Azul retira voos de Imperatriz
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Cientistas encontram vida 'adormecida' há mais de 10 mil anos em caverna de cristal

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 2/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 3/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 4/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 5/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 6/6
POR QUE NINGUÉM DIZ A VERDADE SOBRE OS CURSOS DO PRONATEC?

                                                                                                                 Esmeraldo Lopes



É impressionante a incompetência da oposição – se é que existe – e da imprensa. Dilma transformou o Pronatec em vitrine de sua campanha e ninguém ousou verificar as condições de funcionamento dos cursos. Tirando os cursos ministrados pelo Sistema S (Senai, Sesc…), o restante, com exceções realmente excepcionais, é ministrado por instituições que não dispõem da menor condição para tal.



Os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFs), que gozam de uma certa consideração da sociedade, não dispõem de estrutura adequada, conhecimento técnico e quadro para tal. Se implementaram os cursos, foi tão-somente como medida de captação de recursos e por interesse de professores e funcionários administrativos. Estes passaram a disputar a tapa uma vaga para ministrar disciplinas nos cursos, pois, no mesmo horário de trabalho no IF – às vezes em prejuízo às atividades normais para as quais estão contratados – pegam turmas do Pronatec e por cada aula recebem R$ 50,00.



TODOS GANHAM, MENOS OS ALUNOS



Como muitas disciplinas nesses cursos dispõem de uma carga horária de 20 aulas, aí já embolsam R$ 1.000,00, extras, caso peguem apenas uma turma. Funcionários administrativos agem pela mesma forma. Há os que dão aula e há os que recebem um extra pelo simples fato de desenvolverem atividades para o curso. Assim, se um funcionário tira cópias xerox para o Pronatec, exige e recebe pagamento extra.



O coordenador dos cursos recebe uma boa remuneração extra e a Instituição recebe por aluno. Quero dizer: ganha a Instituição, ganha o professor, ganha o funcionário, mas os alunos se lascam, pois os cursos, como regra, não capacitam ninguém a nada.



E os alunos? Bem, a maioria desiste, mas para garantir o faturamento a Instituição mantém o nome deles como se frequentando estivessem.



Como mecanismo de atração e manutenção dos alunos no curso, resolveu-se oferecer um bolsa a cada um deles, talvez a única vantagem que possam obter. No saldo do tudo, o Brasil se lasca. E o grave é que ninguém investiga. Quem duvidar procure um aluno que faça que tenha feito curso do Pronatec em algum IF e pergunte a ele.



(Texto publicado na Tribuna da Internet em 10 de junho de 2015. Por solicitação de alguns leitores coloco-o no espaço de opinião).



 19/02/17


MAGNÓLIA

Esmeraldo Lopes



A claridade, o calor saídos de dezenas de velas acesas, sufocados pela luz e quentura do sol. Mas, ainda assim, as velas atraindo atenção pelo queimar de suas ceras defumando o ambiente com cheiro de morte. Um coro desentoado, descoordenado de vozes lamentosas, chorosas, agoniadas, recortadas por gritos de dor desesperada, chegando de outras salas, dos corredores. E na vaga de algum silêncio, o barulho pálido do crepitar das velas queimando, acompanhado por vozes murmuriantes dos poucos presentes, e pelo som sem cadência vindo das bocas de gente com olhares silenciosos, remoídos, sem ânimo, refugiados debaixo da sombra rala de um arbusto acanhado, e aprisionado dentro de um minúsculo círculo livre de cimento em um chão varrido, nu, sem vida. Esticando as vistas no seguir do pátio, vários grupinhos de pessoas se arrodeiam, lamentando ou forçando respeito de condolência aos mortos que lhes trouxeram ali, indiferentes aos mortos dos outros. Mas algumas dessas pessoas saindo da roda, pondo a curiosidade para passear na face da morte estampada em cada rosto de finado exposto nas salas de velório. Não miram apenas a morte, examinam os que sofrem, os que fingem sofrer, os que apenas se põem em postura respeitosa. E elas medem a dor que explode pela boca e invade o corpo, e a alma dos que se quedam na impotência diante do irreversível ocorrido com um dos seus. E, quando a curiosidade dessas pessoas deixa de encontrar amparo, voltam para os conhecidos. Umas viajando no profundo de si, quase todas farejando o que mais ver, assistindo, assistindo, vigiando o andar lento dos minutos no relógio. De momento em momento, sem obediência a regularidade de tempo, o aparecimento de um coveiro empurrando um carrinho para transporte de mortos, na direção a uma das salas de funeral. O altear do tom de choros. E o coveiro pronto para guiar o cortejo. O cortejo sai, vai, e desaparece. Rearrumação da sala desocupada. Outro finado chegando, e com ele, outras pessoas. Renovar de lamentos iguais. No final do corredor, a preparação para mais uma caminhada fúnebre.



Daqui a três horas, sem nenhuma dúvida, um coveiro retornará e repetirá o proceder, com os mesmos gestos, soltando a mesma comunicação, sem gasto de pensamento, sem consumo de emoção. Dessa feita virá na direção de nossa lamentação e nos movimentará. 



Magnólia se findou sem aviso de doença. Ora ali, velada por uma, duas... cinco pessoas. Quietude, desassunto na sala.  O vazio querendo se preencher. Buscou vida. A voz dela se acendeu, seu corpo começou a se animar lá no fundo do atrás. O passado jogou o presente no ausente, se fez presente. E, nisso, ilustradas por gestos serenos, iluminadas por olhar esperançoso, as palavras saindo de sua boca para certificar o despontar de um período novo de sua existência. O emprego que conquistou sólido, salário suficiente, as relações com os colegas, com a vizinhança, sem abalo para queixumes, e para aumento da fortuna, seu nome acabara de ser sorteado para a obtenção de uma casa com financiamento feito nas facilidades do governo. Os filhos estudando em escola particular. Não precisava mais desaguar raiva sobre o marido por este não se por em providência para resguardar a família de situação de precisão. Tolerava-o perto de si, e até o mantinha, por não achar certo separar os filhos do pai, também por ver conveniência em ter alguém para, em uma terra estranha, anunciar como marido. Mas sentia falta da família - mãe, pai, irmãos, sobrinhos, primos, parentes de sangue um pouco mais afastado, cunhados; falta da cidade, dos lugares onde sempre pisara; sentia a ausência dos conhecidos com quem fizera história, de quem testemunhara acontecimentos... Vê-se como uma estrangeira na cidade onde está. Não consegue viver longe de seu lugar, da família. “Família é tudo, vocês não acham?” Não, quer ter o que já tem, mas no seu lugar, do jeito seu, junto dos seus! E junto aos seus, viverá a felicidade de casa cheia, de visitas de abraços apertados, aconchegantes. Aí, será o céu. O emprego... Poderá solicitar transferência; a casa, venderá. E com a condição que já dispõe, aliada ao apoio da família, às facilidades que advirão pelo domínio sobre o ambiente de sua intimidade, e decorrentes dos relacionamentos pessoais, em muito melhorará a condição de sua vida e dos filhos, e dará início à realização do alvo principal de seu sonho.



No tempo de criança, Magnólia sempre arranjara maneira de ir para a casa da avó. Para ela, a casa da avó era parecida com o lugar que a professora do catecismo falava que os anjos moravam. Ficava em uma rua descalça. Quase todas as casas construídas grudadas umas nas outras, com umas mais altas, outras mais baixas, mostrando paredes desaprumadas - puxadas para frente, puxadas para trás -, e separadas da rua por uma calçada estreita, mas estirada, viajando em curvas mansas. A casa de sua avó em diferença. Ao invés de parede, um muro baixo no alinhamento da calçada. Por entrada, uma cancela pequena de duas bandas. Depois da cancela, ao alcance de umas oito ou dez passadas sem pressa, a construção. A construção: paredes bem alinhadas, boa de altura, a porta da frente ladeada por janelas, janelas também olhando para as paredes laterais do muro situado a uns oito metros. A cozinha cumprimentando um alpendre. E avistado do alpendre, lá na divisa com o vizinho do fundo, um galinheiro, protegido pela sombra de uma mangueira. Por toda a área livre do terreno, plantas de frutas, plantas de flores, enraizadas, plantas pequenas em caqueiros e dentro de latas, e o chão varrido, asseado. Tudo na medida de suficiência para agrado de menino inventar brincadeira, e brincar! Pisando no piso pisado por Magnólia, também alguns primos, alguns meninos vizinhos. A cancela sem por barreira a chegante. E, no brinca que brinca, a voz da avó chamando: “Meninos, venham merendar!”  Na mesa - mesa coberta com toalha de retalhos coloridos -, rapadura raspada, farinha, colheres, copos de alumínio areados. Ao lado, um pote, e, ao lado dele, duas moringas com os gargalos vestidos com enfeite de bordado servindo como tampa. E os meninos esticando os olhos: “É jacuba!”. Rapadura, farinha e água misturadas no embalo do mexido de colher remexendo dentro do copo. Às vezes, pisado de coco com farinha e açúcar; às vezes, café com farinha; às vezes, pedaço de rapadura; conforme o acontecer do tempo, a oferta na mesa, fruta. Acontecia da avó não chamar, não oferecer nada. Magnólia pausa, põe a mão no queixo. Um suspiro comprido, fundo: “Era tudo muito bom!”



