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ContosEsmeraldo Lopes
CHIQUINHO SAPECA
Esmeraldo Lopes


Chiquinho Sapeca era um sujeito danado. Não tinha medo de nada, fazia mil e uma estrepolias e com suas conversas bonitas enganava a quem queria. Uma vez vendeu um sapinho a uma velha dizendo que era um boi. A conversa foi tão bonita que a velha não só acreditou como saiu dizendo a todo mundo que o boi de Chiquinho era bom, bonito e barato. Assim como enganou a velhinha, enganava às crianças e os adultos. Com ele não havia moleza: deitava os bestas no papo.

O jeito alegre de Chiquinho Sapeca encobria uma tristeza. Acima de sua esperteza estava a sua pobreza e ele ficava chateado com isso. Conseguia as coisas com facilidade mas as perdia mais facilmente ainda. Em busca de uma explicação foi à casa de uma feiticeira. A feiticeira, ao vê-lo, já sabia do que se tratava e foi logo dizendo:

- Entre, meu filho. Já sei o que lhe trouxe aqui. Vou mexer nos segredos do mundo para poder lhe responder.

Chiquinho ficou em pé, desconfiando, olhando os movimentos da mulher. Ela acendeu valas, falou baixinho, foi a um quarto e logo voltou anunciando:

- Sua pobreza é sina de vida.
- E não tem jeito para deixar de ser assim? - perguntou Chiquinho.
- Aí é com você. O Diabo tem poderes para lhe enriquecer. Só que em troca ele quererá sua alma. Se quiser fazer o negócio é só chamar que ele aparece.
- Diabo? Eu lá quero negócio com ele!?

Chiquinho Sapeca ficou todo assustado e foi embora com pressa. Enquanto caminhava pensava em um jeito de sair da pobreza: "Ser pobre a vida toda? Não! Eu não vou viver o resto de minha vida na pindaíba. Isso não!" Quando chegou em casa foi dizendo sem muito pensar:

- Eu topo, Diabo! Se quiser minha alma é só quebrar minha sina e me enriquecer.

Imediatamente o Diabo apareceu lambendo os beiços e abanando o rabo em grande alegria, falando:

- Quem me chama é quem me quer. Não pedir para vir, você chamou e eu estou aqui, Chiquinho Sapeca. Para Ter sua alma eu faço o que você quer, mas vou logo lhe dizendo: se você aceitar mesmo, daqui a dez anos eu mando lhe buscar.
- Eu já aceitei. É só você me dar duas fazendas cheias de gado, de cavalos e cabras, uma casa boa e muito dinheiro dentro de um baú.

Nem Chiquinho havia fechado a boca, ao estalar dos dedos do Diabo, apareceram as fazendas do jeito que ele havia pedido, um baú cheio de dinheiro e sua casinha se transformara em uma mansão.

- Negócio feito - disse o Diabo. Sua alma já é minha e no dia certo eu venho lhe buscar. Não adianta se arrepender, Chiquinho. Até o grande dia - e desapareceu.

Chiquinho Sapeca viveu vários anos praticando suas espertezas e na maior fartura. Tinha de tudo a seu dispor e tudo o que fazia dava certo. As pessoas o admiravam com inveja. Chiquinho, entretanto, conhecedor de sua história, contava nos dedos o tempo que lhe faltava e não andava tão feliz assim.

Quando faltavam apenas seis meses para que a data marcada pelo Diabo chegasse, Chiquinho já deixava sua tristeza aparecer. Andava calado, pensativo e muitas vezes não conseguia dormir. De tanto pensar havia chegado à conclusão que não valia a pena obter as coisas a qualquer custo e já se recusava a enganar os outros, chegando mesmo a devolver dinheiro e objetos a algumas pessoas a quem havia enganado. "O Diabo vem!" Pensava a toda hora.


Um dia Chiquinho estava deitado sobre um banco, na porta de sua casa, todo desiludindo, quando um velhinho chegou e pediu agasalho na casa. Sem titubear, ordenou que o velhinho entrasse e mandou providenciar água, comida e uma boa rede para o hóspede. O velhinho ficou satisfeito e à noite se botaram em conversa. Ao amanhecer o dia, o velhinho pegou seus objetos e agradeceu a acolhida. Chiquinho disse ao velhinho que ele poderia voltar a qualquer hora e sem precisar pedir permissão.

