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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 2/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 3/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 4/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 5/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 6/6
APOIO AO MOVIMENTO ESCOLA SEM PARTIDO

Esmeraldo Lopes

Documento originalmente escrito em apoio à iniciativa do Vereador Osinaldo, de Petrolina PE

Fui professor do ensino médio e do ensino superior, por 30 anos, inclusive com larga atuação em Petrolina – 1982 a 2009. E, por isso, posso falar. Nos últimos tempos as escolas foram transformadas em campos de doutrinação ideológica de incautos. Na concretização dessa doutrinação, professores, na verdade, impostores, pseudoprofessores, utilizam seus cargos e ocupam os horários destinados às aulas para impor aos estudantes visão e aceitação de pensamento e práticas de esquerda; pontos de vista de minorias e refutação de tudo o que julgam politicamente correto, adequado, justo, verdadeiro. Transformam-se assim em messias de verdades inabaláveis, defensores do universo, soldados do pensamento único, não obstante tragam molhados com suas salivas as expressões: liberdade de expressão, liberdade democrática, pluralidade de ideias. Os estudantes que reagem recusando e questionam a prática e os dizeres desses pseudoprofessores, desses impostores, são, ora sub-repticiamente ora abruptamente, discriminados, ridicularizados, menorizados, escanteados, até reprovados e não encontram nem respeito e nem espaço para o seu existir autônomo. E para se verem livres desses ataques, esses estudantes calam, fingem concordância verbal ou por escrito, em discussões, provas e trabalhos individuais e em grupo. E assim reproduzem piado por piado o piado do impostor, do pseudoprofessor, - que no meu ponto de vista não passa de um tipo de estuprador de mentes, tipo de ser abjeto, mais canalha entre os canalhas. E todo o proceder desses estupradores de mentes, desses pseudoprofessores se desenrola às claras, à vista de diretores, ao alcance dos ouvidos e dos olhos de coordenadores e dos membros daquilo que deveria ser corpo pedagógico – todos cúmplices, omissos, também pseudos, incorrentes na mesma modalidade de estupro, de crime. Os pseudoprofessores, não obedecem aos programas, impõem conteúdos e material pedagógico completamente inapropriados - por serem doutrinários - e nem de longe atentam para a adoção de práticas disciplinares, para o desenvolvimento intelectual e  cultivo da autonomia dos estudantes. E tudo isso em nome de uma rotulada ‘consciência crítica”, que no entender deles alcança plenitude quando os estudantes aprendem a piar o piado que eles, os pseudopressores, piam. E mais grave: agora deram para combater os valores que fundam a família, o cristianismo, a sociedade judaico-cristã, enfim, a sociedade ocidental. E para completar, querem impor a ideologia de gênero nas escolas e obrigar a todos os estudantes a concordarem com práticas homossexuais, bissexuais..., aceita-las e também as vivenciarem.

30/06-18

Monólogo de Finados

                                                                                                                 Esmeraldo Lopes

- O feriado de hoje não é como os outros. Fica tudo assim... diferente, meio quieto. Parece que tem uma tristeza no mundo. As pessoas entram aqui no carro e ficam caladas, olhando... pensando não sei no quê. Acho que em seus mortos. Eu vejo o destino da viagem no aplicativo e sigo. Às vezes dou palavra, mas por resposta, hoje, quase sempre tenho tido silêncio. O destino de muitas pessoas que me chamaram foi algum cemitério ou o retorno de um.  Todo mundo tem mortos. Eu também fui ao cemitério para visita, hoje, com minha mãe, com minha irmã. Mas lá só tinha a sepultura. A gente ficou parada diante dela, olhando, entristecendo em silêncio. Por que a gente vai se lá não tem ninguém? Meu pai, minha avó... os outros parentes... Eles não estão mais lá. Deles, só os ossos. A gente não devia ficar triste. Para que se entristecer, lembrar do que é ruim? A morte não é ruim? Não deveria existir esse negócio de Dia de Finados. A gente tem que se lembrar das coisas boas, alegres...

O carro foi correndo no vácuo do silêncio. A voz do motorista, no passar de tempo curto, voltou:

- Eu nunca tinha pensado nisso, mas se a gente fica triste é porque se lembra das coisas boas, das alegrias que nossos mortos nos deram, da falta que eles nos fazem. Foi isso que eu senti quando estava ao redor da sepultura... e depois fiquei lembrando e pedaços de lembranças vindo, vindo... Talvez se eu não fosse fazer a visita, se não existisse sepultura, eu não tivesse assim... É uma coisa ruim, mas também é uma coisa boa a gente ter recordação de nossos mortos. O pensamento... Fica um filme passando direto, retratos aparecendo, vozes acordando dentro de nós. As pessoas que eu vejo desanimadas andando na rua ou que entram no carro devem estar sentindo o mesmo que eu. Mesmo assim eu penso que quando a gente morre se acaba tudo. O espírito vai... por aí, para algum lugar. Não sei se os espíritos ficam assistindo a gente. É bom que não. Eles iriam ficar tristes ao ver a gente nas dificuldades e sem poderem nos ajudar. Você acredita na existência de espíritos ou é ateu, quem nem um bicho? Tem gente que é assim.

- O lugar marcado é esse, está certo? Desculpe a conversa. Obrigado e boa noite.

A BARRAGEM DE RIACHO SECO E A APREENSÃO DOS BEIRADEIROS E RIBEIRINHOS DE SEU ENTORNO

 

Está disponível no espaço OPINIÃO rascunho do Relatório sobre o Impacto Social da Barrgem de Riacho Seco feito por mim e pelo socílogo Amurabi Oliveira. Junto entrevistas dos beiradeiros a respeito do problema que os angustia. Importante para quem procura conhecer a vida dos beiradeiros do rio São Francisco.

RÉQUIEM

                                                                                          Esmeraldo Lopes

                  Adaptação de texto originalmente escrito para

                 cerimônia familiar.

Onde o início de nosso começo? Em algum ponto da eternidade passada. E daqui para lá, rastros, imagens, lembranças se apagando, esvaindo-se, desaparecendo do assunto do mundo até sumirem e entrarem na eternidade de esquecimento profundo.

