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CONVERSA CANALHA

Esmeraldo Lopes

Poucas coisas no mundo se igualam, em canalhice, ao dizer de comunista quando este se põe a berrar as expressões liberdade de expressão, democracia, participação. Nessa matéria, ganha com boa vantagem do apenas politicamente correto. O politicamente correto está o tempo todo saculejando a boca com a pregação de paz, de amor, de convivência com a diversidade, de tolerância plena, de irmanação universal, de fim das fronteiras, de derrubada dos muros... mas, quando  alguma atitude ou opinião ventila em divergência a algum ponto de sua pregação, declara guerra, e só não elimina o divergente por não dispor de arma ao alcance da mão ou... de coragem. Mas explode em ódio mortal, ameaça banimento e atira palavras de excomunhão que compõem  seu pobre e diminuto universo: machista, racista, xenófobo, homofóbico, reacionário, retrógrado, moralista, conforme o caso, e, em todos os casos, o indefectível “fascista!” E se fecha no seu grupo ridicularizando o desafeto, procurando meios de destruí-lo seja lá como seja. Nada, absolutamente nada que contrarie seu ver, seu pensar, seu ser, merece respeito, atenção. E seu pensar, seu ver, seu ser, enquadrados em uma bolha contendo verdades inquestionáveis, definitivas, eternas. Bolha emoldurada, estampada com as cores da permissividade, amarrada com narrativas arbitrárias, elaboradas por algum sapiente da paz universal, definidor de verdades absolutas, das regras do bem pelas quais se orienta e sem as quais o politicamente correto não sabe assoprar uma palavra, nem dar um passo.

Em matéria de recorrência a guru para botar alguma ideia na cabeça, o comunista no mesmo ser do politicamente correto. Não sabe fazer oração, pois só sabe ver pela cabeça alheia. Pega reza pronta na Bíblia escrita por Karl Marx ou em algum catecismo escrito por Lênin ou por Gramsci ou em cartilha com rabiscado acerca dos princípios do socialismo científico ou no dito de alguma divindade de gueto. E fica engolindo, remoendo e recitando verdades de acontecidos, de a acontecer inexorável.

Vem-me uma cena. 2013. Manifestações em muitas cidades. E em muitas cidades, por todos os lados, gente prometendo protestar. Protestos contra tudo, absolutamente tudo. Cada participante gritando o seu querer, sem ligança para o querer de quem a seu lado. Velhos, crianças, jovens, pobres, ricos, mulheres, homens, enfim, o povo, no sentido total do termo, protestando. E quem não fazia comparecimento por corpo, fazia acompanhamento sentado em sofá, mirando televisão. Nesse clima, topo com um comunista, conhecido meu. O homem trazia estampado na face um sorriso largo, um olhar resplandecente, deslumbramento superior ao de Cristovão Colombo ao se deparar com a América. Levantou a mão para me mostrar um livro. Era um livro escrito por Lênin. Olhava com fascínio para ele e se voltava para mim. Queria uma resposta de meus olhos, alguma manifestação de minha boca. Disse-lhe que conhecia o livro, que já o havia lido. Ele me respondeu dizendo que também já o lera, mas que o estava relendo, se debruçando sobre ele com atenção atenta para entender o momento, as manifestações em acontecimento. Eu lhe disse que aquele livro fora escrito há quase cem anos, pensado em realidade de outro país, de outro povo. Ele retrucou: “É claro que eu sei disso!, mas aqui ele explica tudo o que está acontecendo, é só saber ver. Na Rússia foi assim também. A Revolução de 1917 foi desse jeito!” Não ocultou sua insatisfação... e frustração com minha posição, com minha observação. Algum tempo depois voltou a me encontrar e, ao me avistar, foi dizendo: “Viu os Sem Terra?! Pararam o trânsito, invadiram a Secretaria, destruíram os experimentos do laboratório! É a Revolução que está a caminho! Bote as barbas de molho! Os burgueses e a pequena burguesia vão ter o que merecem!” 

A idiotice é perdoável, temos que tolerá-la. Aliás, cada um de nós é ou foi idiota de algum modo, em alguma circunstância, em alguma dimensão da vida. Nesse assim, ao perdoarmos um idiota, uma idiotice, estamos, de alguma forma, também nos autoperdoando. Mas a canalhice não pode ter perdão, não merece tolerância, complacência. Canalhice implica astúcia, e gera ruína, maldade, supressão do ser do outro. E é exatamente isso o que faz o comunista. Com toda a força que a garganta permite, com toda a habilidade que o verbo possibilita, reivindica e luta, em nossa sociedade, pelas chamadas liberdades democráticas, mas cala diante das atrocidades e assassinatos cometidos contra a população durante todo o período de existência da União Soviética, principalmente durante o governo do bandido e genocida Stálin; omite a violência, as injustiças, assassinatos de milhões, cometidos pelo governo Comunista da China; finge que não sabe do massacres em massa de pessoas no Camboja pelo Khmer Vermelho, sob o comando do comunista sanguinolento Pol Pot; solidariza-se com o feroz, sanguinário e absolutista governo da Coreia do Norte; apoia as medidas restritivas das liberdades democráticas na Venezuela; aplaude a inexistência de liberdades democráticas em Cuba.  Diante dessas realidades o comunista emudece. Pior: nega. Se apertado por questionamentos, fala com voz miada: “Houve erros”; “Ocorreram desvios”, “Foi uma questão de necessidade histórica”. E se perguntado sobre a existência da liberdade de expressão e de participação em um governo comunista, com convicção cínica responde: “Liberdade de expressão, de participação são liberdades burguesas! A burguesia tem que ser morta, a pequena burguesia tem que ser submetida! Não podemos deixar espaço para o inimigo se manifestar, lutar contra nós”. O restante da população? O comunista estica o peito: “A população será protegida contra a cultura da burguesia, contra os membros da pequena burguesia. A população será reeducada”. E respira fundo, joga olhar em realidade idealizada. Vê-se autoridade, em algum comando, determinando a vida, indicando o seguir do povo e o povo calado, obedecendo. E todos na crença irrevogável das mesmas ideias, submetendo-se às aspirações que lhes apontam, que lhes impõem. Um único pensar, uma única voz.

10.06.17 

SÓS

                                                                                          Esmeraldo Lopes

Lá vem Valmir empurrando sua galeota, procurando carreto, serviço de levar ou de trazer coisas, de limpeza de terreno, limpeza de chão de muro, de varreção, qualquer labutar que dê ganho e o ganho que procura o que lhe derem pelo serviço que faça. Rua acima, rua abaixo, ele assim todo dia. Desde menino nesse mesmo. E, desde que engrossou a voz e a barba rompeu, pegou gosto por cachaça. E, por causa da cachaça, deu para errar o caminho de casa, dormir em qualquer lugar, largar a galeota por aí, não terminar serviço. Isso contrariou dona Joaninha. Ele era seu único filho. Ela não tinha marido. Tinham parentes. Mas no certo mesmo é como se pode dizer: eram os dois no mundo. Ele, o sonho todo dela. Ela, o único ser que se importava com ele.

Quando dona Joaninha sentiu cheiro de cachaça no filho, entristeceu-se. Rezou rosário em rogo para ele ser desviado do descaminho. Mas depois que Valmir exagerou nas faltas, ela perdeu a confiança nele. Daí por diante, onde ele, ela. E se ela em trabalho de lavação de roupa na beira do rio, ele obrigado a ficar por perto, debaixo de vigilância bem feita, sem descanso. E ele vigiando a atenção dela, olhando-a com os olhos disfarçados por trás da aba de seu chapéu de palha. E, no primeiro descuido de dona Joaninha, fuga na rapidez de flecha! Ao se dar conta da escapada do filho, ela largando a roupa aos cuidados de colegas para ir ligeiro, ligeiro atrás dele. Às vezes o encontrando ainda a tempo, às vezes ele já com o juízo melado. De um jeito ou de outro, Valmir obedecendo, pondo-se na direção ordenada pela mãe, caminhando na frente. Dona Joaninha atrás, com uma varinha, açoitando-a leve no corpo dele toda vez que desconfia de tentativa de enganação. A cada açoite, Valmir fingindo dor com palavras, mas rindo, escondendo seu rosto dos olhos dela: “Ai, mãe! Ai, mãe! Ui, ui, ui!” Ele já à beira dos 40 anos. Ela, velhinha, com o corpo chupado pela vida, sem força...  E os dois se encaminhando para a retomada do fazer que ela estava fazendo antes.

Dona Joaninha cercando Valmir por todos os lados e modos para não deixá-lo beber, mas não tem jeito, ele vai beber. Se de umas vezes Valmir forçado a acompanhar a mãe ao trabalho dela, de outras ela o seguindo enquanto ele procura ou desempenha serviço. E assim os dois vultos subindo, descendo, andando para um lado, para o outro compondo a paisagem móvel da cidade. Ele acelerando o passo, esperando o alcançar de alguma esquina para, ao desaparecer dos olhos da mãe, atiçar-se em carreira e tomar destino de liberdade. Ela querendo se apressar, mas suas passadas miúdas, suas pernas cansadas... Valmir escapole. Entra em uma casa, em outra... vê dona Joaninha passar com a varinha na mão, com os olhos fogueteando. Ela não pede informação a ninguém a respeito de seu filho, ninguém lhe avisa nada. Vai para um lado, ele para outro. Às vezes acaba descobrindo a localização dele pelo som de vozes de malandros gritando: “Macacuí, Macacuí!”. “Tabaco da mãe, cabra corno, filho de puta! Traga tua irmã aqui que eu quero é comer ela! Traga! Traga a rapariguinha, viado de pai xibungo!” Não precisa dizer que por vezes ele tirava os documentos e “É com esse aqui que eu arrombo ela!” E pedra zoando no espaço, estraçalhando-se no chão, arrancando reboco de parede. Dona Joaninha chegando: “O nome dele é Valmir. É Valmir! Vamos, Valmir, vamos!” Ela olha para todos, mas não mira ninguém. Ali não pode haver alguém merecedor da consideração da um olhar, do endereçamento de palavra. E vai com o filho, atingida na alma, ferida no coração pela desfeita do tratamento que deram a ele. Atrás fica a cidade alegre, sorridente, indiferente às lágrimas que invadem seu sentimento.

