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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 2/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 3/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 4/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 5/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 6/6
MEMÓRIA DA CAATINGA

Esmeraldo Lopes



Ideário para exposição no Clisertão 2016 – UPE - Petrolina.



Foi-me proposto abordar o tema Memória da Caatinga. Como tanto um termo como o outro vêm sendo utilizados com variação de conotação, acho conveniente iniciar esclarecendo o significado que atribuo a eles. Caatinga aqui, não se confunde nem com cenário e imaginário de desgraça, nem com sertão nem muito menos com semiárido, termos difusos, vazios. É um espaço com personalidade própria. Ambiente natural, caracterizado pela junção de topografia, solo, e clima



TEXTO COMPLETO NA SEÇÃO  IMAGENS E PROBLEMÁTICAS DA CAATINGA


A MISSA

Esmeraldo Lopes



Outro dia, circunstâncias me levaram até uma igreja para assistir a uma missa. Quando cheguei, a celebração ainda em fase preparatória. Pessoas com rastros de sono nos rostos adentrando, dirigindo-se mansas no rumo de assento; membros do coral tomando posição; auxiliares do padre, uns se paramentando, outros em preparação dos apetrechos da cerimônia. E, entrecortando o silêncio, murmúrios, pigarreados, barulho descompassado provocado por batidas involuntárias nos bancos, sons de pisadas, espirros, chiado de microfonia, notas desalinhadas de instrumentos musicais. O padre em pronto, saindo da sacristia acelerado, atraindo chamamento deslumbrado de atenção, com movimento de olhar ligeiro despejado sobre os fiéis, sobre a equipe celebrante, fingindo inspecionar o ambiente. E circula pelas laterais, vai até a porta, verifica a rua. Examina a batina com as vistas. Corre as mãos sobre a cabeça e ajeita o chapéu quadrado. Desloca-se pela nave na direção do altar, retorna para a sacristia. Os fiéis em espera, e na espera tentando encher a cabeça, ocupar os olhos... Mas, com o quê? Minha infância rebrotando na memória, perguntando: “Cadê o ar, o cheiro de igreja?” O altar desertado, com a escultura de um santo expressando expressão nenhuma, em solidão; mobiliário parco, banhado em singeleza pobre; assentos para o assento do celebrante, de dois auxiliares; as paredes laterais em descampado. E a luz do sacrário? Não, não há tremeluzir, e nem flamância. Ah!, a luz não vem de chama, não há fogo, não há ardência, vem de lâmpada em avermelhado fixo. Um pontinho fraco, anêmico. A presença de Cristo lembrada ali. Templo, um nome nomeando espaço cru, despido de mistério. Nada para contemplação, nada puxando meditação. Deus..., nenhum deus pode ter querença de atender chamado para fazer pouso ali. E o tédio se preenchendo em mim pelo viajar de minhas lembranças nos ditos soltos nos ventos de 1725 pelo padre Nuno Marquez Pereira:



Vistes já uma Igreja bem armada, e paramentada de fino ouro; rica prata, luzidos espelhos, perfeitos quadros, custosas sedas, crespos volantes, vistosos frisos, branca cera, flamantes luzes, e em fim fragrantes (...); e ser tudo isto ou parte deste adorno emprestado? Não porque a Igreja para ser digna de todo culto e veneração lhe seja necessário este custoso aparato; porém sim, permite este asseio, e alinho, para lisonja do gosto, agrado da vista, recreio da vontade.



“... lisonja do gosto, agrado da vista, recreio da vontade”.



Cânticos.  A entrada da missa. O padre, atento ao seu visual, observa-se, conserta-se. Emenda a postura de componentes do séquito, corrige suas posições pelo reordenamento dos apetrechos. O encaminhar-se organizado na direção do altar. E cada um toma o seu lugar. O padre procede a celebração no passo a passo de receituário. Suas palavras não contêm fé, não carregam mensagem, não transportam convicção. Alcançam os ouvintes em som oco. Seu olhar não se fixa. Não, não há circunspecção nele. Seus auxiliares, envoltos em pauperismo indumentário, reprimem bocejos enquanto aguardam o momento para reprodução dos movimentos da próxima passagem do ritual.  



Comparecentes à missa: fiéis, não religiosos - sentados em mistura. Os fiéis, na obediência do senta-se, levanta-se, ajoelha-se, canta, escuta, responde, benze-se... Entre eles, vê-se claro, quase todos em proceder por imperativo exterior, com pensamentos voantes, olhares desprendidos, ouvidos dessintonizados. Poucos fiéis com força de fé. E fé forte, ali, ou alimentada pelas lembranças de outras situações ou arrancada nas profundezas de si. Mas por uma ou por outra dessas situações, o aparecimento de manifestações de fervor aqui e acolá, percebidas pela exaltação sincera de vozes, pelo vigor de gestos, pela visão de semblantes crispados. Os comparecentes não religiosos, em silêncio, assistindo a cerimônia, fazendo acompanhamento aos fiéis por replicação respeitosa de proceder. E o fim. O fim, a missa terminou!



Desacontecimento. O padre, seus auxiliares, voltados para si, em trabalho de desapetrechamento, de desparamentação, desmanchando as marcas da cerimônia. Os comparecentes em desarrumo para preparo de partida. Uns conversam por um lado, outros por outro, alguns saindo em despedida com aceno de mãos, alguns escorregando sem despedida. O barulho de vozes se escasseando, se escasseando. Deserto.  Na calçada, um pequeno grupo se segura em conversa. Uma batida de porta. A Igreja fechada. Os componentes do grupo à sorte da rua. Como os demais comparecentes à missa, dispersamo-nos sem deixar sinais de estada ali. E o ali, agora apagado, indistinto, perfilado no comum das edificações da rua. O sentido de meu ter ido lá? Agasalho para ausência inexorável. Mas acabei no nada de uma igreja, de uma missa, na forma de formas sem conteúdo.



Transeuntes, carros, buzinas, semáforos, mais uma esquina, outra rua, o sol... Meu juízo preso na missa, na Igreja. E, no batuque de cabeça, me ocorreu: é preciso que haja templos, mas templos que sejam templos, monumentos sólidos, cerimônias cultuadas, para servirem de coberta à miséria da condição humana. Pensei isso sentindo o frio do nada, enquanto me veio a lembrança de um cruzeiro de beira de estrada. Cruzeiro fincado no frontal de uma curva suave, para destaque inevitável de avistar de andante. Armado em madeira grossa, pintada de preto, apresentava-se com um lençol branco deitado ao longo de seu travessão, com as extremidades pendidas para o chão, na feição de mortalha descansando; fitas coloridas, de coloridos diversos, tremulando, amarradas e deixadas por devotos naquele marco como marco de lembrança, como profissão de fé; sua base arrodeada de pedras pequenas, em formato de monte, postas, uma a uma, por veneradores, como testemunhos eternos de suas reverências. E, nesse cenário, a figura de um senhor, prostrado, indiferente aos ruídos do mundo, no calor do sol, aquecendo seu espirito com oração.



02-06-15


APOGEU

Esmeraldo Lopes



Há coisas que nos ficam na mente e por nada nos abandonam. Vem-me agora uma. É um nome. “Apogeu”. E, com ele, o embalo do som da voz arranhenta de uma professora zoando em meus ouvidos. “Apogeu: ponto culminante”. E o som dessa voz chegando toda vez que ouço, leio ou pronuncio esse nome. Entretanto, nunca havia parado para refletir sobre ele. “Ponto culminante” me bastava para preencher o seu significado, a compreensão de sua aplicação. Pelo que vejo, as outras pessoas com esse mesmo compreender. Ouvem com prazer o dizer que estão no apogeu, dizem em elogio que alguém ou algo o atingiu.