Na vida construímos, sonhamos, vencemos, amamos, destruímos, sofremos, iludimo-nos... Nesse trajeto, longo ou curto, fazemos rastros, deixamos impressões, nos marcamos, marcamos, somos marcados. Fazemo-nos testemunhas de nós e dos outros, e os outros se fazem nossas testemunhas. E já não somos apenas o que queremos. Existem os outros a dizer quem somos, e não somos sem eles, e eles não são sem nós. Ligamo-nos pelos encontros, pelos desencontros, e nisso nasce um infinito, berço para infinitas recordações. O filósofo Albert Camus disse: “Se vivêssemos um só dia, ainda assim teríamos recordações para toda a eternidade.” Para toda a eternidade... A eternidade!... Somos tão depressa! Não podemos alcançá-la. Civilizações, mundos, até os cemitérios morrem e somem por completo sem deixar vestígios. Nossa eternidade nesse mundo, se a queremos, ainda que em sua efemeridade, joguemos para o mais distante possível o esquecimento profundo de nosso existir. “A grande derrota, no fundo, é esquecer...”, concluiu o escritor Louis-Ferdnand Céline.  Para sermos justos conosco, com os que vivem ou viveram conosco, com nossos antepassados, com a história, temos que lembrar, sem passar por cima de nada. Só assim podemos ser justos e encontrarmos a nós mesmos e nos vermos e nos compreendermos. Mas ser justo é tão difícil!, tão dispendioso! E se falta força para revelar a verdade? Temos que encará-la e sofrer diante dela, mas não mintamos para nós mesmos - e não nos desculpemos com farsa! Autocrítica, autocrítica, autocrítica e dor. Cientifiquemo-nos: o arrependimento não anula o passado, apenas reconhece um erro. Pior, muito pior que a dor da verdade é o vácuo do esquecimento. “Feliz o destino da inocente vestal, esquecida pelo mundo que ela esqueceu, brilho eterno de uma mente sem lembranças!” “...esquecida pelo mundo que ela esqueceu...” Foi o poeta  Alexander Pope quem disse, mas é possível não ter lembrança e existir como humano? De outro modo: é possível existir no esquecimento?  O esquecimento é a negação, adulteração da própria trajetória, do próprio existir. É também um modo de assassinar, de impingir morte cruel e de condenar àqueles que são esquecidos: Não és nada, não serás nada, não fostes nada, não valeste nada, não tiveste a menor importância. Esquecer é apagar o passado. É lançarmos nossos antepassados no espaço vazio do silêncio eterno... e embarcarmos juntos. Sem a lembrança, somos apenas vulto na insignificância do instante, meros animais. E se queremos ser para além do instante, da animalidade, cultivemo-nos nos que vivem conosco, nos que vieram de nós, e cultivemos, principalmente, nossos mortos, pois neles a nossa origem e o elo de nossa ligação. E só podemos cultivar nossos mortos pela memória. E, através dela, eles despertando dentro de nós, dando-nos as pistas para sabermos quem somos, mostrando-nos do que fomos feitos, proporcionando lastro para o seguir das gerações futuras.

Nossos mortos... Pensamos que os colocamos dentro de tumbas em cemitérios, mas antes disso - bem antes! -, eles deram início à obra de se sepultar em nós. De começo transferiram sua matéria para nossos corpos, imprimindo-nos seus traços ocultos, suas características aparentes e se inscrevendo em nossa estrutura física. Depois, devagarzinho, de modo inconsciente e também com propósito consciente, sem percebermos, a cada momento do convívio conosco, foram se passando para nós, guardando-se em nossas mentes, grudando-se em nossos gestos, fixando-se em nossas lembranças, semeando-se em nossos jeitos de pensar... e de ser. E nos ensinaram a falar como falavam. Colocaram em nossa língua a canção de seus sotaques. Alimentaram e embalaram nossas curiosidades, nossas emoções, despertaram nossos temores, contando-nos histórias acontecidas, supostas, imaginadas. Empurram-nos para seguirmos pelos caminhos que caminhavam e que, supunham, levasse-nos à vida reta! Muitos desses caminhos herdados de seus antepassados, outros abertos pelo andar de seus passos e pelos passos dos que viveram no tempo de seu viver. De mansinho, botaram tempero em nossos gostos e em nossos desgostos, e nos fizeram aprender a sorrir, a chorar, a sonhar, a aguentar dor, a ter esperança... Disseram-nos, mostraram-nos, mas nem sempre os ouvimos, nem sempre enxergamos o que nos expunham. Por vezes só fingíamos lhes dar atenção ou os desdenhávamos ou os desprezávamos. Não percebíamos nossa estupidez ou não procurávamos evitá-la ou não conseguíamos não sermos estúpidos. Eles também no mesmo... e nos atingindo em marcha ininterrupta com dureza, crueldade, aspereza, indiferença, ternura, alegria,  tristeza, serenidade, compreensão... Nós no envolto deles, no cenário, compondo o panorama, atuando em cada situação. E em cada situação, assim como eles, nós em sentimento de vida e de momento perpétuo. Em verdade, nessas ocasiões, eles não eram “eles”, todos éramos nós. A morte fora de conta. Não morreríamos nunca! A vida, as situações, em eterno presente. Presente preso dentro de quadro imóvel como as imagens dos retratos ou como cenas de filmes.

Tic-tac, tic-tac, tic-tac… incessante, procurando o infinito. O tempo não tem preguiça, nem cansa, não atrasa, não adianta, não tem pressa. É monótono, estável, cego, surdo!... não tem coração. Não precisa de elogio, não liga para sorriso, nem para contrariedade, nem para choro, nem para aplauso... O tempo não liga para nada... caminha, caminha... Para onde vai? Não nos responde. Contentemo-nos com nossas suposições. Nós engolidos por ele, navegando nele, mas ele... Ele não nos vê. E, dentro do tempo, nosso ponto de surgimento, e a vir, em um acontecer inevitável, o nosso desaparecimento. Nosso desaparecimento... Quando? Como? A grande angústia seria esse saber. Que o digam os condenados à morte pela justiça, pois a estes foram informados os detalhes do cumprimento da sentença horrenda e conhecem a angústia inclemente alimentada pelo ouvir ininterrupto do tic-tac contínuo do tempo andando em seus passos mudos na direção do dia e da hora marcados para as suas execuções. Mas nós temos a graça da ignorância da data, da circunstância; temos a graça da imaginação, da capacidade de criação e da alteração do sentido das coisas. Não suportaríamos ouvir o barulho da contagem regressiva do tempo sob a regência da morte em espreita e nem o conhecimento dos detalhes da maneira de ser do nosso fim. Afastamos a morte para longe: “Um dia.”; colocamo-na na gaveta do esquecimento forçado: “Não vou ficar lembrando disso!”, dizemos. Criamos a eternidade de momentos e, agarrados à esperança, conseguimos vislumbrarmos o futuro, eliminando dele o enxergar de nosso desaparecimento. E ao invés de nos aturdirmos com o tic-tac que nos empurra rumo ao encontro de nosso destino final, damos-lhe outros significados, e enchemo-lo de sonhos, desejando, por vezes, que ele, o tic-tac, se apresse: “Eu vou crescer logo, aí...”, “O tempo vai passar ligeiro e eu...” E até nos despedimos do passado sorrindo e cantando: “Adeus, ano velho! Feliz ano novo!...” E mesmo aos que, entre nós, com base em todos os critérios da razão e em todas as evidências, foram desenganados de prosseguir neste mundo, ainda resta o recurso da esperança de um milagre. E o milagre, sempre esperado... e às vezes acontece. E quando acontece, a vida ganha da morte. No registro dessa vitória, contam-se minuto, hora, dia... “Um dia a mais!”, apelo de quem agoniza. E, se consegue, ele vai desejar outra hora e outro dia. Isso, quase sempre, menos quando a morte se instala carregada de dor insuportável. Contra a morte, qualquer ganho é incomensurável, diante de sua impassibilidade: ela não sorri, não chora, não se vinga, não se apiedada, não concede. E, sem falta, virá. Virá rápida, calçada “com suas sandálias de silêncio” ou no embalo amedrontador do som de trovão ou na rapidez muda de raio de relâmpago ou caminhando em passo lento... lento... se anunciando serena ou carregando carga pesada de dor, de aflição, para realizar sua obra.