Acontece de Valmir não querer fugir da mãe ou não poder. Aí se encaminha certo a procura de serviço. Se acha, quando a labuta é cavar chão, varrer, remover entulho, fazer algum transporte, dona Joaninha vigia o briquitar dele acocorada ou colada nos passos dele, com sentidos em alerta para evitar que ele escape e vá beber. Mas ele já sabe disso. Preveniu-se. Por saber o lugar de despejo dos entulhos, de antemão, deixa lá, entocada, garrafa de refrigerante cheia de cachaça – é a meiota. E, quando vai fazer o despejo, aproxima-se do esconderijo, dá umas bichadas às escondidas. Às vezes coloca a garrafa dentro da cueca e vai bebendo nos espaços do descuido da mãe. E aí, quando dona Joaninha percebe já é Valmir sem conseguir botar governo na galeota, varrendo sem rumo... soltando gaitada, assoviando, conversando sozinho, gritando: “Iquiô!”. Dona Joaninha se arria na tristeza. Dá-lhes umas varadas. Ele se encolhe aceitando a peia: “Ai, ai, ai”. E ela o toca no caminho de casa: “É minha cruz. É sina que Deus me deu”, se consola. Em casa, ele é botado de castigo. O castigo: não sair. A noite deita e dona Joaninha também. “Valmir, tá na hora de dormir. Ande logo!” Ele se estira na esteira. Fica quieto, quieto, calado esperando a mãe ressonar. E quando um ressono da mãe se emenda no outro em continuado, ele levanta devagarzinho, abre a porta e... Dona Joaninha acorda com o barulho de Valmir entrando: “Aonde você vai?” “Fui mijar, mãe”. Mas o cheiro de cachaça... “Tava era bebendo, safado!” “Não mãe, abença!” “Deus que lhe bote juízo... e corrija sua safadeza”.

Dona Joaninha e Valmir. No turvo da noite, no clareado do dia, dois vultos se movendo na cidade. Vultos... O que pensam? Sonhos... O que sonham? Dores... há? Necessidades? Quem quis saber, quem perguntou, quem se interessou? Quem prestou atenção à dor escorrendo nos olhos de dona Joaninha ao ver seu filho zombado, diminuído, caído bêbado na rua? O que se sabe e é certo é que um dia eles se foram. Levaram consigo suas silhuetas. Deixaram atrás de si uma cidade que nunca os viu e que por certo já os esqueceu.

 

 

ESCULACHADAS EM MADRI

Esmeraldo Lopes

A turminha lixo cultural brasileiro pensa que o mundo abraça a esculhambação que ela adota e propaga no Brasil. Para essa turminha, permissividade é norte. Tudo o que não cheire a ela é careta, reacionário, fascista. Referência só se for de enquadro por putaria, desrespeito a tudo o que tiver cor de decência, postura digna, tradição. E mais: se acha no direito de escrever a ordem das coisas de acordo com seu exclusivo achar – e achar de ocasião, pois ele vai variando conforme seu gosto. O mundo que vá procurando jeito de se enquadrar. Marca da personalidade dos componentes dessa turminha: petulância, arrogância, desregramento, irresponsabilidade, promiscuidade, egocentrismo... Pois bem. Com o carrego desses traços gente dessa turminha, ao sair das fronteiras do Brasil, vai batendo cabeça na parede, sendo enjeitada, repudiada, olhada de soslaio, criando imagem ruim de nossa nação, mas nem percebe isso. Como todo ser sem capacidade de crítica e de autocrítica, sempre pensa que está abafando, sendo referência civilizatória, farol do mundo. Foi com esse pensar que exemplares desse tipo de gentinha se deram mal em Madri. Ao não obedecerem às regras de um bar madrilenho ouviram um “Xô!, xô!” e tomaram  porta na cara. Motivo? Inadequação do calçado. Calçado recusado: tênis. Ora, no Brasil tem universidade que aceita aluno assistir aula nu; sandália de dedo é chic; bermuda-apijamada, roupa normal; mostrar o rego da bunda, sensual. E assim... E foi por esse ir que veio a indignação pela recusa do bar em aceitar ser adentrado por gente calçada com tênis.  Indignadas – essa gente gosta de se indignar!..., principalmente quando se rubrica com o nome de diretor de filme, de ator – resolveram fazer gravaçãozinha tirando onda com o bar, “para postar”. “Ah!, eu já andei de tênis até em tapete vermelho.” E a coleguinha zombando, debochando o ambiente, invocando boicote – como se ele aceitasse gente da estirpe recusada.  Resultado? Safanão do segurança e um gritinho miúdo, ridículo, envergonhado: “O que é isso?!” Viu não? Não é preciso ninguém dizer. É um safanão bem aplicado. Na gravação não aparece, mas o segurança deve ter dito: “Aqui não é lugar para gente como vocês. Vade retro!”

https://oglobo.globo.com/cultura/maria-ribeiro-agredida-por-seguranca-de-bar-em-madri-denunciem-machismo-22006853

29-10-17

CAÇOADA CRUEL

                                                                                                                 Esmeraldo Lopes

Darcy Ribeiro pensou... Ele vivia a pensar nas coisas do Brasil. Por isso deu pontapés nos muros da academia e chegou até as cozinhas, olhou os quartos, sentou-se nas salas das casas de Joãos, de Josés, de Marias, de Firminas... Pisou no chão de ruas de morros, de favelas, de cidades próximas, de cidades distantes... Darcy Ribeiro acocorou-se em rodas de conversa, escutando, falando com índios, com desalentados, com gente suada, quebrada pelos maus-tratos das labutas suarentas. Circulou entre ricos, médios, remediados e judiados. Deparou-se com o brilho de esperança acanhada circulando nos olhos de mães, de pais, de avós que só conseguiam vislumbrar algum futuro para seus filhos através da crença forte na força da fé. Deparou-se com o descaso de pais, de mães com as crias de sua rebentação sexual, de sua parição. Darcy Ribeiro não se acostumou a ouvir os lamentos, os suspiros de impotência dos brasileiros. E se atordoou diante dos sorrisos alegres da inocência abandonada nadando em rostos infantis. Vislumbrou a eliminação dos caminhos de desgraça ofertados às crianças, aos adolescentes filhos do povo Brasil. Por tudo isso e por muito mais disso, Darcy Ribeiro se aprofundou em pensar. E, nesse pensar, também invadindo sua mente o estar nutrido, estar de bem-estar de pessoas bem nascidas, bem criadas, bem posicionadas na escala social, brotadas no solo brasileiro. Estar de bem-estar desenhado nos corpos saudáveis, nos trejeitos do andar, do sentar, do falar dessas pessoas; estar de bem-estar indicado por suas posições, aspirações e até por suas frustrações.  E essas pessoas em estar tranquilo, acalentado pela coberta do sentimento de culpa, paga com migalhas decoradas com atos de piedade passiva, de caridade; e elas em estar tranqüilizado pelo aroma, pelo afago suave da indiferença; em estar tranquilo, tranquilizado pela auto isenção de quaisquer responsabilidades sobre os problemas sociais do país. E emergindo de seu pensar, Darcy Ribeiro constatou que no Brasil a distância entre as pessoas de bom estar e as de estar dificultoso em medida maior, bem maior do que a do tamanho de um oceano grandão. E bateu a cara na verdade mostrada pela razão: Para os filhos do povo Brasil, o caminho de fuga do mal-estar, educação. Mas educação, educação de verdade, com a missão de fazer do Brasil um Brasil nação, um Brasil país.

Educação... Os pais... Muitos pais ancorados na prostituição, nas drogas, no tráfico, engajados em quadrilhas bandidas... naufragados na meliência, sem condição moral, desprovidos de disciplina, de amparo psicológico e cultural para suster suas crias. Muitos, muitos pais consumidos por atividades extenuantes em empregos formais, em subempregos, submetidos a jornadas excessivas de trabalho, a deslocamentos longuíssimos, a períodos curtos de sono, sem poder, sem dispor de condições econômicas, intelectuais, mentais e de tempo para agasalhar, acompanhar, orientar, conviver com os filhos. E as crianças envoltas em ambiente bruto, degradado, entregues a si, ao dispor dos ensinamentos desbragados do mundo, aflorando animalidade, deitadas no desregramento, na frustração, orientando-se pela batuta da estupidez do querer sem freios de consciência, sobrevivendo nos traçados das regras ditadas pela lei do mais forte. Por esse ir, crianças nascidas no Brasil crescendo sem pegar o cheiro, o paladar, os trejeitos, os costumes, os sentimentos, o comportamento da gente brasileira, distantes de qualquer vento de compaixão, incapazes de autocompaixão. Escola? Diretores, coordenadores, professores, simplesmente “funcionários” se plantando em comodidade, aguardando o dia do pagamento, reclamando dos salários, complacentes com a baderneira dos estudantes, ofertando-lhes notas, atribuindo-lhes presenças, eximindo-se de responsabilidades, culpando o sistema. Alguns desses “funcionários” culpando o sistema para, no puro, no puro da irresponsabilidade, justificarem sua quietidão; outros vendo saída apenas pelo caminho de revolução: “O  problema é o capitalismo!”. E esses, em obra de doutrinação cerrada, estimulando desregramento, condutas de contestação barata, sem fazer, sem querer fazer desempenho do trabalho contratado. E tanto a postura desses como a daqueles, desaguando não apenas na perpetuação da situação, mas no aprofundamento da desgraça dos estudantes. Foi em ver mais ou menos como esse que Darcy Ribeiro propositou criar escola, estruturar plano de educação para fazer dessa gente, gente. Plantar-lhes hábitos, querer, consciência de existir, desejo de conquista por suor de mérito, perspectivas de ser ser humano. Escola assim, educação para esse assim, CIEP – Centro Integrado de Educação Pública. Um novo sistema, longe do padrão vigente. Suprimento alimentar, provimento higiênico, de saúde, assistência e acompanhamento educacional dentro e fora do período de aula, prática de novos hábitos, aprovisionamento de meios necessários para a superação das dificuldades do aprendizado dos estudantes, cultivo de dignidade, vislumbre de futuro. Essa escola, outra escola. Professores, diretores, coordenadores na regra do comprometimento enquadrado em procedimentos de responsabilidade, acompanhados; estudantes cobertos por direitos, obrigado ao cumprimento de deveres. E tudo correndo na linha do objetivo da busca de desenvolvimento de personalidade autônoma, de capacidade, visando o desenvolvimento das potencialidades das crianças e adolescentes pobres em condições idênticas a de estudantes afortunados pelo sacrifício ou pela fortuna dos pais possuidores de melhores condições, comprometidos com o futuro dos filhos.

