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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 2/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 3/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 4/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 5/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 6/6
ESPERANÇA VENCIDA

Esmeraldo Lopes

Trasanteontem, Amina, a moça que faz a faxina em meu apartamento chegou justificando seu atraso: “A menina que cuida de meus filhos, quando saio, não pode cumprir o horário”. Há uns dias, ela me fez aviso: “Não posso vir no dia combinado para a próxima vez, porque vou levar meu filho para consulta no Postinho”. Não sei por que, aqui e ali, tanto um como o outro dizer danou a revoar ao redor de meus ouvidos. E a eles foram se juntando outros, chegados aos pedaços: “Só saio de casa depois que dou café aos meninos”; “O lugar onde moro não é de confiança, não posso deixar meus filhos sozinhos”; “Não tenho mais nem pai e nem mãe, nem tenho marido, só os filhos”; “Meu estudo é pouco, só fui até metade do terceiro ano”; “Minha filha, que tem treze anos, desembaraça um pouco na leitura, mas meu filho, que tem onze, só sabe ler tropeçando com dificuldade, quase nadinha”; “Não deixo meus filhos perderem aula nem um dia, quero que eles se desenvolvam e tenham uma vida melhor”. E o som da martelada dessa esperança me trouxe, na velocidade de relampejar, os olhos, o mexer da boca, as palavras de José. José, dono de sítio pequeno, arrodeado por muitos outros sítios de tamanho, de aparência igual, falando de sua labuta para prover a vida: “Minha terra você tá vendo aí, não tem suficiência para agricultura, nem pra capim que baste para as vacas que crio. Vivo do leite delas, mas ele é pouco e é barato. O dinheiro dele não dá para comprar as coisas, sobra pouco do que gasto com ração. Meu pai me adjutora com alguma coisinha do aposento dele. Você quer saber mesmo? O que sustenta minha família é a Bolsa-renda (...) O futuro que vejo para meus filhos? Tenho dois, um menino, uma menina. Tem uma escola ali, você passou por lá. O futuro, esperança para os filhos... Só o estudo! (...) Se a escola está fazendo o serviço que a gente espera dela?” Os olhos dele dormitaram, emoldurados na face cozida pelo sol. Passeou as vistas no rumo da estrada, circulou a cabeça com a mão, voltou-se para mim... Respondeu: “A gente espera isso!”

O soar da última frase de Amina, o retrato da esperança de José nadando em meu juízo, puxando lembranças de ocorridos no percurso de minha vida como professor; ressuscitando imagens, manifestações, procedimentos de colegas, de diretores, de coordenadores - não vou me referir aos “profissionais” entulho, debulhadores do terço da idiotice paulofreiriana -. E, invadindo-me, a lembrança de colegas corrigindo provas, trabalhos, com passada apressada de vista e visto ligeiro de caneta para dar nota oito, nove, dez sem ligança para o sentido, para a consistência, para a estrutura de raciocínio apresentada nas respostas - aliás, essa ligança só raramente pode acontecer, pois a prática geral é a aplicação de provas, de exercícios com base em questões de múltipla escola, em questões de completar -; e colegas mandando alunos fazerem “trabalho para ajudar na nota” ou simplesmente distribuindo notas por simples indisposição em aplicar provas; e colegas aceitando, como respostas, como desenvolvimento de atividades, cópias, defendendo essa aceitação dizendo “que pelo menos aprenderam alguma coisa enquanto copiavam”; e colegas justificando a ausência às aulas com o argumento que estava no período de colheita de safra na sua fazenda ou que tinha afazer urgente em sua empresa ou que tinham ido ao médico ou que foi levar filho para exame ou que estava em acompanhamento de doente da família; e colegas em descompostura de trajes, arrastando chinelas, usando boné, bermuda, calça em feição de pijama, expondo sexualidade vulgar nos ambientes da escola; e colegas deixando os alunos no absoluto de liberdade no correr da aula; e colegas ministrando assuntos que deveriam ter sido estudados em séries bem anteriores, alegando que os alunos não desempenham; e colegas na frouxidão de fazerem o que quiserem, sem preocupação de preparo das aulas, de observação ao cumprimento do programa, do currículo. E doutrinação ideológica de cor política, religiosa; e doutrinação relativa a raça, a gênero, a minorias. E diretores, coordenadores sem atenção de controle dos procedimentos, das atividades dos professores, sem observar o efetivo cumprimento da carga-horária, sem dar importância ao atendimento do currículo; e, pelo mesmo modo, deixando os alunos livres para vadiagem nas dependências da escola, para se comportarem no gosto do desleixo de costumes, de vestimenta qualquer, de modos despranaviados, de à-toismo generalizado.

Os alunos se afeiçoando à estética do ridículo, tomando-a como referência, vivendo vida liberta, incapazes de autocontenção, de crítica, de autocrítica, de disciplina, mas especializando-se no conhecimento que assopra e rodopia no mundo do acontecer fácil. Para esses alunos, a escola é o que sempre viram; educação é escola; professor é o ser sem ser que se posta diante deles, e atribui notas e que não se importa; estudar é o simples ato de comparecer à escola, à aula; aula, presença à sala. Qualquer exigência é chatice nascida na cabeça de algum metido. E vão rumando na trajetória que aponta felicidade estúpida.  Mas, no meio deles, há alunos que carregam orientação de querer ser outro tipo de ser, isolam-se, aprendem a se agasalhar nos cantos, adotam o silêncio, o fingimento de cumplicidade como recurso de sobrevivência, e se põem no rumo dos estudos, aproveitando as migalhas de conhecimento que lhes chegam do ambiente, através de algum escrito, de alguma reportagem, dos ensinamentos de algum raro professor. Mas tudo aproveitado pelas franjas, no limite de suas dificuldades, de suas possibilidades. São habitados por insuficiências de conhecimento, carências intelectuais, deficiências instrucionais. O passado lhes amarra, o presente lhes embarreira, o espaço onde vivem lhes castra. Mas no deserto de pobreza humana em que estão, despontam como flor em pedregulho. E, os professores, os meus colegas professores!, enchem-lhes de elogios, pavimentam-lhes a vida estudantil com facilidades fáceis, coroam-lhes com nota dez, plantam e fertilizam relaxamento em seus espíritos, e esses alunos, se baixam a guarda da crítica, da autocrítica – e comumente o fazem -, fenecem na miudeza da mediocridade, com o peito carregado de orgulho. Mas o mais grave: são sempre alvos de pseudo-professores que os assediam na tentativa de cooptá-los para o desempenho de “atividades revolucionárias” em alguma organização salvacionista.

A esperança de Amina, de José, nadando em redemoinho contra correnteza forte, assistida por indiferença cínica, perseguida por uma multidão de demônios inclementes. Tudo está contra eles, contra seus filhos, mas eles não sabem. E, porque não sabem, simpatizam os professores, acreditam na educação, vêem bom futuro para seus filhos e suportam o peso dos sacrifícios que jogam sobre as costas, sem queixa. Mas estão condenados ao alto risco de verem seus filhos periclitarem nas veredas de percursos cruéis e a assistirem suas esperanças despencarem no abismo das desilusões tardias, mais uma vez respirando impotência, fracasso.

03/17

COLONIZADO VOLUNTÁRIO

Esmeraldo Lopes

Há colonizados e oprimidos que incorporam de modo tão forte essa condição, ao ponto de não conseguirem vislumbrar qualquer perspectiva de viver autônomo. E quando se descobrem lançados, pela independência e pela liberdade, no oceano da solidão, buscam desesperadamente se agarrar a algum modelo, seguir caminho feito. Não sabem ser independentes, temem ser livres. Não querem viver correndo os riscos que a independência e a liberdade arrastam consigo. A liberdade só lhes serve para que possam escolher um senhor. Um senhor que lhes diga o que são, como devem ser, pensar, caminhar, cantar... E surge assim um tipo paradoxal de colonizado: o colonizado voluntário.