À tarde, depois da hora da merenda, a avó na sala, sentada - “Parece que estou vendo... e ouvindo!” - pondo-se a mexer em bordado ou em renda ou agasalhada atrás da máquina de costura dando alguma providência em pano, sem compromisso de pressa. E entre um movimento e outro, o passear das vistas no muro, no movimento dos meninos, na rua, respondendo ao aceno de alguém que lhe joga cumprimento lá de fora. Ora por outra ela levanta, vai até a cancela para olhar a rua, deseja boa tarde aos que passam, dá adeus aos que também apreciam o acontecer da tarde. Entre esse ir e voltar, em um sempre se repetindo a atenção dela chamada pela gulodice de sabiás coca, de currupiões pinicando mamão, pinha, goiaba; pelo canto de cardeais, pelas piruetas e gritar barulhento de bem-te-vis, por zunidos das asas de beija-flores, pendurados no ar, beijando flores...   Assim até o momento em que o apito da fábrica de cerâmica avisa o encerramento do dia de trabalho. Aí a avó se movimenta para ligar o rádio e ouvir “as preces das Ave Maria”  e colocar uma toalha e uma bacia com água na jardineira. Logo, logo, os trabalhadores começam a aparecer. Uns passando, outros se achegando em suas casas. O avô de Magnólia entra vestido em roupas de panos grossos, soltando seu cheiro de fumo misturado com suor, assoprando cansaço. Abençoa os netos, fala com a mulher, lava as mãos, asseia o rosto, se enxuga. Caminha para a frente da casa e joga o corpo sobre um banco. Abre a camisa, solta os pés, e os dedos dos pés tomam ar, dançam em gozo de liberdade. O cheiro de café fugindo da cozinha, perfumando toda a casa, se lançando no quintal.  O bule chegando, expirando fumaça.  Café quente, forte, fresco! Um vizinho, um compadre, um colega, um parente em puxado de conversa, um ou outro filho aparecendo - filho sempre em aparecimento. E, ligeiro, a noite no silêncio do sono. Quando Magnólia acorda, o avô já saiu. Seu café na mesa e a avó, com a cabeça toda enrolada com um pano, em labuta de varrer o quintal. E nessa labuta, o chap-chap da vassoura de palha, a terra dançando no vento, o aspergir do chão para suavizar a poeira. Depois, molhar as plantas com água carregada em balde, da cisterna. A arrumação da casa... E a retomada das passadas dos passos de ontem, de anteontem, todo dia, todo dia...



As impressões, as observações, os acontecidos nunca adormecidos, os achados pelo rebusco da memória, os marcos destacados no mapear do futuro saindo da boca de Magnólia no salteado de horas, de dias, de semanas, conforme a ocasião dos momentos, sem enredo de fala conjuntada, reta, contínua.



Mirando o futuro, Magnólia desenhara para si um querer inspirado no retrato do ambiente de vida de sua avó. Por ele, via-se, logo depois do sair do sol, com um pano amarrado na cabeça, empunhando uma vassoura de palha, varrendo o chão do jardim de sua casa. No jardim haveria plantas grandes, plantas em caqueiros, plantas rastejando o chão, dando abrigo a calangos, protegendo caseiros de formigas. Colocaria comida em vasilhas para os passarinhos se contentarem. Procuraria aproximação com eles, dar-lhes-ia nomes e vê-los-ia pular de galho em galho, saltitar pelo chão limpo... E, sua voz se levanta tangendo o silêncio: “Todo mundo tem um sonho. O meu é esse!”



A vida, o mundo. Magnólia se transferira para sua cidade, vendera a casa, pusera-se em proximidade dos seus. Os filhos crescendo em tamanho, em exigência, abraçando querer de ser em conformidade com os brilhos avistados, difundidos, se negando a sacrifício, a responsabilidade, trapaceando os estudos, desbancando todo assento de disciplina. Ela, fugindo de confronto com eles, se alimentando com a esperança de que os filhos mudassem, alcançassem compreensão; cedendo a pedidos, a expectativas de parentes. O salário se esfarrapando no contar de poucos dias. A casa? Moradia alugada. O preço do aluguel empurrando a moradia para mais longe. Mas não para tão longe. Os filhos sem aceitar condição de dificuldade de residência muito distante. Então, acumular endividamento de aluguel, suportar ameaças de proprietários, esperar sentença de despejo. Netos aparecendo, abrigados na avó. E a resolução de um filho de morar em casa outra, e de outro filho também, em atendimento às imposições de suas mulheres. Despesas se acrescentando, despencando sobre Magnólia, e ela em valia de cartão de crédito um, cartão de crédito outro, mais outro; empréstimo no banco “a”, empréstimo no banco “b”; empenho do décimo terceiro salário... Descontentamento de filhos, pedidos chorosos de netos. Insatisfações, oceano de insuficiências, mergulho na impotência. “Incompetente!” E o rosto de Magnólia engelhando, engelhando, os olhos ganhando fosco; os cabelos embranquecendo, caindo, secando; o corpo curvando murcho. Murcho, vestido com panos comprados em barracas de roupas baratas, na feira do bairro, com assinatura em ficha de crediário. E, depois de se aposentar, evitou visitar os colegas que permaneceram na ativa, mas não foi esquecida. E passou a não atender os convites deles para encontros festivos, de final de tarde de alguma sexta-feira. Segredou, serenamente, a uma amiga que lhe apertou em cobrança de presença: “Não tenho roupa, não tenho dinheiro para colaborar com nada, não tenho como pagar o transporte. Tenho vergonha!”.   Esse estar a se aprofundar dia a dia, mês a mês, ano a ano. Aí, ela ouviu um estalo, um estalo acompanhado por um fisgado que relampejou forte, bem forte, dentro de si. E não viu mais nada.



A sala de velório agora cheia. Gente da vizinhança de Magnólia, parentes, ex-colegas de trabalho chegando. Chegando no quase chegar do horário anunciado. Velas... Mais velas acesas, estalando. “Pai Nosso”, “Ave Maria”, palavras de despedida. E o som continuado do choro choroso de um menino agarrado ao caixão, entrecortando os dizeres, as rezas, fazendo minar lágrimas em alguns presentes. Choro mesmo, só o dele. Ele: neto de um dos irmãos de Magnólia. Sempre retribuíra os carinhos recebidos dela, chamando-a de avó e a tomando como avó de verdade, devotando-lhe obediência e muito querer bem.