Darcy Ribeiro buzinou CIEP no ouvido de Brizola. Brizola, Governador do Rio de Janeiro, não titubeou. Gritou: “CIEP, não, CIEPs”. E a obra levada a acontecer. 1985, o começo. Planos, reflexões, discussões, preparação, treinamentos, adequações... Prédio projetado nos traçados ditados pela atenção de Niemeyer. Ventilação, luminosidade... instalações adequadas, segurança, tudo dentro de atendimento de existir sadio, decente, digno. E, com pouco, vozes e corpos, infantis, adolescentes enchendo os Cieps de alegria. Professores inquietos, buscando nova compreensão, defrontando-se com os limites de si, procurando superação; diretores em resolução de problemas e problemas muitos. As crianças, os adolescentes contemplados, em novo estar; seus pais satisfeitos. Mas os opositores de Brizola em revolta. Opositores: a esquerda, a elite carioca, a elite do Brasil. E a eles se juntando contra o projeto Cieps, tachando-o de eleitoreiro, de elitista, os sindicatos de professores e professores do sistema convencional. Eleitoreiro porque na graça do povo e o povo o abraçando como via de solução para a saída de seus filhos da crueldade do abandono; elitista porque implicando gastos elevados, porque percorrendo caminho de busca do desenvolvimento de mérito, conduzindo os estudantes a vida de disciplina, a domínio consistente de conhecimentos, a adoção de posturas dignas, à busca de querer querer ser mais. E se os políticos de direita, de esquerda, atacando os Cieps pelos aspectos já ditos. Professores da rede convencional e suas representações, aumentando as condenações, batendo contra o processo de seleção e contra a situação de diferenciação dos membros do dos quadros funcionais dos Cieps; batendo contra os procedimentos pedagógicos neles adotados. E os argumentos dessas contestações espetados na bandeira da mediocridade paulofreiriana, mediocridade deitada na colcha da vitimização. Vitimização pintada com o fingimento de manifestação de solidariedade aos oprimidos.

Enquanto os opositores em obra de detratação, os Cieps navegando, subsistindo aos ataques, fazendo-se vigência, cativando atenção, fertilizando o nascer de um povo com sorriso dentado, falante em sotaque afinado, expressando-se sem tropeço na escrita, perseguindo a compreensão de seu mundo. Cieps, modelo em promessa para o Brasil. E assim indo. 1994, Brizola deixa o governo do Rio, não é eleito presidente da República. E veio vingança combinada com desprezo. Os Cieps entraram em espatifo. Prédios sem manutenção, quadros profissionais estraçalhados, estudantes re-entregues ao mundo do descuido. E, dos Cieps, o que perseverou, perseverou como sombra estuprada. O que seria centro integrado de educação foi tomado como escola com frequência em tempo integral. Educação tendo como medida o tempo dos estudantes jogados dentro de um prédio. Tempo preenchido com qualquer qualquer. Logo, logo nem o tempo integral. E o retorno exclusivo a discusseiras, a falatórios vazios. Falatório: educação de qualidade; desenvolvimento da consciência critica; pedagogia do oprimido; educação de acordo com a realidade; educação como base da nação, educação inclusiva. E os Cieps foram plenamente condenados ao esquecimento, ao apagamento de seu existir. O retorno à exclusividade da culpabilização do sistema como justificativa para nada fazer ou para fazer qualquer fazer sem prumo de responsabilidade.

O país no bagaço educacional. E a solução da bagaceira procurada através de tapeação. Tapeação “democrática”. E por essa tapeação, a imposição de regras que forçam as escolas a se adaptarem às exigências de realidades, de situações degradadas, de mediocridades; tapeação pela adoção de procedimentos para reduzir exigências e impor a promoção dos estudantes a todo custo; tapeação pela feitura de leis, de medidas industriosas para garantir o acesso, a permanência de discentes dentro da escola e obrigar os professores a se curvarem não só aos estudantes como também aos pais, aos caprichos das instâncias pedagógicas e administrativas. Para o êxito desse empreender, recompensa aos “professores” indiferentes, cúmplices, desmazelados, com guarnição de autoestima no bolso, fertilizados no sossego de vida miúda. Recompensa aos “professores” progressistas por se limitarem ao discurso doutrinador, abstrato, distante; por não causarem incômodo para a administração; por fazerem uso conveniente dos procedimentos pedagógicos recomendados, das normas educacionais e do desleixo administrativo; por promoverem os estudantes sem observância de desempenho intelectual; por se mancomunarem com a direção e com os “professores” indiferentes em pacto de cumplicidade tácita visando convivência tolerante. A estes, “professores” tolerantes, “professores” progressistas, a recompensa: tolerância aberta a todo o proceder e até ao nenhum proceder, cargos, ausência de cobrança. Aos professores professores, punição. Punição por exigirem e cobrarem, de seus alunos, responsabilidade, disciplina, desempenho das atividades, por exigirem o empreendimento de esforço para a superação das dificuldades; punição por se indisporem com os descalabros de diretores, do corpo pedagógico, por se conflitarem com os “colegas” progressistas, com os “colegas” indiferentes. E como medidas de punição, representação e exposição desses professores como seres intolerantes, incompreensíveis, cruéis, rígidos, frustrados; prontidão de reprimenda por motivo qualquer; distribuição de carga horária, horários e turmas na medida de vingança; criação de situações fomentadoras de indisposição de “colegas” visando o seu isolamento; indiferença e atribuição de razão a alunos indisciplinados em atos praticados contra eles. E tudo isso sob a batuta de diretores irresponsáveis, coordenadores à-toa, da polícia antieducação disfarçada com o nome de corpo técnico pedagógico.

No descambo do acontecer educacional, o surgimento de mais um fruto genuíno do Brasil: o estudante que não precisa estudar, só precisa do corpo. E o corpo submetido a deslocamento empurrado na direção da escola, embalado pela expectativa de vida liberta, farejando prazer miúdo. No caminho das escolas, nas escolas, a massa caótica de crianças, de adolescentes em postura de relaxo, de vagabundagem, reproduzindo traços malandros, soltando gírias, esbanjando indisciplina, desrespeito, elevando a autoestima pelo vínculo com gangs, absorvendo valores de subcultura bandida. E quem fora desse ritmo, quieto-calado, acocorado, no canto!, para não apanhar, para não tomar vaia. Professores desses alunos, dessas escolas? Professores professores como já dito: escarnecidos, odiados. Os “professores” progressistas, os “professores” indiferentes, planejando viagem, calculando a aquisição do próximo veículo, cuidando para pagar as parcelas de suas moradias, esforçando-se para colocar seus filhos em escola bem diferente das que “lecionam”, participando de seminários, de reuniões, de congressos, apresentando atestado médico para abonar faltas e quando de corpo presente nas salas, discursos ideológicos, vômito de qualquer qualquer de algum assunto, mandando os alunos fazerem trabalho de grupo, discutir temas pelo puro achar do próprio achar sem apoio em textos, com apoio textos de uso em cursos de graduação, de mestrado ou pegos em jornais. E isso sem direção de plano, com o  mero objetivo de encher tempo. Observância de conteúdos programáticos? Hum!!! Hum, hum. E assim como os alunos não precisam estudar e observar normas, esses tipos de professor também não, nem cumprem regras. Contudo possuem o atributo mágico de ensinar sem nada ensinar a quem nada aprende e a quem nada quer aprender, e conseguem obtenção de sucesso pleno através da aprovação geral das crianças, dos adolescentes que têm a infelicidade de ser colocados nas classes regidas por eles. Estou sendo leve, nem falei do jeito como alguns professores se trajam para se apresentarem nas escolas: bermuda, chinela, camisa regata, boné, decotes sexualizados, vagina estufando em briga com a calça, calcinha acenando, calça se afundando na bunda de professoras, professores com calça em jeito de pijama, calça descendo, cueca olhando o mundo querendo cair, o rego!... Celular durante a “aula”? Atendem, param a “aula” e atendem. É rosário para reza longa!...

No seguir do debulhamento do rosário de desgraças, a política de redução de exigências para promoção e permanência de estudantes nas escolas, de promoção empurrada, de tolerância sistemática de indisciplina dos alunos. E aí, os alunos sem cuidado em proceder de estudo, sem capacidade de concentração, sem conhecimento para acompanhar os programas das séries em que foram colocados e achando que o assim é assim porque é assim mesmo que deve ser. A maioria dos professores, por seus atos, por suas posturas, alimentando esse pensar, facilitando, arremessando os alunos para frente, fazendo o jogo dos pedagogos, dos diretores, dos coordenadores, do governo. A ação educacional consistente inviabilizada pela falta de pré-requisito dos estudantes, por falta de capacidade intelectual e moral de muitos professores, pelas barreiras postas pelas normas, pelo corpo administrativo e técnico. Empastelamento.

Os estudantes de escola pública avistados pendurados nas pontas do rabicho educacional, arrastando os pés no chão, ficando pelo caminho. Ficando pelo caminho por motivo de evasão, de reprovação. Evasão por não suportarem a agressividade, a relaxidão do ambiente; por não verem sentido no nada fazer oferecido pela escola; por serem atraídos pelo mundo de vadiagem plena. Reprovação pelo fato de não comparecerem às “provas” por motivo à-toa, por não entregarem os “trabalhos” solicitados. Qualquer riscado em papel valeria, mas até disposição para isso, rara. Mesmo assim, às vezes, aprovados, como o acontecer aprovados também alunos há muito transferidos, desistentes, mortos.  No seguir do sucesso empurrado à força de tapeação, os estudantes de escola pública fracassando em provas de seleção para o mercado de trabalho, para concurso, para acesso a cursos de segundo grau, para acesso a cursos universitários. E diante dessa topada, os antigos opositores dos Cieps, “professores” progressistas, “professores” indiferentes, indignados, repudiando o acontecer, reclamando da situação, classificando-a como prática discriminatória, como prática de exclusão resultante de critérios “selvagens” baseados na meritocracia, no elitismo da sociedade promotora de injustiças, de desigualdades sociais. E contra a meritocracia, contra o elitismo, contra as desigualdades, medidas de inclusão social. Medida de inclusão social: cotas; redução de exigência de conhecimento, e até eliminação de qualquer modo de avaliação, para acesso a cursos; expansão da rede educacional sem observância de critério de qualidade; alargamento da oferta de cursos; distribuição de bolsas de estudo; acesso a financiamento para custeio de cursos universitários. Cota para estudantes de escola pública, cota para pobre, cota para negro (e aqui a alquimia de acabarem os mestiços do Brasil, transformando os pardos em negros). Cursos presenciais, semipresenciais, à distância... Faculdades plantadas nas esquinas de cidades grandes, em cidades pequenas. Empresários do setor de educação com os dentes arreganhados, sentindo os bolsos pesando, olhando os estudantes com o mesmo olhar de comerciante verificando mercadoria estocada. Professores, diretores de universidades públicas, de faculdades privadas, falando em pesquisa, em qualidade de ensino, em produção acadêmica... Mas a produção acadêmica, produção de quem faz de conta que faz se apoiando em dizeres vazios com experimento, com pesquisas 90% saliva ensebada; e o “ensino de qualidade” baseado na redução ampliada de exigências com os alunos. E os alunos sem nível para fazer curso de segundo grau de qualidade média, mas pedantes!, u n i v e r s i t á r i o s  sapientes em sabedoria de refrão. Professor criterioso? Ou cai fora ou reprova quase todo mundo. Os alunos cotistas com alegria explodindo pelos cantos da boca, prenhes de orgulho por não precisarem cultivar competência, repudiando caminho de mérito; os alunos dos cursos de instituições privadas, e até de instituições públicas plantados nas esquinas de cidades grandes, de cidades médias, nas cidadezinhas, arrotando analfabetismo aureolado com rótulo universitário. As estatísticas mostrando sucesso. É melhora piorada. É o não sair do lugar, tendo-se impressão de estar caminhando. “Inclusão abstrata, exclusão concreta”. E quando a OAB divulga o resultado da prova de proficiência, bagaceira. E quando é publicado o resultado de concurso público, frustração. “Inclusão!”, inclusão! “A OAB exige demais! Repúdio à exigência da Ordem.” “Cota para negros no serviço público!” Empresas privadas também fazendo recrutamento, impondo critérios. E em resposta aos critérios adotados por elas, acusações de racismo, de discriminação, de não observarem a realidade.