Referências a apogeu de civilizações, de povos, de indivíduos, de acontecimentos se despejando em escritos, ao som de palavras, em representações por imagens. A imaginação pousada nele, pausada, extasiada. No olhar fantasiado das pessoas, um apogeu avistado pelo ver de visão de feitos fantásticos, de desfilar de virtudes, de vida exuberante, do fausto, de glórias. Mas..., em breve parada para reflexão, perguntas: De que foi feito? Como se chegou a ele? Que ocorrências abriram seu percurso? Qual o custo de sua manutenção? Na busca honesta dessas respostas, circulação por subterrâneos. E, neles, o se topar com a imagem de conquistadores, de vencedores impondo exigências horrendas, duras penas sobre os dominados, sobre os vencidos; a descoberta de que o vigor, a beleza dos jardins são mantidos por sua irrigação com lágrimas avermelhadas; o ouvir de gemidos dolorosos embutidos em cada nota melodiosa arrancada de instrumentos finos por mãos hábeis; o ver gotas de suor, cansadas, meladas de sangue, escorrendo sobre a superfície das edificações, dos monumentos. E o se deparar com imagens alquebradas dos feitores do apogeu se querendo vistas em gravuras, em fotografias, em fragmentos de frases rabiscadas nos idos do tempo; querendo se ver no atento do ver da imaginação de observadores. No encurtar de dizer, matéria-prima de apogeu: sacrifício, refrega árdua, alaridos desesperados, enganos e desenganos, crueldades, remorsos, indiferenças, amontoados de cadáveres. Mas, a quem interessa ver ou ouvir ou saber isso?



A trama humana na trajetória do tempo, se inscrevendo na história, fazendo história. E nessa trajetória, movimentos de ascensão, de estabilização, de declínio, de estabilização... Respiração, expiração... A história em novo rumar. Apogeu: ponto de intersecção entre ascensão e declínio. Ascensão, o olhar para frente embalado por espírito utópico, por canto de conquista, por vislumbre de recompensas futuras, por chibatadas, por medos, por mortes. E as conquistas, e sua consumação, e o brotar de frutos. Deleite no desfrute dos frutos. Declínio: desarranjos, arruinamentos. Recusa de sacrifícios, negativa a atividades dificultosas, tédio. Lassidão. Aí, na ferrugem do tempo, proliferação de anemia, cultivo de hedonismo. E a história atravessando o apogeu, colocando-o longe, longe, longe. E da distância do tempo, na distância parida pela desinformação, a mitificação do apogeu, o seu lustramento. Cabeças se voltando em olhar para trás, entrevendo-o por vislumbre nostálgico. O nascimento do mito da Idade de Ouro alimentado e realimentado pela voz de alguma professora, em cada lugar de muitos lugares: “Foi o apogeu: o ponto culminante”. O arregalar de olhos que não enxergam, o afinar de ouvidos que não sabem ouvir, a atenção de juízos que não atinam. E a história habitando nos monturos, sufocada nos subterrâneos do tempo, das edificações.



12/05/15


ANJOS

Esmeraldo Lopes



Olhe a história do homem. O que ele chama de virtude é uma pequena gota, uma gotícula, depurada do oceano de desgraças que pratica. A existência humana é feita com dor, com lágrimas, com todo o tipo de crueldade, de canalhice que se possa imaginar. O homem, por muito que se banhe nas águas de religiões, de súplicas aos deuses, do conhecimento filosófico, do conhecimento científico..., não pode, nunca vai conseguir, se desvencilhar do egoísmo, da crueldade. Egoísmo, crueldade, temperos essenciais de seu ser. Pode, é verdade, por motivo de reconhecimento da condição de miséria de si, ver-se no espelho da miséria dos demais, a eles se afeiçoar, e se derramar em compaixão ou em revolta ou em compaixão e revolta. E, em estado de compaixão, de revolta, ver-se-á inclinado, em luta intensa, a reprimir, a sufocar sua essência, desafiando o ser que é. E nesse sufocamento de si, passa a ser um quase não-ser-humano, ganhando contornos de mutilado, de louco, de idiota. Estrangeiriza-se,  leva vida de estrangeiro e como estrangeiro passa a ser considerado. Mas ser assim, coisa para uns alguns bem poucos, uns nada no meio de milhares, de milhões. O quase absoluto dos humanos apenas em vista de si, vendo na desgraça alheia a condição de seu bem-estar, o critério de avaliação de seu progresso. Disputas, lutas encarniçadas.



A sociedade se fazendo pelo aprisionamento dos homens a deuses, a reis; por imposição de ordem amarrada em costumes, em mandados, em leis; pelo estabelecimento de mecanismos de controle; pela visão do estandarte do medo, da vergonha, tremulando, acenando ameaça. Tiranias, monarquias, democracias, aristocracias, ditaduras. E eis que entre vindas e idas, tropeços e solavancos, calmarias e procelas, pensadores proclamando o sonho do nascimento do cidadão. Cidadão: ser aureolado pela ideia de liberdade, de igualdade; cultivando dignidade, responsabilidade; armado com a aspiração de justiça. Cidadão: guerreiro da democracia. Na democracia, um estatuto comum articulado em formato de lei, criado na refrega de embates ardentes. Embates animados ao som de liberdade de expressão, e ao ritmo de participação. Aí, a sociedade avistada como espaço de conflitos; a democracia como terreno para confrontos sem choque físico. O estatuto comum articulado dentro dos princípios básicos de igualdade, de liberdade, mediando as relações sociais, prescrevendo direitos, deveres, proibições, deixando no aberto amplo espaço para ações individuais, grupais. E entrechoques entre os limites da esfera da liberdade e da igualdade; entre os limites da esfera individual e da esfera coletiva; e entrechoques entre grupos, entre indivíduos. No embalo desses entrechoques, o surgimento de problemas infinitos, a infinda busca de soluções, estimuladas, conduzidas pela liberdade de pensamento, de expressão, de manifestação. E se outras liberdades aceitam poda, encurralamento, a liberdade de expressão, de pensamento, requer plenitude, não pode existir pela metade. E vem a necessidade dos membros da sociedade se moldarem no chacoalhar dos confrontos, aprenderem a assimilar açoites verbais, e com açoites verbais se defenderem, atacarem. Por esse meio se compreenderem, por ele, arranjarem maneira de se tolerarem. Limite de intromissão posto por lei apenas para calúnia, para devassa de transcorrido na intimidade de espaço da vida privada. Mais que isso, censura vinda pelo autocontrole ditado por valores éticos, por temor de recriminação moral.  Mas, mesmo com todo esse festival de liberdade, o estandarte do medo, da vergonha, tremulando no ar. Tremulando no ar com seu suporte fincado na convicção de que os homens, por muito que possam querer, não conseguem se transformar em anjos, mas sem esforço nenhum se igualam a diabos.