 O coveiro chegou procurando a sala de funeral pelo número escrito na ficha que carrega na mão. Quer confirmação da identidade da morta. E se aproxima do caixão. Nada de surpresa. O horário é sabido, as palavras já dadas, a reza rezada. A tampa do caixão... E soluços, soluços, respirações profundas... Caixão fechado. O coveiro encaminha o cortejo em seguir vagaroso. Segue, para. Gavetas de ossários se erguem do chão a mais de dois metros, enfileiradas de um lado e do outro do caminho – é uma rua. Vestidas de abandono, há gavetas expondo rachaduras, paredes descascadas, nomes e datas quase apagados, apagados. Em uma e outra, ossos se mostrando. Mortos esquecidos!  Morte da morte! Poucas, poucas quase nenhuma, estampando rastro de vida cultivando memória. Em uma dessas gavetas, o nome do habitante, a data de nascimento, de falecimento reacendidos há pouco tempo com tinta preta, por mão sem traquejo em escrita, com uso de pincel improvisado, e o dizer: “Sempre na minha lembrança”. E um arrumado de flores de plástico, em cores fortes, dentro da imitação de um jarro, denunciando atenção de cuidado. O cortejo segue. Há cortejos adiante, há cortejo atrás. É uma fila! A fila agora se encaminha por uma avenida de túmulos, entra em uma rua na direção do destino. O ringir do sacolejo do carrinho, o barulho das rodas no chão, o chiado do movimento de pés pisando, algum respiro de soluço, alguma zoada de tosse reprimida. Tudo isso fazendo música ao adeus-até-nunca-mais. Uma área aberta, sem túmulos desponta cheia de covas alinhadas. De um dos lados dela, vêem-se quatro cortejos adiante, três atrás, todos enfileirados, parados. Estão no aguardo de chamada para consumação dos atos. Dentro da área, alguns coveiros preparando covas, outros executando sepultamentos, envoltos pelos acompanhantes de cada morto em enterro. E a execução de um sepultamento perto, outro mais à esquerda, mais um lá no final. Do outro lado, fazendo fundo a essa área de covas, ruínas de ossários descambando, na forma de desagasalho de favela feia. E lá se vai mais um cortejo na direção dos coveiros que chamam. Assim, até o chamado se dirigir ao nosso. Vamos! Vamos pisando por cima de covas de mortos recentes, de mortos não tão antigos, com os pés afundando na terra remexida, pisando sobre restos de caixões, fazendo curvas para nos desviarmos de covas abertas. Os coveiros indicam o lugar, assumem o caixão. A cova é rasa. Cova rasa!!! A tampa do caixão no nível do piso do chão. “Como isso pode ser?!!!” Põem-se a jogar terra sobre o féretro, cuidando em amontoá-la sobre ele de modo a não o deixarem à mostra, de modo a impedir fuga de cheiro. “É terreno da prefeitura. Cova provisória. No contado de dois anos os ossos terão que ser removidos”, circula a informação. As pessoas saindo. Não há marco para identificação da cova. As outras covas estão no limpo, sem números, sem cruzes, sem lápides. “Morte da morte”. Os primeiros sinais do crepúsculo se jogam como sombras douradas sobre manchas de nuvens que se esparramam no céu. Os coveiros entraram em providenciamento de outro proceder igual. Deixaram uma pá fincada em lugar próximo à cova de Magnólia , e pousado no seu cabo, um bem-te-vi trina, jogando vida naquele deserto de alegria, deserto de alegria onde sobras, lembranças de vida são sepultas sem deixar marca, e desaparecem no esquecimento eterno.



14/02/17


MEMÓRIA DA CAATINGA

Esmeraldo Lopes



Ideário para exposição no Clisertão 2016 – UPE - Petrolina.



Foi-me proposto abordar o tema Memória da Caatinga. Como tanto um termo como o outro vêm sendo utilizados com variação de conotação, acho conveniente iniciar esclarecendo o significado que atribuo a eles. Caatinga aqui, não se confunde nem com cenário e imaginário de desgraça, nem com sertão nem muito menos com semiárido, termos difusos, vazios. É um espaço com personalidade própria. Ambiente natural, caracterizado pela junção de topografia, solo, e clima



TEXTO COMPLETO NA SEÇÃO  IMAGENS E PROBLEMÁTICAS DA CAATINGA


A MISSA

Esmeraldo Lopes



Outro dia, circunstâncias me levaram até uma igreja para assistir a uma missa. Quando cheguei, a celebração ainda em fase preparatória. Pessoas com rastros de sono nos rostos adentrando, dirigindo-se mansas no rumo de assento; membros do coral tomando posição; auxiliares do padre, uns se paramentando, outros em preparação dos apetrechos da cerimônia. E, entrecortando o silêncio, murmúrios, pigarreados, barulho descompassado provocado por batidas involuntárias nos bancos, sons de pisadas, espirros, chiado de microfonia, notas desalinhadas de instrumentos musicais. O padre em pronto, saindo da sacristia acelerado, atraindo chamamento deslumbrado de atenção, com movimento de olhar ligeiro despejado sobre os fiéis, sobre a equipe celebrante, fingindo inspecionar o ambiente. E circula pelas laterais, vai até a porta, verifica a rua. Examina a batina com as vistas. Corre as mãos sobre a cabeça e ajeita o chapéu quadrado. Desloca-se pela nave na direção do altar, retorna para a sacristia. Os fiéis em espera, e na espera tentando encher a cabeça, ocupar os olhos... Mas, com o quê? Minha infância rebrotando na memória, perguntando: “Cadê o ar, o cheiro de igreja?” O altar desertado, com a escultura de um santo expressando expressão nenhuma, em solidão; mobiliário parco, banhado em singeleza pobre; assentos para o assento do celebrante, de dois auxiliares; as paredes laterais em descampado. E a luz do sacrário? Não, não há tremeluzir, e nem flamância. Ah!, a luz não vem de chama, não há fogo, não há ardência, vem de lâmpada em avermelhado fixo. Um pontinho fraco, anêmico. A presença de Cristo lembrada ali. Templo, um nome nomeando espaço cru, despido de mistério. Nada para contemplação, nada puxando meditação. Deus..., nenhum deus pode ter querença de atender chamado para fazer pouso ali. E o tédio se preenchendo em mim pelo viajar de minhas lembranças nos ditos soltos nos ventos de 1725 pelo padre Nuno Marquez Pereira:



Vistes já uma Igreja bem armada, e paramentada de fino ouro; rica prata, luzidos espelhos, perfeitos quadros, custosas sedas, crespos volantes, vistosos frisos, branca cera, flamantes luzes, e em fim fragrantes (...); e ser tudo isto ou parte deste adorno emprestado? Não porque a Igreja para ser digna de todo culto e veneração lhe seja necessário este custoso aparato; porém sim, permite este asseio, e alinho, para lisonja do gosto, agrado da vista, recreio da vontade.



“... lisonja do gosto, agrado da vista, recreio da vontade”.



Cânticos.  A entrada da missa. O padre, atento ao seu visual, observa-se, conserta-se. Emenda a postura de componentes do séquito, corrige suas posições pelo reordenamento dos apetrechos. O encaminhar-se organizado na direção do altar. E cada um toma o seu lugar. O padre procede a celebração no passo a passo de receituário. Suas palavras não contêm fé, não carregam mensagem, não transportam convicção. Alcançam os ouvintes em som oco. Seu olhar não se fixa. Não, não há circunspecção nele. Seus auxiliares, envoltos em pauperismo indumentário, reprimem bocejos enquanto aguardam o momento para reprodução dos movimentos da próxima passagem do ritual.  



Comparecentes à missa: fiéis, não religiosos - sentados em mistura. Os fiéis, na obediência do senta-se, levanta-se, ajoelha-se, canta, escuta, responde, benze-se... Entre eles, vê-se claro, quase todos em proceder por imperativo exterior, com pensamentos voantes, olhares desprendidos, ouvidos dessintonizados. Poucos fiéis com força de fé. E fé forte, ali, ou alimentada pelas lembranças de outras situações ou arrancada nas profundezas de si. Mas por uma ou por outra dessas situações, o aparecimento de manifestações de fervor aqui e acolá, percebidas pela exaltação sincera de vozes, pelo vigor de gestos, pela visão de semblantes crispados. Os comparecentes não religiosos, em silêncio, assistindo a cerimônia, fazendo acompanhamento aos fiéis por replicação respeitosa de proceder. E o fim. O fim, a missa terminou!



Desacontecimento. O padre, seus auxiliares, voltados para si, em trabalho de desapetrechamento, de desparamentação, desmanchando as marcas da cerimônia. Os comparecentes em desarrumo para preparo de partida. Uns conversam por um lado, outros por outro, alguns saindo em despedida com aceno de mãos, alguns escorregando sem despedida. O barulho de vozes se escasseando, se escasseando. Deserto.  Na calçada, um pequeno grupo se segura em conversa. Uma batida de porta. A Igreja fechada. Os componentes do grupo à sorte da rua. Como os demais comparecentes à missa, dispersamo-nos sem deixar sinais de estada ali. E o ali, agora apagado, indistinto, perfilado no comum das edificações da rua. O sentido de meu ter ido lá? Agasalho para ausência inexorável. Mas acabei no nada de uma igreja, de uma missa, na forma de formas sem conteúdo.