A situação da educação ladeira a baixo... e descambando. Apreciação de incompetência como ato revolucionário, popular, democrático. Solução dos problemas por meio de falsificação, de negação dos fatos, de alteração de nomenclaturas, de criação ou refutação de realidades através da construção de narrativas (narrativa, discurso arbitrário para invenção, para alteração, para desprezo, para anulação de ocorrências, de fenômenos naturais, sociais, históricos). Assim, tudo simples. Para se compreender e explicar uma sociedade basta decorar alguns jargões: “sistema”, “desigualdades sociais”, “racismo”, “capitalismo”, “injustiça”, “exclusão”, “exploração” “formas de opressão”... e botar uns verbos entre as palavras. E, no seguir da mesma linha, para a solução dos problemas, o toque da magia inclusão social e o uso de engenhos astuciosos que elevam os indivíduos, alocando-os nos postos desejados, definindo-lhes papéis, “assegurando-lhes” direitos. Tudo isso sem nenhuma contrapartida com cor de dever, de conquista, de mérito, de autossuperação. Nesse pensar, nada que gere reprovação, tolerado. Reprovar, enquadrar, disciplinar, atos de exclusão. E os comandos: “pagamento de dívida histórica”, “reparação das desigualdades sociais”.  E “os excluídos” postos em postura de incapazes, inválidos, passivos, esmolés, esperando migalhas com sorriso de esperança, acomodando-se, deitando na mediocridade do que lhes for dado. Deixando-se dominar mais e mais, e mais e mais se degradando enquanto guardam o sentimento de que estão superando a sua condição. E a dificuldade para que vejam que esse sentimento é ilusório, inimigo. Dificuldade fortalecida pelo aparente sucesso certificado pela progressão escolar facilitada, pela ocupação de vagas em escolas, em faculdades e em repartições públicas através de cotas; pelo acesso a faculdades particulares, quase sempre fajutas, por meio da combinação cota, bolsa de estudo, financiamento. E os negros sem perceberem que as cotas, ao invés de lhes elevar, confirmam, fortificam o preconceito de sua inferioridade racial. E negros e pobres sem perceberem que as cotas os carimbam com a marca de incapazes, camuflam problemas, perpetuam o descaso educacional. O povo, o nosso povo, tratado como besta. E isso é uma verdadeira caçoada. É uma caçoada cruel. Caçoada cruel vinda dos atos, das palavras, do pensar dos mesmos que condenaram os Cieps.

                                          - X -

Mão no queixo, cabeça triste. 2002. Na UnB alma compadecente se deu que lá quase não havia negros nem como estudantes, nem como professores. “Negro excluído.” Foi aí que veio a ideia: arranjar meio dos negros entrarem na universidade. E o meio engenhoso, cota. E cota foi feita. A discussão se assanhou Brasil adentro. E no bafo dela, a constatação de raros estudantes universitários provenientes de escola pública. “Estudantes de escola pública também excluídos”. Motivo: o caráter ruim-horroso-péssimo-medíocre da educação pública nos níveis fundamental e médio. Mas na escola pública, negros, pobres e pobres mais pobres. Então também cotas entre os pobres. Aí, cotas raciais, cotas sociais para os estudantes de escolas públicas. Ano 2012, Lei de Cotas para correção da dificuldade de acesso de negros, de alunos da rede pública à universidade no Brasil todo. Estudantes negros, estudantes da rede pública em ascensão pelo subir de empurrão, por carona em elevador. Mas o pai, a mãe do problema, lembrem-se, deitado na educação não elitista, na estrutura e funcionamento das escolas “democráticas”. E aqui vem: de 2002 até 2012, qual foi a pá mexida para corrigir o problema da educação pública? E o que foi feito de 2012 até 2017? Silêncio silencioso. Onde andam os inimigos dos Cieps? Inimigos dos Cieps: políticos de esquerda, a elite, professores progressistas, professores indiferentes, sindicatos de professores. Andam defendendo inclusão. E enquanto defendem a inclusão, as escolas públicas pioram, os índices educacionais do Brasil caem, a universidade afunda, os serviços públicos se degradam. E olhe que tivemos treze anos de “governo popular”. E durante o governo popular rachadura, fofo, aceleração da deterioração material, moral, organizacional.

17-10-17

"MAMÃE ÁFRICA"

                                                                                 Esmeraldo Lopes

Não entendo. Não dá para entender! Como podem ser tão ingratos aqueles que emigram da África subsaariana em direção ao Ocidente? Como ousam abandonar a mãe África tão deslumbrante, tão múltipla, tão significativa culturalmente, em tudo abundante, altiva? Por que desprezar, desprender-se de um paraíso assim?

“Mãe África”, paraíso. E é por ser paraíso que há gente, no Brasil, renunciando à brasilidade para se autonomenclaturar afrodescendente. E essa gente reivindicando ligação direta, fincamento de raízes na “terra dos ancestrais”. E em passeio da imaginação e deslumbramento de raciocínio fanático, salta 400, 300, 200 anos e enxerga os supostos ancestrais circulando em ambiente de felicidade pura, dançando, fartos, livres, gloriosos, na paz de paz plena. E o flutuar lento dos olhos navegando inebriados entre visões. E faz do ver dessas visões verdade sem dúvida. “Ah! África, minha África!”

Brasil: “opressão, exploração, discriminação, miséria!” E a gente afrodescentente se põe no anseio de africanizá-lo. E quer anular a história, negar o seu caráter mestiço, destruir a ideia de nação, de povo brasileiro. Esconjura Darcy Ribeiro, Gilberto Freire, Sérgio Buarque de Holanda... “Não, não há mestiço. Ou alguém é negro ou branco ou amarelo.” E no alopramento para enegrecer o país, declara que mesmo um branquinho de “zóio azul” que carregar uma “gota de sangue” vinda de ascendente negro é negro. E nisso renega os rastros da ascendência índia, da ascendência branca, da ascendência amarela. Como chegaram a essa “verdade” irrevogável, inquestionável? Importando-a dos Estados Unidos. A bem dizer, roubaram-na... Dizendo de modo leve, apanharam-na das organizações racistas que, lá, instituíram a regra “da gota de sangue”. Colonizado é colonizado, não tolera autonomia, gosta de pensamento doado, furtado, empacotado. Tem de beber água nas fontes alheias, tem que se autoafirmar rejeitando a si e se olhar com olhos estrangeiros. Mas como assim, se os racistas brancos americanos estabeleceram o princípio da supremacia branca? Cópia feita de cabeça para baixo! Aqui, a gente defensora da regra “da gota de sangue” prega a supremacia negra. “Negro é lindo”, “Orgulho de ser negro”, “Beleza negra”, “100% negro”, “Poder negro”... E se enche de ressentimento, reivindica privilégio, canta canto de vitima... Cobra “dívida histórica”, protesta contra cultivo de competência, vê a meritocracia como agravante das desigualdades sociais, como “geradora de injustiças” e vislumbra revanche contra os não negros. E mais: essa gente anseia por ver toda a sociedade quedada a seus pés. E nesse querer, a conquista – recusada pela sociedade - da obrigatoriedade da imposição do estudo das “Relações Étnico-Raciais e o estudo de História e Cultura Afro-Brasileira, e História e Cultura Africana” em todas as escolas. Parênteses aqui. Não estou falando de pretos, de mestiços. Estou falando dos autonomenclaturados afrodescendentes.

Enxergando com o pensamento forjado nos Estados Unidos e lubrificado na Europa, os afrodescentes vendo o Brasil sem unidade de povo, de cultura. Proclamando-o multiétnico, multicultural, despedaçado em minorias. Injustiça minha. Alimentando e juntando-se a esse entender e defender, intelectuais arrivistas, estudantes sem seriedade de dizer, gente da elite remoendo sentimento de culpa, participantes de coletivos “progressistas” vomitadores de palavras de ordem desatinadas.

Afrodescentes! Esqueci de dizer. Expressão também copiada. Copiada dos negros americanos. Brasileiro colonizado, andando na América, ouviu de um negro: “Eu sou afroamericano”. Aí, viu-se no desejo de encontrar nomenclatura para si. Já vinha no batido de sua cabeça o decreto de que brasileiro é coisa sem fé. Batucou, assuntou e rascunhou: “Sou afrobrasileiro”. Mas, pensou, pensou e pôs questionamento: “Brasileiro?” “Brasileiro, não. Sou afrodescendente”. “A-fro-des-cen-den-te!” Gostou do som, gostou da expressão, grudou-a no cérebro, modelou-a na boca e se pôs a assoprá-la para os cantos do mundo, com peito estufado.

Enquanto os afrodescentes cantam e celebram o paraíso africano, africanos de verdade abandonam sua terra, seu povo, seu tudo. Emigram no rumo do Ocidente se atiçando estabanadamente no deserto imenso. Deserto sem caminho, sem recursos para oferecimento de provimento de vida, deitado em distâncias sem fim, tendo como cenário apenas o se emendar, lá no longe nunca alcançável, do amarelado esbranquecido da areia com o azul do céu. Sabem, têm consciência que correrão riscos de morte lenta por sede, por fome, por insolação; de que se submeterão plenamente à vontade de transportadores-traficantes e correrão riscos de ser aprisionados e sujeitados por escravagistas inclementes. Sabem que atravessarão regiões em guerra, países sem lei ou com leis que não lhes darão direito algum. E ainda assim, põem-se em marcha. Não esmorecem mesmo sem ignorar que depois de tudo isso, os que sobreviverem, terão de enfrentar a barreira do mar, a possibilidade de expatriação.