- A casa é sua, meu senhor.
- Agradeço muito, Senhor Chiquinho. Em retribuição à atenção que recebi, eu quero lhe fazer uma graça. Faça-me três pedidos, sejam eles quais sejam, mesmo que lhe pareçam absurdos e eu lhe atenderei.


Chiquinho levou as mãos à cabeça, esticou o beiço, pigarreou e:

- Eu quero um banco que quem nele se sentar só se levante quando eu ordenar.

O velhinho estalou os dedos e um banquinho apareceu na porta da casa. Chiquinho nem acreditou. Sorriu e continuou:

- Eu quero uma laranjeira que dê frutos durante todo o ano e que quem nela subir só desça quando eu mandar.

O velhinho repetiu o gesto e a laranjeira apareceu. Chiquinho, morto de alegria, fez o último pedido:

- Eu quero um saco que quem nele meter as mãos ou a cabeça fique preso durante o tempo que eu quiser.

O velhinho mais uma vez estalou os dedos e um saco apareceu pendurado no ombro de Chiquinho. O velhinho deu as costas e tomou o seu caminho. Chiquinho agradecia aos gritos enquanto via o velhinho sumir e sua tristeza desapareceu, sendo, daquele dia em diante só alegria.

O dia marcado pelo Diabo para levar Chiquinho chegara. O Diabo, no inferno, sentado em seu trono, chamou um ajudante de inferno e ordenou-lhe:

- Vá à casa de Chiquinho Sapeca e o traga. Diga-lhe que a partir de hoje a alma dele é minha. Vá lá e venha logo que eu estou doido para espetá-lo na fogueira.

O ajudante de inferno saiu rapidamente para cumprir sua missão. Ao chegar à casa de Chiquinho bateu na porta com força. Chiquinho, lá dentro da casa, perguntou:

- Quem é?
- Sou ajudante de inferno. Vim lhe buscar, mandado por meu senhor, o Diabo.

Chiquinho abriu a porta, mandou o ajudante de inferno entrar e pediu para não ser levado, afinal tinha seus netinhos e queria vê-los crescer. O ajudante de inferno não quis conversa.

- Vamos e vamos logo, senão eu lhe levarei na marra!

Em lamentação Chiquinho ofereceu o banquinho para o ajudante de inverno sentar enquanto ele iria se prepara para a viagem. Quando percebeu que o sujeito havia se sentado no banquinho, gritou:

- Vamos! Tô doido para ser do Diabo.

O ajudante de inverno fincou os pés para se levantar e caiu no chão com a bunda grudada no banco. Se mexeu, tentou mas percebeu que aquilo era aprontação grande e que não sairia dali com facilidade. Chiquinho não teve pena: deixou o desgraçados por vários dias ali, de castigo, sem comer, sem beber. O ajudante de inferno já estava fraquinho e não tinha mais lágrimas, quando Chiquinho lhe perguntou se ele ainda o queria levar. O ajudante de inverno, desesperado, respondeu:

- De jeito nenhum. Eu quero é ficar longe de você.

Chiquinho o soltou e ele saiu disparado na carreira até chegar ao trono do Diabo. O Diabo, depois de ouvir a história, se enfureceu e mandou dar cem espetadas no ajudante de inferno. Um puxa-saco que estava ouvindo a história disse:

- A mim esse tal Chiquinho Sapeca não enrola. Se o senhor quiser eu o trarei, nem que seja amarrado.
- Assim é que fala um infernal - respondeu o Diabo - pois vá!

O puxa-saco do Diabo saiu correndo para buscar Chiquinho. Quando chegou na casa dele foi logo gritando:

- Vamos, Chiquinho, que desta vez não tem moleza e nem conversa fiada. Anda e anda!