O mais constrangedor na existência do colonizado voluntário é que ele não sente nenhum tipo de constrangimento ao fechar os olhos para a sua história e se jogar servilmente aos pés do senhor que escolheu. Mas o senhor foi escolhido, não o fez, não o coloca em sua conta, estranha-o, desconhece-o e o quer longe de sua pessoa, por considerá-lo um ser sem orgulho, sem brilho, inferior. Entretanto, o colonizado voluntário é insistente, não desiste, quer incorporá-lo, e o segue, e observa seus detalhes para reproduzi-los em obra de imitação. E a imitação, a incorporação ganham figura zambeta-zarolha-fonhem. Mas ele, alheado de si, do seu mundo, não consegue enxergar a mediocridade do papel que desempenha. Não fosse o ridículo, assemelhar-se-ia a médium em centro espírita ou em terreiro de umbanda incorporando entidade.  Onde quer que esteja, o que quer que faça, sempre, sempre estará seguindo e professando a orientação que supõe indicar a imagem, o gostar, o ser e, principalmente, o dizer e o pensar do “seu” senhor, e pelos olhos dele enxergando. E no ser desse estar, vê-se feliz, forte, superior.

No Brasil, a universidade é o grande celeiro de colonizados voluntários. Aliás, na área das ciências humanas – embora não seja sua exclusividade -, quem não se submeter a abraçar com sorriso largo o modo colonizado de ser, não encontra, não encontrará abrigo para futuro. Na universidade brasileira, este tipo de colonizado se faz por treino sistemático, aperfeiçoa-se na arte do disfarce, do oportunismo, da má fé, e se mantém pelo caminhar nos trilhos do arrivismo. Aquele que, dentro dela, arredar disso, colocar-se em ação por olhar próprio, respirar gosto por autonomia, sentencia-se ao ostracismo. E quem não quiser ostracismo, que faça a escolha de um senhor que goze de prestígio e respeito internacional – não basta que seja estrangeiro, tem que ser americano ou europeu - e esteja sempre afiado para demonstrar que conhece suas obras, para reproduzir seu pensamento, salivar seus conceitos, e apoiar todo dito que disser com a muleta de citações. Quem não entrar nesse proceder ouvirá perguntas: “Quem disse isso?”, “Você está falando com base em que teórico?” Se a resposta for “com base em meu pensamento, em minhas observações”, os ouvidos se fecham e o interrogado inexoravelmente desprezado, colocado na fila dos ninguém.

O colonizado voluntário tem vida sem sacrifício, responsabilidade de alcance curto. Não precisa criar nada, não quer criar nada, já não sabe criar nada. Pega tudo pronto, por hábito, por atrofia. Apenas reproduz. E reproduz por enquadramento forçado, por imposição de discurso sem base, sem atenção nos modos de nosso acontecer. E assim como reproduz o ver alheio, reproduz-se: por vômito. Põe-se a vomitar os ditos, o pensamento de “seus” senhores nas escolas de nível médio, de nível fundamental, nas igrejas, nas reuniões de movimentos, de organizações sociais, nas conversas de bares, nos livros, nos meios de comunicação, onde quer que possa existir ouvido desprevenido. Assim vão se multiplicando, avolumando-se, tornando-se multidão. Nesse acontecer, os brasileiros sendo areados; o Brasil avistado com olhar estrangeiro, explicado através de pensamento importado, visto nas cores pintadas por gringos, interpretado com o emprego de palavras estranhas. Aí, o nosso redefinir alheio à nossa história, à nossa cultura, à nossa memória, à nossa geografia, a nós. A anulação de nós. Sim, porque de repente nos impõem a condição de país de imigrantes; e se decretou o fim dos pardos, dos mestiços porque agora impuseram que esses são negros; e todo negro é afrodescendente; e os órgãos sexuais não definem gênero, não definem nada, porque gênero é pura ideologia. Brasileiro... Joga-se no lixo a ideia de sermos brasileiros. Agora somos um país multicultural e o que importa são as etnias. Etnias: ciganos, quilombolas, afrodescendentes, índios esses, índios aqueles... Minorias... Minorias desfilando em rosário: minorias religiosas, mulheres, homossexuais – e de novo, ciganos, afrodescendentes – populações tradicionais – já tem gente gritando: populações periféricas, moradores de rua. O rosário segue. E segue agora com um estandarte anunciando em estampa multicolorida o nome diversidade. Diversidade: aceitação ampla, irrestrita e inquestionável de todos, de tudo.

Pelo pensar que habita o colonizado voluntário, o brasileiro é um ser nada. Ser nada disposto a aceitar tudo, a ser qualquer coisa. Deve se sujeitar a adaptar sua cara a qualquer mascara, dissipar-se de todo conceito e de todo preconceito. E deve ser solidário aos povos do mundo, para assim merecer o nome de civilizado. E sonha em ver o povo brasileiro gritar: “Que venham os povos!”, “Aceitamos todas as religiões, todos os costumes dos povos do mundo!”. Ele, o colonizado voluntário, detesta a ideia de pátria, odeia a noção de Brasil, de Brasil como um país nacional. Renunciou a si, agora quer forçar todos os brasileiros a o fazerem também.

08/17

MULETA E REMENDOS

                                                                                                                 Esmeraldo Lopes

O Brasil é um país, mas não é um país que se fez no jogo do acontecer franco. O seu nascer já com o mando da mão forte de um Rei agarrada a um porrete, impondo querer sobre comandados servis - funcionários da Coroa, fazendeiros, comerciantes, religiosos, enfim, membros, grupos da elite -, nutrindo-os com privilégios, cobrando-lhes fidelidade cega. Os comandados servis postados nos graus hierárquicos superiores, avançando sobre os de grau hierárquico inferior. Os de grau hierárquico inferior, encolhendo-se, pondo atenção na direção que apontam os posicionados acima. E todos eles, sob a benção da mão forte do Rei, avançando sem regra, sem freio, insaciáveis sobre a tropa amarrotada de ninguéns apelidados com o nome povo: índios, brancos pobres, escravos, mestiços. Os ninguéns, atarantados, curvados, pondo-se em prontidão de atenção e obediência generalizada.  Assim fomos sendo feitos e nos fizemos no suceder da história. E até pegamos uma frase, não sei se genuína ou se trazida de outras terras, para lubrificar nosso caráter: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Reatualizando, lapidando continuamente esse dizer, a introdução do Poder Moderador na primeira constituição do Brasil. Com esse poder, o Imperador se mantendo acima de tudo, em pose e condição de segurar o porrete na mão, garantindo seu livre arbitrar. No surgimento de briga entre grupos da elite, o Imperador fazendo ditado, remendando solução de agrado, botando cada um em seu canto, decretando determinação de vida em paz: “Entendam-se”! “Não briguem!” “Obedeçam!” Mas frente ao povo, o Imperador usando o porrete sem clemência: “Onde já se viu o povo querer querer?!” E toda vez que apareceu algum movimento do povo ensaiando insatisfação, botando cara de rebeldia, o porrete deitou. Gente foi quebrada, mortos foram exibidos aos pedaços em praças, corpos inteiros pendurados em postes, outros deixados embalançando em forcas. E mesmo quando o Brasil já estava respirando debaixo da bandeira da República, a elite se agarrou às botas dos militares pedindo intermediação deles nas desavenças entre si, na proteção contra o povo. E os militares abraçaram sorrindo o Poder Moderador. E se já haviam lançado mão dele ao proclamarem a República, o fizeram pela segunda vez ao responderem aos viventes do Arraial de Canudos - um bando de beatos com querer de querer próprio – com o grito: “Fogo neles”!   E quando não foi morte por fogo de chumbo, foi morte por “gravata vermelha” – sangramento na altura do pescoço para a vermelhidão descer se enlarguecendo em faixa na direção do umbigo. O mesmo proceder com outros movimentos vindos da gente vivente no mundo amarronzado por poeira, por mistura de sangue. É a história!  E até em situações de acontecimentos de inclemência do tempo, o povo foi cuidado com tratamento de chicote. Ceará, 1932. A seca tangendo o povo. E ele, aturdido, em debandada das fazendas, das cidades pequenas, açoitado pela fome, pela sede. Mãos levantadas na direção do céu, olhos em aperreio de agonia, miados chorosos saindo das bocas de restos de vidas infantis, mortos lastreando os caminhos. “Deixar o povo sair não! Confiná-lo em Campos de Concentração, para não criar perturbação em Fortaleza, nas cidades grandes”. E nos Campos de Concentração, o povo gritando, rezando, clamando, morrendo. Os mortos fedendo insepultos, mas o governo, a elite, distante. Assim, o povo colocado, lá, no canto, de cócoras!  