Transeuntes, carros, buzinas, semáforos, mais uma esquina, outra rua, o sol... Meu juízo preso na missa, na Igreja. E, no batuque de cabeça, me ocorreu: é preciso que haja templos, mas templos que sejam templos, monumentos sólidos, cerimônias cultuadas, para servirem de coberta à miséria da condição humana. Pensei isso sentindo o frio do nada, enquanto me veio a lembrança de um cruzeiro de beira de estrada. Cruzeiro fincado no frontal de uma curva suave, para destaque inevitável de avistar de andante. Armado em madeira grossa, pintada de preto, apresentava-se com um lençol branco deitado ao longo de seu travessão, com as extremidades pendidas para o chão, na feição de mortalha descansando; fitas coloridas, de coloridos diversos, tremulando, amarradas e deixadas por devotos naquele marco como marco de lembrança, como profissão de fé; sua base arrodeada de pedras pequenas, em formato de monte, postas, uma a uma, por veneradores, como testemunhos eternos de suas reverências. E, nesse cenário, a figura de um senhor, prostrado, indiferente aos ruídos do mundo, no calor do sol, aquecendo seu espirito com oração.



02-06-15


APOGEU

Esmeraldo Lopes



Há coisas que nos ficam na mente e por nada nos abandonam. Vem-me agora uma. É um nome. “Apogeu”. E, com ele, o embalo do som da voz arranhenta de uma professora zoando em meus ouvidos. “Apogeu: ponto culminante”. E o som dessa voz chegando toda vez que ouço, leio ou pronuncio esse nome. Entretanto, nunca havia parado para refletir sobre ele. “Ponto culminante” me bastava para preencher o seu significado, a compreensão de sua aplicação. Pelo que vejo, as outras pessoas com esse mesmo compreender. Ouvem com prazer o dizer que estão no apogeu, dizem em elogio que alguém ou algo o atingiu.



Referências a apogeu de civilizações, de povos, de indivíduos, de acontecimentos se despejando em escritos, ao som de palavras, em representações por imagens. A imaginação pousada nele, pausada, extasiada. No olhar fantasiado das pessoas, um apogeu avistado pelo ver de visão de feitos fantásticos, de desfilar de virtudes, de vida exuberante, do fausto, de glórias. Mas..., em breve parada para reflexão, perguntas: De que foi feito? Como se chegou a ele? Que ocorrências abriram seu percurso? Qual o custo de sua manutenção? Na busca honesta dessas respostas, circulação por subterrâneos. E, neles, o se topar com a imagem de conquistadores, de vencedores impondo exigências horrendas, duras penas sobre os dominados, sobre os vencidos; a descoberta de que o vigor, a beleza dos jardins são mantidos por sua irrigação com lágrimas avermelhadas; o ouvir de gemidos dolorosos embutidos em cada nota melodiosa arrancada de instrumentos finos por mãos hábeis; o ver gotas de suor, cansadas, meladas de sangue, escorrendo sobre a superfície das edificações, dos monumentos. E o se deparar com imagens alquebradas dos feitores do apogeu se querendo vistas em gravuras, em fotografias, em fragmentos de frases rabiscadas nos idos do tempo; querendo se ver no atento do ver da imaginação de observadores. No encurtar de dizer, matéria-prima de apogeu: sacrifício, refrega árdua, alaridos desesperados, enganos e desenganos, crueldades, remorsos, indiferenças, amontoados de cadáveres. Mas, a quem interessa ver ou ouvir ou saber isso?



A trama humana na trajetória do tempo, se inscrevendo na história, fazendo história. E nessa trajetória, movimentos de ascensão, de estabilização, de declínio, de estabilização... Respiração, expiração... A história em novo rumar. Apogeu: ponto de intersecção entre ascensão e declínio. Ascensão, o olhar para frente embalado por espírito utópico, por canto de conquista, por vislumbre de recompensas futuras, por chibatadas, por medos, por mortes. E as conquistas, e sua consumação, e o brotar de frutos. Deleite no desfrute dos frutos. Declínio: desarranjos, arruinamentos. Recusa de sacrifícios, negativa a atividades dificultosas, tédio. Lassidão. Aí, na ferrugem do tempo, proliferação de anemia, cultivo de hedonismo. E a história atravessando o apogeu, colocando-o longe, longe, longe. E da distância do tempo, na distância parida pela desinformação, a mitificação do apogeu, o seu lustramento. Cabeças se voltando em olhar para trás, entrevendo-o por vislumbre nostálgico. O nascimento do mito da Idade de Ouro alimentado e realimentado pela voz de alguma professora, em cada lugar de muitos lugares: “Foi o apogeu: o ponto culminante”. O arregalar de olhos que não enxergam, o afinar de ouvidos que não sabem ouvir, a atenção de juízos que não atinam. E a história habitando nos monturos, sufocada nos subterrâneos do tempo, das edificações.



12/05/15


ANJOS

Esmeraldo Lopes



Olhe a história do homem. O que ele chama de virtude é uma pequena gota, uma gotícula, depurada do oceano de desgraças que pratica. A existência humana é feita com dor, com lágrimas, com todo o tipo de crueldade, de canalhice que se possa imaginar. O homem, por muito que se banhe nas águas de religiões, de súplicas aos deuses, do conhecimento filosófico, do conhecimento científico..., não pode, nunca vai conseguir, se desvencilhar do egoísmo, da crueldade. Egoísmo, crueldade, temperos essenciais de seu ser. Pode, é verdade, por motivo de reconhecimento da condição de miséria de si, ver-se no espelho da miséria dos demais, a eles se afeiçoar, e se derramar em compaixão ou em revolta ou em compaixão e revolta. E, em estado de compaixão, de revolta, ver-se-á inclinado, em luta intensa, a reprimir, a sufocar sua essência, desafiando o ser que é. E nesse sufocamento de si, passa a ser um quase não-ser-humano, ganhando contornos de mutilado, de louco, de idiota. Estrangeiriza-se,  leva vida de estrangeiro e como estrangeiro passa a ser considerado. Mas ser assim, coisa para uns alguns bem poucos, uns nada no meio de milhares, de milhões. O quase absoluto dos humanos apenas em vista de si, vendo na desgraça alheia a condição de seu bem-estar, o critério de avaliação de seu progresso. Disputas, lutas encarniçadas.



A sociedade se fazendo pelo aprisionamento dos homens a deuses, a reis; por imposição de ordem amarrada em costumes, em mandados, em leis; pelo estabelecimento de mecanismos de controle; pela visão do estandarte do medo, da vergonha, tremulando, acenando ameaça. Tiranias, monarquias, democracias, aristocracias, ditaduras. E eis que entre vindas e idas, tropeços e solavancos, calmarias e procelas, pensadores proclamando o sonho do nascimento do cidadão. Cidadão: ser aureolado pela ideia de liberdade, de igualdade; cultivando dignidade, responsabilidade; armado com a aspiração de justiça. Cidadão: guerreiro da democracia. Na democracia, um estatuto comum articulado em formato de lei, criado na refrega de embates ardentes. Embates animados ao som de liberdade de expressão, e ao ritmo de participação. Aí, a sociedade avistada como espaço de conflitos; a democracia como terreno para confrontos sem choque físico. O estatuto comum articulado dentro dos princípios básicos de igualdade, de liberdade, mediando as relações sociais, prescrevendo direitos, deveres, proibições, deixando no aberto amplo espaço para ações individuais, grupais. E entrechoques entre os limites da esfera da liberdade e da igualdade; entre os limites da esfera individual e da esfera coletiva; e entrechoques entre grupos, entre indivíduos. No embalo desses entrechoques, o surgimento de problemas infinitos, a infinda busca de soluções, estimuladas, conduzidas pela liberdade de pensamento, de expressão, de manifestação. E se outras liberdades aceitam poda, encurralamento, a liberdade de expressão, de pensamento, requer plenitude, não pode existir pela metade. E vem a necessidade dos membros da sociedade se moldarem no chacoalhar dos confrontos, aprenderem a assimilar açoites verbais, e com açoites verbais se defenderem, atacarem. Por esse meio se compreenderem, por ele, arranjarem maneira de se tolerarem. Limite de intromissão posto por lei apenas para calúnia, para devassa de transcorrido na intimidade de espaço da vida privada. Mais que isso, censura vinda pelo autocontrole ditado por valores éticos, por temor de recriminação moral.  Mas, mesmo com todo esse festival de liberdade, o estandarte do medo, da vergonha, tremulando no ar. Tremulando no ar com seu suporte fincado na convicção de que os homens, por muito que possam querer, não conseguem se transformar em anjos, mas sem esforço nenhum se igualam a diabos.