A morte... O terrível da morte: “Não estarei mais aqui e tudo continuará sem mim, depois de mim. E não sei o que serei e se serei e onde estarei.” Haverá onde estar?... Silêncio? Escuridão? Claridade? Barulho ensurdecedor? “Sono sem sonho?”, como o filósofo Sócrates chegou a supor? Morte: vale de mistério aterrador.

Quando pessoas queridas morrem a gente participa do funeral. Se estiver ausente, pode participar também, mas pela imaginação carregada de sentimento, de lembranças. E pensa-se que o funeral se encerra com o sepultamento. Então se diz que ele foi realizado no dia tal. Mas, não. Nesse dia, o morto colocado em uma sepultura. Sepultamento de queridos é empreendimento para obra longa. E às vezes abarca toda a vida. De fato o morto lá na sepultura, mas remoendo por dentro da gente o sentimento recrudescente de um vazio..., e um silêncio!... Então, a gente fica quieta, parada, se procurando, querendo se recolher do mundo. Aí a pessoa querida, falecida, vem habitar dentro de cada um que está assim, para nos fazer companhia e nos acalentar. E fica nos levando pelos lugares onde a gente viveu, falando em nossos ouvidos, se mostrando, mostrando imagens das coisas acontecidas. Isso nos alenta, mas também dolore. As recordações das coisas boas nos lançam na placidez de sorriso interior: as recordações desagradáveis nos deitam no remorso diante de uma constatação: “o passado não pode ser corrigido”. Devagarzinho, a pessoa querida, falecida, se desabitando de nós, deixando-nos só lembranças. A gente leva tempo para aprender a se acostumar com a ausência, com o vazio deixado por ela, mas consegue! Consegue, mas o sepultamento continua! E cada vez que sentimos falta do falecido querido, percebemos que há um novo sepultar, e que a gente vai se sepultando também... de pedaço em pedaço. E luzes perdendo brilho, espaços se esvaziando, alegrias desvanecendo, sorriso ficando sem graça.

Entre lágrimas e suspiros de impotência prestamos as últimas homenagens a nossos mortos. E os acompanhamos na condução de sua derradeira jornada até o cemitério onde jazem. O acompanhamento de jornada assim, quantas vezes já o fizemos? De tanto fazer, de tanto assistir, de tanto acompanhar a morte, começamos a nos acostumar com ela, a pegar sua intimidade e até a imaginar o nosso próprio trajeto final. Aí, pensamos ouvindo, solene, calados, nossa voz: “Nesse dia, todos que me acompanharem voltarão, mas eu ficarei, como ficará, daqui a pouco, quem agora acompanhamos. Ficarei sozinho...” E passamos a encarar o cemitério como ambiente familiar, cheio de parentes, de amigos, de conhecidos. Nele, recordações saltando na gente: “Aqui fulano, ali cicrano, lembra dele? Minha mãe, meus avós, nesta sepultura.” Os mortos reavivados pelas lembranças, reavivando-se pelas inscrições, pelas imagens dos retratos exibidas nos túmulos. E vão brotando, falando de si, contando história, fazendo-nos perguntar. Mas há mortos que emudeceram e desapareceram entrando na eternidade do esquecimento profundo, rápido. Rápido demais, sem deixar resquício... e nem poeira. E seus descendentes vivem, mas vivem sem história, como folhas desprendidas de ramos, de ramos que não sabem de que galho caíram. São os mortos sem monumento.

Cemitério... monturo?, depósito de mortos? Não! Cidade de memória, monumento abrigo de monumentos. Monumento... marco de recordação carregado de significados, avivando lembranças, histórias, colocando-nos no presente do passado, trazendo o passado para o presente. Monumento... Não importa a forma, tanto faz se em imagem, registro em papel, objeto, edificação. Sepultura, monumento, casa de memória, templo de mortos.

Cidade de memória... No seu caminho seguiremos. Lá, uma multidão nos espera para habitar com ela pelo sempre do sempre. Aguarda-nos sem pressa em repouso tranqüilo... no leito do Templo dos mortos.

Onde o início de nosso fim? O início de nosso fim em algum ponto da eternidade futura, a partir da abertura do portal do esquecimento. Daí em diante, rastros, imagens, lembranças se apagando, esvaindo-se, desaparecendo do assunto do mundo... até sumirem e entrarem em esquecimento pleno. Silêncio profundo viajando pelo tempo. E a eternidade do futuro sem a lembrança de nós.

 

A PROMESSA E O SANTO

 

CONTO

FICÇÃO DOCUMENTAL

67 Páginas

Disponível para ser baixado na seção download 

                                   

                                                           Esclarecimento e Advertência

 

Tudo o que está escrito nesta obra é de minha inteira responsabilidade. Verdade que ela foi inspirada, norteada e enredada com base no depoimento de Edenilde Maria de Jesus. E ainda que ela seja a protagonista da história e a narração se desenrole através de sua boca, nenhuma culpa por erro ou por algo do que está escrito, e que, porventura provoque desagrado a alguém, pode lhe ser imputada. E não pode porque ao desenvolver este escrito não fiquei emparedado no seu depoimento. Selecionei, filtrei, editei, alterei, excluí, complementei, suplementei muitas frases. Modifiquei, criei e acrescentei expressões, situações, cenários, diálogos, pensamentos, expectativas, acontecimentos... e mantive o que me pareceu , conveniente, necessário, imodificável. Procedi assim com o objetivo de expressar o clima que envolve e dá espírito às personagens e a história. Para tanto recorri a depoimentos complementares, informações avulsas, consultas sobre aspectos pontuais e à minha memória. Fugi de todo tipo de arbitrariedade, esforçando-me para lastrear a narração, a linguagem e os elementos oriundos da imaginação dentro do quadro da realidade visível, palpável, objetiva e do imaginário local. Imaginário germinado no correr da história, formatado e reformatado no confronto com a natureza, no entrechoque das relações sociais, na luta pela sobrevivência e fortemente influenciado por emanações provindas da religião, da tradição, de crenças, e de ocorrências que não podem ser explicadas e compreendidas pela razão. E nesse particular, botei em mira a ideia de que nem sempre a razão alcança a lógica de certos acontecimentos, comportamentos, ações, entendimentos e compreensões.

Descuidos intelectuais têm levado pessoas a inscreverem obras ou situações como as referidas no correr das letras abaixo, no quadro do realismo fantástico ou do surrealismo. Aqui não há nem surrealismo, nem fantástico. Só há vida vivida... e sentida. E qualquer interpretação fora disso é devaneio puro. Puro e barato e só pode sair da boca, de escrita, de gente que anda assoprando a palavra, o palavrão feio: “narrativa”.