A elite nunca quis correr o risco de conquistar, de reivindicar, de fazer a si por si. Botou em mira apoiar-se debaixo da proteção de porrete, transformando-o em muleta de seu existir. Quer tenha sido no Império, quer seja na República, apóia-se nele e vai vivendo, costurando seus desacordos com linha de conchavos. Toda vez que não consegue se equilibrar por acordo ou conchavos, uma parte dela procura apoio nos militares e implora que lancem mão do Poder Moderador. E os militares desfilam sorridentes, fazendo intermediação, apontando rumo. Mas os problemas nunca resolvidos, sempre adiados, acumulando-se. Eis que nesse andado a classe média aparece, cresce. Aparece e cresce no jeito, gosto e cara da elite, agarrada a privilégios, cuspindo nas ordens do direito. Distancia-se do povo em terreno concreto, mas, paradoxalmente, muitos de seus membros se infiltram nas organizações dele, e cooptam suas lideranças ou se fazem suas lideranças. Surrupiam o seu querer, castram sua autenticidade, colocam palavras em seu vocabulário, plantam pensamentos em seu pensamento e o utilizam na obra de obtenção de vantagens pessoais e fortalecimento do estar de sua classe. Após ocultarem suas origens e condições, através do expediente de disfarces, membros da classe média se apresentam como vanguarda, como salvadores dos sem-voz, oprimidos e explorados. E fazem isso pelo ardil do artifício da conquista da afeição do povo pela adoção de posições e ações enganosas, pela manifestação de solidariedade vazia, pela difusão de fantasias, de ficções mirabolantes.

Insatisfações, frustrações de um lado, de outro, e mais de outro. Atritos crônicos. Os problemas se expandido, se acumulando irresolutos, fertilizando terreno para germinação de monstros. E todos põem os olhos nos militares, auscultando seus pensamentos, movimentos, intenções. E há quem repudie, em discurso, soluções vindas pela intervenção deles; há quem se inquiete pela demora dessa intervenção; há quem diga que não é hora. No entanto, a sociedade na certeza de que os militares não deixarão a situação degringolar em tormenta. E de novo o Poder Moderador se assanhando.

Escrevi o que escrevi para dizer que o Brasil está doente e geme. Quer solução, quer definição, quer saber o que é, o que será. E isso só acontecerá quando o campo se abrir para ocorrência de jogo franco entre suas partes, culminando com a escrita de uma ordem real, sem remendos. E esse jogo, jogado pelas regras das forças de cada um dos grupos, setores e classes do país, sem o amparo da muleta denominada Poder Moderador. Jogo jogado na conta da responsabilidade de todos, sem licença de neutralidade, sem desculpa de inocência, de omissão, de ignorância. Que a sociedade, por esse jogo, encontre seu caminho, seja lá qual seja ele, independente dos métodos e recursos que venham a ser utilizados. Barbárie? Já vivemos a barbárie. O povo sempre foi lançado na barbárie e tratado como bárbaro. A elite, a classe média sempre se utilizou de métodos bárbaros para garantir seus privilégios, para se manter nas posições que ocupam. Guerra civil?! Que seja! É uma pena que com o abrir de uma guerra civil, lágrimas rolem, gritos esturrem, desgraças germinem. Esse, o preço a ser pago por uma definição do nosso ser. Quem não participar do parto e não suportar o aflorar de agonias, tape os ouvidos, feche os olhos e espere, para se submeter à ordem do vencedor..., se sobreviver.

No chegado do momento dos confrontos, que as tropas fiquem quietas nos quartéis, atentas apenas para ameaças internacionais e para a manutenção da integridade territorial, e esqueçam a sua função constitucional de garantir a ordem, porque a ordem sempre foi artificial, acochambrada e está demente, esfarrapada, podre.

                                                                                       

02-17

BAQUE

                                              Esmeraldo Lopes

As pessoas felizes são autoconfiantes. Habitam em um oceano de certezas incontestáveis. Carregam consigo a convicção de que suas ações, conivências, cumplicidades ou omissões nunca concorreram e jamais concorrerão para o sofrimento do mundo. Aliás, erro, elas nunca se vêem como omissas ou coniventes ou cúmplices. Ao serem alcançadas por gemidos de injustiças, por cenas da miséria humana põem os olhos em atenção de curiosidade calada, os ouvidos em escutar mudo. Declaram não ter responsabilidade sobre as ocorrências que parem dor, desgraça. Portanto, não precisam de absolvição. Com a certeza que cabe dentro de mil mundos e de todos os séculos, os felizes afirmam ser inocentes. E dormem com espírito manso, sem tormenta.

Diante dos males do mundo, os felizes – não importa que sejam religiosos ou ateus - deitam lado a lado no leito da indiferença. Os religiosos recitando: “Deus sabe o que faz”; os ateus em coro com os religiosos, declamando: “É o sistema”, “É o governo”. Se não dá para responsabilizar o sistema, o governo, não se embaraçam: articulam frases e apontam um culpado difuso:“Foi outro”, “Foram eles”. Para sacramentarem sua inocência, arrematam: “Ninguém pode ser responsabilizado pelo erro dos outros”. Banhados nas águas da cegueira mental ou da má fé justificada, seguem em marcha tranquila, com atenção em si, cuidando dos seus, perturbando-se apenas com problemas que lhes possam chegar ou que lhes chegam nas asas de insatisfações nascidas de imprevistos, de desejos materiais frustrados, de frustrações decorrentes de insatisfação com a posição social que ocupam, com a melhoria ou manutenção da própria condição financeira. E por que estou a escrever isto? Porque me vem a imagem do acontecimento de um baque.

A noite em início de fim. O movimento no bar diminuindo, os músicos guardando os instrumentos. O som desafinado de vozes voando de algumas mesas, dissolvendo-se no silêncio da rua. Entre burragens e besteiras, na mesa onde eu estava, a conversa fluindo tranqüila, descomprometida, descontraída. As palavras desaparecendo nas frases e as frases esquecidas no mesmo ritmo de suas pronúncias. E no relance de um golpe de vista, um colega atingido pela figura de um catador de lixo empurrando uma carroça entupida de papelão, de plástico – o olhar dele, do colega, puxando o nosso, empurrando-o na direção do seu mirar. E vagarosamente o catador de lixo indo, indo, indo, dobrou a esquina, sumiu. Por necessidade de algum falar, o colega soltou um perguntar, perguntar vazio, sem pretensão, sem necessidade de ser acudido por explicação:

 - Por que no Brasil ainda existe isso?

A resposta relampejou de minha boca:

                        - Porque o Brasil é feito por traidores!

Sua esposa despertou a alma, ele se aprumou na cadeira em jeito de guerra, mirando-me com olhar flecheiro:

                        - O que você acabou de dizer é muito sério. É pesado demais!

E acendeu os ouvidos, no aguardo de escuta. Fulminado, pedi intervalo. Lembranças de situações, de atitudes minhas, de fatos testemunhados por mim desde o tempo de menino; retalhos de acontecimentos, informações recebidas por visão, por bocas e através de escritos se entrechocando, circulando desconexos em minha mente, misturadas com imagens há muito agasalhadas nos recônditos da memória. Recompus-me. Pus-me em andar de fala para fundamentação curta do dito afirmado:

                        - Do que eu, tanto quanto você, sua esposa, delegados, professores, deputados, médicos, advogados, empresários, militares graduados... fomos feitos? Com que matérias foram feitas as pessoas que portam conhecimento, possuem o poder da palavra, recursos para agir com mais eficácia no mundo e ocupam posições e cargos que lhes possibilitam tomar decisões que interferem na vida das pessoas, na sociedade? [silêncio] De outro modo: quantas mortes e abreviações da vida de garis, lavadeiras, domésticas, operários, trabalhadores rurais, feirantes, carregadores, filhos de trabalhadores... foram necessárias para nos fazer como somos? E quanto o empreendimento desse nos fazer e nos manter custou e custa em sofrimentos, desgraças, fomes... dessa mesma gente? [pausa] É verdade, é verdade. Isso, por si, não nos faz traidores. O que nos faz traidores, entnão? A nossa postura, meu caro. O que devolvemos a essa gente além da indiferença, do abandono, do descompromisso? Sua ridicularização, humilhação, marginalização, discriminação, barbarização e até migalhas no formato de caridade, de ações e de decisões políticas enganosas. Você, como eu, é professor. O que dizer do docente que para o conforto do seu pouco fazer e cultivo de sua paz, desleixa o seu trabalho, atribui notas graciosas a seus alunos e nunca os repreende nas faltas disciplinares e nem se indispõe contra os malfeitos, contra as malandragens de colegas e contra irresponsabilidades e descasos de órgãos de direção, hem?! Que avaliação fazer dos sujeitos que se enfronham nas posições destinadas a intelectuais, nelas garantem assento, prestígio e consideração pelo jogo de simpatia forçada, postura servil, adoção de convicção fundada em raciocínio de conveniência, e se recusam a denunciar trapaças, injustiças e a se confrontar com o poder, com o propósito de salvaguardar suas condições, suas existências?  Como classificar a postura do médico que convive sorrindo com a desassistência dos doentes e não se rebela contra o ambiente infecto de postos de saúde e de hospitais?  Como definir a conduta de delegados, juízes, promotores que silenciam diante das condições injustas de aplicação da justiça? Funcionários públicos, com exceções mínguas, não se põem no poleiro dos parasitas, dos que tratam a população sem trato de respeito? Não farei referência a políticos, a empresários. Não é necessário prosseguir nesse dizer, mas é necessário dizer que nossa situação é de privilégio, privilégio pago com as moedas da cumplicidade, da conivência, da omissão. Os que não aceitam essas moedas são tão raros que quase não podemos vê-los, mas existem. Existem, e pelo desaforo da recusa são condenados a viver no exílio do deserto da solidão, encarcerados em si mesmos.