O desenrolar da vida social na direção do acontecer falado, mas eis que uma ideia mirabolante: os homens são anjos. E aqueles que se apresentam em cara de diabo, assim o fazem por culpa de traumas, de maus-tratos recebidos, “São vitimas!”, “Vítimas!”, mas podem e devem ser anjificados. E os agarrados nesse pensar, se jogando no mundo em pregação, recitando versos da reza da paz: “só faz o mal quem não conhece o bem”; “o homem pode ser melhorado”; “o homem é construído”; “o homem é o que fizeram dele”... Para melhorá-lo, para reconstruí-lo como um ser bom, abolir punições, julgamentos, medidas repressoras, constrangimentos, ameaças, amarras morais. Pautar-se por ações de “sedução”, de “compreensão”, de “conscientização”. Nestas palavras, o caminho da redenção do mundo. Sim!, compreender para seduzir, seduzir para conscientizar. Conscientização, eis aí o novo estandarte. O estandarte da paz total. O homem apanhado como tábula rasa, como ser indefeso, como vitima, como incapaz completo ou como um monstro em armação de carne com feição de humano. Mas assim até ser tocado pela vara miraculosa da conscientização sob a batuta de missionários conscientizadores. E a espera pela ocorrência do milagre de despir os conscientizados de todos os preconceitos, e os levar a se porem em obediência absoluta aos mandamentos de vida reta: “aceitar as diferenças”; “concordar com o diferente”; “não julgar”; “não discriminar”; “tolerar”... Mas vem que o poder do milagre é fraco, requerendo de seus destinatários postura de permissividade excessiva, de tolerância auto anulante, de insensibilidade transcendental, e se transforma em fermento de reação. 



Os autodeclarados “diferentes” se dizendo oprimidos, massacrados, incompreendidos, discriminados, se juntando, formando subcultura, criando identidade própria. Descobrem-se minoria. Por esse se ver, rejeitam o estatuto comum da sociedade, embora se apoiem nele para reivindicar, para assegurar direitos. Acusam-no de opressor, de cerceador de seu querer, de seu ser. Reivindicam respeito à particularidade. Exigem direitos especiais. Instituições públicas, privadas, agentes institucionais em cumprimento de mandatos ou de carreira, enquadrados no discurso dos missionários conscientizadores, das minorias, em busca de afeiçoamento às metrópoles, para afinado de discurso com o Iluminismo. E minoria uma, e minoria outra, e mais outra... minorias surgindo, se conflitando. Cada minoria se pondo na consideração de centro da sociedade, querendo avanço, destroçando o território das outras minorias, da maioria, rasgando o estatuto comum, pisoteando os princípios de cidadania, se impondo sem atenção de limite, de respeito. A sociedade em fragmentos, sem passo de encontro, em cara de colcha de retalhos. A maioria anêmica, em estado de acefalia, se vendo forçada a tolerar o intolerável, observando o acontecer em indignação silenciosa, mastigando raiva, nutrindo ódio, ansiando redentor, esperando o grito de estouro. De dentro dela, reações camufladas, explícitas, violentas. De quando em quando, um pensar contestando em bradejo; manifestação de objeção; proclamação de posição contrária, de negação. Refrega. Os missionários conscientizadores se sentindo ofendidos, os membros de alguma minoria se declarando constrangidos. Então, seus “Os Desfensores” se erguem montados em razão rasa, vomitando espanto, invadidos por convicção fanática, pronunciando os gritos de guerra: “Absurdo!” (“...”) A intolerância dos pregadores de tolerância aflorando com virulência de tempestade. E desabam tropeçando sobre os mandamentos que apregoam. Reclamam punição para os que não aceitam o seu querer, o seu ser, o seu pensar. Julgam-nos, discriminam-nos, vilipendiam-nos, defenestram-nos. E cada missionário conscientizador, cada minoria, se agarra ao sonho de censura a palavras, a expressões, a manifestações, a pensamentos que decretam inconvenientes; e deseja a ampliação das prisões; e propugna por medidas segregacionistas; e se incute a ideia de superioridade. E missionários conscientizadores, membros de minorias, imaginando as vantagens de algo semelhante à Santa Inquisição para o êxito da obra de eliminação dos preconceitos, para implantação inconteste de seu querer, para a submissão ou aniquilação completa de seus opositores. Paz total. Uma sociedade de anjos. De anjos atentos, encarniçados guerreiros do bem. Do bem, movidos a ódio, em luta contra o mal.



15/04/15



 


CULPADO HISTÓRICO

Esmeraldo Lopes



Toda época tem suas modas, suas verdades, suas manias. No tempo presente, um dos principais elementos da moda, da verdade é o culpado histórico. No passado de não muito tempo, essa figura sem existência, e ao que hoje se atribui a ele, atribuía-se à índole dos indivíduos, ao destino, à sina, à vontade de Deus, à tentação do Diabo. Assim o mundo girou até que veio o nascimento da convicção de que todas as ocorrências humanas nascem, se transformam, se sustentam e findam pelo acontecer inspirado, provocado sob a batuta da supremacia, sob a exclusiva direção dos interesses, da vontade dos mais fortes. E os paridores desse pensar começaram a desresponsabilizar Deus, o Diabo, a aposentar o destino, a sina, a extinguir a índole dos indivíduos. Deram à luz o culpado histórico. No mesmo ato de seu parto descobriram que ele nascia com o feito de trazer consigo uma cria: a vítima histórica. E se para os que acreditam na existência do Diabo, os homens podendo colocar oposição às suas investidas; se para os que aceitam a ideia da existência de inclinações naturais, os homens podendo reagir contra elas, diante do culpado histórico, este ser irrefreável, responsável absoluto por todas as desgraças, um oceano de vítimas especiais: seres passivos, incapazes, indefesos, totalmente irresponsáveis, padecendo de inocência crônica. Coitadas eternas, estas vítimas históricas, irremediavelmente esculpidas e constantemente retocadas ou, ainda em forma bruta, esperando a ação de escultor.



No ver dos apregoadores do culpado histórico, a cara dele no feitio de demônio mais poderoso que Lúcifer. E eles o figuram e o transfiguram em variedade de imagem, de dizer: sistema, capitalismo, opressor, explorador, colonizador... E ora sendo avistado em cara de gente, ora em representação de instituição, ora no formato de conduta, de ação, mas sempre exalando o cheiro de monstro, exibindo garras de fera, bafejando fogo no fazer de dragão. E o divisar deste ser em cultivo do solo do Vale dos Impotentes, nele implantando, mantendo um vasto estatuário. E aos milhares, estátuas de oprimidos, de explorados, de colonizados, de marginalizados, de discriminados. Todas em faces múltiplas, suspirando lacrimejar de acocorados. Vítimas históricas em lamento eterno. E ainda que os apregoadores do culpado histórico vejam essas vítimas sorrindo, dançando, sonhando, em remanso de sossego, declaram-nas mergulhadas em um mundo de alienação, de estupidez, motivo de sua satisfação – coitadas. E ainda que as vejam estuprando, assassinando, explorando, oprimindo, vagabundeando, proclamam-nas inocentes por serem suas ações reflexas, derivadas, por elas terem sido moldadas ao som da violência dos golpes de seus escultores. São como são por terem sido feitas assim. E por esse assim, aqueles que, não sendo também vítimas, sofram golpes de atos violentos seus, devem calar em penitência, assumir a condição de réus.



