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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 6/6
ContosEsmeraldo Lopes
O REI SEM TRONO
Esmeraldo Lopes

Desconfiar ninguém podia. Maria era enfurnada. Amedrontada, rejeitava prosa e só caminhava para apanhar água no rio. Não tinha boniteza nem nada que puxasse interesse de homem. João Pescocinho via virtude nela. De certo não se sabe se conversavam nem se se aconchegavam. Mas isso não contava, que respeito era o que valia.

Foi o começo do desassossego. A porta, como deveria ser, estava fechada e mais de perto não se ouvia barulho. Pescocinho bateu e se incomodou com a demora. Bateu de novo e não vindo Maria, no pensamento dele, chegou que ela devia estar, só se fosse caída ou o pior. Não fez dúvida: botou a porta a baixo se sacudindo para dentro de casa. Vigiou os cantos e os viu limpos das coisas da mulher. Descontentou-se com aquilo. Rodou pela cidade procurando uma luz. Acudiram-lhe com a notícia desacudida da embarcação dela em uma canoa com um homem. Não podia ser, até que mais notícia chegou. Pescocinho não teve mais engano: “Traição! Corno! Puta!”

Na vida de Pescocinho não havia acidentes. Se curiosidades existiam não era de culpa sua. O povo é que lhe as atribuía com invenção. Diziam-no catimbozeiro e ele bem que levava jeito. Carregava no pescoço um rosário de contas com muitas cores. Sua casa, na ponta de uma rua, ficava sempre fechada e ele, preto, pobre e velho se extremava nas devoções dos acontecimentos de religião. Mas o que o marcava mesmo era o fato de não ter amigos e a todos trazer nas mais cordiais considerações. Era daqueles homens com quem não se contava muito, mas cuja ausência acaba por provocar falta. Fazia parte do rio compondo-o com seu paquete cavado em tronco de pau. Nas horas que sua experiência indicasse, fosse noite, fosse dia, lá estava ele aventurando pescaria. Tinha que ser assim para sustentar-se em vida com resultado de poucos peixes. No sobe e desce nas águas, com toda a beira já adonada, apossou-se de um ilhotizinho para apoitar a canoa, fazer fogo e esperar em sossego a hora do peixe correr. Nos tempos de corrida de muito peixe, o fogo na canoa mesmo, com ela enganchada no meio do rio. Debaixo da sola dos seus pés e nos impulsos de suas remadas mapeava-se todo o mundo que ele podia afirmar ser de vera. O resto era falação do povo que ele ouvia, quando ouvia. No que pese a penúria que diziam ser sua vida, ele se fazia feliz e se a idéia de miséria lhe rodeasse, de pronto batucava nos assobios para desassombrar as dificuldades e quando os beiços cançavam, barulhava cantigas de boca fechada. Mantinha-se como quase ninguém, fora do julgo do poder e inabalado pelos preconceitos. Adotava a arte de não incomodar, próximo ao não existir. Homem livre, de tudo fazia para não precisar pedir licença, não pagava tributo, não tinha compromisso vigiado de pescar.

Os senhores ordenavam o povo indicando o seu lugar. Aconselhavam, corrigiam, puniam. O povo sentia estima em ser vigiado, tendo alguém a quem prestar satisfação. Pescocinho, não. Onde quer que estivesse disfarçava-se dos olhares. Não queria agrado e nem desagrado. Punha-se sempre no último lugar da procissão, postava-se atrás da multidão. Fingia-se nada para salvar-se homem. Se calava, não era por falta de opinião.

Depois do feito por Maria o desespero grudou no juízo de Pescocinho: “Corno!” Quando via jeito de gente em gargalhadas altas, imaginava zombaria. Foi se degredar no ilhote, se acolhendo. Não chorava, não lamentava, simplesmente sofria serenando seu olhar de filósofo do nada, saltado de seu ser sobre o chão.

As águas não eram mais as mesmas. Mudaram de cor e, sem anúncio do tempo começaram a cobrir tudo. O ilhote também. Pescocinho ficou a esmo, sem ponto livre para encosto. Nunca vira o que via acontecer. “São os sinais!”... Encostou sua canoa em um barranco de ribanceira e fez sua morada em um buraco. O lugar era quase um precipício, pronto para arriar. Habitou-o compondo-o com seus utensílios: uma panela de barro, uma lata pra fazer café e os trens de pesca. Deu abrigo a vários gatos que mantinha amarrados na entrada. “Para não deixarem cobra entrar”. Fez e fincou uma cruz bem no centro da entrada, “para espantar os espíritos ruins”, e alí se plantou por dias, na certeza que havia encontrado o seu lugar definitivo. Nessa paz, em um descuido, a canoa desceu nas águas.