 

 

                                                                                          Esmeraldo Lopes

 

FELIZES

                                                                                                    Esmeraldo Lopes        

Faz alguns anos, emprestei um livro a uma colega recomendando, em especial, a leitura de um conto. No passar de tempo curto ela mo devolveu ao som de protesto veemente, indignado: “Não gosto de nada que evoque tristeza. Não sei por que tem gente que se presta a escrever, a falar, a ouvir, a ler coisas tristes. Procuro alegria. Só quero saber do que me deixa feliz. Sou feliz!” Parei. O pensamento suspenso, procurando compreensão. Não encontrei. Mesmo sem me botar na deliberação de continuar em busca, minha mente, por conta própria, não me deu sossego de esquecimento. E quando não a mente, a luz de algum relâmpago da realidade me trazendo, vivo, o protesto. Na claridade de um deles, observei a garçonete que me servia com a concentração presa à televisão do restaurante. Ela lacrimejava ao acompanhar uma cena do encontro de um casal de namorados que há muito não se via, por impedimento de proibição. E quando desprendeu os olhos da televisão, falei-lhe: “Você está chorando, mas é só um filme, invenção. Não fique assim!” Ela: “Eu sei, mas a vida é tão dura, tem tanto sofrimento. Por isso a gente precisa de fantasia... dessas coisas para ter esperança, para continuar vivendo.” Míria disse isso com tempero de profundidade na voz, com serenidade na face. Seu dizer, sua expressão... e o que tivesse mais a falar daria uma crônica, um conto, uma peça de teatro, um romance..., uma obra carregada de vida, com tudo que a vida não pode deixar de conter: dor, alegria, tristeza, decepção, conquista, esperança, derrota... Minha colega, entretanto, aconselharia o artífice que se propusesse a fazer obra se referindo a alguma faceta da vida de Míria a não tocar em aspectos que impliquem tristeza. E a obra começaria e terminaria no encontro feliz. E aí, excluir-se-iam, da história de Míria, suas aflições, suas inquietações em torno do futuro do filho e das condições de existência que o envolvem; omitir-se-ia as marcas em seu corpo, as cicatrizes em sua alma deixadas por seus amores idos, por esperanças vencidas, mortas; não se levaria em conta as humilhações sofridas, as amarguras, as derrotas, seus sentimentos de culpa, seu temor diante do a vir... Por certo, ao concluso da obra, Míria, a que é Míria, não estaria nela. E com essa obra na mão, algum feliz escorregaria os olhos em seus parágrafos procurando erro de grafia, erro gramatical ou assunto para encher o coração com sonhos iluminados por ilusões falsificadas. É, poderia lê-la no completo, como modo de comer o tempo ou a jogaria sobre as pernas e reclamaria do calor ou do frio, dos dias que passam lentos ou rápidos ou do filho que ainda não retornou ou...

Bem, os felizes podem encher o tempo com qualquer coisa desde que elas estejam depuradas das tormentas da vida. Não!, erro! Eles até gostam de saber das tormentas da vida... nos outros! Mas elas devem ser apresentadas assim: como ato de culpa, de castigo, de expiação de pecado, de vingança, de injustiça alheia, como sina, como resultante da irresponsabilidade de quem as sofre. Entretanto, tudo isso mostrado, avistado, com floreio. Floreio na medida de não os fazer se sentir coparticipantes, corresponsáveis pelas dores que emanam das tormentas. E olham o mundo evitando enxergar sua alma, procurando manter a atenção dos olhos, dos ouvidos, nos adereços. E ocultam, adornam ou se desviam das marcas de sofrimento. Vêem sorriso onde há lágrimas, põem face de alegria na tristeza...

Os felizes comungam o sofrimento alheio? Procuram essa comunhão, mas a querem tão-somente na medida de compaixão abstrata, suficiente para reclamar gesto de caridade, provocar catarse, enlevo o bastante para se representarem à semelhança dos que mergulham a alma em sentimento de condolência pelo martírio de Jesus na cruz. Depois... se põem em paz. E conseguem paz porque se enclausuram em universo particular habitado por si, pelos parentes próximos bem próximos; resumem suas preocupações, suas sensibilidades apenas ao que atinge diretamente a si e aos seus; e imunizam suas consciências, suas emoções, contra tudo que geme fora. E de alguma janela de seu universo, assistem, indiferentes ou com curiosidade estrangeira, o desenrolar da trama da vida no mundo exterior. No mundo exterior, o problema, a responsabilidade pelas ocorrências ruins. E elas sempre no outro e do outro. O outro sempre o culpado, o algoz. Mas, apesar de todos os recursos de autoproteção, felizes sem conseguir escapar dos ecos dos gemidos, da imagem angustiada dos injustiçados, dos sofredores. Contudo, não se abalam. Transformam os injustiçados, os sofredores em marcos de heroísmo, de resistência e os pintam com cores de exaltação: “Bravos que suportam os sacrifícios”; “Apesar das dificuldades, resistem!”; “Tem a habilidade de driblar as adversidades”; “Vive na miséria, mas mantém a integridade moral. É um exemplo”; “Morreu barbaramente torturado, mas será recompensado no céu”; “... suportou todas as humilhações.” A injustiça, o sofrimento, recursos de glorificação... e até de santificação.

O injustiçado, o martirizado, recebendo as cargas da desgraça no corpo, acossado na alma, esturrando agonia, com a consciência amortecida pelos sopapos da dor. Os felizes vendo, ouvindo, sabendo do acontecer funesto, mas calados!... ou o apoiando ou o reprovando em murmúrio. Desfecho: vivo, o martirizado encolhido num canto, quieto, aniquilado, tentando não reouvir os próprios gritos; esforçando-se para expulsar dos ouvidos, de suas visões, as gaitadas prazerosas de seus algozes; buscando cura para as feridas do corpo, da mente, se esforçando para fugir de si, alimentando a esperança de adormecer as lembranças, de cair no esquecimento dos outros. E, só por ainda existir, testemunha cruel, documento probatório de injustiça acontecida. Os felizes se defendendo dele pelo silêncio, sufocando a memória, apiedando-se dele ou afirmando a inexorabilidade ou a fatalidade ou a justeza do corrido. Mas todos eles sem perder alerta, prontos para taparem os ouvidos, para declararem louco, mentiroso, o martirizado, se este ousar publicar o mapa de seu vale de dores. Se morto... Morto, o martirizado perde a marca testemunhal de sua imagem, sua sombra some, seus murmúrios cessam. Desaparece no esquecimento ou...

O vento batendo novo, sorrisos de crianças alegrando a vida, o cantar dos pássaros, o pipocar de botões de flores nos jardins, a ignorância dos jovens, dos chegantes sobre os sucedidos do atrás. O passado aquietado, ajeitado no desenho de conveniência para o sossego dos felizes. Eles sem receio de sobressalto. Mas eis que na mansidão do tempo explode conversa comprovada detalhando os suplícios de defunto martirizado: o esfolar de suas unhas, as alicatadas em sua língua, as surras, sua submissão a maus-tratos todos...; as palavras de suas súplicas desesperadas, sem força, inúteis; a descrição de seu ser impotente esparramado no chão, esvaindo-se... Mas a notícia pior: “Ficou provado: ele era inocente!” A consciência pesando, a culpa revoando. As conversas avolumando, intensificando os suplícios praticados. Os ouvintes esbugalhando os olhos, franzindo a testa, ouvindo os gritos do finado castigado, escutando o ressoar de sua voz sem som, enxergando sua face ensangüentada, seus olhos sem brilho, a silhueta de seu corpo encolhido. Apiedam-se. E rezam por sua alma. Suplicam perdão pelos atos praticados pelos algozes, às vezes, por seu próprio                                                       silêncio. Perdão... Os felizes têm o perdão!...

