. Conhece pau por pau, pedra por pedra, riacho por riacho. A vaqueirama se vai e ele toma fuga, sossega.

Os dias se passam e os vaqueiros não desistem de varrer o mato. Diocêncio, fraquejando do corpo, com fome, sem perder a opinião. Não é homem de fugir da palavra dada, do compromisso marcado. Não é agora que vai desmerecer a honra do afirmado. Não! Não tem mais ilusão com o mundo. E anda. Anda em despedida do mato, dos bichos, do tocar dos chocalhos. É noite. Vê uma luzinha de candeeiro. Conhece a casa, os donos da casa. Pára, se acocora e fica vendo de longe aquele alumiar tremido. Cai em meditação. O grito dos meninos da casa o faz recordar o tempo de menino, os pais, os filhos ainda pequenos, os netos, o netinho morto afogado, a esposa acamada, o filho doente. Sente frio, um frio vindo de dentro. Quando se toma em si percebe que chora. Cisca o chão com uma mão e segura a cabeça com a outra. Dói e dói aquele amargor. A zoada de um carro desvia sua atenção e ele passa a especular a vida: "Deus que fez o mundo soube muito bem tramar a direção, o jeito e o caminho de cada um e todo acontecido acaba sendo o certo, mesmo quando a gente não acha modo de se acostumar e de entender a retidão que nele 'tá. O errado também 'tá tramado e todo mundo tem que se compreender que tudo o que acontece, acontece pela vontade de Deus". Lembrou-se de Pedro Fogoso, morrido no mato, fugindo das malandragens da malhação, do entrudo da rua; do menino que se perdeu e que fora encontrado morto, dias depois, de fome e de sede. "Coitadinho do bichinho, ainda tinha brincado, 'tavam lá os pauzinhos arrumados na maneira de diversão. Não era inocente!? O que é de ser... taí!" E fica nesse vagar de memória, já deitado, correndo as vistas pelo céu "tão grande". Desfalece cansado no sono.

A procura se rareou e só por dever da obrigação os filhos e os vaqueiros mais chegados ainda batem o campo, sem entusiasmo de sucesso. Diocêncio está deitado quando ouve o aproximar de gente. Protege-se no mato fechado e pelo não ouvir da conversa assunta para ver quem é. Ver o filho e ver o neto. Sente vontade de ir em acudição, de se agarrar ao neto, de esquecer tudo, mas... Os dois se vão e ele fica na moita estatelado. Está muito fraco. Em suas contas são dez dias sem comer. Não sente dor. Sabe que sua sina chega ao fim. Bota-se na direção de uma cruz havida no mato, na beira de uma estrada, sinal de lugar da morte de alguém. Aos pés da cruz se ajoelha e, no silêncio do mato, reza uma reza, qualquer reza. Não estava por ali por perto à toa. Levanta-se, põe-se em frente até que esbarra na beira de uma lagoinha. Bebe água e vai atrás de uma sombra de baraúna. Ajeita as alpercatas e o chapéu. Deita-se sentindo a água dar na fraqueza. O mundo começa a ficar longe, longe... Pergunta-se calado: "O sino! O sino! Por que o sino não toca?" O corpo amolece em demência suave. As flores das caatingueiras dançam no ar, com o mexer do vento nos galhos. As abelhas acompanhando a dança das flores grudadas nelas. Os passarinhos festejam a vida, voando de árvore em árvore, assobiando, estalando. Ouve um canto bonito. O canto canta lá dentro de seus ouvidos e dorme sem dor.

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