Os apregoadores do culpado histórico estufando indignação, se pondo em posição de salvacionistas, reclamando, requerendo reparação, medidas compensatórias de danos ocasionados no passado, se autodeclarando combatentes em vigília de salvaguarda das vítimas históricas. E delas tudo a ser aceito, entendido, tolerado. Exigem que o culpado histórico manifeste sentimento de culpa, dobre o corpo diante delas, reverenciem-nas, a elas se submeta, corrija seus pensamentos, suas palavras, suas atitudes para não constrangê-las. E por considerarem as vítimas históricas carentes incorrigíveis, incapazes, os apregoadores do culpado histórico as paternalizam, colocam-nas no colo, carregam-nas pela mão, orientam seus passos, catequizam-nas. Põem-se em batalha para a criação de leis que lhes proporcionem condição especial, ascensão social a facão, através de reservas de espaços exclusivos, de cotas. Embalam-se com o gritar: “Inclusão! Inclusão!” E condenação à meritocracia, combate a posturas de rigor educacional, recusa terminante a qualquer ação que vise refinamento cultural, autonomia intelectual. E o a se entender, desentendido. No mesmo ritmo dessas condenações, da batalha por criação de leis especiais, de reserva de espaços exclusivos, o esbravejar contra todo tipo de discriminação, o ecoar de suas vozes reivindicando liberdade de expressão, igualdade de direitos, educação de qualidade.



Culpado histórico... Quem? Os apregoadores do culpado histórico em enxergar o cenário social com olhar zarolho-zambeta, lançando mão de régua biruta para fazer classificações. E por essas classificações, marcada com o carimbo de culpado histórico, gente descendente de possuidores de riqueza e de poder no atrás da história; gente portando título de estudo elevado ou com o possuir de alguma posse, com posse de riqueza grande ou média ou em cargo de importância; gente de pele branca, branca mas pobre. Toda essa gente marcada pela posição econômica, pela situação social, pela descendência, pelo manchado da pele.



Vítimas históricas... Quem? Negros, índios, mestiços, pobres. Mas eis que o existir de negros, de mestiços em possuir de riqueza, com grau de estudo elevado, montado em cargo importante, em situação de conforto, em condição estimada. Aí, cúmplices do culpado histórico, culpados também, entrando na conta para pagamento de dívida às vítimas históricas. E, no correr ligeiro do olho, o avistar de brancos mourejando em dificuldade, deitados na pobreza, mas sem lograrem perder a classificação de aparentado do culpado histórico, pela denúncia da cor.



No ponto de fim, vítimas históricas, quem? No ver do olhar zarolho-zambeta dos apregoadores do culpado histórico, auxiliado por medida feita com régua biruta, vítimas históricas, aqueles que perderam a força de andar sobre os próprios pés; os enganchados nas beiras dos caminhos; os que se sacodem ao ritmo do vento; os embalados pela esperança de socorro de ajuda; os desalentados; os desajustados de todos os tipos. Também coletividades de negros, de índios, desde que renunciem a bom gosto, à busca de desenvolvimento cultural, intelectual, à aspiração por vida digna, querer de autonomia, como todos os que aceitam e se cobrem com o manto purificador da condição de vítimas, e com orgulho estufam o peito e gritam: “Eu sou vítima, eu sou excluído!”



30/04/15


ENGASGO

Esmeraldo Lopes



Há o nebuloso do tempo, mas inda me deparo com a imagem da agonia de Japi. Um osso se enganchara em sua garganta e ele se debatia com desespero, soltava tosse rouca, insistente, sem cadência; gania, não conseguia latir. Os olhos não sabiam para onde olhar, esbugalhados, e nós ao seu redor, providenciando solução com reza, com tapa em suas costas. Houve quem aventurasse enfiar a mão na garganta dele e tentar arrancar a causa do tormento, inglório; houve quem se lembrasse de despejar óleo de rícino em suas goelas, inglório. Se alguém se afoitou em feitio de promessa para socorro dele, não sei. Se aconteceu, também inglório. Não havia outros recursos, nada mais a ser feito. Plantamo-nos na tristeza de velar com nossa impotência aquele sofrer, de acudi-lo com as lágrimas de nosso compadecimento. Daí para frente não lembro mais, a não ser que Japi morreu arrodeado por nós, engasgando nossos sentimentos, se inscrevendo em lembranças, lembradas e relembradas por anos, mas que lentamente foram morrendo, persistindo, em descambo de ponto final, em dois ou três de nós, que ainda vivem. Na bruma, procuro ver: éramos oito ou nove ou dez, ali.



No tempo de Japi, tratamento dado a gente quedada em agonia de doença, de aflição causada por dor séria no corpo, não diferia muito do destinado a ele. Digamos: a atenção era redobrada, mais insistente, mais cuidadosa, recoberta por preocupação atordoadora, atingia muito mais gente, mas o rodopiar em torno dos mesmos recursos. Os recursos no canto de uma gaveta, pendurados em algum canto da casa dentro de embornal; trazidos na cabeça pelo saber fazer beberagem com raízes, com folhas, com cascas de paus; pelo saber de alguma oração; pelo socorro de rezador, de “cientistas”, de promessa a santo forte. No mais, que a providência divina acudisse. E enquanto a situação não resolvida, o moribundo no agasalho de sua doença, entregue ao a acontecer, se tornando alvo de atenção. Nesse estar, recebia tratamento, carinho, nunca a ele destinado no correr da vida. Sobre ele, o despejar de cuidados por parte dos parentes próximos, de consideração de visita atenciosa por parte de parentes distantes, dos vizinhos, dos conhecidos. E sua casa, no correr do dia, ponto de convergência de passantes que quebravam a estrada e lhe vinham dar um adeus, manifestar desejo de melhora, sentar para uma palestra sobre acontecidos e esperados; no entrar da boca da noite, ponto de encontro dos moradores do lugar, o destaque da presença de algum visitante mais de longe. O moribundo no centro, lamuriando, contando, recontando, detalhe por detalhe, o sucedido que lhe levara àquele acontecer, narrando a movimentação, os passos, o caminho do andar do mal afligidor em seu corpo, ajudando o entendimento com gestos de demonstração. Por fim, o pronunciar: “Estou nessa situação, nas mãos de Deus!” Os presentes, condolentes, se exprimindo em voz pesarosa: “Vai ficar bom, se Deus quiser!” E a benzedeira chegando para mais uma benzida, e uma comadre aparecendo com uma beberagem, e a hora do remédio do “cientista”, a chegada da hora de tomar o remédio de farmácia divulgado em propaganda de rádio.



A notícia do moribundo correndo as redondezas, alimentado assunto: “Tá melhor”; “Piorou!”. No cerco de complicação, a sentença: “Só está esperando a hora marcada pelo querer de Deus”. A hora do querer de Deus chegada. E a morte sem míngua de assistência, sem engasgo, ao embalo de choros mansos, de choros escandalosos. A sentinela alimentada por recordações de acontecidos testemunhados por alguns presentes, e todos os presentes querendo declarar algum testemunho. Depois, o funeral no conforme do desenrolar ditado pelo costume. O moribundo virara finado, e como finado, só iria entrar em ponto final do existir em lembrança depois do transcorrer de duas, de três gerações.



... Se aconteceu de alguém deixado à míngua? Houve suceder assim, em um caso ou em outro, por um ou por outro motivo, por motivo de nenhuma ligança. Se o abandonado, gente de reputação sem mancha, um calado em torno do ocorrido com ele, mas sempre alguém a se penitenciar pela lembrança da culpa do próprio proceder: “Morreu à míngua, sozinho, sem ninguém pra adjutorar. Não sei por que deixaram isso acontecer”. E um osso invisível deslizando no vazio do silêncio, futucando gargantas, acordando lembranças postadas em querença de se esquecer.



O andado do tempo. O Estado se botou na obrigação de fornecimento de tratamento de saúde para todos. Hospitais, médicos, remédios de farmácia. O decreto científico de condenação dos recursos do passado. O povo pegou crença em hospital, em médico, em remédio de farmácia. No correr de pouco tempo, doenças, situações matadeiras perdendo vigor. A medicina, as ciências, galopando progresso. E os médicos fazendo milagre, consertando gente quebrada, arrancando mal complicado; e os remédios destruindo doença rúim, afastando dor, pondo acerto em desmantelo de saúde. Aparelhos enxergando doenças no recôndito de doente. Exames, exames, exames, revelando problemas, conhecimentos científicos indicando soluções. Os médicos se especializando, se afunilando em conhecer, aumentando a capacidade de ação. Remédios baratos, remédios caros, remédios muito caros, remédios com preços muito altos comprados no estrangeiro. O surgimento de equipamentos complexos, custosos, requerendo instalações sofisticadas. E o anúncio que para problema esse, para problema aquele, existindo tratamento em cidade mais ou menos, em capital longe, em cidade do estrangeiro. A medicina em vanglória de quase Deus. Médicos solicitando exames, exames, indicando tratamentos com remédio, com aparelhos, como medida para conquista de cura.