O desenrolar da vida social na direção do acontecer falado, mas eis que uma ideia mirabolante: os homens são anjos. E aqueles que se apresentam em cara de diabo, assim o fazem por culpa de traumas, de maus-tratos recebidos, “São vitimas!”, “Vítimas!”, mas podem e devem ser anjificados. E os agarrados nesse pensar, se jogando no mundo em pregação, recitando versos da reza da paz: “só faz o mal quem não conhece o bem”; “o homem pode ser melhorado”; “o homem é construído”; “o homem é o que fizeram dele”... Para melhorá-lo, para reconstruí-lo como um ser bom, abolir punições, julgamentos, medidas repressoras, constrangimentos, ameaças, amarras morais. Pautar-se por ações de “sedução”, de “compreensão”, de “conscientização”. Nestas palavras, o caminho da redenção do mundo. Sim!, compreender para seduzir, seduzir para conscientizar. Conscientização, eis aí o novo estandarte. O estandarte da paz total. O homem apanhado como tábula rasa, como ser indefeso, como vitima, como incapaz completo ou como um monstro em armação de carne com feição de humano. Mas assim até ser tocado pela vara miraculosa da conscientização sob a batuta de missionários conscientizadores. E a espera pela ocorrência do milagre de despir os conscientizados de todos os preconceitos, e os levar a se porem em obediência absoluta aos mandamentos de vida reta: “aceitar as diferenças”; “concordar com o diferente”; “não julgar”; “não discriminar”; “tolerar”... Mas vem que o poder do milagre é fraco, requerendo de seus destinatários postura de permissividade excessiva, de tolerância auto anulante, de insensibilidade transcendental, e se transforma em fermento de reação. 



Os autodeclarados “diferentes” se dizendo oprimidos, massacrados, incompreendidos, discriminados, se juntando, formando subcultura, criando identidade própria. Descobrem-se minoria. Por esse se ver, rejeitam o estatuto comum da sociedade, embora se apoiem nele para reivindicar, para assegurar direitos. Acusam-no de opressor, de cerceador de seu querer, de seu ser. Reivindicam respeito à particularidade. Exigem direitos especiais. Instituições públicas, privadas, agentes institucionais em cumprimento de mandatos ou de carreira, enquadrados no discurso dos missionários conscientizadores, das minorias, em busca de afeiçoamento às metrópoles, para afinado de discurso com o Iluminismo. E minoria uma, e minoria outra, e mais outra... minorias surgindo, se conflitando. Cada minoria se pondo na consideração de centro da sociedade, querendo avanço, destroçando o território das outras minorias, da maioria, rasgando o estatuto comum, pisoteando os princípios de cidadania, se impondo sem atenção de limite, de respeito. A sociedade em fragmentos, sem passo de encontro, em cara de colcha de retalhos. A maioria anêmica, em estado de acefalia, se vendo forçada a tolerar o intolerável, observando o acontecer em indignação silenciosa, mastigando raiva, nutrindo ódio, ansiando redentor, esperando o grito de estouro. De dentro dela, reações camufladas, explícitas, violentas. De quando em quando, um pensar contestando em bradejo; manifestação de objeção; proclamação de posição contrária, de negação. Refrega. Os missionários conscientizadores se sentindo ofendidos, os membros de alguma minoria se declarando constrangidos. Então, seus “Os Desfensores” se erguem montados em razão rasa, vomitando espanto, invadidos por convicção fanática, pronunciando os gritos de guerra: “Absurdo!” (“...”) A intolerância dos pregadores de tolerância aflorando com virulência de tempestade. E desabam tropeçando sobre os mandamentos que apregoam. Reclamam punição para os que não aceitam o seu querer, o seu ser, o seu pensar. Julgam-nos, discriminam-nos, vilipendiam-nos, defenestram-nos. E cada missionário conscientizador, cada minoria, se agarra ao sonho de censura a palavras, a expressões, a manifestações, a pensamentos que decretam inconvenientes; e deseja a ampliação das prisões; e propugna por medidas segregacionistas; e se incute a ideia de superioridade. E missionários conscientizadores, membros de minorias, imaginando as vantagens de algo semelhante à Santa Inquisição para o êxito da obra de eliminação dos preconceitos, para implantação inconteste de seu querer, para a submissão ou aniquilação completa de seus opositores. Paz total. Uma sociedade de anjos. De anjos atentos, encarniçados guerreiros do bem. Do bem, movidos a ódio, em luta contra o mal.



15/04/15



 


CULPADO HISTÓRICO

Esmeraldo Lopes



Toda época tem suas modas, suas verdades, suas manias. No tempo presente, um dos principais elementos da moda, da verdade é o culpado histórico. No passado de não muito tempo, essa figura sem existência, e ao que hoje se atribui a ele, atribuía-se à índole dos indivíduos, ao destino, à sina, à vontade de Deus, à tentação do Diabo. Assim o mundo girou até que veio o nascimento da convicção de que todas as ocorrências humanas nascem, se transformam, se sustentam e findam pelo acontecer inspirado, provocado sob a batuta da supremacia, sob a exclusiva direção dos interesses, da vontade dos mais fortes. E os paridores desse pensar começaram a desresponsabilizar Deus, o Diabo, a aposentar o destino, a sina, a extinguir a índole dos indivíduos. Deram à luz o culpado histórico. No mesmo ato de seu parto descobriram que ele nascia com o feito de trazer consigo uma cria: a vítima histórica. E se para os que acreditam na existência do Diabo, os homens podendo colocar oposição às suas investidas; se para os que aceitam a ideia da existência de inclinações naturais, os homens podendo reagir contra elas, diante do culpado histórico, este ser irrefreável, responsável absoluto por todas as desgraças, um oceano de vítimas especiais: seres passivos, incapazes, indefesos, totalmente irresponsáveis, padecendo de inocência crônica. Coitadas eternas, estas vítimas históricas, irremediavelmente esculpidas e constantemente retocadas ou, ainda em forma bruta, esperando a ação de escultor.



No ver dos apregoadores do culpado histórico, a cara dele no feitio de demônio mais poderoso que Lúcifer. E eles o figuram e o transfiguram em variedade de imagem, de dizer: sistema, capitalismo, opressor, explorador, colonizador... E ora sendo avistado em cara de gente, ora em representação de instituição, ora no formato de conduta, de ação, mas sempre exalando o cheiro de monstro, exibindo garras de fera, bafejando fogo no fazer de dragão. E o divisar deste ser em cultivo do solo do Vale dos Impotentes, nele implantando, mantendo um vasto estatuário. E aos milhares, estátuas de oprimidos, de explorados, de colonizados, de marginalizados, de discriminados. Todas em faces múltiplas, suspirando lacrimejar de acocorados. Vítimas históricas em lamento eterno. E ainda que os apregoadores do culpado histórico vejam essas vítimas sorrindo, dançando, sonhando, em remanso de sossego, declaram-nas mergulhadas em um mundo de alienação, de estupidez, motivo de sua satisfação – coitadas. E ainda que as vejam estuprando, assassinando, explorando, oprimindo, vagabundeando, proclamam-nas inocentes por serem suas ações reflexas, derivadas, por elas terem sido moldadas ao som da violência dos golpes de seus escultores. São como são por terem sido feitas assim. E por esse assim, aqueles que, não sendo também vítimas, sofram golpes de atos violentos seus, devem calar em penitência, assumir a condição de réus.