Os pescadores não se conformavam. Pescocinho morreria se ficasse naquele lugar. As águas haveriam de subir e a ribanceira o enterraria. “Tá doido mesmo!” Ele não queria prosa, não dava ouvidos e se imperriava com os aconselhamentos. “Vamicês são tudo cão. Deixe eu”. Não davam ligança ao que ele dizia e fizeram um ajuntamento para despejá-lo. Pegaram-no à força e o levaram para sua casa na rua. Ele protestava em desespero.

Havia motivo para admiração. Pescocinho não saía de casa. Sujo, sujo, cheirava mal. A barba e o cabelo invadiram sua face. O bigode tomou a boca. Os olhos expressavam-se sem vida. A contrariedade inscrevia-se em seu rosto. Adotou um sossego inquietador. Isto assim sem mudança até que lhe foram esquecendo. Ele não dava falta de ninguém. Socado em sua casa feita de taipa, se esforçava para não se sentir. Perdera, desde que lhe botaram ali, o hábito de tramelar a porta e ela ficava rangendo noite e dia, no balançar do vento. As pessoas entravam e saíam sem que ele fizesse gesto, botasse olho, dissesse palavra. Mas a comida que lhe deixavam, comia. Não fazia fogo, não limpava nada, deitava no chão, sem escolha de lugar.

O mundo ia a Pescocinho. O barulho dos rádios e as vozes da rua levavam o converseiro a seus ouvidos. Sua casa virara coito. Lá, casais secretos, faziam furdunço. Ele ouvia e via com atenção escondida os fungados e as estrepolias. Acabava matutando naqueles assuntos. Não conseguia trancar o juízo. Juntava os ouvidos e os vistos e ia costurando a compreensão da vida. Ele não era o único corno. Maria não era a única puta. O mundo estava empestiado de ladrões e criminosos, de gente pecadora. Havia desmantelo.

Um dia Pescocinho acordou nas vadiagens de um casal. Agoniou-se, encafifou-se por dentro de si. Perdeu-se.

- Onde estou? Quem sou? O que faço aqui, Deus?

No meio do escuro, algo começou a surgir. O negro da noite apagou-se em um clarão espantoso. Pescocinho se pôs de pé sem enxergar. A claridade, no rápido de seu olhar, juntou-se em um foco de luz forte bem no meio da casa. Raios de cores giraram em torno do foco, se misturando e se transformando em uma nuvem avermelhada que se foi compondo em imagem de gente.

- Jesus! Jesus! Jesus!... – Abilolou-se tremendo.
- João, você é o rei. Agora você vai trabalhar com o povo do mundo todo - disse Jesus.
- Eu, Jesus? E por que eu?
- Você nasceu pra ser a defesa do mundo. É você quem tem pena do povo e quem vai salvar o mundo da perdição, João.
- Se o Pai quer assim, assim é!

À noite reapareceu em escuridão. O fungado dos amantes continuou. Pescocinho, estatuado, de pé, mirando a escuridão.

- Eu!? Rei da terra toda!? Eu! João Alexandre dos Santos!? Mode qui eu? Rei no combate às obras dos malditos?

Entrou em inquietação. A cabeça se ergueu firme sobre o pescoço pequeno e nos olhos surgiu um brilho solene. Não tinha caminho de dúvida, agora era rei. Mal o dia amanheceu, caminhou pelas ruas observando tudo. Carregando o entusiasmo dos recém empossados, procurando dar providências aos problemas do mundo. Passou a se ater nos detalhes do que via sem dar atenção à atenção do povo que o olhava espantado. Ignorava o medo das crianças correndo ao sentirem sua aproximação. Não dava palavra a ninguém, mas manifestava, pelas expressões da face, imenso e sereno contetamento. Ele e o povo se estranhavam.

Sonho... sonho...sonho... O rei pobre, preto, sujo e sozinho. Sem exército e nem fiéis se encara na missão: “Vai sê fogo, mais tô cum Jesus Nosso Senhor... é! Não posso usufruir mais dos bens da terra; tenho qui viver da clemência do povo: na pobreza, no sofrimento, na humilhação, no abandono, na pureza das graças do céu”.