Especialistas, equipamentos complexos, instalações sofisticadas, medicamentos a custo alto, tratamentos complicados, onerosos, exames e mais exames... O Estado de boca aberta, se declarando incapaz, sem suficiência de recursos para bancar o comprometido. O povo avançando sobre os hospitais, procurando médicos, exigindo tratamento. E os hospitais públicos em falência. Filas, enfermarias entupidas, UTIs sem suficiência para atendimento, corredores carregados de doentes. Faltança de coisas, mau cheiro no ar, piso sujo... As instalações e os equipamentos dos hospitais em bagaço. Casas de saúde: depósitos de desgraça, focos de infecções. E os médicos em insatisfação, em trabalho de trabalho porco, se queixando de falta de recursos, de ganho minguado, de excesso de gente para atender, da precariedade das casas de saúde. Enfermeiros, assistentes de enfermagem, em aperreio, sobrevivendo pelo não enxergar, pelo não ouvir, se insensibilizando para cheiro ruim, abandonando atenção em norma de higiene.



Lágrimas de abandono despejadas em macas, em leitos desassistidos. Gritos, lamúrias, chamados. “Ai”, “Me ajude aqui!”, “Tragam um médico!” “Eu quero ir no banheiro!”, “Tô com sede”... E em alguma cabeça, o ricochetear da voz do médico especialista dizendo: “O remédio é tal, mas o governo não fornece. Tem que comprar nos Estados Unidos. Custa vinte mil para um mês”; o timbre indiferente ou compadecido da voz da funcionária dizendo não ter como atender. A distância de tempo longo para a feitura de cirurgias urgentes. Laboratórios... Fila de meses, de anos, para realização de exames. Mais outra fila no perdido do tempo para consulta de retorno ao médico. Gemidos explodindo da alma, olhares desalentados em entrever, pensamentos embalados por desesperos. Pessoas assistindo o progredir de doenças fatais dentro de si, machucando-as, as empurrando para a morte. Dor no corpo, dor na alma. Angústia desabalada. A impotência clamando em agonia, gritando no deserto. O se ver apodrecer na solidão de desamparo absoluto. E o doente engasgado, em engasgo solitário, sem ter quem lhe escute, sem ter de quem ouvir, sem ver movimento de ação em sua direção para lhe acudir. Morte à míngua. Pena de morte sem a companhia de clamor. E, de verdade, a ele, ao morrente, ao morto, alguma saudadezinha leve trazida por recordação ligeira, raros, raros suspiros de sentimento, na semelhança dos vários que foram dedicados a Japi.



23/04/15


ORAÇÃO

Esmeraldo Lopes



Visagens não existem, mas elas não deixam de nos acompanhar, de nos atormentar, de nos esperançar, de nos desesperar. Por muito que não liguemos para elas ou não as percebamos, elas se plantam em algum canto de nossas memórias, e ficam lá, prontas para entrarem em ação, trazendo-nos céus, infernos, às vezes ambos ao mesmo tempo. Um barulho, uma imagem, uma lembrança, um movimento inesperado, uma ocorrência qualquer... e o desabrochar de visagens portando estandartes e neles, estampadas cenas do vale de lágrimas da tragédia humana, cenas denunciadoras de traços nefandos de nosso caráter, cenas de situações que gostaríamos de não lembrar, de atos de injustiça, de crueldade, de omissão, de atos de conivência, testemunhados, praticados por nós. Não há como se esconder, como negar, como escamotear. Pelo exame dos acontecimentos desnudos de disfarce, o assombroso relato da verdade soando manso: “Foi o que ocorreu”. E cada um, como testemunha integral de si, conhecedor dos detalhes, milímetro por milímetro, enxergando o feito, o não feito, o intencionado, a trapaça pura, a trapaça disfarçada em grandeza, o pensado, o julgado. Aí, o golpe da introspecção, as chicotadas do sentimento de culpa, a reflexão estirada no silêncio interior. As virtudes em insignificância. E desponta, revelado em esplendor, sem direito a ofuscado, a segredo de sombras, um ser minúsculo, miserável, covarde, mesquinho, banhado de vergonha. Os olhos de nossa consciência, desapontada, o identificam: “Este sou eu”. E este “eu”, acabrunhado, se envolve no próprio corpo, exprimindo o eterno interrogar: “Por quê?” “Por que” e “porquês” infinitos lançados no infinito. Não há resposta. Solidão. O “eu” desta agonia, em retrospectiva da vida, avaliando seu ser, seu ter sido, seu estar, ao embalo de sofrimento abrasador, enreda e compõe, palavra a palavra, frase a frase, uma oração. E, em cadência doída, a pronúncia desta oração para si mesmo, no cenário do mundo mudo, surdo, indiferente. Corpo em pausa, olhos em sereno, um ummmm ofegante cortando silêncio. Aí, o gemido de São Paulo, o santo: “... não faço o bem que quero, mas justamente o mal que não quero é que eu faço”; o murmúrio de Schopenhauer: “O homem é livre para fazer o que quer, mas não para querer o que quer”; a conclusão de Sócrates: “É melhor sofrer uma injustiça que praticá-la”; a angústia de Camus: sobra-nos a revolta.



Infelizes seres, os que precisam compor sua própria oração; os que não conseguem sufocar as visagens no lago do esquecimento e nem conhecem o milagre da indiferença; infelizes aqueles que não sabem se guardar, por omissão, para o gozo de felicidade no aquém e preparo para a felicidade eterna no mundo do além;  infelizes os que não procuram sufocar suas culpas com as cordas do recital de orações encontradas prontas, em forma escrita ou aprendidas pela audiência do seu pronunciar vindo do púlpito de algum templo; infelizes os que não sabem lavar suas culpas nas águas do perdão, e não sabem fingir se compadecer dos sofrimentos ocorrentes no mundo por dever de devoção. Infelizes os que não conseguem se fechar nas preocupações de satisfazerem a si, a seus instintos e necessidades, e reservar afeição apenas a seus familiares. Infelizes os que não desdenham dos espantalhos que se abrigam dentro de si ou nãos os exorcizam a custo qualquer. A estes infelizes, o degredo perpétuo na introspecção; condenação à composição de orações, sem fim.



06-04-15


TRANSTORNO TRANSCENDENTAL

Esmeraldo Lopes



Nelson Rodrigues dizia que os imbecis iriam tomar conta do mundo. Aliás, afirmava já o terem feito. Ele morreu. Seria ótimo que certas criaturas fossem eternas, e em sua eternidade se pusessem a nos lançar o brilho de suas ideias, de seus dizeres, de suas observações, de seus feitos, de suas belezas ou simplesmente de suas existências. 



Outro dia, folheando um livro, me deparei com uma fotografia estampando a imagem de uma atriz brasileira, me parece que da década de 1930. Não retive seu nome. Descansei minhas vistas sobre ela, e ela me levou em viagem a algum lugar nenhum. Lugar suave, sereno, bonito, muito bonito: sublime. Pelo bem ou mal, talvez por ambos, a morte nos surrupiou a presença dela, ao impedi-la de seguir no tempo. Restou-nos uma fotografia. E a fotografia a salvou das engelhas da velhice, lhe arrancou da miséria da condição humana. Aí foi que eu vim entender o motivo de gregos, de romanos, de pintores e escultores, anônimos e célebres, terem se gastado tanto esculpindo, gravando, imagens de deuses. Buscavam conservar a personificação de virtudes em um presente purificado, o estancando na eternidade, para a própria apreciação, para a contemplação de seus contemporâneos, da posteridade ou buscavam simplesmente se libertar de inquietação de ânimo. Nessa busca, gasto físico, cansaço mental, frustrações, angústias à dimensão de montanhas. Por fim, a imagem, imponente, majestosa, assentada em ponto qualquer para apanhado livre de vistas. E, enquanto as pessoas transitando ao seu redor, ora em remoer de dramas, ora se confrontando, ora em obra de simples transitar, ora a contemplando. A imagem ali, indiferente, insensível, às circunstâncias, ao tempo, em expressar inalterado. Os dias, os anos, os séculos.