Os apregoadores do culpado histórico estufando indignação, se pondo em posição de salvacionistas, reclamando, requerendo reparação, medidas compensatórias de danos ocasionados no passado, se autodeclarando combatentes em vigília de salvaguarda das vítimas históricas. E delas tudo a ser aceito, entendido, tolerado. Exigem que o culpado histórico manifeste sentimento de culpa, dobre o corpo diante delas, reverenciem-nas, a elas se submeta, corrija seus pensamentos, suas palavras, suas atitudes para não constrangê-las. E por considerarem as vítimas históricas carentes incorrigíveis, incapazes, os apregoadores do culpado histórico as paternalizam, colocam-nas no colo, carregam-nas pela mão, orientam seus passos, catequizam-nas. Põem-se em batalha para a criação de leis que lhes proporcionem condição especial, ascensão social a facão, através de reservas de espaços exclusivos, de cotas. Embalam-se com o gritar: “Inclusão! Inclusão!” E condenação à meritocracia, combate a posturas de rigor educacional, recusa terminante a qualquer ação que vise refinamento cultural, autonomia intelectual. E o a se entender, desentendido. No mesmo ritmo dessas condenações, da batalha por criação de leis especiais, de reserva de espaços exclusivos, o esbravejar contra todo tipo de discriminação, o ecoar de suas vozes reivindicando liberdade de expressão, igualdade de direitos, educação de qualidade.



Culpado histórico... Quem? Os apregoadores do culpado histórico em enxergar o cenário social com olhar zarolho-zambeta, lançando mão de régua biruta para fazer classificações. E por essas classificações, marcada com o carimbo de culpado histórico, gente descendente de possuidores de riqueza e de poder no atrás da história; gente portando título de estudo elevado ou com o possuir de alguma posse, com posse de riqueza grande ou média ou em cargo de importância; gente de pele branca, branca mas pobre. Toda essa gente marcada pela posição econômica, pela situação social, pela descendência, pelo manchado da pele.



Vítimas históricas... Quem? Negros, índios, mestiços, pobres. Mas eis que o existir de negros, de mestiços em possuir de riqueza, com grau de estudo elevado, montado em cargo importante, em situação de conforto, em condição estimada. Aí, cúmplices do culpado histórico, culpados também, entrando na conta para pagamento de dívida às vítimas históricas. E, no correr ligeiro do olho, o avistar de brancos mourejando em dificuldade, deitados na pobreza, mas sem lograrem perder a classificação de aparentado do culpado histórico, pela denúncia da cor.



No ponto de fim, vítimas históricas, quem? No ver do olhar zarolho-zambeta dos apregoadores do culpado histórico, auxiliado por medida feita com régua biruta, vítimas históricas, aqueles que perderam a força de andar sobre os próprios pés; os enganchados nas beiras dos caminhos; os que se sacodem ao ritmo do vento; os embalados pela esperança de socorro de ajuda; os desalentados; os desajustados de todos os tipos. Também coletividades de negros, de índios, desde que renunciem a bom gosto, à busca de desenvolvimento cultural, intelectual, à aspiração por vida digna, querer de autonomia, como todos os que aceitam e se cobrem com o manto purificador da condição de vítimas, e com orgulho estufam o peito e gritam: “Eu sou vítima, eu sou excluído!”



30/04/15


ENGASGO

Esmeraldo Lopes



Há o nebuloso do tempo, mas inda me deparo com a imagem da agonia de Japi. Um osso se enganchara em sua garganta e ele se debatia com desespero, soltava tosse rouca, insistente, sem cadência; gania, não conseguia latir. Os olhos não sabiam para onde olhar, esbugalhados, e nós ao seu redor, providenciando solução com reza, com tapa em suas costas. Houve quem aventurasse enfiar a mão na garganta dele e tentar arrancar a causa do tormento, inglório; houve quem se lembrasse de despejar óleo de rícino em suas goelas, inglório. Se alguém se afoitou em feitio de promessa para socorro dele, não sei. Se aconteceu, também inglório. Não havia outros recursos, nada mais a ser feito. Plantamo-nos na tristeza de velar com nossa impotência aquele sofrer, de acudi-lo com as lágrimas de nosso compadecimento. Daí para frente não lembro mais, a não ser que Japi morreu arrodeado por nós, engasgando nossos sentimentos, se inscrevendo em lembranças, lembradas e relembradas por anos, mas que lentamente foram morrendo, persistindo, em descambo de ponto final, em dois ou três de nós, que ainda vivem. Na bruma, procuro ver: éramos oito ou nove ou dez, ali.



No tempo de Japi, tratamento dado a gente quedada em agonia de doença, de aflição causada por dor séria no corpo, não diferia muito do destinado a ele. Digamos: a atenção era redobrada, mais insistente, mais cuidadosa, recoberta por preocupação atordoadora, atingia muito mais gente, mas o rodopiar em torno dos mesmos recursos. Os recursos no canto de uma gaveta, pendurados em algum canto da casa dentro de embornal; trazidos na cabeça pelo saber fazer beberagem com raízes, com folhas, com cascas de paus; pelo saber de alguma oração; pelo socorro de rezador, de “cientistas”, de promessa a santo forte. No mais, que a providência divina acudisse. E enquanto a situação não resolvida, o moribundo no agasalho de sua doença, entregue ao a acontecer, se tornando alvo de atenção. Nesse estar, recebia tratamento, carinho, nunca a ele destinado no correr da vida. Sobre ele, o despejar de cuidados por parte dos parentes próximos, de consideração de visita atenciosa por parte de parentes distantes, dos vizinhos, dos conhecidos. E sua casa, no correr do dia, ponto de convergência de passantes que quebravam a estrada e lhe vinham dar um adeus, manifestar desejo de melhora, sentar para uma palestra sobre acontecidos e esperados; no entrar da boca da noite, ponto de encontro dos moradores do lugar, o destaque da presença de algum visitante mais de longe. O moribundo no centro, lamuriando, contando, recontando, detalhe por detalhe, o sucedido que lhe levara àquele acontecer, narrando a movimentação, os passos, o caminho do andar do mal afligidor em seu corpo, ajudando o entendimento com gestos de demonstração. Por fim, o pronunciar: “Estou nessa situação, nas mãos de Deus!” Os presentes, condolentes, se exprimindo em voz pesarosa: “Vai ficar bom, se Deus quiser!” E a benzedeira chegando para mais uma benzida, e uma comadre aparecendo com uma beberagem, e a hora do remédio do “cientista”, a chegada da hora de tomar o remédio de farmácia divulgado em propaganda de rádio.



A notícia do moribundo correndo as redondezas, alimentado assunto: “Tá melhor”; “Piorou!”. No cerco de complicação, a sentença: “Só está esperando a hora marcada pelo querer de Deus”. A hora do querer de Deus chegada. E a morte sem míngua de assistência, sem engasgo, ao embalo de choros mansos, de choros escandalosos. A sentinela alimentada por recordações de acontecidos testemunhados por alguns presentes, e todos os presentes querendo declarar algum testemunho. Depois, o funeral no conforme do desenrolar ditado pelo costume. O moribundo virara finado, e como finado, só iria entrar em ponto final do existir em lembrança depois do transcorrer de duas, de três gerações.



... Se aconteceu de alguém deixado à míngua? Houve suceder assim, em um caso ou em outro, por um ou por outro motivo, por motivo de nenhuma ligança. Se o abandonado, gente de reputação sem mancha, um calado em torno do ocorrido com ele, mas sempre alguém a se penitenciar pela lembrança da culpa do próprio proceder: “Morreu à míngua, sozinho, sem ninguém pra adjutorar. Não sei por que deixaram isso acontecer”. E um osso invisível deslizando no vazio do silêncio, futucando gargantas, acordando lembranças postadas em querença de se esquecer.