Os passos apressados com paradas ligeiras diante das praças, das casas, das pessoas e do nada traziam para Pescocinho a mira de olhares sem disfarces. E ele ficou nisso, por dias e dias, sem ninguém desconfiar do que lhe acontecera. Mas um dia, mudou de novo o seu jeito. Foi à igreja antes da missa começar. Vestia uma calça branca e uma camisa sem cor, de tão suja. Tinha os pés descalços e um quepe de plástico na cabeça. Dava para se ver que o corpo estava em asseio. Ele caminhou pelo corredor e, perto do altar, parou, olhou as imagens, subiu o olhar para o teto, voltou-se com cadência para o povo, com o quepe na mão. Os presentes o acompanhavam com risos contidos e murmúrios. Iniciou uma pregação:

- Eu vim aqui pelas ordem de Deus. Foi Jesus, nosso Pai, quem mandou. Abaixo do céu, de Nosso Senhor, só tem eu, purim, pra fazer o partido do bom, pra defender o povo e sê o caminho da salvação. Eu sou o ...

O sacristão o pegou pelo braço fazendo-o interromper a falação e o conduziu até a porta. Ele não protestou. Caminhou com a cabeça levantada. Assistiu à solenidade sem fazer rever6encia, do lado de fora. Se bem que seu modo aparentasse respeito, o que ele fazia mesmo era curiar o padre e o povo. Terminada a missa, vistoriou cuidadosamente cada um até a última pessoa sair.

O pátio do mercado estava deserto, sem nenhuma alma de vivente. Pescocinho parou bem no meio e iniciou pregação a uma multidão invisível:

- Rê, rê! Eu sou o rê qui vei pra salvá vamicês tudim.

Ele falava e gesticulava. Impressionava a maneira como contemplava o céu, de mãos postas, repleto de devoção. As pessoas, de longe, olhavam firmando atestado de loucura e ele alteava a voz para alcançá-las. Depois de muito, pôs fim à cerimônia, dispensou seus fiéis e se encaminhou em passos rápidos e miúdos na direção de sua casa. Dali em frente, Pescocinho, destramelou-se no hábito de fazer “programas divinos”.

- Faço programa pra divulgação das lei do direito santo da vida. Faço no terreiro de minha casa, faço no mercado todo... todo dia, todo dia. Na igreja Jesus proibiu. Lá nun pode, purque o povo de lá faz a lei de Ferrabraz mais Lucifer e é cheia de seguidor do rei Herode.

Pescocinho, por muito que anunciasse e se proclamasse, não tinha do povo, reconhecimento de rei. Perdera a curiosidade das pessoas. Agora lhe viam tão só como um doido manso que nem mais incutia medo nas crianças. Passara a ser um ponto a se mexer no meio do povo, uma voz indiferente aos ouvidos, um curiosos inofensivo, um ser desprezado, em completo estado de solidão. Mas ele continuava insistentemente pregando com o entusiasmo do embalo das multidões. Nas andanças que fazia ia anotando tudo na memória. Estudando o que via, ouvia e percebia: as novidades vindas de longe e as surgidas no lugar, a pessoa que pagou ou deixou de pagar o “imposto”, o carro novo na rua, a obra em construção, o movimento no banco, o preço das coisas. Os meninos atiravam-lhe prosas, as moçolas gritavam-lhe troças. Como rei não se abalava. Ele sabia de tudo. Ele tinha uma missão maior que o mundo e seguia em seu passo firme, indiferente como se nada percebesse. Mas fazia conclusão:

- Tudo quanto é cão qué sê contra o rê. Como tem cão nesse mundo, vixe Jesus! Será que vô pudê? Tem muita gente seguindo a lei de Ferrabraz mais Lucifer. Este povo todo abandonado, sem respeito à graça das Leis Santa precisa ser salvo! Mas o maldito não fica queto. O povo é só na perdição e o cão sempre prometendo vantage e fazendo as lei. A lei da viadagem, do pecado do fio cum a mãe, da fia cum o pai, do roubo, da carestia, do jogo... Êta, Jesus... mais nóis tem qui vencê!

- “Vence nada Pescocinho! E quem foi que disse que você é rei? Quem é esse Jesus? O que é que você quer com o meu povo? Não vê que o meu povo gosta é disso? Me siga vamicê também!” – se apresentou Ferrabraz faiscando ódio pelos olhos. Cada faísca!