- Mas eu estou fora disso! Minha mãe é dona de casa, meu pai foi oleiro, agora está aposentado. Meu estudo se deveu aos sacrifícios da família e minha condição aos meus esforços. Não fui feito da desgraça de ninguém! – interveio indignado, o colega.

- Há quem tenha se erguido com o apoio principal do próprio corpo, vencendo dificuldades, humilhações. Há quem tenha sido empurrado, transportado nas costa da família. É o seu caso. Você foi feito das dores de seus familiares, mas não só. Foi feito também dos sacrifícios da sociedade que, bem ou mal, lhe ofereceu segurança, escola, saúde, o seu colo, o seu seio. E quem sustenta sua situação, hoje? A diferença entre você e os membros da elite, é que eles requerem mais privilégios e custaram a vida e a dor de muito mais gente desde os tempos dos bisavós, dos tataravós, e impuseram esse custo sobre a população com o uso inclemente da chibata, de maus-tratos morais. Bem pensado e melhor visto, nessa diferença pode estar a semente do fustigar maior do seu calvário. Alguém com origem na elite e que negue compromisso com a população, é mais explorador que traidor. Aliás, nem é traidor, é inimigo nato, congênito! É o inimigo vencedor. Vencedor e explorador. E na condição de inimigo vencedor e explorador impõe sua força, seu querer, subjuga o vencido na medida suficiente para manter o seu estar, garantir o seu querer. Não nega a si, aos seus iguais, a sua história. Ao contrário, esse é o território de sua auto-afirmação, de seu orgulho. Alguém como você, como eu, custou a dor, o sacrifício da família, de conhecidos que nos ajudaram, toleraram nossas faltas, se esforçaram para nos compreender e nos perdoaram. Custamos a dor, o sacrifício da população difusa, no meio da qual vivemos, aprendemos, compartilhamos. Mas esses custos foram oferecidos com sorriso e esperança. Portanto, nossa dívida é imensurável. E como decorrência, se negamos compromisso com a população, se não nos alinhamos no mesmo alinhamento dela, somos traidores. Mas traidores não apenas dela, também de nós mesmos, de nossa origem, de nossa história. Aí, inscrevemo-nos como traidores plenos. Só não nos colocamos em situação pior que a do pior tipo de traidor social, que é aquele, que independentemente de origem, dos meios que utiliza, identifica as dificuldades, as situações de sofrimento do povo para roubá-lo ou fingir agasalhá-lo, com o objetivo de agasalhar melhor a si mesmo.

Enfim, a noite em fim. Os garçons na espreita para a última tarefa, esperando o vagar de nossa mesa. A esposa, já de pé, mirou o colega e o intimou para ir embora.

- Tudo o que ele falou é besteira, bem. Não leve nada a sério, não. Ele é um revoltado, cheio de frustração, infeliz! A gente sai para se divertir e às vezes topa com pessoas como ele. A presença dele faz mal. Vamos!

Exalando angústia, respirando mal-estar, o colega levantou e se foi com a esposa na direção do carro, sem me cumprimentar, abjurando a carona que me prometera.

02/17

POR QUE NINGUÉM DIZ A VERDADE SOBRE OS CURSOS DO PRONATEC?

                                                                                                                 Esmeraldo Lopes

É impressionante a incompetência da oposição – se é que existe – e da imprensa. Dilma transformou o Pronatec em vitrine de sua campanha e ninguém ousou verificar as condições de funcionamento dos cursos. Tirando os cursos ministrados pelo Sistema S (Senai, Sesc…), o restante, com exceções realmente excepcionais, é ministrado por instituições que não dispõem da menor condição para tal.

Os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFs), que gozam de uma certa consideração da sociedade, não dispõem de estrutura adequada, conhecimento técnico e quadro para tal. Se implementaram os cursos, foi tão-somente como medida de captação de recursos e por interesse de professores e funcionários administrativos. Estes passaram a disputar a tapa uma vaga para ministrar disciplinas nos cursos, pois, no mesmo horário de trabalho no IF – às vezes em prejuízo às atividades normais para as quais estão contratados – pegam turmas do Pronatec e por cada aula recebem R$ 50,00.

TODOS GANHAM, MENOS OS ALUNOS

Como muitas disciplinas nesses cursos dispõem de uma carga horária de 20 aulas, aí já embolsam R$ 1.000,00, extras, caso peguem apenas uma turma. Funcionários administrativos agem pela mesma forma. Há os que dão aula e há os que recebem um extra pelo simples fato de desenvolverem atividades para o curso. Assim, se um funcionário tira cópias xerox para o Pronatec, exige e recebe pagamento extra.

O coordenador dos cursos recebe uma boa remuneração extra e a Instituição recebe por aluno. Quero dizer: ganha a Instituição, ganha o professor, ganha o funcionário, mas os alunos se lascam, pois os cursos, como regra, não capacitam ninguém a nada.

E os alunos? Bem, a maioria desiste, mas para garantir o faturamento a Instituição mantém o nome deles como se frequentando estivessem.

Como mecanismo de atração e manutenção dos alunos no curso, resolveu-se oferecer um bolsa a cada um deles, talvez a única vantagem que possam obter. No saldo do tudo, o Brasil se lasca. E o grave é que ninguém investiga. Quem duvidar procure um aluno que faça que tenha feito curso do Pronatec em algum IF e pergunte a ele.

(Texto publicado na Tribuna da Internet em 10 de junho de 2015. Por solicitação de alguns leitores coloco-o no espaço de opinião).

 19/02/17

MAGNÓLIA

Esmeraldo Lopes

A claridade, o calor saídos de dezenas de velas acesas, sufocados pela luz e quentura do sol. Mas, ainda assim, as velas atraindo atenção pelo queimar de suas ceras defumando o ambiente com cheiro de morte. Um coro desentoado, descoordenado de vozes lamentosas, chorosas, agoniadas, recortadas por gritos de dor desesperada, chegando de outras salas, dos corredores. E na vaga de algum silêncio, o barulho pálido do crepitar das velas queimando, acompanhado por vozes murmuriantes dos poucos presentes, e pelo som sem cadência vindo das bocas de gente com olhares silenciosos, remoídos, sem ânimo, refugiados debaixo da sombra rala de um arbusto acanhado, e aprisionado dentro de um minúsculo círculo livre de cimento em um chão varrido, nu, sem vida. Esticando as vistas no seguir do pátio, vários grupinhos de pessoas se arrodeiam, lamentando ou forçando respeito de condolência aos mortos que lhes trouxeram ali, indiferentes aos mortos dos outros. Mas algumas dessas pessoas saindo da roda, pondo a curiosidade para passear na face da morte estampada em cada rosto de finado exposto nas salas de velório. Não miram apenas a morte, examinam os que sofrem, os que fingem sofrer, os que apenas se põem em postura respeitosa. E elas medem a dor que explode pela boca e invade o corpo, e a alma dos que se quedam na impotência diante do irreversível ocorrido com um dos seus. E, quando a curiosidade dessas pessoas deixa de encontrar amparo, voltam para os conhecidos. Umas viajando no profundo de si, quase todas farejando o que mais ver, assistindo, assistindo, vigiando o andar lento dos minutos no relógio. De momento em momento, sem obediência a regularidade de tempo, o aparecimento de um coveiro empurrando um carrinho para transporte de mortos, na direção a uma das salas de funeral. O altear do tom de choros. E o coveiro pronto para guiar o cortejo. O cortejo sai, vai, e desaparece. Rearrumação da sala desocupada. Outro finado chegando, e com ele, outras pessoas. Renovar de lamentos iguais. No final do corredor, a preparação para mais uma caminhada fúnebre.