O andado do tempo. O Estado se botou na obrigação de fornecimento de tratamento de saúde para todos. Hospitais, médicos, remédios de farmácia. O decreto científico de condenação dos recursos do passado. O povo pegou crença em hospital, em médico, em remédio de farmácia. No correr de pouco tempo, doenças, situações matadeiras perdendo vigor. A medicina, as ciências, galopando progresso. E os médicos fazendo milagre, consertando gente quebrada, arrancando mal complicado; e os remédios destruindo doença rúim, afastando dor, pondo acerto em desmantelo de saúde. Aparelhos enxergando doenças no recôndito de doente. Exames, exames, exames, revelando problemas, conhecimentos científicos indicando soluções. Os médicos se especializando, se afunilando em conhecer, aumentando a capacidade de ação. Remédios baratos, remédios caros, remédios muito caros, remédios com preços muito altos comprados no estrangeiro. O surgimento de equipamentos complexos, custosos, requerendo instalações sofisticadas. E o anúncio que para problema esse, para problema aquele, existindo tratamento em cidade mais ou menos, em capital longe, em cidade do estrangeiro. A medicina em vanglória de quase Deus. Médicos solicitando exames, exames, indicando tratamentos com remédio, com aparelhos, como medida para conquista de cura.



Especialistas, equipamentos complexos, instalações sofisticadas, medicamentos a custo alto, tratamentos complicados, onerosos, exames e mais exames... O Estado de boca aberta, se declarando incapaz, sem suficiência de recursos para bancar o comprometido. O povo avançando sobre os hospitais, procurando médicos, exigindo tratamento. E os hospitais públicos em falência. Filas, enfermarias entupidas, UTIs sem suficiência para atendimento, corredores carregados de doentes. Faltança de coisas, mau cheiro no ar, piso sujo... As instalações e os equipamentos dos hospitais em bagaço. Casas de saúde: depósitos de desgraça, focos de infecções. E os médicos em insatisfação, em trabalho de trabalho porco, se queixando de falta de recursos, de ganho minguado, de excesso de gente para atender, da precariedade das casas de saúde. Enfermeiros, assistentes de enfermagem, em aperreio, sobrevivendo pelo não enxergar, pelo não ouvir, se insensibilizando para cheiro ruim, abandonando atenção em norma de higiene.



Lágrimas de abandono despejadas em macas, em leitos desassistidos. Gritos, lamúrias, chamados. “Ai”, “Me ajude aqui!”, “Tragam um médico!” “Eu quero ir no banheiro!”, “Tô com sede”... E em alguma cabeça, o ricochetear da voz do médico especialista dizendo: “O remédio é tal, mas o governo não fornece. Tem que comprar nos Estados Unidos. Custa vinte mil para um mês”; o timbre indiferente ou compadecido da voz da funcionária dizendo não ter como atender. A distância de tempo longo para a feitura de cirurgias urgentes. Laboratórios... Fila de meses, de anos, para realização de exames. Mais outra fila no perdido do tempo para consulta de retorno ao médico. Gemidos explodindo da alma, olhares desalentados em entrever, pensamentos embalados por desesperos. Pessoas assistindo o progredir de doenças fatais dentro de si, machucando-as, as empurrando para a morte. Dor no corpo, dor na alma. Angústia desabalada. A impotência clamando em agonia, gritando no deserto. O se ver apodrecer na solidão de desamparo absoluto. E o doente engasgado, em engasgo solitário, sem ter quem lhe escute, sem ter de quem ouvir, sem ver movimento de ação em sua direção para lhe acudir. Morte à míngua. Pena de morte sem a companhia de clamor. E, de verdade, a ele, ao morrente, ao morto, alguma saudadezinha leve trazida por recordação ligeira, raros, raros suspiros de sentimento, na semelhança dos vários que foram dedicados a Japi.



23/04/15


ORAÇÃO

Esmeraldo Lopes



Visagens não existem, mas elas não deixam de nos acompanhar, de nos atormentar, de nos esperançar, de nos desesperar. Por muito que não liguemos para elas ou não as percebamos, elas se plantam em algum canto de nossas memórias, e ficam lá, prontas para entrarem em ação, trazendo-nos céus, infernos, às vezes ambos ao mesmo tempo. Um barulho, uma imagem, uma lembrança, um movimento inesperado, uma ocorrência qualquer... e o desabrochar de visagens portando estandartes e neles, estampadas cenas do vale de lágrimas da tragédia humana, cenas denunciadoras de traços nefandos de nosso caráter, cenas de situações que gostaríamos de não lembrar, de atos de injustiça, de crueldade, de omissão, de atos de conivência, testemunhados, praticados por nós. Não há como se esconder, como negar, como escamotear. Pelo exame dos acontecimentos desnudos de disfarce, o assombroso relato da verdade soando manso: “Foi o que ocorreu”. E cada um, como testemunha integral de si, conhecedor dos detalhes, milímetro por milímetro, enxergando o feito, o não feito, o intencionado, a trapaça pura, a trapaça disfarçada em grandeza, o pensado, o julgado. Aí, o golpe da introspecção, as chicotadas do sentimento de culpa, a reflexão estirada no silêncio interior. As virtudes em insignificância. E desponta, revelado em esplendor, sem direito a ofuscado, a segredo de sombras, um ser minúsculo, miserável, covarde, mesquinho, banhado de vergonha. Os olhos de nossa consciência, desapontada, o identificam: “Este sou eu”. E este “eu”, acabrunhado, se envolve no próprio corpo, exprimindo o eterno interrogar: “Por quê?” “Por que” e “porquês” infinitos lançados no infinito. Não há resposta. Solidão. O “eu” desta agonia, em retrospectiva da vida, avaliando seu ser, seu ter sido, seu estar, ao embalo de sofrimento abrasador, enreda e compõe, palavra a palavra, frase a frase, uma oração. E, em cadência doída, a pronúncia desta oração para si mesmo, no cenário do mundo mudo, surdo, indiferente. Corpo em pausa, olhos em sereno, um ummmm ofegante cortando silêncio. Aí, o gemido de São Paulo, o santo: “... não faço o bem que quero, mas justamente o mal que não quero é que eu faço”; o murmúrio de Schopenhauer: “O homem é livre para fazer o que quer, mas não para querer o que quer”; a conclusão de Sócrates: “É melhor sofrer uma injustiça que praticá-la”; a angústia de Camus: sobra-nos a revolta.



Infelizes seres, os que precisam compor sua própria oração; os que não conseguem sufocar as visagens no lago do esquecimento e nem conhecem o milagre da indiferença; infelizes aqueles que não sabem se guardar, por omissão, para o gozo de felicidade no aquém e preparo para a felicidade eterna no mundo do além;  infelizes os que não procuram sufocar suas culpas com as cordas do recital de orações encontradas prontas, em forma escrita ou aprendidas pela audiência do seu pronunciar vindo do púlpito de algum templo; infelizes os que não sabem lavar suas culpas nas águas do perdão, e não sabem fingir se compadecer dos sofrimentos ocorrentes no mundo por dever de devoção. Infelizes os que não conseguem se fechar nas preocupações de satisfazerem a si, a seus instintos e necessidades, e reservar afeição apenas a seus familiares. Infelizes os que não desdenham dos espantalhos que se abrigam dentro de si ou nãos os exorcizam a custo qualquer. A estes infelizes, o degredo perpétuo na introspecção; condenação à composição de orações, sem fim.



06-04-15


TRANSTORNO TRANSCENDENTAL

Esmeraldo Lopes



Nelson Rodrigues dizia que os imbecis iriam tomar conta do mundo. Aliás, afirmava já o terem feito. Ele morreu. Seria ótimo que certas criaturas fossem eternas, e em sua eternidade se pusessem a nos lançar o brilho de suas ideias, de seus dizeres, de suas observações, de seus feitos, de suas belezas ou simplesmente de suas existências. 