Água até o fim do mundo. A maré batendo revolta na areia, nas pedras, trazendo aviso de perigo a mandado do mar. Os africanos migrantes fazem do aviso esperança, e entram em barco, em bote. O mar tão grande, infinito, pavoroso... A sensação é a de que é muito mais amedrontador que o deserto! O sacolejo das ondas... No sacolejo das ondas, o barcão vira barquinho, o bote se mostra coisinha qualquer. E ambos dançando doidos, perdendo rumo, descambando onda abaixo, jogados onda acima. Dentro deles, pernas se entrelaçando, corpos grudados, cheiro de suor, de fezes, de urina, choros, olhos desesperados, sede, fome. Horror! Água, água, ondas, céu! O azul do céu mergulhando no azul do mar, fechando o mundo por todos os lados. Os migrantes tragados pelas sombras do desespero. Alento, desalento, alento, medo... Por sorte, um navio, o avistar de terra. Ah!!!

Agora, a mendigagem de busca de ser um ser na Europa, em alguns países da América. Mas o acontecer pretendido dificultoso, negado. E, apesar disso, os imigrantes querem ficar, brigam para ficar. Correm, se escondem, choram, pelejam... Aguentam...  não querem... De modo nenhum querem voltar.

Por que africanos fogem do paraíso?  A África de verdade, continente. Continente imenso, cheio de países e cada país esquadrinhado por nações, por etnias, por tribos. Países, nações, etnias, tribos se engalfinhando em guerra contínua por motivos étnicos, pelo poder, pelas riquezas, por território, por recursos naturais, por diferenças do que quer que seja... Na verdade, raros são os países da África. Quase sempre, o que, lá, é denominado país, não passa da aglomeração de etnias, de tribos mantidas dentro de um território por força de força bruta. E cada tribo com seu rei, com seus príncipes se impondo, dominando, explorando, oprimindo os comuns. De modo geral, os povos africanos rigidamente submersos em suas tradições, fechados no quadro de cultura ancestral. E o se alastrar de pobreza miserável, de violência sem fronteira, de conflitos sem fim, da falta de tudo.

“Intelectuais” de olhar míope-zarolho-zambeta, politicamente corretos do mundo, afrodescentes, inventam explicação sem fôlego: “A África sofreu espoliação de suas riquezas, viu sua população desestruturada, dizimada pelos colonizadores; os países imperialistas sufocaram suas economias. Por isso não se desenvolveu”. E arrematam: “Os países colonizadores, imperialistas, têm dívida histórica com a África. Têm o dever de acolher seus imigrantes”. Ocidentais lavados em sentimento de culpa se condoem e engolem o ditado. É verdade que houve espoliação econômica, desestruturação e dizimação da população das regiões colonizadas, mas essas populações nunca vão se reestruturar? Imobilizar-se-ão para sempre nesse passado à imagem do desenho de Cristo crucificado? Os povos africanos não sabem viver sem colonizador? Se sabem, por que correm atrás de seus antigos opressores, exploradores e discriminadores, sujeitando-se a humilhações que estes lhes impõe?

 Dívida histórica com a África?! Cobre-se de quem deve. Portugal fica em outro continente. O Brasil não deve nada aos africanos. Aos africanos que foram trazidos para cá como escravos?... A seus descendentes há dívida, sim! Dívida por um passado de sujeição, de discriminação, de negações muitas. Mas estes se fizeram brasileiros e mestiçaram e se ombrearam com mestiços, com índios, com brancos pobres, partilhando alegrias, amarguras, dissabores, condições idênticas. E foram se fazendo e sendo feitos no balanço dos improvisos, agarrando-se aos resíduos de sobras, ambientando-se nas margens, sem reconhecimento de direitos... No resumo de tudo, negados. Estes, os brasileiros a quem o Brasil deve. Deve e tem que pagar! Mas tem de pagar com o recurso de verdade sem máscara. Não com o uso de ilusões, com percorrer de trilhas pavimentadas com ressentimento, com sentimento de revanche, com dádivas originadas em sentimento de culpa. Cotas, “concessões de direitos”, medidas protetivas? Não! Não porque esses recursos servem apenas para manter o status quo camuflado em invólucro de magia. A dívida cobrada e paga no contado do respeito, do direito, do reconhecimento; na adoção de medidas que possibilitem desenvolvimento de competência, incremento de meritocracia, o surgimento de autoafirmação cidadão. E aí, a cor se dilui e as distâncias de origem perdem força. Brasileiros.

Eu poderia ser preto. Nesta cor minha condição não se alteraria. Mas sou mestiço. Tenho ascendência de gente africana, de gente índia, de gente branca, de gente mestiça de um jeito, de gente mestiça de outro jeito... e de mais outro e outro. E essa gente foi se batendo, se fazendo, se refazendo e me fez. Ninguém pode tirar nada disso de mim. Não pode, não quero, não permito. Não sou afrodescendente. Sou brasileiro, brasileiro nato de 500 anos, com traço milenar de sangue nativo compondo meu ser. Mesmo considerando os tormentos, as maldades, a que foram submetidos meus ascendentes de origem africana, agradeço aos traficantes que os trouxeram para o Brasil, por terem livrado suas descendências das condições de existência atormentadas oferecidas pela África, por elas não estarem agora se vendo forçadas a se atiçar nos braços do desespero, atravessando desertos e mares e guerras, enfrentando, humilhadas, ameaças de repatriações. O legado que meus ascendentes africanos deixaram para mim em sua pátria? Está à disposição de qualquer afrodescente ou politicamente correto que o queira, sob a condição de que me deixe em paz e não se arvore a jogar sobre mim a nomenclatura afrodescendente.

30-08-17

A PAZ DOS SUICIDAS

                                                                                                                 Esmeraldo Lopes

A cidade plantada em idos longínquos, mas vingou sem força... e mirrou. Esse é o dizer de agora. Lá atrás, era avistada como lugar de progresso. Tinha padre, juiz, escrivão, major, capitão, fazendeiros. A feira era grande!, juntava para mais de cento e cinqüenta pessoas, quando as coisas andavam boas. Todos, ricos, pobres, moravam nas terras das fazendas. Para melhor entender, a feira pariu a cidade. Foi ela quem fez enxame de gente. Aí um padre botou ideia de construir igreja no lugar de seu acontecimento. E levantada a igreja, ao seu redor, foram construindo casas. Cada pessoa graúda mandou levantar a sua, para pouso confortável em dia de feira, para agasalho da família nas ocasiões de acontecimentos religiosos, para marcar posição de distinção. E não se sabe se resultou de combinação ou de determinação, mas sucedeu que as casas foram alinhadas no formato de retângulo. Na cabeceira, a Igreja. O cemitério defronte a ela, mas lá no fim da rua, fechando o retângulo. A Igreja olhando o Cemitério, o Cemitério olhando a Igreja. Olhando a Igreja e o Cemitério, uma fileira de casas de um lado, outra do outro. Bem no meio do retângulo um cruzeiro de madeira de lei, fincado com firmeza, assistindo o vento caminhar levantando poeira, vendo a luminosidade do sol se chocar contra a terra e a quentura efervescente tremeluzir rastejando pelo chão. Ah! Na parte do fundo da Igreja, fazendo-lhe guarda e se guardando, a casa do juiz, a casa do padre, a casa do major. Na medida em que a rua em aproximação com o cemitério, as casas se amiudando em altura e se estreitando na largura. O rastro de tudo isso está lá, gravado nas ruínas morrendo, morrendo nas ruínas mortas. E no acurado de vista curiosa, de ouvido afinado, sinais de viventes dos tempos de longe avistados nas lápides dentro da Igreja, nas sepulturas do Cemitério velho, nas casas que insistem em afirmar testemunho de algum dia de esplendor, embutidos na memória dos vivos, dos vivos que gostam de repetir os ditos dos pais, dos avós, de contar casos que lhes chegaram pela sombra de memória retalhada.

O Cemitério velho em ruína arruinada, morto, sem defunto novo. O seu portal pela metade, suas sobras querendo desabar; o muro desmoronado sobre o alicerce, arrodeando sepulturas rachadas, esburacadas, afundadas no chão, desmanchadas pelo tempo; arrodeando ossos humanos expostos, cruzes pendidas, apodrecidas, despedaçadas, despencando, desaparecidas. E do lado de fora, na frente do Cemitério, pedras semi-encobertas e esbandalhadas sobre suaves elevados de terra desalinhados, quase imperceptíveis, os ainda perceptíveis. Resquícios de covas, sim! “Enterram mortos aqui por que não havia mais espaço lá dentro?” “Não, aqui fora estão só as pessoa que se mataram. Quem se mata fica pecador condenado às trevas, sem salvação. Cemitério é terra de campo santo, sagrado. Em antiga data era assim: quem fazia esse serviço ficava condenado a viver sem a proteção da benção divina. Não tinha nem direito a cruz na cova.” Silêncio. Vento quente soprando sem força; o sol tinindo; o tuin de cigarras atravessando o calado; portas e janelas abertas, sem gente; a Igreja só; um menino caminhando atrás de uma velha que atravessa a rua, arrasta um brinquedo. Olhares escorregam pelo chão, procurando rastro de covas. Mas o tempo...