Daqui a três horas, sem nenhuma dúvida, um coveiro retornará e repetirá o proceder, com os mesmos gestos, soltando a mesma comunicação, sem gasto de pensamento, sem consumo de emoção. Dessa feita virá na direção de nossa lamentação e nos movimentará. 

Magnólia se findou sem aviso de doença. Ora ali, velada por uma, duas... cinco pessoas. Quietude, desassunto na sala.  O vazio querendo se preencher. Buscou vida. A voz dela se acendeu, seu corpo começou a se animar lá no fundo do atrás. O passado jogou o presente no ausente, se fez presente. E, nisso, ilustradas por gestos serenos, iluminadas por olhar esperançoso, as palavras saindo de sua boca para certificar o despontar de um período novo de sua existência. O emprego que conquistou sólido, salário suficiente, as relações com os colegas, com a vizinhança, sem abalo para queixumes, e para aumento da fortuna, seu nome acabara de ser sorteado para a obtenção de uma casa com financiamento feito nas facilidades do governo. Os filhos estudando em escola particular. Não precisava mais desaguar raiva sobre o marido por este não se por em providência para resguardar a família de situação de precisão. Tolerava-o perto de si, e até o mantinha, por não achar certo separar os filhos do pai, também por ver conveniência em ter alguém para, em uma terra estranha, anunciar como marido. Mas sentia falta da família - mãe, pai, irmãos, sobrinhos, primos, parentes de sangue um pouco mais afastado, cunhados; falta da cidade, dos lugares onde sempre pisara; sentia a ausência dos conhecidos com quem fizera história, de quem testemunhara acontecimentos... Vê-se como uma estrangeira na cidade onde está. Não consegue viver longe de seu lugar, da família. “Família é tudo, vocês não acham?” Não, quer ter o que já tem, mas no seu lugar, do jeito seu, junto dos seus! E junto aos seus, viverá a felicidade de casa cheia, de visitas de abraços apertados, aconchegantes. Aí, será o céu. O emprego... Poderá solicitar transferência; a casa, venderá. E com a condição que já dispõe, aliada ao apoio da família, às facilidades que advirão pelo domínio sobre o ambiente de sua intimidade, e decorrentes dos relacionamentos pessoais, em muito melhorará a condição de sua vida e dos filhos, e dará início à realização do alvo principal de seu sonho.

No tempo de criança, Magnólia sempre arranjara maneira de ir para a casa da avó. Para ela, a casa da avó era parecida com o lugar que a professora do catecismo falava que os anjos moravam. Ficava em uma rua descalça. Quase todas as casas construídas grudadas umas nas outras, com umas mais altas, outras mais baixas, mostrando paredes desaprumadas - puxadas para frente, puxadas para trás -, e separadas da rua por uma calçada estreita, mas estirada, viajando em curvas mansas. A casa de sua avó em diferença. Ao invés de parede, um muro baixo no alinhamento da calçada. Por entrada, uma cancela pequena de duas bandas. Depois da cancela, ao alcance de umas oito ou dez passadas sem pressa, a construção. A construção: paredes bem alinhadas, boa de altura, a porta da frente ladeada por janelas, janelas também olhando para as paredes laterais do muro situado a uns oito metros. A cozinha cumprimentando um alpendre. E avistado do alpendre, lá na divisa com o vizinho do fundo, um galinheiro, protegido pela sombra de uma mangueira. Por toda a área livre do terreno, plantas de frutas, plantas de flores, enraizadas, plantas pequenas em caqueiros e dentro de latas, e o chão varrido, asseado. Tudo na medida de suficiência para agrado de menino inventar brincadeira, e brincar! Pisando no piso pisado por Magnólia, também alguns primos, alguns meninos vizinhos. A cancela sem por barreira a chegante. E, no brinca que brinca, a voz da avó chamando: “Meninos, venham merendar!”  Na mesa - mesa coberta com toalha de retalhos coloridos -, rapadura raspada, farinha, colheres, copos de alumínio areados. Ao lado, um pote, e, ao lado dele, duas moringas com os gargalos vestidos com enfeite de bordado servindo como tampa. E os meninos esticando os olhos: “É jacuba!”. Rapadura, farinha e água misturadas no embalo do mexido de colher remexendo dentro do copo. Às vezes, pisado de coco com farinha e açúcar; às vezes, café com farinha; às vezes, pedaço de rapadura; conforme o acontecer do tempo, a oferta na mesa, fruta. Acontecia da avó não chamar, não oferecer nada. Magnólia pausa, põe a mão no queixo. Um suspiro comprido, fundo: “Era tudo muito bom!”

À tarde, depois da hora da merenda, a avó na sala, sentada - “Parece que estou vendo... e ouvindo!” - pondo-se a mexer em bordado ou em renda ou agasalhada atrás da máquina de costura dando alguma providência em pano, sem compromisso de pressa. E entre um movimento e outro, o passear das vistas no muro, no movimento dos meninos, na rua, respondendo ao aceno de alguém que lhe joga cumprimento lá de fora. Ora por outra ela levanta, vai até a cancela para olhar a rua, deseja boa tarde aos que passam, dá adeus aos que também apreciam o acontecer da tarde. Entre esse ir e voltar, em um sempre se repetindo a atenção dela chamada pela gulodice de sabiás coca, de currupiões pinicando mamão, pinha, goiaba; pelo canto de cardeais, pelas piruetas e gritar barulhento de bem-te-vis, por zunidos das asas de beija-flores, pendurados no ar, beijando flores...   Assim até o momento em que o apito da fábrica de cerâmica avisa o encerramento do dia de trabalho. Aí a avó se movimenta para ligar o rádio e ouvir “as preces das Ave Maria”  e colocar uma toalha e uma bacia com água na jardineira. Logo, logo, os trabalhadores começam a aparecer. Uns passando, outros se achegando em suas casas. O avô de Magnólia entra vestido em roupas de panos grossos, soltando seu cheiro de fumo misturado com suor, assoprando cansaço. Abençoa os netos, fala com a mulher, lava as mãos, asseia o rosto, se enxuga. Caminha para a frente da casa e joga o corpo sobre um banco. Abre a camisa, solta os pés, e os dedos dos pés tomam ar, dançam em gozo de liberdade. O cheiro de café fugindo da cozinha, perfumando toda a casa, se lançando no quintal.  O bule chegando, expirando fumaça.  Café quente, forte, fresco! Um vizinho, um compadre, um colega, um parente em puxado de conversa, um ou outro filho aparecendo - filho sempre em aparecimento. E, ligeiro, a noite no silêncio do sono. Quando Magnólia acorda, o avô já saiu. Seu café na mesa e a avó, com a cabeça toda enrolada com um pano, em labuta de varrer o quintal. E nessa labuta, o chap-chap da vassoura de palha, a terra dançando no vento, o aspergir do chão para suavizar a poeira. Depois, molhar as plantas com água carregada em balde, da cisterna. A arrumação da casa... E a retomada das passadas dos passos de ontem, de anteontem, todo dia, todo dia...

As impressões, as observações, os acontecidos nunca adormecidos, os achados pelo rebusco da memória, os marcos destacados no mapear do futuro saindo da boca de Magnólia no salteado de horas, de dias, de semanas, conforme a ocasião dos momentos, sem enredo de fala conjuntada, reta, contínua.

Mirando o futuro, Magnólia desenhara para si um querer inspirado no retrato do ambiente de vida de sua avó. Por ele, via-se, logo depois do sair do sol, com um pano amarrado na cabeça, empunhando uma vassoura de palha, varrendo o chão do jardim de sua casa. No jardim haveria plantas grandes, plantas em caqueiros, plantas rastejando o chão, dando abrigo a calangos, protegendo caseiros de formigas. Colocaria comida em vasilhas para os passarinhos se contentarem. Procuraria aproximação com eles, dar-lhes-ia nomes e vê-los-ia pular de galho em galho, saltitar pelo chão limpo... E, sua voz se levanta tangendo o silêncio: “Todo mundo tem um sonho. O meu é esse!”