Outro dia, folheando um livro, me deparei com uma fotografia estampando a imagem de uma atriz brasileira, me parece que da década de 1930. Não retive seu nome. Descansei minhas vistas sobre ela, e ela me levou em viagem a algum lugar nenhum. Lugar suave, sereno, bonito, muito bonito: sublime. Pelo bem ou mal, talvez por ambos, a morte nos surrupiou a presença dela, ao impedi-la de seguir no tempo. Restou-nos uma fotografia. E a fotografia a salvou das engelhas da velhice, lhe arrancou da miséria da condição humana. Aí foi que eu vim entender o motivo de gregos, de romanos, de pintores e escultores, anônimos e célebres, terem se gastado tanto esculpindo, gravando, imagens de deuses. Buscavam conservar a personificação de virtudes em um presente purificado, o estancando na eternidade, para a própria apreciação, para a contemplação de seus contemporâneos, da posteridade ou buscavam simplesmente se libertar de inquietação de ânimo. Nessa busca, gasto físico, cansaço mental, frustrações, angústias à dimensão de montanhas. Por fim, a imagem, imponente, majestosa, assentada em ponto qualquer para apanhado livre de vistas. E, enquanto as pessoas transitando ao seu redor, ora em remoer de dramas, ora se confrontando, ora em obra de simples transitar, ora a contemplando. A imagem ali, indiferente, insensível, às circunstâncias, ao tempo, em expressar inalterado. Os dias, os anos, os séculos.



Desejar a perenidade de criaturas geniais, virtuosas, é um ato egoísta. Tem cara de condenação a castigo cruel demais. Imagine-se o sofrimento de um ser que fosse forçado a conviver com todas as mediocridades humanas, a suportá-las, em infinito. Nem Deus, se existisse, suportaria. Revogaria toda a obra de sua criação, apagaria sua memória, se asilaria no nada. Mesmo assim, em manifestação de profundo egoísmo, desejamos que algumas criaturas fossem eternas, e até quase todos nós desejamos a eternidade. Mas felizmente a morte é cega, democrática. Sai ceifando, sem considerar apelo por clemência, sem tomar conhecimento da palavra exceção. Sábia, desconsidera o apelo dos estúpidos pela eternidade; é justa e piedosa: não aguentaria presenciar o suplício perene de criaturas geniais, virtuosas.



Poderia ser outro ou outros, mas como abri este escrito com Nelson Rodrigues, o retomo. No correr de sua vida, fugiu de agasalho na altura dos muros, não se deu a proceder por comando externo, nem se fez por simpatia de conveniência. Lançou-se na tempestade da vida sem temeridade, guiando-se nela por leitura própria, se posicionando pelo prumo de suas convicções, não se pondo em silêncio de observações caladas. Foi o que foi, e como foi no próprio de seu ser, procedendo, se expressando pelo autêntico de seu pensar, acabou atacado pelos esquerdistas, pelos direitistas, pelos de centro, pelas feministas, por machistas, por intelectuais, pelo povo, pelos homossexuais, pelos religiosos, pelos ateus... E foi agraciado com as alcunhas de “tarado!”, “reacionário!”, “machista!” “pornográfico”... Morreu se debatendo contra o mundo que não o entendia, que protestava contra a sua existência; se revirando na solidão do leito de morte de intelectual que não faz concessão a maneirismos de dândis.



Desejar a eternidade a um gênio não é prêmio. É punição. Imagine-se Nelson Rodrigues ainda vivo, hoje. Não conseguiria trabalho em nenhum meio de comunicação; colecionaria moitas de processos; receberia uma reprimenda a cada palavra escrita, a cada palavra pronunciada; acabaria como inquilino de cadeia, acusado, ao mesmo tempo, por uso de expressão de homofobia, de discriminação racial, de desrespeito a minorias, de constrangimento cultural, étnico, sexual, e o que mais possa ser imaginado. Pela via mais rápida, seria estapeado ou apedrejado nas ruas, em ambientes de trânsito coletivo. Faça-se outro imaginar. Suponha-se Nelson Rodrigues ressuscitado. Ele, ainda batendo o pó da terra impregnada em sua roupa, se deslocaria pelas ruas de seu antigo pisar. E a cada passo, um espanto. Os olhos se acendendo, os cabelos se levantando, a cabeça girando em desassossego de admiração. No prosseguir de algum ver, de algum ouvir, perceberia que havia sido transformado em celebridade elogiada, objeto de estudo em escolas, alvo de citação no mundo da cultura. Ali, mais acolá, vir-lhe-ia um batido no ouvido: “mulher rodriguiana”, “personagem rodriguiano”, “frase rodriguiana”... Dar-se-ia que tipos sociais que o denegriam, e a quem ele respondia com frases cruelmente ferinas, agora aureolam seu nome com panegíricos, às vezes, até com expressar soando estranho: “Nelson Rodrigues é simplesmente f a n t á s t i c o. Eu o adoro, ai que homem brilhante!” O endeusamento de suas peças, de seus livros, de suas crônicas. E ao ser convidado a “fazer um t o u r ” pelos teatros, se defrontaria com atores, com diretores, no formato de gente macia, aveludada, “civilizada”, entoando delicadamente frases pungentes brotadas pelo correr do sangue de sua imaginação. Não reconheceria sua produção no presente. Vendo-se no olho do vazio do mundo, entraria em introspecção impotente. Mas alguém lhe acudiria: “Agora vivemos a época do politicamente correto. A humanidade está em trabalho de banir os preconceitos do mundo”. Nelson Rodrigues pediria detalhamento de explicação. E ouviria da boca da universitária sua anfitriã, sua guia, a informação de que os escritores clássicos escreviam de modo elitista, afastando as pessoas da leitura. Por isso, “haviam estruturado um maravilhoso projeto de reescrita de obras de escritores clássicos, simplificando-as com a finalidade de torná-las acessíveis a estudantes de ensino médio, e ao povo em geral, para despertar a curiosidade de leitores novos. Machado de Assis era elitista. O senhor conhece bem o elitismo da escrita dele. Escrevia de modo inacessível ao povo”. Os ouvidos de Nelson Rodrigues se afinariam ainda mais, os olhos serenariam, um fio de baba escorregaria pelo seu beiço, mas ele não perceberia. No continuar do ouvir, escuta: “Monteiro Lobato. Monteiro Lobato era racista, preconceituoso, instigador de violência contra os animais. Estamos nos movimentando para censurar, para corrigir algumas passagens de seus livros. Imagine que ele escreveu: ‘Negrinha era uma pobre órfão de sete anos’. Viu o absurdo! Isso não pode ser dito, nem ser escrito, nem pensado. E a cantiga ‘Atirei o pau no gato’?! Absurdo, absurdo! Agora ensinamos as crianças a catarem assim: ‘Não atirei o pau no gato, porque isso não se faz. O gatinho é bonzinho e devemos proteger os animais’. O senhor também é instigador da violência contra os animais? Espero que não! Seria uma decepção! Uma decepção!” Nelson Rodrigues em suor, sem saber se acordado, se dormindo, se vivo, se morto, se presente, se ausente. Mas a voz da universitária, incessante, cortando o universo: “O senhor passou alguns anos afastado, não sei onde, mas está havendo muito avanço. Estamos abolindo a comemoração do Dias dos Pais e do Dia das Mães. Eu sou órfã de mãe e sofria muito no período de comemoração do Dia das Mães. Por causa dos órfãos, já falavam em acabá-lo. Mas agora vão acabar mesmo com essa comemoração. Ainda bem. Nas escolas do município de São Paulo já a acabaram. Mas lá por causa dos filhos dos homossexuais...” Levantando rápido, Nelson Rodrigues interpelaria a universitária: “Como? Filhos de quem!!!!????!!!!????” A universitária retomaria: “Filhos dos homossexuais. Como ficariam os filhos deles na comemoração do Dia dos Pais ou do Dia das Mães? A proposta agora é comemorar O Dia de Quem Cuida de Mim. Senhor Nelson, está provado: sexo é besteira, é um simples aspecto da natureza. A natureza não é nada. Tudo é uma questão de construção social, de escolha. O senhor é preconceituoso, homofóbico? O que vale é a escolha.” E Nelson Rodrigues sentiria abalos de ataque cardíaco fulminante. Abandonaria a companhia de sua anfitriã. Entraria em um botequim, o último botequim do tempo de seu tempo. Pediria um copo de leite. Viria cachorros vira-latas famintos, com olhos tristes espiando galetos girando na assadeira elétrica. Não entenderia nada ao ver os cachorros tratarem com indiferença pedaços de carne assada, enfiados em espetos, postos ao alcance de suas bocas. Ao perguntar ao dono do botequim o motivo dos cachorros não comerem aquela carne, ele responderia: “É uma carne que comprei para fazer churrasquinho. Todo mundo fala nela, todo mundo fala e ressalta as virtudes dela, mas ninguém a quer comer, nem os vira-latas. É carne de politicamente corretos”. Nelson Rodrigues sentiria vontade de beijar os cachorros, um a um. Ainda pensando no que lhe fora dito pela universitária, se interrogaria em meditação: “Irão eles mandar matar todas as mães do mundo? Não consigo imaginar um mundo sem mães!”. E se encaminharia na direção do cemitério, procurando lembrar a localização de sua tumba, matutando meio rápido de se suicidar, selando morte para a eternidade do sempre.