Um dia, uma semana, um mês, um ano... Ninguém sabe como, nem de onde, nem de quem surgiu, mas uma verdade campeia anunciando que o defunto martirizado tomou prumo de santidade. O suplício o depurou dos pecados, santificou-o. E ele está obrando milagres. E vão aparecendo beneficiários... e os milagres feitos. Rogos de “valei-me!” ao santificado acompanhados de promessa saindo de boca aqui, de boca ali.  O povo abrindo estrada no caminho de sua cova. E a cova coberta e recoberta por flores, chuviscada e rastejada por lágrimas de velas, arrodeada de ex-votos. Santo. Os santos são clementes, perdoam seus malfazejos, transformam o calvário em caminho de ascensão ao céu. Os felizes em paz. Eles sempre tem paz e dormem sem atribulação.

Ocorre de algum feliz se infelicitar com o sofrimento alheio. A revolta explode dentro dele e o atiça na obra de correção do mundo em atendimento a convocação de causa justa. E, à sombra dela, curva-se a auscultando, recebe revelações, determinações. A Causa é justa e em seu nome tudo é permitido, tudo deve ser feito, tudo deve ser aplaudido, nenhum perdão pode ser concedido. Convicto, o feliz anuncia a vinda da felicidade geral escorrendo no fio da espada que ergue. Suas palavras são polidas com fogo e sangue e carregam verdades inquestionáveis, inexoráveis, sagradas. Através delas, dita as leis do a vir. Quer o mundo sob seu governo. Determina quem morrerá, quem viverá. Define e impõe a forma reta de viver, o destino de cada um. Decreta a abolição do sofrimento, da infelicidade. Aí, ai de nós! Todos nós proibidos de sofrimento, condenados... condenados à felicidade. E uma Míria emudecerá, não terá mais razão para dizer que a vida é dura, que há dor no mundo. E se ela sentir necessidade de chorar que chore... mas aprenda a chorar sorrindo! Para não contrariar a Causa. Amém, amém, amém...

11-11-17

CONVERSA CANALHA

Esmeraldo Lopes

Poucas coisas no mundo se igualam, em canalhice, ao dizer de comunista quando este se põe a berrar as expressões liberdade de expressão, democracia, participação. Nessa matéria, ganha com boa vantagem do apenas politicamente correto. O politicamente correto está o tempo todo saculejando a boca com a pregação de paz, de amor, de convivência com a diversidade, de tolerância plena, de irmanação universal, de fim das fronteiras, de derrubada dos muros... mas, quando  alguma atitude ou opinião ventila em divergência a algum ponto de sua pregação, declara guerra, e só não elimina o divergente por não dispor de arma ao alcance da mão ou... de coragem. Mas explode em ódio mortal, ameaça banimento e atira palavras de excomunhão que compõem  seu pobre e diminuto universo: machista, racista, xenófobo, homofóbico, reacionário, retrógrado, moralista, conforme o caso, e, em todos os casos, o indefectível “fascista!” E se fecha no seu grupo ridicularizando o desafeto, procurando meios de destruí-lo seja lá como seja. Nada, absolutamente nada que contrarie seu ver, seu pensar, seu ser, merece respeito, atenção. E seu pensar, seu ver, seu ser, enquadrados em uma bolha contendo verdades inquestionáveis, definitivas, eternas. Bolha emoldurada, estampada com as cores da permissividade, amarrada com narrativas arbitrárias, elaboradas por algum sapiente da paz universal, definidor de verdades absolutas, das regras do bem pelas quais se orienta e sem as quais o politicamente correto não sabe assoprar uma palavra, nem dar um passo.

Em matéria de recorrência a guru para botar alguma ideia na cabeça, o comunista no mesmo ser do politicamente correto. Não sabe fazer oração, pois só sabe ver pela cabeça alheia. Pega reza pronta na Bíblia escrita por Karl Marx ou em algum catecismo escrito por Lênin ou por Gramsci ou em cartilha com rabiscado acerca dos princípios do socialismo científico ou no dito de alguma divindade de gueto. E fica engolindo, remoendo e recitando verdades de acontecidos, de a acontecer inexorável.

Vem-me uma cena. 2013. Manifestações em muitas cidades. E em muitas cidades, por todos os lados, gente prometendo protestar. Protestos contra tudo, absolutamente tudo. Cada participante gritando o seu querer, sem ligança para o querer de quem a seu lado. Velhos, crianças, jovens, pobres, ricos, mulheres, homens, enfim, o povo, no sentido total do termo, protestando. E quem não fazia comparecimento por corpo, fazia acompanhamento sentado em sofá, mirando televisão. Nesse clima, topo com um comunista, conhecido meu. O homem trazia estampado na face um sorriso largo, um olhar resplandecente, deslumbramento superior ao de Cristovão Colombo ao se deparar com a América. Levantou a mão para me mostrar um livro. Era um livro escrito por Lênin. Olhava com fascínio para ele e se voltava para mim. Queria uma resposta de meus olhos, alguma manifestação de minha boca. Disse-lhe que conhecia o livro, que já o havia lido. Ele me respondeu dizendo que também já o lera, mas que o estava relendo, se debruçando sobre ele com atenção atenta para entender o momento, as manifestações em acontecimento. Eu lhe disse que aquele livro fora escrito há quase cem anos, pensado em realidade de outro país, de outro povo. Ele retrucou: “É claro que eu sei disso!, mas aqui ele explica tudo o que está acontecendo, é só saber ver. Na Rússia foi assim também. A Revolução de 1917 foi desse jeito!” Não ocultou sua insatisfação... e frustração com minha posição, com minha observação. Algum tempo depois voltou a me encontrar e, ao me avistar, foi dizendo: “Viu os Sem Terra?! Pararam o trânsito, invadiram a Secretaria, destruíram os experimentos do laboratório! É a Revolução que está a caminho! Bote as barbas de molho! Os burgueses e a pequena burguesia vão ter o que merecem!” 

A idiotice é perdoável, temos que tolerá-la. Aliás, cada um de nós é ou foi idiota de algum modo, em alguma circunstância, em alguma dimensão da vida. Nesse assim, ao perdoarmos um idiota, uma idiotice, estamos, de alguma forma, também nos autoperdoando. Mas a canalhice não pode ter perdão, não merece tolerância, complacência. Canalhice implica astúcia, e gera ruína, maldade, supressão do ser do outro. E é exatamente isso o que faz o comunista. Com toda a força que a garganta permite, com toda a habilidade que o verbo possibilita, reivindica e luta, em nossa sociedade, pelas chamadas liberdades democráticas, mas cala diante das atrocidades e assassinatos cometidos contra a população durante todo o período de existência da União Soviética, principalmente durante o governo do bandido e genocida Stálin; omite a violência, as injustiças, assassinatos de milhões, cometidos pelo governo Comunista da China; finge que não sabe do massacres em massa de pessoas no Camboja pelo Khmer Vermelho, sob o comando do comunista sanguinolento Pol Pot; solidariza-se com o feroz, sanguinário e absolutista governo da Coreia do Norte; apoia as medidas restritivas das liberdades democráticas na Venezuela; aplaude a inexistência de liberdades democráticas em Cuba.  Diante dessas realidades o comunista emudece. Pior: nega. Se apertado por questionamentos, fala com voz miada: “Houve erros”; “Ocorreram desvios”, “Foi uma questão de necessidade histórica”. E se perguntado sobre a existência da liberdade de expressão e de participação em um governo comunista, com convicção cínica responde: “Liberdade de expressão, de participação são liberdades burguesas! A burguesia tem que ser morta, a pequena burguesia tem que ser submetida! Não podemos deixar espaço para o inimigo se manifestar, lutar contra nós”. O restante da população? O comunista estica o peito: “A população será protegida contra a cultura da burguesia, contra os membros da pequena burguesia. A população será reeducada”. E respira fundo, joga olhar em realidade idealizada. Vê-se autoridade, em algum comando, determinando a vida, indicando o seguir do povo e o povo calado, obedecendo. E todos na crença irrevogável das mesmas ideias, submetendo-se às aspirações que lhes apontam, que lhes impõem. Um único pensar, uma única voz.