A vida, o mundo. Magnólia se transferira para sua cidade, vendera a casa, pusera-se em proximidade dos seus. Os filhos crescendo em tamanho, em exigência, abraçando querer de ser em conformidade com os brilhos avistados, difundidos, se negando a sacrifício, a responsabilidade, trapaceando os estudos, desbancando todo assento de disciplina. Ela, fugindo de confronto com eles, se alimentando com a esperança de que os filhos mudassem, alcançassem compreensão; cedendo a pedidos, a expectativas de parentes. O salário se esfarrapando no contar de poucos dias. A casa? Moradia alugada. O preço do aluguel empurrando a moradia para mais longe. Mas não para tão longe. Os filhos sem aceitar condição de dificuldade de residência muito distante. Então, acumular endividamento de aluguel, suportar ameaças de proprietários, esperar sentença de despejo. Netos aparecendo, abrigados na avó. E a resolução de um filho de morar em casa outra, e de outro filho também, em atendimento às imposições de suas mulheres. Despesas se acrescentando, despencando sobre Magnólia, e ela em valia de cartão de crédito um, cartão de crédito outro, mais outro; empréstimo no banco “a”, empréstimo no banco “b”; empenho do décimo terceiro salário... Descontentamento de filhos, pedidos chorosos de netos. Insatisfações, oceano de insuficiências, mergulho na impotência. “Incompetente!” E o rosto de Magnólia engelhando, engelhando, os olhos ganhando fosco; os cabelos embranquecendo, caindo, secando; o corpo curvando murcho. Murcho, vestido com panos comprados em barracas de roupas baratas, na feira do bairro, com assinatura em ficha de crediário. E, depois de se aposentar, evitou visitar os colegas que permaneceram na ativa, mas não foi esquecida. E passou a não atender os convites deles para encontros festivos, de final de tarde de alguma sexta-feira. Segredou, serenamente, a uma amiga que lhe apertou em cobrança de presença: “Não tenho roupa, não tenho dinheiro para colaborar com nada, não tenho como pagar o transporte. Tenho vergonha!”.   Esse estar a se aprofundar dia a dia, mês a mês, ano a ano. Aí, ela ouviu um estalo, um estalo acompanhado por um fisgado que relampejou forte, bem forte, dentro de si. E não viu mais nada.

A sala de velório agora cheia. Gente da vizinhança de Magnólia, parentes, ex-colegas de trabalho chegando. Chegando no quase chegar do horário anunciado. Velas... Mais velas acesas, estalando. “Pai Nosso”, “Ave Maria”, palavras de despedida. E o som continuado do choro choroso de um menino agarrado ao caixão, entrecortando os dizeres, as rezas, fazendo minar lágrimas em alguns presentes. Choro mesmo, só o dele. Ele: neto de um dos irmãos de Magnólia. Sempre retribuíra os carinhos recebidos dela, chamando-a de avó e a tomando como avó de verdade, devotando-lhe obediência e muito querer bem.

 O coveiro chegou procurando a sala de funeral pelo número escrito na ficha que carrega na mão. Quer confirmação da identidade da morta. E se aproxima do caixão. Nada de surpresa. O horário é sabido, as palavras já dadas, a reza rezada. A tampa do caixão... E soluços, soluços, respirações profundas... Caixão fechado. O coveiro encaminha o cortejo em seguir vagaroso. Segue, para. Gavetas de ossários se erguem do chão a mais de dois metros, enfileiradas de um lado e do outro do caminho – é uma rua. Vestidas de abandono, há gavetas expondo rachaduras, paredes descascadas, nomes e datas quase apagados, apagados. Em uma e outra, ossos se mostrando. Mortos esquecidos!  Morte da morte! Poucas, poucas quase nenhuma, estampando rastro de vida cultivando memória. Em uma dessas gavetas, o nome do habitante, a data de nascimento, de falecimento reacendidos há pouco tempo com tinta preta, por mão sem traquejo em escrita, com uso de pincel improvisado, e o dizer: “Sempre na minha lembrança”. E um arrumado de flores de plástico, em cores fortes, dentro da imitação de um jarro, denunciando atenção de cuidado. O cortejo segue. Há cortejos adiante, há cortejo atrás. É uma fila! A fila agora se encaminha por uma avenida de túmulos, entra em uma rua na direção do destino. O ringir do sacolejo do carrinho, o barulho das rodas no chão, o chiado do movimento de pés pisando, algum respiro de soluço, alguma zoada de tosse reprimida. Tudo isso fazendo música ao adeus-até-nunca-mais. Uma área aberta, sem túmulos desponta cheia de covas alinhadas. De um dos lados dela, vêem-se quatro cortejos adiante, três atrás, todos enfileirados, parados. Estão no aguardo de chamada para consumação dos atos. Dentro da área, alguns coveiros preparando covas, outros executando sepultamentos, envoltos pelos acompanhantes de cada morto em enterro. E a execução de um sepultamento perto, outro mais à esquerda, mais um lá no final. Do outro lado, fazendo fundo a essa área de covas, ruínas de ossários descambando, na forma de desagasalho de favela feia. E lá se vai mais um cortejo na direção dos coveiros que chamam. Assim, até o chamado se dirigir ao nosso. Vamos! Vamos pisando por cima de covas de mortos recentes, de mortos não tão antigos, com os pés afundando na terra remexida, pisando sobre restos de caixões, fazendo curvas para nos desviarmos de covas abertas. Os coveiros indicam o lugar, assumem o caixão. A cova é rasa. Cova rasa!!! A tampa do caixão no nível do piso do chão. “Como isso pode ser?!!!” Põem-se a jogar terra sobre o féretro, cuidando em amontoá-la sobre ele de modo a não o deixarem à mostra, de modo a impedir fuga de cheiro. “É terreno da prefeitura. Cova provisória. No contado de dois anos os ossos terão que ser removidos”, circula a informação. As pessoas saindo. Não há marco para identificação da cova. As outras covas estão no limpo, sem números, sem cruzes, sem lápides. “Morte da morte”. Os primeiros sinais do crepúsculo se jogam como sombras douradas sobre manchas de nuvens que se esparramam no céu. Os coveiros entraram em providenciamento de outro proceder igual. Deixaram uma pá fincada em lugar próximo à cova de Magnólia , e pousado no seu cabo, um bem-te-vi trina, jogando vida naquele deserto de alegria, deserto de alegria onde sobras, lembranças de vida são sepultas sem deixar marca, e desaparecem no esquecimento eterno.

14/02/17

MEMÓRIA DA CAATINGA

Esmeraldo Lopes

Ideário para exposição no Clisertão 2016 – UPE - Petrolina.

Foi-me proposto abordar o tema Memória da Caatinga. Como tanto um termo como o outro vêm sendo utilizados com variação de conotação, acho conveniente iniciar esclarecendo o significado que atribuo a eles. Caatinga aqui, não se confunde nem com cenário e imaginário de desgraça, nem com sertão nem muito menos com semiárido, termos difusos, vazios. É um espaço com personalidade própria. Ambiente natural, caracterizado pela junção de topografia, solo, e clima

TEXTO COMPLETO NA SEÇÃO  IMAGENS E PROBLEMÁTICAS DA CAATINGA

A MISSA

Esmeraldo Lopes

Outro dia, circunstâncias me levaram até uma igreja para assistir a uma missa. Quando cheguei, a celebração ainda em fase preparatória. Pessoas com rastros de sono nos rostos adentrando, dirigindo-se mansas no rumo de assento; membros do coral tomando posição; auxiliares do padre, uns se paramentando, outros em preparação dos apetrechos da cerimônia. E, entrecortando o silêncio, murmúrios, pigarreados, barulho descompassado provocado por batidas involuntárias nos bancos, sons de pisadas, espirros, chiado de microfonia, notas desalinhadas de instrumentos musicais. O padre em pronto, saindo da sacristia acelerado, atraindo chamamento deslumbrado de atenção, com movimento de olhar ligeiro despejado sobre os fiéis, sobre a equipe celebrante, fingindo inspecionar o ambiente. E circula pelas laterais, vai até a porta, verifica a rua. Examina a batina com as vistas. Corre as mãos sobre a cabeça e ajeita o chapéu quadrado. Desloca-se pela nave na direção do altar, retorna para a sacristia. Os fiéis em espera, e na espera tentando encher a cabeça, ocupar os olhos... Mas, com o quê? Minha infância rebrotando na memória, perguntando: “Cadê o ar, o cheiro de igreja?” O altar desertado, com a escultura de um santo expressando expressão nenhuma, em solidão; mobiliário parco, banhado em singeleza pobre; assentos para o assento do celebrante, de dois auxiliares; as paredes laterais em descampado. E a luz do sacrário? Não, não há tremeluzir, e nem flamância. Ah!, a luz não vem de chama, não há fogo, não há ardência, vem de lâmpada em avermelhado fixo. Um pontinho fraco, anêmico. A presença de Cristo lembrada ali. Templo, um nome nomeando espaço cru, despido de mistério. Nada para contemplação, nada puxando meditação. Deus..., nenhum deus pode ter querença de atender chamado para fazer pouso ali. E o tédio se preenchendo em mim pelo viajar de minhas lembranças nos ditos soltos nos ventos de 1725 pelo padre Nuno Marquez Pereira:

Vistes já uma Igreja bem armada, e paramentada de fino ouro; rica prata, luzidos espelhos, perfeitos quadros, custosas sedas, crespos volantes, vistosos frisos, branca cera, flamantes luzes, e em fim fragrantes (...); e ser tudo isto ou parte deste adorno emprestado? Não porque a Igreja para ser digna de todo culto e veneração lhe seja necessário este custoso aparato; porém sim, permite este asseio, e alinho, para lisonja do gosto, agrado da vista, recreio da vontade.

“... lisonja do gosto, agrado da vista, recreio da vontade”.

Cânticos.  A entrada da missa. O padre, atento ao seu visual, observa-se, conserta-se. Emenda a postura de componentes do séquito, corrige suas posições pelo reordenamento dos apetrechos. O encaminhar-se organizado na direção do altar. E cada um toma o seu lugar. O padre procede a celebração no passo a passo de receituário. Suas palavras não contêm fé, não carregam mensagem, não transportam convicção. Alcançam os ouvintes em som oco. Seu olhar não se fixa. Não, não há circunspecção nele. Seus auxiliares, envoltos em pauperismo indumentário, reprimem bocejos enquanto aguardam o momento para reprodução dos movimentos da próxima passagem do ritual.  

Comparecentes à missa: fiéis, não religiosos - sentados em mistura. Os fiéis, na obediência do senta-se, levanta-se, ajoelha-se, canta, escuta, responde, benze-se... Entre eles, vê-se claro, quase todos em proceder por imperativo exterior, com pensamentos voantes, olhares desprendidos, ouvidos dessintonizados. Poucos fiéis com força de fé. E fé forte, ali, ou alimentada pelas lembranças de outras situações ou arrancada nas profundezas de si. Mas por uma ou por outra dessas situações, o aparecimento de manifestações de fervor aqui e acolá, percebidas pela exaltação sincera de vozes, pelo vigor de gestos, pela visão de semblantes crispados. Os comparecentes não religiosos, em silêncio, assistindo a cerimônia, fazendo acompanhamento aos fiéis por replicação respeitosa de proceder. E o fim. O fim, a missa terminou!

Desacontecimento. O padre, seus auxiliares, voltados para si, em trabalho de desapetrechamento, de desparamentação, desmanchando as marcas da cerimônia. Os comparecentes em desarrumo para preparo de partida. Uns conversam por um lado, outros por outro, alguns saindo em despedida com aceno de mãos, alguns escorregando sem despedida. O barulho de vozes se escasseando, se escasseando. Deserto.  Na calçada, um pequeno grupo se segura em conversa. Uma batida de porta. A Igreja fechada. Os componentes do grupo à sorte da rua. Como os demais comparecentes à missa, dispersamo-nos sem deixar sinais de estada ali. E o ali, agora apagado, indistinto, perfilado no comum das edificações da rua. O sentido de meu ter ido lá? Agasalho para ausência inexorável. Mas acabei no nada de uma igreja, de uma missa, na forma de formas sem conteúdo.

Transeuntes, carros, buzinas, semáforos, mais uma esquina, outra rua, o sol... Meu juízo preso na missa, na Igreja. E, no batuque de cabeça, me ocorreu: é preciso que haja templos, mas templos que sejam templos, monumentos sólidos, cerimônias cultuadas, para servirem de coberta à miséria da condição humana. Pensei isso sentindo o frio do nada, enquanto me veio a lembrança de um cruzeiro de beira de estrada. Cruzeiro fincado no frontal de uma curva suave, para destaque inevitável de avistar de andante. Armado em madeira grossa, pintada de preto, apresentava-se com um lençol branco deitado ao longo de seu travessão, com as extremidades pendidas para o chão, na feição de mortalha descansando; fitas coloridas, de coloridos diversos, tremulando, amarradas e deixadas por devotos naquele marco como marco de lembrança, como profissão de fé; sua base arrodeada de pedras pequenas, em formato de monte, postas, uma a uma, por veneradores, como testemunhos eternos de suas reverências. E, nesse cenário, a figura de um senhor, prostrado, indiferente aos ruídos do mundo, no calor do sol, aquecendo seu espirito com oração.

02-06-15

APOGEU

Esmeraldo Lopes

Há coisas que nos ficam na mente e por nada nos abandonam. Vem-me agora uma. É um nome. “Apogeu”. E, com ele, o embalo do som da voz arranhenta de uma professora zoando em meus ouvidos. “Apogeu: ponto culminante”. E o som dessa voz chegando toda vez que ouço, leio ou pronuncio esse nome. Entretanto, nunca havia parado para refletir sobre ele. “Ponto culminante” me bastava para preencher o seu significado, a compreensão de sua aplicação. Pelo que vejo, as outras pessoas com esse mesmo compreender. Ouvem com prazer o dizer que estão no apogeu, dizem em elogio que alguém ou algo o atingiu.

Referências a apogeu de civilizações, de povos, de indivíduos, de acontecimentos se despejando em escritos, ao som de palavras, em representações por imagens. A imaginação pousada nele, pausada, extasiada. No olhar fantasiado das pessoas, um apogeu avistado pelo ver de visão de feitos fantásticos, de desfilar de virtudes, de vida exuberante, do fausto, de glórias. Mas..., em breve parada para reflexão, perguntas: De que foi feito? Como se chegou a ele? Que ocorrências abriram seu percurso? Qual o custo de sua manutenção? Na busca honesta dessas respostas, circulação por subterrâneos. E, neles, o se topar com a imagem de conquistadores, de vencedores impondo exigências horrendas, duras penas sobre os dominados, sobre os vencidos; a descoberta de que o vigor, a beleza dos jardins são mantidos por sua irrigação com lágrimas avermelhadas; o ouvir de gemidos dolorosos embutidos em cada nota melodiosa arrancada de instrumentos finos por mãos hábeis; o ver gotas de suor, cansadas, meladas de sangue, escorrendo sobre a superfície das edificações, dos monumentos. E o se deparar com imagens alquebradas dos feitores do apogeu se querendo vistas em gravuras, em fotografias, em fragmentos de frases rabiscadas nos idos do tempo; querendo se ver no atento do ver da imaginação de observadores. No encurtar de dizer, matéria-prima de apogeu: sacrifício, refrega árdua, alaridos desesperados, enganos e desenganos, crueldades, remorsos, indiferenças, amontoados de cadáveres. Mas, a quem interessa ver ou ouvir ou saber isso?

A trama humana na trajetória do tempo, se inscrevendo na história, fazendo história. E nessa trajetória, movimentos de ascensão, de estabilização, de declínio, de estabilização... Respiração, expiração... A história em novo rumar. Apogeu: ponto de intersecção entre ascensão e declínio. Ascensão, o olhar para frente embalado por espírito utópico, por canto de conquista, por vislumbre de recompensas futuras, por chibatadas, por medos, por mortes. E as conquistas, e sua consumação, e o brotar de frutos. Deleite no desfrute dos frutos. Declínio: desarranjos, arruinamentos. Recusa de sacrifícios, negativa a atividades dificultosas, tédio. Lassidão. Aí, na ferrugem do tempo, proliferação de anemia, cultivo de hedonismo. E a história atravessando o apogeu, colocando-o longe, longe, longe. E da distância do tempo, na distância parida pela desinformação, a mitificação do apogeu, o seu lustramento. Cabeças se voltando em olhar para trás, entrevendo-o por vislumbre nostálgico. O nascimento do mito da Idade de Ouro alimentado e realimentado pela voz de alguma professora, em cada lugar de muitos lugares: “Foi o apogeu: o ponto culminante”. O arregalar de olhos que não enxergam, o afinar de ouvidos que não sabem ouvir, a atenção de juízos que não atinam. E a história habitando nos monturos, sufocada nos subterrâneos do tempo, das edificações.

