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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 6/6
ContosEsmeraldo Lopes
A BOTIJA
Esmeraldo Lopes

O homem dormia um sono fundo, na noite. Silêncio, escuridão. Uma luz surgiu longe e se aproximou. Cheiro de incenso, fumaça se espalhando no ar, um vento frio chegando. Uma mulher se fez do nada, nomeio da fumaça. Alta, morena, cabelos pretos, bem vestida, com roupa preta. O homem treme, quer correr, tem vontade de gritar. Não consegue. A mulher fita-o e em voz mansa fala: “Meu filho abra os ouvidos e escute a dor de minha voz. Me salve do sofrimento. Você pode ser a luz que vai me tirar do escuro das profundas noites frias e atormentadas. Faça o que o que eu vou pedir. Entre sua casa e o cemitério, onde a estrada faz uma curva, uma imburana existe. Debaixo da imburana uma raiz grossa sai e volta ao chão. Bem no lugar de onde a raiz sai da terra, há um pote enterrado. O pote tem jóias e dinheiro de prata. O dinheiro é de pouco valor mas as jóias valem bem. Arranque, é tudo seu. Depois que o galo cantar o dia vem. Depois do dia, a noite, e, à meia noite vá. Leve vela e água benta. Não esqueça o rosário. Vá só. Não fale a ninguém. Quando começar o serviço não se assuste. Muita coisa você vai ver. Vão querer lhe atrapalhar. Não corra!” O homem saltou ligeiro da rede ainda com a voz da mulher no ouvido. Acendeu o candeeiro, olhou os cantos do quarto, depois os cantos da casa toda. Não viu ninguém. Não tinha fumaça e nem cheiro de incenso. Voltou à rede sentando-se encabulado. “Será que sonhei?” Remexeu o juízo atinando no acontecido. O galo cantou. Esperou o dia, com medo de dormir.

O dia clareou e o homem continuou sentado na rede. O sol já alto, resolveu levantar. Caminhou por dentro da casa sem falar com ninguém. Foi ao curral, foi à cacimba, cumpriu as necessidades do dever, o tempo todo pensando. “Será qui é incutição minha, meu Deus? E se for verdade, hem? E aquela muié, quem é? Será gente dos Conceição? Eles eram gente forte, de muita condição no tempo véio. Eles viveram bem por aqui, é! O lugar é perto da casona deles. Eu vou oiá esse pé de pau”. Tomou a estrada do cemitério e, conforme o dito da mulher, viu a imburana e debaixo dela uma raiz que saia e entrava no chão, fazendo uma curva por cima da terra.. “É verdade”. Arrudiou o lugar com os olhos e se pôs a mirar a raiz grossa da árvore. “Isso é coisa de muito tempo”. Convencido, retirou-se para as providências das recomendações.

As providências tinham que ser tomadas com cuidado de segredo, sem deixar desconfiança. Nesse pensar é que ele cuidou de comprar as velas em uma venda de outras bandas. Comprou-as com o empenho da palavra. A água benta conseguiu na casa de uma benzedeira, alegando precisão de benzer a porteira do curral e as portas de sua casa. No caminho, de volta, se deu conta que não convinha chegar em casa com aqueles trens. Fez volta pelo mato e os deixou dentro de uma mochila escondidos em uma moita de caatingueira, nas proximidades da estrada do cemitério. Já em casa lançou mão de uma alavanca e de uma pá, escondendo-os perto do chiqueiro dos porcos. Estava tudo providenciado. O sol estava se pondo.

As conversas no terreiro estavam animadas. Um vizinho bom de estórias estava cheio de assunto. Os meninos circulavam em torno da fogueira em gritos e choros. O homem estirado sobre uma esteira, indiferente às conversas, dormiu.

O inferno estava agitado. Os cães não se conformavam em perder uma alma já contada como certa. Lucifer, indignado, esbravejava. Reuniu os piores espíritos e os cães maiorais para tramarem um jeito de impedir o homem de arrancar o dinheiro. De logo um espírito traquina sugeriu uma idéia. Lucifer aceitou a idéia mas não se aquietou. A alma não podia ser perdida. Por fim falou: “Eu não aceito erro! Não aceitarei perder esta alma. Espero por ela há cem anos. Se vocês falharaem vão pagar isto. Passarão 100 anos sem poder atentar ninguém. Sejam cruéis. O homem é frouxo. O inferno não pode ser vencido por um desgraçado pecador que também em breve estará aqui. Mas cuidado! Ele levará coisas. Honrem a mim! Honrem o inferno!” Os cães ouviram as ordens de Lucifer, tremendo. “Já pensou? 100 anos sem atentar ninguém?”

No terreiro o homem, em sono profundo, sonhava. Estava no inferno. Via enormes labaredas e pessoas gritando, angustiadas no meio do fogo, sendo espetadas com enormes ferrões em brasa. Ao seu redor, um bando de espíritos e diabos dançavam e riam olhando para ele. Os gritos das almas na fogueira se misturavam com as risadas atrapalhadas dos diabos, em barulho pavoroso. Ele quieto, sem poder fazer nada, tremia esperando sua vez de ser levado à fogueira. Nesse meio um cão-menino, dando-lhe a língua, enfiou um espeto em sua virilha. O homem deu um grito e acordou, assustando todo mundo no terreiro. Agoniou-se e entrou em desespero, sem contar nada a ninguém.