Pescocinho pediu orientação a Jesus, em silêncio do pensamento: - Jesus, o qui é qui digo a esse maldito? – “Diga nada não, João. Fiqui queto” – Jesus me respondeu.

- “O qui é qui vamicê quer? Diga logo, safado, diga!” – gritou Ferrabraz.

- Eu quero comprá os direitos qui vamicê tem sobre as muié perdida, instruída da rua. Eu dô um bilhão.

- “Isso é lá dinheiro pra quem diz qui é rei?”

- Entonce eu dô dois bilhão e quinhentos milhão.

- “Tá poco. Quero mais.”

- Eu dô dois bilhão e seiscentos e cinquenta milhão.

- “Tá bom. Tá feito. Mas eu vou acabar com vamicê e com sus Deusinho de merda, viu? Esse Deus é um frouxo, um ladrão que fica atrapalhando meus negoço. Vamicê vai vê!”

Pescocinho encolheu-se amedrontado, olhando Jesus, ouvindo no pensamento o que ele lhe dizia: -“Se acalme, João, eu estou aqui”.

O cão desapareceu estabanado. Pescocinho, cansado, pensativo, dormiu. Acordou pelo rangido da porta que alguém abria. Era uma mulher que lhe vinha trazer comida. Ele se levantou, dirigiu-se a ela, recebeu o prato e disse:

-Jesus tá vendo qui vamicê tá pagando os imposto tudo direitim. Eu vô anotando aqui pra ninguém lhe cobrá mais. O qui foi qui vamicê trouxe de pagamento pra mim, hoje?

- Trouxe sua comida, Seu João.
- Pois tá bom. O de hoje tá pago. Tem muita gente qui num paga nada. Depois vão se vê nas brasa do inferno. Vá cum minhas proteção – acocorou-se recostado à parede e comeu.



Conquistar as mulheres da lei dos seis bilhões e seiscentos e cinquenta milhões. O cão olhando, Jesus acompanhando e Pescocinho labutando, alumiando, botando palavras no caminho delas e elas sem darem consideração de ouvir. Ele curiando, de longe, os mexidos e os esfregados das danças, as roupas que as mulheres usavam e botava os ouvidos para se chegar aos prozeados que faziam. De tanto assim, se pegou na atentação do desejo do pecado da carne. Entrou em sacrifício e foi nesse que clamou socorro de Jesus. Jesus lhe fez promessa de presente: - “Maria Izilda, uma muié virge, pura sem pecado”.

- Ela só vem quando os home fizé minha casa. Ela tá lá longe, esperando eu chamá. Mas... cadê os home pra fazê minha casa? Já casei quarenta e quatro vez. Nenhuma das mué pôde entrá em minha casa. Já eram tudo instruída da rua. Cada uma mim pagou um indenização de duzentos milhão pelos ato delas querê mim enganá, foi! Se eu tivesse aceitado o negoço delas, a lei de Ferrabraz e Lucifer, já tinha batido a estora e já tinha mim acabado. Como eu num quis o negoço delas e nem o caso dos cão, eu fiqui preparado pra comprá os trem de Jesus e ficá rê do mundo todo.

Um homem sem noite, um homem sem dia. Os problemas do mundo fruviando em sua cabeça e a dor do corpo abafada pelo sacrifício da purificação. Pescocinho rondando a rua sem descanso. O cão sem lhe dar trégua. Seus fiéis se mantendo em segredo, se escondendo, se defendendo de perseguições. Ele sabendo: “No meio deles há conspiradores ”.

- Se tá cumigo fique calado. Pode deixá qui eu mais Jesus sabe. Meus ministro tão escondido no meio do governo, fazendo obras boa, mas é tudo queto pra num sê discurberto, senão eles derruba.


Convencer não andava no seu dever. Sem chamar ninguém, que viessem os de bons ouvidos, que sua missão era pregar. Os corações que se abrissem.

- Vamicê qué tirá retrato meu? É pra adoração ou é pra divulgação? – serenou em pose com muita solenidade, diante de um fotógrafo que o observava, entre gritos e aperreios de estudantes que passavam - Vamicês tão é cum inveja deu. Quem é qui tem cartaz pra saí no retrato dele?