10.06.17 

SÓS

                                                                                          Esmeraldo Lopes

Lá vem Valmir empurrando sua galeota, procurando carreto, serviço de levar ou de trazer coisas, de limpeza de terreno, limpeza de chão de muro, de varreção, qualquer labutar que dê ganho e o ganho que procura o que lhe derem pelo serviço que faça. Rua acima, rua abaixo, ele assim todo dia. Desde menino nesse mesmo. E, desde que engrossou a voz e a barba rompeu, pegou gosto por cachaça. E, por causa da cachaça, deu para errar o caminho de casa, dormir em qualquer lugar, largar a galeota por aí, não terminar serviço. Isso contrariou dona Joaninha. Ele era seu único filho. Ela não tinha marido. Tinham parentes. Mas no certo mesmo é como se pode dizer: eram os dois no mundo. Ele, o sonho todo dela. Ela, o único ser que se importava com ele.

Quando dona Joaninha sentiu cheiro de cachaça no filho, entristeceu-se. Rezou rosário em rogo para ele ser desviado do descaminho. Mas depois que Valmir exagerou nas faltas, ela perdeu a confiança nele. Daí por diante, onde ele, ela. E se ela em trabalho de lavação de roupa na beira do rio, ele obrigado a ficar por perto, debaixo de vigilância bem feita, sem descanso. E ele vigiando a atenção dela, olhando-a com os olhos disfarçados por trás da aba de seu chapéu de palha. E, no primeiro descuido de dona Joaninha, fuga na rapidez de flecha! Ao se dar conta da escapada do filho, ela largando a roupa aos cuidados de colegas para ir ligeiro, ligeiro atrás dele. Às vezes o encontrando ainda a tempo, às vezes ele já com o juízo melado. De um jeito ou de outro, Valmir obedecendo, pondo-se na direção ordenada pela mãe, caminhando na frente. Dona Joaninha atrás, com uma varinha, açoitando-a leve no corpo dele toda vez que desconfia de tentativa de enganação. A cada açoite, Valmir fingindo dor com palavras, mas rindo, escondendo seu rosto dos olhos dela: “Ai, mãe! Ai, mãe! Ui, ui, ui!” Ele já à beira dos 40 anos. Ela, velhinha, com o corpo chupado pela vida, sem força...  E os dois se encaminhando para a retomada do fazer que ela estava fazendo antes.

Dona Joaninha cercando Valmir por todos os lados e modos para não deixá-lo beber, mas não tem jeito, ele vai beber. Se de umas vezes Valmir forçado a acompanhar a mãe ao trabalho dela, de outras ela o seguindo enquanto ele procura ou desempenha serviço. E assim os dois vultos subindo, descendo, andando para um lado, para o outro compondo a paisagem móvel da cidade. Ele acelerando o passo, esperando o alcançar de alguma esquina para, ao desaparecer dos olhos da mãe, atiçar-se em carreira e tomar destino de liberdade. Ela querendo se apressar, mas suas passadas miúdas, suas pernas cansadas... Valmir escapole. Entra em uma casa, em outra... vê dona Joaninha passar com a varinha na mão, com os olhos fogueteando. Ela não pede informação a ninguém a respeito de seu filho, ninguém lhe avisa nada. Vai para um lado, ele para outro. Às vezes acaba descobrindo a localização dele pelo som de vozes de malandros gritando: “Macacuí, Macacuí!”. “Tabaco da mãe, cabra corno, filho de puta! Traga tua irmã aqui que eu quero é comer ela! Traga! Traga a rapariguinha, viado de pai xibungo!” Não precisa dizer que por vezes ele tirava os documentos e “É com esse aqui que eu arrombo ela!” E pedra zoando no espaço, estraçalhando-se no chão, arrancando reboco de parede. Dona Joaninha chegando: “O nome dele é Valmir. É Valmir! Vamos, Valmir, vamos!” Ela olha para todos, mas não mira ninguém. Ali não pode haver alguém merecedor da consideração da um olhar, do endereçamento de palavra. E vai com o filho, atingida na alma, ferida no coração pela desfeita do tratamento que deram a ele. Atrás fica a cidade alegre, sorridente, indiferente às lágrimas que invadem seu sentimento.

Acontece de Valmir não querer fugir da mãe ou não poder. Aí se encaminha certo a procura de serviço. Se acha, quando a labuta é cavar chão, varrer, remover entulho, fazer algum transporte, dona Joaninha vigia o briquitar dele acocorada ou colada nos passos dele, com sentidos em alerta para evitar que ele escape e vá beber. Mas ele já sabe disso. Preveniu-se. Por saber o lugar de despejo dos entulhos, de antemão, deixa lá, entocada, garrafa de refrigerante cheia de cachaça – é a meiota. E, quando vai fazer o despejo, aproxima-se do esconderijo, dá umas bichadas às escondidas. Às vezes coloca a garrafa dentro da cueca e vai bebendo nos espaços do descuido da mãe. E aí, quando dona Joaninha percebe já é Valmir sem conseguir botar governo na galeota, varrendo sem rumo... soltando gaitada, assoviando, conversando sozinho, gritando: “Iquiô!”. Dona Joaninha se arria na tristeza. Dá-lhes umas varadas. Ele se encolhe aceitando a peia: “Ai, ai, ai”. E ela o toca no caminho de casa: “É minha cruz. É sina que Deus me deu”, se consola. Em casa, ele é botado de castigo. O castigo: não sair. A noite deita e dona Joaninha também. “Valmir, tá na hora de dormir. Ande logo!” Ele se estira na esteira. Fica quieto, quieto, calado esperando a mãe ressonar. E quando um ressono da mãe se emenda no outro em continuado, ele levanta devagarzinho, abre a porta e... Dona Joaninha acorda com o barulho de Valmir entrando: “Aonde você vai?” “Fui mijar, mãe”. Mas o cheiro de cachaça... “Tava era bebendo, safado!” “Não mãe, abença!” “Deus que lhe bote juízo... e corrija sua safadeza”.

Dona Joaninha e Valmir. No turvo da noite, no clareado do dia, dois vultos se movendo na cidade. Vultos... O que pensam? Sonhos... O que sonham? Dores... há? Necessidades? Quem quis saber, quem perguntou, quem se interessou? Quem prestou atenção à dor escorrendo nos olhos de dona Joaninha ao ver seu filho zombado, diminuído, caído bêbado na rua? O que se sabe e é certo é que um dia eles se foram. Levaram consigo suas silhuetas. Deixaram atrás de si uma cidade que nunca os viu e que por certo já os esqueceu.