Chiquinho quis conversar, mas não adiantou. Convidou o sujeito para sentar-se e lhe levou o banquinho. O puxa-saco, disse que não caía naquela história, que não era besta. Chiquinho, então, falou:

- Eu vou preparar minha mala. Se quiser pode chupar laranja. São muito boas, quem sabe se o Diabo não vai ficar agradecido se você levar algumas para ele?

Entrou no quarto e demorou. O puxa-saco, impaciente e faminto, foi à laranjeira e subiu. Quando estava lá em cima Chiquinho apareceu e disse:

- Tô pronto vamos?

O puxa-saco tentou descer mas não conseguiu. Quando percebeu que não podia descer, começou a chorar e a dizer que se saísse não iria mais levar Chiquinho. Chiquinho sorria sem parar, ao ver o desespero do sujeito. Pegou um pedaço de pau e passou a futucá-lo. Depois de haver se divertido bastante, Chiquinho foi para dentro de casa deixando o puxa-saco pendurado na laranjeira. Quando já se passavam vinte dias, Chiquinho soltou o infeliz dizendo:

- Corre cabra! Corre senão eu lhe pego de novo. Vá pra junto de seus diabos, desgraçado!

O puxa-saco saiu tão apavorado que nem ouvia nada. Ao chegar no inferno foi logo contando a história ao Diabo. O Diabo, muito zangado, mandou dar uma surra no puxa-saco e disse:

- Agora vou eu mesmo. Esse Chiquinho está merecendo uma lição. Dessa vez ele vem!

O Diabo saiu na mesma hora. Chegou na casa de Chiquinho Sapeca e foi esbravejando:

- Anda Chiquinho, que você está abusando de minha paciência/ Se você já ia sofrer imagine agora.

Chiquinho quis falar, mas o Diabo foi dando ordem para ele pegar os objetos e caminhar. Chiquinho pegou uma mala e colocou um saco às costas, pondo-se a caminhar. O Diabo fungava caminhando atrás dele. Aqui e ali lhe dava uma ferroada. Em uma certa altura da estrada, Chiquinho disse que estava com muita fome e que teria que comer. O Diabo disse que também estava com muita fome e mandou preparar a comida. Chiquinho fez o fogo e quando já havia bastante brasa, pediu ao Diabo para que ele pegasse um pedaço de carne que estava dentro do saco. O Diabo meteu as mãos no saco e não encontrou nada. Para ter certeza de que mão havia nada dentro do saco resolveu meter a cabeça para olhar. Quando tentou retirar a cabeça e as mãos de dentro do saco não conseguiu e começou a pedir socorro. Chiquinho Sapeca, nesse momento disparou a sorrir e fez um chicote com galhos de cansanção e chicoteou o Diabo, batendo na bunda, nas costas e nas pernas. O Diabo gritava a valer, se esperneava, tentava se coçar, mas descobriu que a única coisa que podia fazer era chorar. Depois de se divertir bastante Chiquinho foi para casa deixando o Diabo preso no mato, no meio do sol e do vento.

Quarenta dias depois da prisão, Chiquinho pegou um martele e um prego bem brande e voltou ao local onde havia deixado o Diabo ensacado. Ao chegar lá perguntou:

- E aí cão velho, você ainda quer minha alma?
- Eu quero é que você fique longe do inverno, se desgraçado. Se você for para o inferno lá vai ficar um inferno. O inferno é lugar de paz, agora é que eu vejo isso.

Chiquinho, então, soltou o Diabo e gritou. O Diabo juntou os pés na carreira, levando o ferrão enrolado pelo rabo. Chiquinho emburacou atrás dele sempre gritando até chegar no inferno. Ao entrar no inferno o Diabo foi ordenando:

- Fechem tudo, as portas e as janelas que Chiquinho Sapeca vem aí!

Um cãozinho-menino, muito curioso, disse:

- Eu quero ver a cara desse tal de Chiquinho Sapeca - e foi botando a cabeça do lado de fora da janela.

Chiquinho Sapeca, ao ver a cabeça do cãozinho-menino do lado de fora, enfiou o prego e bateu com o martelo deixando-o pendurado, pregado na janela. Com isso, os diabos se apavoraram e fugiram do inferno. Chiquinho Sapeca ria e gritava, vendo aquela debandada de cães.

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