Se bem que a igreja fosse condenada, Pescocinho tinha predileção pelos seus arredores. Se punha a vigiar os frequentadores dela e fazia atenção a uma velhinhas beatas que se desviavam dele. Ele as seguia com os olhos. Era gente de gente dona de escravos no tempo da escravidão, ainda há pouco se abrigando no poder, se ornando com os destaques que ele dava. Por elas recordava seu passado, via humilhações, discriminações, acusações. “Feiticeiro? Eu, não!” Vias os brancos indicando-lhe o lugar onde deveria ficar. Aquelas beatas se moviam como se sombras humanas. Representavam para ele o resto humilhante de seu passado, das histórias de sus pais. Ele não as respeitava, mas também não as desacatava. Apenas as olhava calado antecipando que seguiriam o caminhos dos ancestrais: “Estão todos no inferno. Aquelas criaturas se quisé ser salva vão tê qui segui os caminho da lei qui Jesus mim insinô, fiéis a eu, é!”

Rei, Pescocinho agonizava no desespero do povo mergulhado no desamparo, na fome, na bebedeira, nas brigas, na carestia. Desprezado, não o desprezava. Era grande, não cabia dentro de si. Conhecias suas forças. Seu poder estendia-se por toda a terra e por sobre todo o povo e até “sobre os direitos do estado da vida e também sobre aqueles que ainda pertencem a Lucifer mais Ferrabraz”. Tinha o “amor da felicidade. O respeito sobre os direitos do amor de Deus: não fazer viadagem, não fazer feitiçaria, não beber, não fumar, não deflorar, não casar duas vezes, não fazer carestia”. Ele sabia que era difícil. O cão vivia dando um jeito para enganar as pessoas. Quando ia ficando conhecido mudava de nome, mudava de cara, mas nào deixava de estar por aí prometendo vantagens e fazendo suas leis.

- O qui vamicês vão fazer por mim, hoje? – encarava os interceptados com firmeza, estudando o estado dos espíritos, experimentando o povo – é pra fazê pra mim as obras da misericórdia do céu e da graça da glória: os direitos das lei santa sobre o amô de nossa proteção. Vamicês sabe qui eu laboro com Jesus aqui e laboro cum o céu e labora cum todo de espécie boas e ruim, pra sabê onde tá o bom e o ruim. Ói, se vamicês é vivo, tem obras boa, eu sei o caminho seu que vai seguí com o amô da vida.

Suportava tudo. Nada o atingia. Não repreendia ninguém, mas via triste as mudanças do mundo. “Onde existe falsidade e contrariedade contra Deus é tudo indiferente. Hoje é de outro jeito, pela natureza do povo. A natureza do povo muda a natureza da natureza. Se aumenta as água da chuva, aumenta tombém as águas do rio. Mas cadê? Chove, chove e ói, as águas do rio qui num sobe! A seca estala, num chove e ói as águas do rio subindo! E o povo? Cuma é que pode esse povo vivê assim? Já tomei providença. Fiz a lei de seis bilhão e seiscentos e cinquenta milhão. Mandei construir obra. Mandei plantá pé de fruta de tudo quanto é espécie qui é pro povo tê o qui cumê. Mandei vim uma caminhonete cheia de caroço de manga, da Rússia. Feijão também e abóbora e tudo qui é dicumê . Pedi a Jesus pra mandá uns carocim de chuva pra moiá o chào, num tá vendo aí tudo moiado! Pois é. Já decretei o aumento do salário dos soldados que é pra eles nun ficá no desespero da bebedeira e deixá Ferrabraz, viu! As muié e as criança vão ficá tudo ocupada na plantação e assim... o mundo vai miorando pra felicidade do amô. Vô organizar o povo, aconseiando, arranjando ocupação, combatendo o pecado da carestia, dando a disciplina abençoada da vida. Meus fio... eu sô dono de tudo... da terra! Agora eu num tô cuma naquele tempo qui vivia batendo enxada pra riba e pra baixo, num sabia o que era não. Agora eu tô desprezado. Num tá vendo eu desprezado assim? Apois, é pra podê sabê o qui Jeus mim diz, os direitos da lei santa. Num mim servi ainda de um alfinete de fumo, e eu tenho a riqueza!”

Fez uma parada, cavucou a cabeça, abraçou as mãos com os dedos, levantou a palavra:

- Do céu espero a graça, da glória espero a história e do povo eu espero todos fazê o amô de Deus pra nóis sê salvo. Vamicês são tudo a inspiração de minha vida.


Um combate surdo estremecendo o silêncio. A voz de Pescocinho sem conseguir ecoar e o inimigo fustigando. Ele nunca se sentiu acuado. Sempre teve certeza da vitória e nunca parou de clamar seus sonhos sagrados.

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