28-0315


FIM DO MUNDO

Esmeraldo Lopes



Senhor chegou perguntando pelos de casa. Vinha cansado, suado, mastigado pelo sol, assoprando quentura, sonhando com água fresca. Se bem que fosse criado e feito no mato, agora se vestia e falava no jeito de gente da rua. Não era mais tabaréu. Ao convite da dona da casa, se abancou na sala em prosa de querer saber dos sucedidos nos chãos de nossos pisados. Ninguém havia morrido, nenhuma moça bulida, nenhuma notícia de roubo de bode, ausência de sinal de chuva. Na vaga desse desassuntado, Senhor se pôs a anunciar a iminência do fim do mundo, a chegada de Deus com seu exército tocando trombetas. E começou a zombar dos pais que colocavam filhos na escola, de quem em preocupação com futuro longínquo. “Deus tá chegando! De que adianta botar os filhos na escola, se o mundo tá pra se acabar?! O fim tá próximo e Deus vai julgar todos. Ninguém se esconde!” Flechado por convicção assim, restando preparação da alma, se cuidar contra tentação do Coisa Rúim, se postar em espera. Espera pelo fim do mundo debaixo de estrondar vindo do Céu, de tremor embalançando a terra. Os meninos, em amedrontamento pavoroso, com os olhos espichados, imaginando a bagaceira de um Deus raivoso indicando o caminho do inferno aos “caídos”. O inferno cheio de pecadores atirados ao fogo. E cães enfiando-lhes espetos de ferro, se redobrando em gargalhadas ao verem os pecadores se saracoteando no meio das lavaredas à imagem da imagem vista na capa de um catecismo católico. Os anos. Perfilado com os guerreiros de Deus em luta visível e invisível contra o Diabo, em obra de glorificação do Senhor, Senhor se colocou no certo da ideia de que quem não entrincheirado do seu lado, partidário do “Inimigo”, causa de todos os males. Não percebeu o morrer, o nascer, o decair, o brotar de tempos. O ontem, o hoje, o amanhã, tudo na iguala da mesma coisa. O marco da divisa do mundo: o Grande Dia, o Dia do Juízo Final.



O discurso, o proceder de Senhor, tidos e havidos, por gente detentora de algum saber mais pensado, como coisa de ignorante, de alienado, de fanático. De fato, esse achado, difícil de negar, confirmado, sustentado, apenas por quem pensa e procede como ele.  E ao dizer isso, nada estou falando além do óbvio. Mas é que preciso falar desse óbvio para me reportar a outro. A outro óbvio, emprenhado nas universidades, que berra nos salões de academias, dorme em livros, ruge em programas de televisão, late nas rádios, esturra nas ruas e, mesmo assim poucas pessoas o percebem. E dessas poucas que o percebem, quase nenhuma ousa proclamá-lo.



Quando me joguei na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, era 1977. Ditadura. Passeatas, palestras, debates, atos públicos, leitura de jornais, conversas em botequins, assembleias estudantis, passada de olhos em livros-catecismo. Vi-me banhado em um rio de sabedoria plena, completa, à disposição de quem em querença de encontro com a verdade. O se preencher com sabedoria, o encontro com a verdade, não requeriam sacrifício de pensamento, nem angústia de dúvida, nem estudo sistemático dosado com disciplina intelectual. Ao contrário, a sabedoria, a verdade, eram cristalinas, e uma vez a gente dando um passo em sua direção, elas nos atingiam por ofuscamento da consciência. Socialista: rótulo da glorificação. Tinha-se que ser socialista, se se pretendesse algum merecimento em ambiente de sapientes, em espaço de cultivo da verdade.  Aquele que buscasse alcançar alguma verdade, algum nível de sabedoria, através do sacrifício de pensamento, da angústia de dúvida, de estudo sistemático dosado com disciplina intelectual, teria existência de zumbi nos meios de frequência da gente. Com sorte, seria classificado como alienado, peso morto da história; entretanto, no geral, acusavam-no de ser elitista burguês, opressor da classe operária, travanca da liberdade, da igualdade, da justiça. Para o alcance da sabedoria, encontro com a verdade, bastava correr os olhos nos escritos de Karl Marx ou ler rabiscados ou ouvir ditos de seus discípulos santificados. Engolir as palavras impressas nas contas do rosário da religião do saber sem dúvida: revolução proletária, luta de classes, contradição, mais-valia, exploração, emancipação..., trazer na mente trechos de algumas orações: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”; “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”. No mais, explicação das causas dos males do mundo em uma frase: “O problema é o capitalismo”. Depois daí, buscar respeito de consideração intelectual, reconhecimento de revolucionário, de combatente contra a Ditadura, pela vomitação das palavras, das orações da reza revolucionária, pela produção de análises-reprodução, de análise-reconfirmação, dos afirmados marxistas; pelo se fazer presente em manifestações políticas em prol do proletariado, participar de atos contra a Ditadura, pelo combate aos adeptos do sistema. E como alvo final, no daqui a pouco, a derrubada da Ditadura militar, no depois, em um depois não muito distante, o fulgor da liberdade, da igualdade, iluminando o mundo através dos raios da Grande Revolução Proletária. E “Viva o Socialismo!” Aqueles sem esse acreditar, quem fora do piado piado por Marx, por seus discípulos santificados, por discordância,  por questionamento, por pensar autônomo; quem em dizer algum dizer de aceitação, de tolerância com algum ato, com proceder do governo,  inimigo dos trabalhadores, reacionário, defensor da Ditadura militar, agente do capitalismo, excluídos do rol dos aceitos, dos perdoados, à chegada do breve, do revolucionário acontecer.