Naquele chão, desprotegidas das santidades, das bênçãos dos padres, dia e noite, covas de suicidados se mostrando para os olhos de quem olhe na direção do Cemitério, de quem entre, de quem saía da cidade. E a cada olhado o retorno à memória da marca de algum conhecido enterrado ali, o rebrotar na mente do saber das agonias eternas destinadas às almas dos suicidas. Agonias, aflições, provadas pelos esturros, pelos gemidos, pelas latumias, pelas gaitadas assombrosas vindas da direção daquelas covas, à noite... nas noites de lua, nas noites de breu. E, por vezes, o apiedamento duro: “Coitados! Estão condenados!” Um rogar fraco enviado na intenção deles, mas se sabendo sem valia nenhuma. “O Cão é inclemente, ri de nossas preces”. Mas às vezes, o ressoar mudo de sentença impiedosa, vinda de inimigo, de reprovadores de quem vai contra a vontade de Deus: “É o merecido!” E o desespero impotente, envergonhado, de familiar querendo acudir morto seu vivente naquela situação. O amedrontamento com o futuro de si: “Deus!, livrai-me de fraqueza para que eu  não caia nessa tentação!” E o familiar atolado na lembrança última da cena de morte de seu morto que se matou; a lembrança dos zumbidos cochichados pelo povo a respeito do ato rodopiando seu ouvido; a rememoração do castigo de não poder levar o morto para a última reza de corpo presente na Casa de Deus, de não poder lhe ofertar a benção do padre; a volta do sofrimento por ter sido obrigado a cumprir o dever de enterrá-lo do lado de fora do Cemitério, na parte do chão destinado aos desgraçados. O ver e rever eterno daquelas covas, e o remoer e remoer de compaixão por ter certeza do destino inexorável de seu morto. E o familiar compassivo plantando-o na cabeça, reavivando-o em seus sonhos, projetando suas sombras nos sombreados da casa, escutando acordado lamúrios agonientos vindos do terreno de enterro dos suicidas. E acende vela, e reza, e reza e suplica a Deus. Dorme vencido, inundado em água de piedade. Sem agüentar a dor, procura o padre. Escuta: “O que você ouve, o que você vê, não é a voz e nem é seu filho. É o diabo dentro da alma dele ou fingindo ser ele para fazer à senhora cair em tentação, também”. Aí, de recurso, só o caminho da casa do feiticeiro, para dar cumprimento a trabalho de despacho da alma do suicidado, para domação das estrepolias dos diabos. Esse recurso usado em segredo, mas todo mundo sabendo e comentando em cochicho silencioso.

Na claridade da presença dos outros, o familiar cala. Mas não consegue deixar de ouvir as histórias sobre as presepadas das almas dos suicidas, sobre seus aparecimentos mal-assombrados nos caminhos, em todos os lugares. Também escuta os gritos, as lamúrias, que partem da direção das covas deles. Sabe que existe invenção, mas acredita que quase tudo é verdade. Abala-se ao ouvir o grito dos meninos: “Passe por longe das covas dos condenados, doido, senão a alma do finado fulano lhe agarra!” E o converseiro na feira sobre a assombração do finado beltrano aparecendo no pé de quixabeira, enforcado, embalançando e gemendo; e o testemunho de alguém que garante que quase morria por uma alma ter agarrado na mão de sua montaria e a botando no chão, quando passava, ao anoitecer, perto da cova do finado sicrano. Tira o chapéu, levanta a perna da calça, abre a camisa e mostra os estragos. E ao ouvir isso, do meio do ajuntamento que escuta com os olhos esbugalhados, uma confirmação exclamada: “Uma burra forte como a sua, compadre, cair!? Perto da cova do finado sicrano?! Ráaa. Só pode ter sido a alma dele mesmo que agarrou a mão dela, sem dúvida!, ordenada pelo diabo para fazer o mal!”  

Um prefeito resolveu melhorar a cidade. “Este cemitério não dá mais agasalho a mortos novos, não cabe.” É verdade que a população cresceu pouco... Não, a população não cresceu, até diminuiu, mas o cemitério é pequeno, pequeno, apertado. Do lado de fora, as covas dos suicidados vão andando, tomando o lugar do povo caminhar, dos veículos circularem. O prefeito soltou: “Desse jeito não dá!” Resolveu fazer cemitério novo, um pouco afastado da cidade. Fez. E nesse fazer, decretou o sepultamento dentro dele de todo tipo de morto. “Assim fica melhor”, disse. O padre fingiu que não gostou, mas não fez nada contra. O povo também não botou contrariedade. E o Cemitério velho foi entregue ao descanso do abandono.

Muitas covas de suicidados enterrados ao redor do Cemitério velho, há tempo, sumiram completamente do alcance das vistas das pessoas. Os enterrados nelas, agraciados com o esquecimento, fundidos no mesmo nome: suicidados. E suas almas rebatizadas com o chamado de espírito rúim. Os suicidados em datas mais recentes, também envelhecendo, suas covas minguando, se escondendo debaixo do chão, suas feições se esvaindo, suas histórias silenciando. E deixaram de fazer assombração, de gemer, de lamuriar. Vão escapando da lembrança do povo no ritmo da carreira do aumento da idade dos vivos. Raros ainda possuem nomes, mas estes estão trancafiados na cabeça dos mais velhos, vindo ao som de boca com raridade. E suas histórias perderam força de amedrontamento, não atiçam medo, não encontram quem queira escutá-las com olhos acesos. Seus sofrimentos... Quem se apieda deles? Estão seguindo, se aprofundando na trilha dos esquecidos e em breve, a morte de suas almas.

30-072017

APLAUSOS DO DESESPERO

    Esmeraldo Lopes

O grande erro da mente é a recusa de ver o que os olhos registram. E ao alcance dos olhos, em luminosidade para bom enxergar, a germinação da semente de um Estado policial no Brasil. Estado policial? Sim.  Perto de um Estado policial, um Estado ditatorial como o que vivenciamos no passado recente e até a ferocíssima ditadura chilena de Pinochet ganham a feição de criança de colo. Dirão especialistas que todo Estado ditatorial é também policial e vice-versa e que estou falando besteira. Mas não. É preciso olhar direito. Ambas as formas de estado surgem como reação a situações idênticas. A diferença entre eles está no objetivo e no modo de agir. O Estado ditatorial, vencida a situação que motivou o seu aparecimento, estabelece rumos para a sociedade e impõe modos de proceder que conduzam aos propósitos que ele estabelece. Tem um caminho a seguir. E na busca desse caminho, amedronta, cerceia, oprime, controla, mas também promove ações, programas, planos. Tem projeto. Sua estrutura de poder requer centralização, disciplina, organização burocrática. Seu funcionamento demanda conhecimento, quadro técnico com nível razoável de qualidade. Em tocar diferente, o Estado policial não sinaliza sua atuação com base no futuro, mas no passado, no presente. Desenrola toda a sua existência se batendo contra as causas que motivaram o seu surgimento e contra tudo o que contraria o ver, o existir de seus dirigentes. Nada a propor. É inteiramente reativo. E se o Estado ditatorial amedronta, cerceia, oprime, controla ações dos membros da sociedade, o Estado policial aterroriza. Aterroriza pelo seu agir sem regra, sem aviso, sem limite, sem oferecimento de garantia de segurança. Voga pelo impulso da vontade e dos braços do seu comandante. E abaixo do comandante, a miríade de agentes espalhados pelos órgãos e pelos espaços públicos e privados, por todos os recantos do território nacional, pondo atenção nos movimentos da população, no comportamento de indivíduos. O comandante sabe que, em obediência à prática das ações necessárias ao cumprimento de seus propósitos, de sua vontade e manutenção de sua autoridade, seus agentes precisam agir sem embaraço da Lei, com a certeza de não serem molestados pelos atos que executem e dispor de condição privilegiada para o seu ser e para o bem-estar da família. E o comandante atende essas precisões e as garante, desde que seus agentes se mantenham fiéis e obedientes a ele, independente da posição que ocupem. Sim! No que pese a predominância dos vínculos de informalidade, há hierarquia no Estado policial. Hierarquia instável, precária, horrenda, fundada na impetuosidade, na capacidade de ação, na lealdade irrestrita ao comandante. E para manter posição, para galgar espaços, os agentes se vigiando, disputando confiança, posição, exaltando fidelidade, temendo desgraça por queda em descrédito, negando tolerância, complacência a qualquer praticante de ato de agravo à ordem, ao grande chefe.

Na ordem de um Estado policial, a Justiça genuflexa, a sociedade civil castrada, a população atarantada, oscilando entre bater palmas e expelir lágrimas, caminhando entre segurança e medo. No entanto, ele, o Estado policial, aparece, eleva-se nos braços e abraços das esperanças dessa mesma população. Pois antes dele, ela aturdida, moída pela instabilidade apavorante provocada pela desordem social. Desordem social voando nos atos bandidos ladrões, assaltantes, estupradores, traficantes, e assassinos, extorsionários, corruptos...; alimentando-se no sentimento de impotência fertilizado pela impunidade, pela omissão e complacência das autoridades; desordem social plantando-se pela graça de instituições degeneradas, de agentes institucionais irresponsáveis, apáticos; desordem social fortalecendo-se pela invasão e inversão de valores, de regras de condutas, de posturas agressivas à moral, aos costumes, às estruturas sociais e mentalidades reinantes; desordem social inflando-se pelo processo de desinstitucionalização decorrente do atendimento e imposição dos imperativos de minorias sobre o restante da sociedade; desordem social revigorando-se pelo lançamento da população na aceitação compulsória do inaceitável, forçando-a a silêncio civilizado, garroteando-lhe com ameaças de processos através de leis feitas sob inspiração alienígena. E dentro desse afogamento, a população pedindo, clamando, gritando calada: “Socorro!!!”, “Me acuda!!!”

Ao escutar os gritos silenciosos da população, os sociais democratas, os liberais calados, indiferentes, no seu quieto, fingindo nada ver, até são cúmplices, condescendentes com os atos que levaram a sua inquietação; as Forças Armadas, assistindo com os olhos acesos, mas paralisadas; “forças progressistas”, escutando, mas zombando: “São reacionários”, “É a pequena burguesia acuada, ha!, ha!”, “É a massa alienada!”, “São os atrasados!” E grita defesa “dos direitos humanos”, vitimiza o banditismo, proclama a supremacia dos interesses das minorias, afronta instituições, instiga desobediência dos filhos aos pais, prega a heterofobia, estimula quebra de disciplina, propõe o fim da nação e a eliminação das fronteiras... No ir desse acontecer, a população no só de si mesma, na solidão do deserto, ouvindo a zoada do vento, vendo o esvoaçar de areias, o tempo ganhar jeito de tempestade. O assoprar do vento ficando forte. No meio do zunido dele, o ecoar de uma voz enumerando as aflições, os queixumes da população, ponto por ponto. É a voz de um candidato a comandante arrebanhando corpos, ouvidos, bocas para formar um coral, um coral de milhões de vozes com apenas uma voz fazendo o refrão: “Eu mando prender”, Eu mato”, “Eu boto para tomar vergonha”, “Eu capo”, “Eu expulso”, “Eu demito”, “Eu garanto respeito”, “Comigo não vai ser assim, não!” “Aqui no Brasil, não!” “Todo mundo vai dormir tranqüilo...” A população... desesperada, deseja, entusiasma-se, aplaude, apoia, espera. E no que mais motivo de insatisfação surja, a voz responderá sempre, sempre responderá. E ainda que venha acompanhada por um chicote, ela se fará presente trazendo uma solução.  Solução temperada com medos, com alegrias, com lágrimas. A população vai e vem, aplaudindo por gostar, chorando por desgostar. Assim foi na Indonésia em 1965, assim o governo das Filipinas, hoje. E é isso o que vejo no horizonte próximo, no Brasil. As pedras estão postas e o comandante se anuncia, já é anunciado. Nesse clima, com sorte cairemos em uma ditadura militar.