Desejar a perenidade de criaturas geniais, virtuosas, é um ato egoísta. Tem cara de condenação a castigo cruel demais. Imagine-se o sofrimento de um ser que fosse forçado a conviver com todas as mediocridades humanas, a suportá-las, em infinito. Nem Deus, se existisse, suportaria. Revogaria toda a obra de sua criação, apagaria sua memória, se asilaria no nada. Mesmo assim, em manifestação de profundo egoísmo, desejamos que algumas criaturas fossem eternas, e até quase todos nós desejamos a eternidade. Mas felizmente a morte é cega, democrática. Sai ceifando, sem considerar apelo por clemência, sem tomar conhecimento da palavra exceção. Sábia, desconsidera o apelo dos estúpidos pela eternidade; é justa e piedosa: não aguentaria presenciar o suplício perene de criaturas geniais, virtuosas.



Poderia ser outro ou outros, mas como abri este escrito com Nelson Rodrigues, o retomo. No correr de sua vida, fugiu de agasalho na altura dos muros, não se deu a proceder por comando externo, nem se fez por simpatia de conveniência. Lançou-se na tempestade da vida sem temeridade, guiando-se nela por leitura própria, se posicionando pelo prumo de suas convicções, não se pondo em silêncio de observações caladas. Foi o que foi, e como foi no próprio de seu ser, procedendo, se expressando pelo autêntico de seu pensar, acabou atacado pelos esquerdistas, pelos direitistas, pelos de centro, pelas feministas, por machistas, por intelectuais, pelo povo, pelos homossexuais, pelos religiosos, pelos ateus... E foi agraciado com as alcunhas de “tarado!”, “reacionário!”, “machista!” “pornográfico”... Morreu se debatendo contra o mundo que não o entendia, que protestava contra a sua existência; se revirando na solidão do leito de morte de intelectual que não faz concessão a maneirismos de dândis.



Desejar a eternidade a um gênio não é prêmio. É punição. Imagine-se Nelson Rodrigues ainda vivo, hoje. Não conseguiria trabalho em nenhum meio de comunicação; colecionaria moitas de processos; receberia uma reprimenda a cada palavra escrita, a cada palavra pronunciada; acabaria como inquilino de cadeia, acusado, ao mesmo tempo, por uso de expressão de homofobia, de discriminação racial, de desrespeito a minorias, de constrangimento cultural, étnico, sexual, e o que mais possa ser imaginado. Pela via mais rápida, seria estapeado ou apedrejado nas ruas, em ambientes de trânsito coletivo. Faça-se outro imaginar. Suponha-se Nelson Rodrigues ressuscitado. Ele, ainda batendo o pó da terra impregnada em sua roupa, se deslocaria pelas ruas de seu antigo pisar. E a cada passo, um espanto. Os olhos se acendendo, os cabelos se levantando, a cabeça girando em desassossego de admiração. No prosseguir de algum ver, de algum ouvir, perceberia que havia sido transformado em celebridade elogiada, objeto de estudo em escolas, alvo de citação no mundo da cultura. Ali, mais acolá, vir-lhe-ia um batido no ouvido: “mulher rodriguiana”, “personagem rodriguiano”, “frase rodriguiana”... Dar-se-ia que tipos sociais que o denegriam, e a quem ele respondia com frases cruelmente ferinas, agora aureolam seu nome com panegíricos, às vezes, até com expressar soando estranho: “Nelson Rodrigues é simplesmente f a n t á s t i c o. Eu o adoro, ai que homem brilhante!” O endeusamento de suas peças, de seus livros, de suas crônicas. E ao ser convidado a “fazer um t o u r ” pelos teatros, se defrontaria com atores, com diretores, no formato de gente macia, aveludada, “civilizada”, entoando delicadamente frases pungentes brotadas pelo correr do sangue de sua imaginação. Não reconheceria sua produção no presente. Vendo-se no olho do vazio do mundo, entraria em introspecção impotente. Mas alguém lhe acudiria: “Agora vivemos a época do politicamente correto. A humanidade está em trabalho de banir os preconceitos do mundo”. Nelson Rodrigues pediria detalhamento de explicação. E ouviria da boca da universitária sua anfitriã, sua guia, a informação de que os escritores clássicos escreviam de modo elitista, afastando as pessoas da leitura. Por isso, “haviam estruturado um maravilhoso projeto de reescrita de obras de escritores clássicos, simplificando-as com a finalidade de torná-las acessíveis a estudantes de ensino médio, e ao povo em geral, para despertar a curiosidade de leitores novos. Machado de Assis era elitista. O senhor conhece bem o elitismo da escrita dele. Escrevia de modo inacessível ao povo”. Os ouvidos de Nelson Rodrigues se afinariam ainda mais, os olhos serenariam, um fio de baba escorregaria pelo seu beiço, mas ele não perceberia. No continuar do ouvir, escuta: “Monteiro Lobato. Monteiro Lobato era racista, preconceituoso, instigador de violência contra os animais. Estamos nos movimentando para censurar, para corrigir algumas passagens de seus livros. Imagine que ele escreveu: ‘Negrinha era uma pobre órfão de sete anos’. Viu o absurdo! Isso não pode ser dito, nem ser escrito, nem pensado. E a cantiga ‘Atirei o pau no gato’?! Absurdo, absurdo! Agora ensinamos as crianças a catarem assim: ‘Não atirei o pau no gato, porque isso não se faz. O gatinho é bonzinho e devemos proteger os animais’. O senhor também é instigador da violência contra os animais? Espero que não! Seria uma decepção! Uma decepção!” Nelson Rodrigues em suor, sem saber se acordado, se dormindo, se vivo, se morto, se presente, se ausente. Mas a voz da universitária, incessante, cortando o universo: “O senhor passou alguns anos afastado, não sei onde, mas está havendo muito avanço. Estamos abolindo a comemoração do Dias dos Pais e do Dia das Mães. Eu sou órfã de mãe e sofria muito no período de comemoração do Dia das Mães. Por causa dos órfãos, já falavam em acabá-lo. Mas agora vão acabar mesmo com essa comemoração. Ainda bem. Nas escolas do município de São Paulo já a acabaram. Mas lá por causa dos filhos dos homossexuais...” Levantando rápido, Nelson Rodrigues interpelaria a universitária: “Como? Filhos de quem!!!!????!!!!????” A universitária retomaria: “Filhos dos homossexuais. Como ficariam os filhos deles na comemoração do Dia dos Pais ou do Dia das Mães? A proposta agora é comemorar O Dia de Quem Cuida de Mim. Senhor Nelson, está provado: sexo é besteira, é um simples aspecto da natureza. A natureza não é nada. Tudo é uma questão de construção social, de escolha. O senhor é preconceituoso, homofóbico? O que vale é a escolha.” E Nelson Rodrigues sentiria abalos de ataque cardíaco fulminante. Abandonaria a companhia de sua anfitriã. Entraria em um botequim, o último botequim do tempo de seu tempo. Pediria um copo de leite. Viria cachorros vira-latas famintos, com olhos tristes espiando galetos girando na assadeira elétrica. Não entenderia nada ao ver os cachorros tratarem com indiferença pedaços de carne assada, enfiados em espetos, postos ao alcance de suas bocas. Ao perguntar ao dono do botequim o motivo dos cachorros não comerem aquela carne, ele responderia: “É uma carne que comprei para fazer churrasquinho. Todo mundo fala nela, todo mundo fala e ressalta as virtudes dela, mas ninguém a quer comer, nem os vira-latas. É carne de politicamente corretos”. Nelson Rodrigues sentiria vontade de beijar os cachorros, um a um. Ainda pensando no que lhe fora dito pela universitária, se interrogaria em meditação: “Irão eles mandar matar todas as mães do mundo? Não consigo imaginar um mundo sem mães!”. E se encaminharia na direção do cemitério, procurando lembrar a localização de sua tumba, matutando meio rápido de se suicidar, selando morte para a eternidade do sempre.



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