Agentes da Ditadura, defensores do capitalismo, se agarrando na veneração de seu acreditar, seguros de suas verdades eternas, em prevenção total contra o Apocalipse Comunista. E contra este apocalipse, tudo permitido. “O comunismo é o inferno!”, “Os comunistas são demônios, causadores das desgraças sociais!” “O capitalismo é paraíso”. E quem quer que dirigisse censura a atos da Ditadura, à mazelas do capitalismo, vilipendiado, acusado de ser comunista, inimigo da pátria, encarcerado, torturado, morto. Mas tudo isso tendo como pano de fundo argumentos bem ensebados, vestidos em teorias com cheiro de erudição, recitados em voz de eloquência sublime.



Impressionante. Deitado, com a cabeça fora do mundo, fui pego com minha memória jogando meus olhos no passado. Veio-me Senhor, depois o final da década de 1970, a Escola de Sociologia e o seguir, chegando por fim aos dias atuais. Comecei a rir de minha imbecilidade dos anos de sapiente. Eu tinha resposta para tudo. Todos os problemas seriam rapidamente resolvidos. A causa de todos eles era o capitalismo e a solução, o socialismo. O Grande Dia viria, como sem dúvida. E pensei sobre os argumentos, sobre as convicções e posições dos defensores das ideias capitalistas. Qual é mesmo a diferença fundamental entre o eixo do pensamento dos comunistas, dos capitalistas e o de Senhor? Sem saber como e nem porque, antes de tentar resposta, me vieram imagens da manifestação convocada por sindicalistas, petistas, organizações sociais, em defesa de Dilma, da Petrobrás. Inscrições em cartazes acusando os contrários de direitistas, fascistas, inimigos do Brasil. E a minha tristeza ao ver a tristeza daquele povo uniformizado, caminhando sem entusiasmo de vida, sem assento de razão, sem convicção de ideais, servindo para defesa de falcatruas, se autoproclamando socialistas, se manifestando ao preço de ajuda de custo. Veio-me também a imagem de minha imagem no cenário da manifestação Fora Dilma, Fora PT. Eu ali, atraído pela palavra de ordem motivo do movimento, dissolvido na multidão, embalado por convicção concorde no atacado, destoante no varejo, invadido por barulho de apitos, por bater de panelas, por gritos de “fora comunistas”, “fora Dilma”, “abaixo a esquerda”, “impeachment”, “cadeia para os corruptos”, “fim da corrupção”.    E faixas permeadas por inscrições “quando a pátria chama”, “a Camargo Correia é séria”, “Loja Maçônica...”, “Pela intervenção militar”, “fora Dilma”... A alegria barulhenta dos manifestantes. Manifestantes diferentes daqueles que eu houvera acostumado a me ombrear em tempos outros. Diferentes pela estampa física, pela indumentária, pela disposição. E a voz da galega bem nutrida, cheirando a improbidade administrativa, gritando: “Fora corr u p t o s!”; a madame em passo suave demonstrando empolgação através dos gestos, desabafando: “Vá embora vagabunda!”. O locutor sem saber o que dizer, sem palavra de discurso, chamou outro que também não sabia o que dizer. Então, “vamos agora ouvir respeitosamente o hino nacional”. E o hino nacional uma vez, duas vezes, três vezes. E no que não é de se esperar, lá vem o “caminhando e cantando...” Eu ali, oprimido, sufocado, deslocado, procurando lugar naquele lugar, convicto de que apesar de tudo, nesse contexto, meu lugar é ali. E ali, como zumbi, fiquei, gritei, sorri, observei. Mas quando, em de repente, o locutor conclamou os manifestantes para rezarem o Pai Nosso, orei: “Senhor, eu sou ateu, mas como seria bom que existisse mesmo, e já tivesse acontecido, o Juízo Final”.



23/03/15


RITMO DA PRAIA, OH! LINDA

Esmeraldo Lopes



O sol, pendente, escondendo-se atrás das edificações, mas teimando, despejando o que resta de sua claridade sobre a noite que se anuncia pelo marcado do tempo, provocando festival de cores ao lançar raios sobre nuvens dispersas no céu. O mar como caminho infinito, como esteira para carreira do vento, e o vento se batendo contra as águas, provocando ondas, assoprando a areia, se batendo contra as folhas dos coqueiros. As ondas se chocando, se chocando contra o vento, roncando, rodopiando na beira da praia. Nesse embalo, o roncar incessante das ondas, o contínuo do som das batidas das folhas de coqueiros, sem premeditação, compondo uma canção, a canção da praia. E ao som dessa canção, ao ritmo do vento, folhas de castanholas, lixo avulso, dançando no chão, vozes indivisas vozeando perto, longe, alto, baixo, à direita, à esquerda, à frente, atrás. E, no passo a passo de seu andar pelo caminho da orla, o caminhante vendo o ambiente mudando, vendo pessoas em estar de muitos jeitos. Pessoas na água tomando banho, surfando, pescando. Pessoas na areia da praia jogando bola, fazendo malabarismos, praticando exercícios, andando. Pessoas sentadas nas cadeiras das barracas bebendo, conversando, se beijando, remoendo pesadelos. Pessoas nas calçadas, paradas, se movimentando, curiando a movimentação. Pessoas enfileiradas em agasalho no estirado do banco da orla em simples descanso, em pose de apreciação do mar, em se abraçar em jeito de namoro calmo, de namoro acochado, em deitado de olhar no infinito, infinito espremido longe entre o céu e o mar, em viagem por dentro de si, em assuntamento silencioso do mundo, em conversa assuntada, em conversas sem fundo de valia séria... E o caminhante avistando outros que vem, outros que vão. Caminhantes em passo de exercício físico, em passo de desopilação, em andar de idade avançada, em andar de carrego de gordura pesada, em ritmo desenfreado de juízos curtos depositados dentro de idades mínimas. No mesmo trajeto do andar, mães passeando filhos, mulheres passeando cachorros, alaridos de jovens em encontro de alegria, velhos jogando dominó, hippies ofertando penduricalhos para enfeite, garçons atendendo fregueses, adolescentes deslizando sobre esqueites... E a aporrinhação de ciclistas abandonando a faixa própria para seu ir, invadindo o espaço de transeuntes a pé. Policiais em distinção de autoridade, circulando, se esforçando para não enxergar, indiferentes ao dever, em imagem de espantalhos que não assustam. O lixo das barracas, dos prédios plantados ao lado, amontoados no passeio da orla, atrapalhando o andar, agredindo a paisagem, ferindo a visão, rações para gatos colocadas sobre o assento do banco, no chão; no chão, excrementos de cachorros. No certo de certos pontos na direção do norte, mijões mijando na rua, sem reserva de respeito, sem desconfiança de medo. E o mijo anunciando existência pelos molhado no passeio, pelo fedor. O fedor mergulhando nos narizes dos caminhantes, explodindo pulmão adentro, atrapalhando a respiração. E som de música anima-mundiça invadindo o espaço, sufocando, enfeando a canção da praia. Isso, a normalidade de todo dia. Mas a noite em breve engolirá o dia. A praia se retomará. Desvencilhar-se-á provisoriamente da poluição humana. Animais bípedes têm hábitos diurnos. 



13/03/15


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