 

 

ESCULACHADAS EM MADRI

Esmeraldo Lopes

A turminha lixo cultural brasileiro pensa que o mundo abraça a esculhambação que ela adota e propaga no Brasil. Para essa turminha, permissividade é norte. Tudo o que não cheire a ela é careta, reacionário, fascista. Referência só se for de enquadro por putaria, desrespeito a tudo o que tiver cor de decência, postura digna, tradição. E mais: se acha no direito de escrever a ordem das coisas de acordo com seu exclusivo achar – e achar de ocasião, pois ele vai variando conforme seu gosto. O mundo que vá procurando jeito de se enquadrar. Marca da personalidade dos componentes dessa turminha: petulância, arrogância, desregramento, irresponsabilidade, promiscuidade, egocentrismo... Pois bem. Com o carrego desses traços gente dessa turminha, ao sair das fronteiras do Brasil, vai batendo cabeça na parede, sendo enjeitada, repudiada, olhada de soslaio, criando imagem ruim de nossa nação, mas nem percebe isso. Como todo ser sem capacidade de crítica e de autocrítica, sempre pensa que está abafando, sendo referência civilizatória, farol do mundo. Foi com esse pensar que exemplares desse tipo de gentinha se deram mal em Madri. Ao não obedecerem às regras de um bar madrilenho ouviram um “Xô!, xô!” e tomaram  porta na cara. Motivo? Inadequação do calçado. Calçado recusado: tênis. Ora, no Brasil tem universidade que aceita aluno assistir aula nu; sandália de dedo é chic; bermuda-apijamada, roupa normal; mostrar o rego da bunda, sensual. E assim... E foi por esse ir que veio a indignação pela recusa do bar em aceitar ser adentrado por gente calçada com tênis.  Indignadas – essa gente gosta de se indignar!..., principalmente quando se rubrica com o nome de diretor de filme, de ator – resolveram fazer gravaçãozinha tirando onda com o bar, “para postar”. “Ah!, eu já andei de tênis até em tapete vermelho.” E a coleguinha zombando, debochando o ambiente, invocando boicote – como se ele aceitasse gente da estirpe recusada.  Resultado? Safanão do segurança e um gritinho miúdo, ridículo, envergonhado: “O que é isso?!” Viu não? Não é preciso ninguém dizer. É um safanão bem aplicado. Na gravação não aparece, mas o segurança deve ter dito: “Aqui não é lugar para gente como vocês. Vade retro!”

https://oglobo.globo.com/cultura/maria-ribeiro-agredida-por-seguranca-de-bar-em-madri-denunciem-machismo-22006853

29-10-17

CAÇOADA CRUEL

                                                                                                                 Esmeraldo Lopes

Darcy Ribeiro pensou... Ele vivia a pensar nas coisas do Brasil. Por isso deu pontapés nos muros da academia e chegou até as cozinhas, olhou os quartos, sentou-se nas salas das casas de Joãos, de Josés, de Marias, de Firminas... Pisou no chão de ruas de morros, de favelas, de cidades próximas, de cidades distantes... Darcy Ribeiro acocorou-se em rodas de conversa, escutando, falando com índios, com desalentados, com gente suada, quebrada pelos maus-tratos das labutas suarentas. Circulou entre ricos, médios, remediados e judiados. Deparou-se com o brilho de esperança acanhada circulando nos olhos de mães, de pais, de avós que só conseguiam vislumbrar algum futuro para seus filhos através da crença forte na força da fé. Deparou-se com o descaso de pais, de mães com as crias de sua rebentação sexual, de sua parição. Darcy Ribeiro não se acostumou a ouvir os lamentos, os suspiros de impotência dos brasileiros. E se atordoou diante dos sorrisos alegres da inocência abandonada nadando em rostos infantis. Vislumbrou a eliminação dos caminhos de desgraça ofertados às crianças, aos adolescentes filhos do povo Brasil. Por tudo isso e por muito mais disso, Darcy Ribeiro se aprofundou em pensar. E, nesse pensar, também invadindo sua mente o estar nutrido, estar de bem-estar de pessoas bem nascidas, bem criadas, bem posicionadas na escala social, brotadas no solo brasileiro. Estar de bem-estar desenhado nos corpos saudáveis, nos trejeitos do andar, do sentar, do falar dessas pessoas; estar de bem-estar indicado por suas posições, aspirações e até por suas frustrações.  E essas pessoas em estar tranquilo, acalentado pela coberta do sentimento de culpa, paga com migalhas decoradas com atos de piedade passiva, de caridade; e elas em estar tranqüilizado pelo aroma, pelo afago suave da indiferença; em estar tranquilo, tranquilizado pela auto isenção de quaisquer responsabilidades sobre os problemas sociais do país. E emergindo de seu pensar, Darcy Ribeiro constatou que no Brasil a distância entre as pessoas de bom estar e as de estar dificultoso em medida maior, bem maior do que a do tamanho de um oceano grandão. E bateu a cara na verdade mostrada pela razão: Para os filhos do povo Brasil, o caminho de fuga do mal-estar, educação. Mas educação, educação de verdade, com a missão de fazer do Brasil um Brasil nação, um Brasil país.

Educação... Os pais... Muitos pais ancorados na prostituição, nas drogas, no tráfico, engajados em quadrilhas bandidas... naufragados na meliência, sem condição moral, desprovidos de disciplina, de amparo psicológico e cultural para suster suas crias. Muitos, muitos pais consumidos por atividades extenuantes em empregos formais, em subempregos, submetidos a jornadas excessivas de trabalho, a deslocamentos longuíssimos, a períodos curtos de sono, sem poder, sem dispor de condições econômicas, intelectuais, mentais e de tempo para agasalhar, acompanhar, orientar, conviver com os filhos. E as crianças envoltas em ambiente bruto, degradado, entregues a si, ao dispor dos ensinamentos desbragados do mundo, aflorando animalidade, deitadas no desregramento, na frustração, orientando-se pela batuta da estupidez do querer sem freios de consciência, sobrevivendo nos traçados das regras ditadas pela lei do mais forte. Por esse ir, crianças nascidas no Brasil crescendo sem pegar o cheiro, o paladar, os trejeitos, os costumes, os sentimentos, o comportamento da gente brasileira, distantes de qualquer vento de compaixão, incapazes de autocompaixão. Escola? Diretores, coordenadores, professores, simplesmente “funcionários” se plantando em comodidade, aguardando o dia do pagamento, reclamando dos salários, complacentes com a baderneira dos estudantes, ofertando-lhes notas, atribuindo-lhes presenças, eximindo-se de responsabilidades, culpando o sistema. Alguns desses “funcionários” culpando o sistema para, no puro, no puro da irresponsabilidade, justificarem sua quietidão; outros vendo saída apenas pelo caminho de revolução: “O  problema é o capitalismo!”. E esses, em obra de doutrinação cerrada, estimulando desregramento, condutas de contestação barata, sem fazer, sem querer fazer desempenho do trabalho contratado. E tanto a postura desses como a daqueles, desaguando não apenas na perpetuação da situação, mas no aprofundamento da desgraça dos estudantes. Foi em ver mais ou menos como esse que Darcy Ribeiro propositou criar escola, estruturar plano de educação para fazer dessa gente, gente. Plantar-lhes hábitos, querer, consciência de existir, desejo de conquista por suor de mérito, perspectivas de ser ser humano. Escola assim, educação para esse assim, CIEP – Centro Integrado de Educação Pública. Um novo sistema, longe do padrão vigente. Suprimento alimentar, provimento higiênico, de saúde, assistência e acompanhamento educacional dentro e fora do período de aula, prática de novos hábitos, aprovisionamento de meios necessários para a superação das dificuldades do aprendizado dos estudantes, cultivo de dignidade, vislumbre de futuro. Essa escola, outra escola. Professores, diretores, coordenadores na regra do comprometimento enquadrado em procedimentos de responsabilidade, acompanhados; estudantes cobertos por direitos, obrigado ao cumprimento de deveres. E tudo correndo na linha do objetivo da busca de desenvolvimento de personalidade autônoma, de capacidade, visando o desenvolvimento das potencialidades das crianças e adolescentes pobres em condições idênticas a de estudantes afortunados pelo sacrifício ou pela fortuna dos pais possuidores de melhores condições, comprometidos com o futuro dos filhos.