05-07-2017

A CERIMÔNIA

                                                                                                                 Esmeraldo Lopes

Foi no dia da festa maior da cidade. Agora já não sei como dizer. Antigamente a festa maior era a festa do Padroeiro. No dia desse dia, todo mundo quedado no dever da celebração em homenagem a ele. Homenagem com procissão, com missas. Reza, reza... cânticos! Os demais lugares da cidade deitados em silêncio, descansando entregues à solidão. Só depois de todo o acontecer dos rituais de louvor ao Santo é que o povo tomava o destino que quisesse. E no fim, a multidão se desmanchava em rumas. E em rumas as pessoas iam se distanciando da Igreja. Nesse distanciar, as rumas se esgarçando em magotes. Mogotes de gente para um lado, para outro, seguindo em frente... No andar das passadas, pessoas ficando por aqui, pessoas se encaminhado na direção da rua da direita, na direção da rua da esquerda, pessoas se açoitando no rumo da testa. Nisso, os magotes se dissolvendo de pouco em pouco até desaparecerem. Sim, alguns desses magotes eram mais crescidos e crescidos permaneciam até alcançarem a praça onde a moçada procurava encanto, sonho de ternura ou emburacarem em alguma casa onde houvesse comemoração de festa de casamento, de batizado, onde estivesse marcado encontro entre parentes ou adjunto de confraternização de pessoas de amizade aprochegada. No mais se avistava gente andando sozinha, em dupla, em trio... à procura de algum lugar que lhe oferecesse bastança para encher os olhos, animar-se com alegria de conversa, de bebida, de dança ou na esperança de satisfação de algum desejo escondido. E para o satisfazer desses tipos de querer, casa de conhecidos, balcão de botequim, principalmente salão onde tivesse acontecendo samba para dançar forró, para ficar curiando. A Igreja ficava só, fechada e o Padroeiro descansando.

Voltando a dizer. Foi no dia dedicado ao Padroeiro da Cidade. Agora, nesse dia, os acontecimentos que mais atraem gente deixaram de ser os voltados para os festejos dele. A procissão, a missa no mesmo tocar, mas com multidão fraca, com fiéis de fervor magro e rezas que não mostram força de fé. O badalar do sino soa sufocado e até as chamas das velas parece que ficaram preguiçosas, aproveitam qualquer assopro do vento para dormir. Os outros lugares da cidade em animação de música alta, de gente se movimentando entre palcos, bares, barracas e amoitados em torno de carros de som barulhentos, em festival de bebidas. E quando o padre pausa ou afrouxa a voz, o barulho da alegria da rua vem rodopiar na nave da Igreja e atentar os ouvidos dos fiéis. Assim! E nesse assim, o padre vai lá, vem cá, faz o proceder de todo padre em celebração de missa, até pronunciar as palavras esperadas por muitos dos poucos jovens presentes: “Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe!” Ele, o padre, cansado, vê-se. Também ansiava pelo momento de pronunciar essas palavras. E no que o fez, o povo se derramou portas afora. E, fora algumas pessoas de idade alta, as outras foram invadidas pelo chamamento do barulho da música, e, em formato de procissão desorganizada, rumaram na direção dela. Em mão contrária ao ir dessa procissão, dois pequenos agrupamentos. Um na frente, outro atrás, mas em distanciamento próximo.  No agrupamento da frente, em terno branco, arrodeado por pessoas também em trajes aprumados, um homem com o corpo, com o rosto bem chicoteados por traquejo de labuta nos campos da Caatinga. Carrega consigo o transcorrer de mais de sessenta anos e a nomenclatura: viúvo. No agrupamento logo atrás, em roupa branca, cabeça decorada com coroa de flores também brancas, carregando um buquê na mão, uma mulher. Mulher não!, moça velha. No ver e rever de seu ser cheio de rastros deixados pela lida, depositado nela o transcurso de uns cinquenta anos, talvez quarenta cinco, não menos. Noivos. Sem dúvida, cortejo de casamento mirando o rumo da Igreja. Mas cortejo solene, solene mesmo, com há muito não se via. Foi abrindo caminho entre as pessoas que andavam em sentido contrário, induzindo-as a lhe darem passagem, a se afastarem para os lados. Nesse ir o espaço ficando limpo de gente. A Igreja desertada. Dentro dela, três ou quatro pessoas caladas, conversando sozinhas em silêncio de segredo, além do padre, de seu auxiliar. O padre bocejando, à espera do último compromisso embutido na ocasião do festejo do Santo, acompanhou sem entusiasmo a entrada de pessoas na Igreja pelas laterais. Viu nisso aviso da chegada dos noivos. Os noivos - ele levado pela madrinha, comadre sua, ela conduzida por um irmão -, tomaram o destino da entrada principal da nave. E adentraram no recinto em cadência de passo ritmado. Ele adiante, ela um pouco atrás. Ambos andando com majestade, fitando o altar, alvejando o Santo, dispensando atenção aos circunstantes. A assistência dispersa pela nave, quase toda formada por curiosos. E os curiosos prendendo risinhos nos cantos da boca, soltando olhar zombeteiro, murmurando, exibindo postura cínica. Concentrados perto do altar, os membros do cortejo, acompanhando o desenrolar do acontecimento alimentados por transbordar de respeito, de consideração, de admiração.

O padre apressado. À chegada dos noivos ao altar, sem prolegômeno nenhum, deu início à celebração do casamento, encaminhando a cerimônia ligeiro, soltando palavras sem eco. Os noivos não viram padre naquele padre. Mas foram envolvidos pela atmosfera da Igreja, alcançados pelo cheiro das flores que enfeitavam o altar, invadidos pelo resto do cheiro do incenso queimado na última missa; viram-se envoltos no colorido da decoração feita para enfeitar o agasalho do Padroeiro no seu dia e até desconfiaram que os santos lhes houvesse cumprimentado. O lugar era aquele, mas faltava padre, um padre mesmo.  Aí, sem combinação, os noivos se refugiaram na recordação do ser de uma cerimônia de casamento. E ouviram as palavras cadenciadas, banhadas em mistério divino, saindo da boca do padre de outro tempo que saltou ali arrastado por suas lembranças. A voz dele com timbre forte, ecoando no ambiente. Os noivos absortos. E de repente ouviram a voz do outro padre, do padre presente ali, cortando a voz do padre da recordação, trazendo para perto de si a atenção dos noivos pela insistência da repetição da pergunta: “Cadê as alianças?” E no seguir: “Agora diga comigo: Eu...” Foi atendido. O ato praticado.

Os conjugues recebem ainda na Igreja os primeiros cumprimentos. Mas o lugar marcado para o recebimento deles era outro. A face da esposa, resplandecente, aureolada por um sorriso plácido, natural; o esposo sério, deixando escapar alegria orgulhosa pelos olhos. Os curiosos, pasmos, despidos do cinismo. Não zombam mais. Observam os movimentos em silêncio reverenciador, mas não entram na atenção dos conjugues. E estes, encaminham-se no rumo da saída da Igreja, altivos, embebidos de dignidade, em passos firmes, seguidos pelo cortejo. Retomam o caminho do lugar de onde vieram e vão passando cerimoniosamente por ruas desertas, por ruas enfeadas pelo tumulto de gente estabanada, pelo ribombar desordenado, esvoaçante de sons desconexos, desarmônicos, temperados com palavras estúpidas.

28-061-17

RECICLAGEM

           Esmeraldo Lopes

O planeta está se reciclando. Há quem diga que a temperatura tenha entrado em reviravolta. Não sei se é verdade, mas o desandamento dela bate em nossa fronte. Dizem alguns cientistas que o nível das águas dos oceanos subirá dois metros ou três, na brevidade de pouco tempo, e que faixas imensas de terras em regiões densamente povoadas ou não serão inundadas e que ilhas oceânicas imensas desaparecerão. E águas doces subterrâneas e milhares de quilômetros de rios, e lagoas, estão sendo invadidos por águas salgadas, perdendo serventia para plantação, para apascentação de sede. E a anunciação da previsão de que áreas semi-áridas se transformarão em desertos, áreas tropicais ganharão vida semi-árida, áreas temperadas vestirão roupa tropical e até que espaços de regiões glaciais se desnudarão do gelo e se darão a algum tipo de cultivo. Não sabemos no que essa reciclagem dará na chegada ao seu final. Mas o ver de agora anuncia que milhões e milhões de pessoas se deslocarão tangidas pelos efeitos climáticos, invadindo países, desmanchando nações, disseminando desespero, plantando conflitos, avolumando miséria. No acontecer do acontecer disso, milhões e milhões de pessoas dos locais invadidos reagirão para não serem desalojadas, para não serem importunadas e o chão se estampará em cor vermelha e ossos ficarão esparramados pelo chão. A barbárie se plantará na cara dos mais violentos, dos que dispuserem de meios para melhor se proteger. Todo discurso moral se esfarrapará no vento dos confrontos; todo rastro de reflexão ética se transformará em instrumento torturante de quem a praticar. Será o triunfo da barbárie entronada, sem máscara, sem vergonha, orgulhosa.

No cenário da catástrofe em andança, pode-se dizer, ninguém se organizando para enfrentá-la, para minorá-la. Expansão da produção, ampliação do capital, elevação da qualidade de vida, aumento e extensão de direitos humanos, discurso de cultivo de felicidade, de amor, de humanidade... Medidas, postura contra constrangimento moral... Destroçando as contas desse rosário, empresários, religiosos, políticos, universitários, jornalistas, professores... E a juventude estimulada para o desfrute fácil da vida, atentando-se para o prazer, para o puro da felicidade, organizando a vida pela guia da liberdade sem rédeas, treinada para respirar irresponsabilidade. Eu fico pensando: “Como essa gente se confrontará com o real do acontecer que se encaminha? Será que terá como arma apenas a expressão ‘QUE  A B S U R D O!!!” Pelo hoje, estou vendo que sim. Pensando bem, não será a reciclagem do planeta também a imposição para a reciclagem dos humanos? É de ver que no final de tudo, morrerá toda a frescura e sobrarão homens-homens, mulheres-mulheres que viverão, por bom e longo tempo, livres da existência de gente politicamente correta.