Meia noite. Todo mundo da casa dormia, longe no sono. O homem levantou da rede sem fazer barulho, pegou o rosário da mulher e ao passar pela sala jogou um saco sobre as costas, saindo em seguida. Tomou a direção da estrada do cemitério, fazendo antes curcuvios pelo mato para apanhar os tarens que deixara guardados. Ao Se aproximar da imburana avistou uma luzinha. O coração entrou em tormenta. Adiante tomou uma topada deixando os objetos que levava caírem ao seu redor. Não se fez de vencido. Levantou-se, juntou as coisas e continuou a andar. A luzinha desapareceu e tudo parecia calmo. Dirigiu-se ao pé da imburana e estava limpando o chão quando viu o mato quebrar perto dele. Ligeiro pôs-se de pé e, não tivesse corrido para o tronco do pau, um grupo de vaqueiros que passou correndo em seus cavalos o teriam atropelado. Ele lembrou de rezar. Tirou o terço do bolso e fez várias rezas em agonia. Pegou a água benta e jogou parte dela sobre a curva da raiz. Estava acendendo as velas quando viu, de novo, um grupo de vaqueiros correndo em sua direção. Sem tempo de correr, lançou-se ao chão. Levantou e conseguiu acender as velas. Quando alteou as vistas, um cão à sua frente o olhava sério, abanando o rabo e com um espeto à mão, enquanto um bocado de espíritos dançavam em sua volta. O homem se valeu mais uma vez da água benta. Antes que ele a jogasse o cão sumiu. Uma risada medonha estrondou perto dele em grande altura. “Valei-me Nosso Senhor Jesus Cristo! Me ajude Nossa Senhora!” O silêncio voltou e as trapalhadas sumiram. Rezou, rezou... Criou forças. Lançou mão da alavanca para começar o serviço. Ao se voltar para o ponto, avistou uma enorme serpente de várias cabeças a se mover em sua direção. O homem saltou de costas. Ave Maria, eu vou é ir simbora, meu Deus!” A serpente não parou de caminhar e ele, em um ato de tormenta, puxou de novo a água benta, se arrudeiando com ela, fazendo círculos no chão. A serpente desapareceu. Tomou forças e voltou ao lugar onde teria que cavar. “Aquilo num existe de verdade. Num vô oiá mais pra canto ninhum”. Levantou a alavanca para cavar e ao mirar o rumo certo, viu sua mãe deitada nele. “Mãe!” Levou a mão até a mãe mas ela se transformou em uma grande mão peluda que o queria agarra. “Isto é armação do cão. Num corro, arranco, arranco cuns pudê de Deus”. Danou a cavar. Gritos iniciam-se por todos os lados. Os cães o arrudeiaram fazendo algazarra. Ele, obstinado, sacudia a alavanca no chão sem dar ouvidos ao que ouvia, mas quando acredita-se confiante não resistiu a uma porção de cobras que se erguiam e subiamk por seu corpo. Elas se enroscavam em seus braços, em suas pernas. “Ái, ái...” Largou a alavanca se batendo, caiu sobre as velas e, por um raio de sorte deu com a mão no litro de água benta. Derramou-a sobre o corpo. As cobras desapareceram. Levantou trêmulo com o rosário na mão. Meteu o litro por dentro das calças e retomou o trabalho. As atrapalhadas aumentavam a cada momento. Pouco tempo depois sentiu o chão fofo. “É a botija!” Retirou a terra ligeiro, Abaixou-se e percebeu que era mesmo o pote. Ao levantar-se tomou um tapa no rosto que fez seu chapéu voar longe. Fingiu não ligar. Lagartixas e sapas apareceram saltando em sua frente com enormes bocas abertas. Quase não conseguia se manter sobre as pernas. Continuou cavam com pressa. Os cães aceleraram as diabruras. Em um momento de aperreio, o homem lançou o terço que foi dar no pescoço de um cão. Um grito alarmante soou no ar seguido de estrondo e faíscas pelo céu. Cheiro de enxofre correu no vento. As diabruras se acalmara. O homem, por fim, agarrou a botija. Ao retirá-la do buraco tomou rasteira que o fez cair deixando a botija se quebrar. Os cães saltaram sobre ele em grande reboliço. O homem gritava. A valia foi a água benta que ele tinha à mão, dentro das calças. Os diabos arredaram em xingamentos. De repente vários caixões de defuntos surgiram em seu redor. Ele se viu em um deles. O homem reforçou a reza. Abaixou-se e iniciou a catar o dinheiro e as jóias espalhados no chão. Virou. Mexeu, ciscou. Catou tudo. Lançou o saco sobre as costas e tomou o caminho de casa. Os cães acompanhando-o, futucando-o com espetos. Ele se esquivava. Rios de cobras seguiam em sua direção, enrolando-se em suas pernas, fazendo-o cambalear. Quase sem forças, ele ia. Atazanado, conseguiu chegar ao terreiro de sua casa. Desmaiou.

O dia amanheceu. O homem acordou, sentou-se e relembrou o ocorrido, tremendo. Desconfiado curiou o saco. Viu o brilho das jóias e o amontoado de moedas de prata.. “Tô rico”. Sentiu fedor. Olhou paras as pernas e... “Hum, hum, hum”.


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