12/05/15

ANJOS

Esmeraldo Lopes

Olhe a história do homem. O que ele chama de virtude é uma pequena gota, uma gotícula, depurada do oceano de desgraças que pratica. A existência humana é feita com dor, com lágrimas, com todo o tipo de crueldade, de canalhice que se possa imaginar. O homem, por muito que se banhe nas águas de religiões, de súplicas aos deuses, do conhecimento filosófico, do conhecimento científico..., não pode, nunca vai conseguir, se desvencilhar do egoísmo, da crueldade. Egoísmo, crueldade, temperos essenciais de seu ser. Pode, é verdade, por motivo de reconhecimento da condição de miséria de si, ver-se no espelho da miséria dos demais, a eles se afeiçoar, e se derramar em compaixão ou em revolta ou em compaixão e revolta. E, em estado de compaixão, de revolta, ver-se-á inclinado, em luta intensa, a reprimir, a sufocar sua essência, desafiando o ser que é. E nesse sufocamento de si, passa a ser um quase não-ser-humano, ganhando contornos de mutilado, de louco, de idiota. Estrangeiriza-se,  leva vida de estrangeiro e como estrangeiro passa a ser considerado. Mas ser assim, coisa para uns alguns bem poucos, uns nada no meio de milhares, de milhões. O quase absoluto dos humanos apenas em vista de si, vendo na desgraça alheia a condição de seu bem-estar, o critério de avaliação de seu progresso. Disputas, lutas encarniçadas.

A sociedade se fazendo pelo aprisionamento dos homens a deuses, a reis; por imposição de ordem amarrada em costumes, em mandados, em leis; pelo estabelecimento de mecanismos de controle; pela visão do estandarte do medo, da vergonha, tremulando, acenando ameaça. Tiranias, monarquias, democracias, aristocracias, ditaduras. E eis que entre vindas e idas, tropeços e solavancos, calmarias e procelas, pensadores proclamando o sonho do nascimento do cidadão. Cidadão: ser aureolado pela ideia de liberdade, de igualdade; cultivando dignidade, responsabilidade; armado com a aspiração de justiça. Cidadão: guerreiro da democracia. Na democracia, um estatuto comum articulado em formato de lei, criado na refrega de embates ardentes. Embates animados ao som de liberdade de expressão, e ao ritmo de participação. Aí, a sociedade avistada como espaço de conflitos; a democracia como terreno para confrontos sem choque físico. O estatuto comum articulado dentro dos princípios básicos de igualdade, de liberdade, mediando as relações sociais, prescrevendo direitos, deveres, proibições, deixando no aberto amplo espaço para ações individuais, grupais. E entrechoques entre os limites da esfera da liberdade e da igualdade; entre os limites da esfera individual e da esfera coletiva; e entrechoques entre grupos, entre indivíduos. No embalo desses entrechoques, o surgimento de problemas infinitos, a infinda busca de soluções, estimuladas, conduzidas pela liberdade de pensamento, de expressão, de manifestação. E se outras liberdades aceitam poda, encurralamento, a liberdade de expressão, de pensamento, requer plenitude, não pode existir pela metade. E vem a necessidade dos membros da sociedade se moldarem no chacoalhar dos confrontos, aprenderem a assimilar açoites verbais, e com açoites verbais se defenderem, atacarem. Por esse meio se compreenderem, por ele, arranjarem maneira de se tolerarem. Limite de intromissão posto por lei apenas para calúnia, para devassa de transcorrido na intimidade de espaço da vida privada. Mais que isso, censura vinda pelo autocontrole ditado por valores éticos, por temor de recriminação moral.  Mas, mesmo com todo esse festival de liberdade, o estandarte do medo, da vergonha, tremulando no ar. Tremulando no ar com seu suporte fincado na convicção de que os homens, por muito que possam querer, não conseguem se transformar em anjos, mas sem esforço nenhum se igualam a diabos.

O desenrolar da vida social na direção do acontecer falado, mas eis que uma ideia mirabolante: os homens são anjos. E aqueles que se apresentam em cara de diabo, assim o fazem por culpa de traumas, de maus-tratos recebidos, “São vitimas!”, “Vítimas!”, mas podem e devem ser anjificados. E os agarrados nesse pensar, se jogando no mundo em pregação, recitando versos da reza da paz: “só faz o mal quem não conhece o bem”; “o homem pode ser melhorado”; “o homem é construído”; “o homem é o que fizeram dele”... Para melhorá-lo, para reconstruí-lo como um ser bom, abolir punições, julgamentos, medidas repressoras, constrangimentos, ameaças, amarras morais. Pautar-se por ações de “sedução”, de “compreensão”, de “conscientização”. Nestas palavras, o caminho da redenção do mundo. Sim!, compreender para seduzir, seduzir para conscientizar. Conscientização, eis aí o novo estandarte. O estandarte da paz total. O homem apanhado como tábula rasa, como ser indefeso, como vitima, como incapaz completo ou como um monstro em armação de carne com feição de humano. Mas assim até ser tocado pela vara miraculosa da conscientização sob a batuta de missionários conscientizadores. E a espera pela ocorrência do milagre de despir os conscientizados de todos os preconceitos, e os levar a se porem em obediência absoluta aos mandamentos de vida reta: “aceitar as diferenças”; “concordar com o diferente”; “não julgar”; “não discriminar”; “tolerar”... Mas vem que o poder do milagre é fraco, requerendo de seus destinatários postura de permissividade excessiva, de tolerância auto anulante, de insensibilidade transcendental, e se transforma em fermento de reação. 

Os autodeclarados “diferentes” se dizendo oprimidos, massacrados, incompreendidos, discriminados, se juntando, formando subcultura, criando identidade própria. Descobrem-se minoria. Por esse se ver, rejeitam o estatuto comum da sociedade, embora se apoiem nele para reivindicar, para assegurar direitos. Acusam-no de opressor, de cerceador de seu querer, de seu ser. Reivindicam respeito à particularidade. Exigem direitos especiais. Instituições públicas, privadas, agentes institucionais em cumprimento de mandatos ou de carreira, enquadrados no discurso dos missionários conscientizadores, das minorias, em busca de afeiçoamento às metrópoles, para afinado de discurso com o Iluminismo. E minoria uma, e minoria outra, e mais outra... minorias surgindo, se conflitando. Cada minoria se pondo na consideração de centro da sociedade, querendo avanço, destroçando o território das outras minorias, da maioria, rasgando o estatuto comum, pisoteando os princípios de cidadania, se impondo sem atenção de limite, de respeito. A sociedade em fragmentos, sem passo de encontro, em cara de colcha de retalhos. A maioria anêmica, em estado de acefalia, se vendo forçada a tolerar o intolerável, observando o acontecer em indignação silenciosa, mastigando raiva, nutrindo ódio, ansiando redentor, esperando o grito de estouro. De dentro dela, reações camufladas, explícitas, violentas. De quando em quando, um pensar contestando em bradejo; manifestação de objeção; proclamação de posição contrária, de negação. Refrega. Os missionários conscientizadores se sentindo ofendidos, os membros de alguma minoria se declarando constrangidos. Então, seus “Os Desfensores” se erguem montados em razão rasa, vomitando espanto, invadidos por convicção fanática, pronunciando os gritos de guerra: “Absurdo!” (“...”) A intolerância dos pregadores de tolerância aflorando com virulência de tempestade. E desabam tropeçando sobre os mandamentos que apregoam. Reclamam punição para os que não aceitam o seu querer, o seu ser, o seu pensar. Julgam-nos, discriminam-nos, vilipendiam-nos, defenestram-nos. E cada missionário conscientizador, cada minoria, se agarra ao sonho de censura a palavras, a expressões, a manifestações, a pensamentos que decretam inconvenientes; e deseja a ampliação das prisões; e propugna por medidas segregacionistas; e se incute a ideia de superioridade. E missionários conscientizadores, membros de minorias, imaginando as vantagens de algo semelhante à Santa Inquisição para o êxito da obra de eliminação dos preconceitos, para implantação inconteste de seu querer, para a submissão ou aniquilação completa de seus opositores. Paz total. Uma sociedade de anjos. De anjos atentos, encarniçados guerreiros do bem. Do bem, movidos a ódio, em luta contra o mal.

15/04/15

 

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