26-06-17

DOIDOS DA CIDADE

                                                                                                                 Esmeraldo Lopes

Não é saudosismo, mas lembro com saudade... Não é saudade. Talvez... recordação serena. Pois é, lembro com recordação serena, mas viva e alegre, dos doidos de minha meninice. E por essa recordação vou percebendo que através da observação do comportamento dos doidos, a gente chega logo à conclusão que a doidice varia no jeito de existir. Nessa variação, um tipo de doido quase sem ser doido. Doido apenas por proceder em pequeno desajuste com a maneira, com o ritmo que a gente achava que deveria ser. Às vezes em grande desajuste, mas, mesmo assim, ele, o doido, embutido na companhia da gente, acompanhando-nos no nosso seguir, mas a seu modo. Referindo-se a ele, a gente dizia: “É abestalhado!”, “É doentinho...” Outro tipo de doido: o doido quieto. Um doido, simplesmente doido. O tempo todo dentro de si, em nada e em ninguém mexia e nem dava ligança para o mundo. Pelo que a gente notava, vivia no viver de uma planta, de um bicho inofensivo. Não dava para saber o que ele pensava, nem se pensava. Acho que vivia pelos sentidos. Existência inexistente. Do seu interior a estampa da imagem da felicidade, indicada pela postura de indiferença com as coisas, com as pessoas ao seu redor. O povo botando roupa nele, intentando cobrir-lhe “as vergonhas”. Ele urinando, defecando na calça, deixando-a cair, livrando-se dela, da camisa, pelo comando de alguma ordem da vontade. Quando agoniado, lançava as mãos sobre a cabeça, esfregava a face com força, coçava a barriga, a virilha e saia em passo apressado seguindo rumo incerto, olhando o mundo sem atenção. E nesse seguir, quando andava nu, ao passar por alguma rua onde houvesse moças, meninas, acontecia de alguém soltar um grito de aviso no ar: “Entrem em casa. Vai doido nu aí!” As meninas, as moças entravam correndo e tomavam posição com os olhos acesos para curiarem, pela gretas da janela, da porta, “as coisas” do doido.

O doido manso... Esse tipo de doido também não oferecia nenhum perigo. Não enquanto doido! Havia doido manso gracista. Esse gostava de contar histórias, explicar o motivo, o sentido dos acontecimentos. Histórias, explicações, às vezes, na maioria das vezes sem tino. E embora as histórias fossem sempre as mesmas e as explicações não variassem de natureza, quando se punha a falar, ouvidos desocupados, poucos ocupados, saltavam para os olhos procurando ouvir bem. E risos, gaitadas redobradas. Alumiado por felicidade, o doido se ia de canto em canto presenteando sua alegria, divulgando verdades sem cabimento de lógica nenhuma ou com lógica, mas sem rastro de acontecer, com acontecer falseado. E suas histórias, suas explicações, colocando todos no mesmo sentir pelo mesmo ouvir; rolando de boca em boca na rua; preenchendo os espaços vazios de assunto; transformando o doido em celebridade, alongando sua vida na memória do lugar. Havia o doido manso que não era gracista, mas se dava à serventia de todo mundo que o solicitasse. Chamado, estava pronto a serviço pequeno, ligeiro: dar recado, ajudar em alguma arrumação, fazer transporte de objetos..., mas sem regra de seguimento. Uma vez uma coisa, outra vez outra; hoje aqui, amanhã ali. Agia no querer da vontade da hora, não se via na obrigação de atender a ordem de ninguém. Mas quando aceitava algum mandamento, não admitia sua alteração. Não se dava a seguro de segredo, a invencionice de mentira. Cuidado com ele! Sem reserva de conseqüência, ato visto, ato anunciado; palavra escutada, palavra propalada. O pensar, o achar de doido assim!? Só doido pergunta. A vida desse tipo de doido, correndo mansa, mas um dia, alguém dizia uma palavra, uma frase que o doido não gostava. Pronto! O nascimento de um apelido. O inferno! Aí, ao grito do apelido, o doido fora de tino, ensandecido, jogando pedra, pegando facão, soltando palavrões. De doido manso passava a doido varrido. E as pessoas de bom estar anunciavam a sentença pública: “O que ele fizer de mal terá por responsável aquele que o aperreou”.

Fazendo-se íntimo de todos, com liberdade de entrança em qualquer lugar, escolhendo as casas onde fazia ponto para tomar café, beber água, comer ou só para sentar e se por em silêncio ou a falar, o doido ensimesmado. Não, não! Recebia e devolvia cumprimentos, oferecia respostas a perguntas, mas respostas curtas, no atendimento exato da pergunta. Suas perguntas? Raras. Palavra dirigida a alguém? Apenas o suficiente para manifestar o querer que queria. “Quero água”, “Quero café”, “Tem pão?, “Quero farinha” ...  Na casa, no ambiente onde chegasse, sentava-se, recostava-se na parede ou na guarnição da porta, punha-se a debulhar palavras. Não se dava a entabulamento de conversa. Pouco ou nada se interessava pelo que os outros diziam, mas manifestava entendimento na conformidade do seu querer. Falava sem necessidade de ter quem o ouvisse. De vez em quando, falava mirando o ar, dando a impressão que conversava com alguém. No seu falar, assuntos do tempo que não era doido ou que era pouco doido, assuntos do seu mundo particular, com situações possíveis e impossíveis, com personagens próprios, desconhecidos dos ouvintes. Ora por outra, o aparecimento de referência a situações conhecidas, o nome de gente com existência certificada pelos mais velhos, mas vivente láaa atrás. E um assunto agarrando outro, saindo em murmúrio sem segredo. E um gole de café, e uma baforada no cigarro de fumo-de-rolo. A fumaça dançando, espraiando-se no vento, temperada pelo cheiro forte de fumo. De repente, silêncio, os olhos do doido serenando em passear vago. Sem anunciação, levanta, sai alardeando seu ir com o chap-chap da chinela. Vai. E vai rua acima, rua abaixo, rua abaixo, rua acima. Todo dia nesse zanzar assim, esperando a hora do sol deitar, para deitar também, e levantar amanhã na madrugada ainda escura, para esperá-lo acordar.  

Doido apertado tinha. Doido por aperto do juízo na conformidade com o tempo, com a situação. O sujeito era... digamos, quase normal, mas vinha uma fase da lua, um acontecimento e ele apertava. E quando apertava, entrava em fúria louca. Então, ter cuidado, esperá-lo voltar para posição reaprumo. E ele se mostrando empirriado, com os olhos agitados, com cara azeda, desconfiado, esticando os ouvidos para assuntar o que falavam... se a respeito dele. E todo mundo murchando de prevenição. Aí, um dia, o doido se desdoidava. A cara, o jeito, o proseado, tudo voltava ao normal do acostumado. Mas mesmo assim, a turma, por perto dele, pisava com jeito, atentava em cuidado de falação evitando inflamá-lo. 

O doido varrido atinava uma besteirinha. No que aceitasse qualquer comida que a boca não enjeitasse, bebesse a água que o nariz não recusasse, segurava roupa no corpo, circulava com rumo traçado, elegia lugares de predileção para o seu visitar, mas não se ligava a ninguém, embora aceitasse chegança distante de familiares com contato continuado. Só falava quando perguntado. E quando perguntado, as palavras descosturadas, referindo-se a assuntos salteados, com tudo se desencontrando. Vivia em agonia, subindo, descendo, entrando nos armazéns, saindo sem atenção de comprimento a quem quer que fosse. Como vivia sob o mando do querer do corpo, sem freio a regulamento de norma, que todo mundo se prevenisse contra o que ele pudesse fazer. Os comerciantes, quando o viam se aproximar, corriam para proteger os sacos de farinha, de açúcar..., as rapaduras. Em descuido, lá se ia a mão dele mergulhando na farinha, no açúcar, para sacudir punhados na boca. Nas andanças, quando passava perto de uma mulher desprevenida, o estalo de palmada na bunda dela. E quando a mulher se assuntava para o ocorrido, o doido já batucava em outro canto. Mas no seu ir, no fazer que fazia, não punha ninguém em risco de vida. Quer dizer, se ninguém lhe agoniasse! Quando lhe agoniavam, aí pedra viajando sem destino, esturros, palavras sem nexo voando. Aí, o doido correndo aloprado, empurrando, esmurrando quem em sua frente. Por ser assim, o dizer repetido, insistente dos adultos, divulgado por todo mundo: “Não aperrei fulano. Ele é sem culpa. Não atina nada! Cuidado, cuidado!”

Não, o aqui escrito não abarca o jeito de todos os doidos. Cada doido com seu jeito e eram muitos sujeitos com jeito de doido. A doidice rejeita qualquer tipo de enquadramento, até o do emolduramento por palavras em papel. A cidade sabia disso e se esforçava para tolerar suas manias. Quando algum doido aloprava em fúria braba, lá se iam os homens junto com os policiais para pegá-lo e levá-lo para a cadeia ou amarrá-lo. E ele era mantido nesse estar até ser atingido pelo estado normal do seu ser. Mas a cadeia era pública, pública no sentido de ser aberta ao público. Só a cela era fechada.  Aí a gente ia ver o doido na cadeia para saber se ele já tinha se acalmado. Era no clima dessas linhas que a vida dos doidos ia se tramando na cidade.

Depois, já no tempo do agora, fiquei sabendo. Para a doidice, a pior forma de maltrato é a solidão. O tempo mudou, ou seja, mudaram as formas do acontecer das coisas. Pessoas foram embora, pessoas que ficaram tiveram ideias, costumes, comportamentos modificados; pessoas estranhas assentaram residência na cidade; policiais, juízes, promotores, delegados desembaraçam suas ações alheios ao entrelaçar vida do povo, sem pesar o drama, as relações, o jeito de viver dos habitantes. Para o bem retratar da coisa, não há mais habitante na cidade. Nela só moradores. Em verdade a cidade desapareceu tomando forma de acampamento. Sobraram algumas ruas, algumas edificações, mesmo assim em outra cara. E aí, os doidos, coitados, caíram em estrangeiramento. Estranharam o mundo, foram estranhados por ele. Os comerciantes os repelem, as casas com as portas fechadas, as pessoas não toleram suas manias, sentem-se agredidas, ameaçadas por eles e, em resposta, os agride; no mínimo de alteração, a polícia os prende. E os doidos tornaram-se anônimos. Agora, sem nome, sem conhecimento, sem lugar, tomaram forma de sombras semoventes. Os doidos novos se agasalham constritos em casa ou se expõem aos abusos de estranhos; os doidos velhos zanzam pelas ruas, por estradas, procurando a cidade perdida, sozinhos.

20-06-17

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