Darcy Ribeiro buzinou CIEP no ouvido de Brizola. Brizola, Governador do Rio de Janeiro, não titubeou. Gritou: “CIEP, não, CIEPs”. E a obra levada a acontecer. 1985, o começo. Planos, reflexões, discussões, preparação, treinamentos, adequações... Prédio projetado nos traçados ditados pela atenção de Niemeyer. Ventilação, luminosidade... instalações adequadas, segurança, tudo dentro de atendimento de existir sadio, decente, digno. E, com pouco, vozes e corpos, infantis, adolescentes enchendo os Cieps de alegria. Professores inquietos, buscando nova compreensão, defrontando-se com os limites de si, procurando superação; diretores em resolução de problemas e problemas muitos. As crianças, os adolescentes contemplados, em novo estar; seus pais satisfeitos. Mas os opositores de Brizola em revolta. Opositores: a esquerda, a elite carioca, a elite do Brasil. E a eles se juntando contra o projeto Cieps, tachando-o de eleitoreiro, de elitista, os sindicatos de professores e professores do sistema convencional. Eleitoreiro porque na graça do povo e o povo o abraçando como via de solução para a saída de seus filhos da crueldade do abandono; elitista porque implicando gastos elevados, porque percorrendo caminho de busca do desenvolvimento de mérito, conduzindo os estudantes a vida de disciplina, a domínio consistente de conhecimentos, a adoção de posturas dignas, à busca de querer querer ser mais. E se os políticos de direita, de esquerda, atacando os Cieps pelos aspectos já ditos. Professores da rede convencional e suas representações, aumentando as condenações, batendo contra o processo de seleção e contra a situação de diferenciação dos membros do dos quadros funcionais dos Cieps; batendo contra os procedimentos pedagógicos neles adotados. E os argumentos dessas contestações espetados na bandeira da mediocridade paulofreiriana, mediocridade deitada na colcha da vitimização. Vitimização pintada com o fingimento de manifestação de solidariedade aos oprimidos.

Enquanto os opositores em obra de detratação, os Cieps navegando, subsistindo aos ataques, fazendo-se vigência, cativando atenção, fertilizando o nascer de um povo com sorriso dentado, falante em sotaque afinado, expressando-se sem tropeço na escrita, perseguindo a compreensão de seu mundo. Cieps, modelo em promessa para o Brasil. E assim indo. 1994, Brizola deixa o governo do Rio, não é eleito presidente da República. E veio vingança combinada com desprezo. Os Cieps entraram em espatifo. Prédios sem manutenção, quadros profissionais estraçalhados, estudantes re-entregues ao mundo do descuido. E, dos Cieps, o que perseverou, perseverou como sombra estuprada. O que seria centro integrado de educação foi tomado como escola com frequência em tempo integral. Educação tendo como medida o tempo dos estudantes jogados dentro de um prédio. Tempo preenchido com qualquer qualquer. Logo, logo nem o tempo integral. E o retorno exclusivo a discusseiras, a falatórios vazios. Falatório: educação de qualidade; desenvolvimento da consciência critica; pedagogia do oprimido; educação de acordo com a realidade; educação como base da nação, educação inclusiva. E os Cieps foram plenamente condenados ao esquecimento, ao apagamento de seu existir. O retorno à exclusividade da culpabilização do sistema como justificativa para nada fazer ou para fazer qualquer fazer sem prumo de responsabilidade.

O país no bagaço educacional. E a solução da bagaceira procurada através de tapeação. Tapeação “democrática”. E por essa tapeação, a imposição de regras que forçam as escolas a se adaptarem às exigências de realidades, de situações degradadas, de mediocridades; tapeação pela adoção de procedimentos para reduzir exigências e impor a promoção dos estudantes a todo custo; tapeação pela feitura de leis, de medidas industriosas para garantir o acesso, a permanência de discentes dentro da escola e obrigar os professores a se curvarem não só aos estudantes como também aos pais, aos caprichos das instâncias pedagógicas e administrativas. Para o êxito desse empreender, recompensa aos “professores” indiferentes, cúmplices, desmazelados, com guarnição de autoestima no bolso, fertilizados no sossego de vida miúda. Recompensa aos “professores” progressistas por se limitarem ao discurso doutrinador, abstrato, distante; por não causarem incômodo para a administração; por fazerem uso conveniente dos procedimentos pedagógicos recomendados, das normas educacionais e do desleixo administrativo; por promoverem os estudantes sem observância de desempenho intelectual; por se mancomunarem com a direção e com os “professores” indiferentes em pacto de cumplicidade tácita visando convivência tolerante. A estes, “professores” tolerantes, “professores” progressistas, a recompensa: tolerância aberta a todo o proceder e até ao nenhum proceder, cargos, ausência de cobrança. Aos professores professores, punição. Punição por exigirem e cobrarem, de seus alunos, responsabilidade, disciplina, desempenho das atividades, por exigirem o empreendimento de esforço para a superação das dificuldades; punição por se indisporem com os descalabros de diretores, do corpo pedagógico, por se conflitarem com os “colegas” progressistas, com os “colegas” indiferentes. E como medidas de punição, representação e exposição desses professores como seres intolerantes, incompreensíveis, cruéis, rígidos, frustrados; prontidão de reprimenda por motivo qualquer; distribuição de carga horária, horários e turmas na medida de vingança; criação de situações fomentadoras de indisposição de “colegas” visando o seu isolamento; indiferença e atribuição de razão a alunos indisciplinados em atos praticados contra eles. E tudo isso sob a batuta de diretores irresponsáveis, coordenadores à-toa, da polícia antieducação disfarçada com o nome de corpo técnico pedagógico.

No descambo do acontecer educacional, o surgimento de mais um fruto genuíno do Brasil: o estudante que não precisa estudar, só precisa do corpo. E o corpo submetido a deslocamento empurrado na direção da escola, embalado pela expectativa de vida liberta, farejando prazer miúdo. No caminho das escolas, nas escolas, a massa caótica de crianças, de adolescentes em postura de relaxo, de vagabundagem, reproduzindo traços malandros, soltando gírias, esbanjando indisciplina, desrespeito, elevando a autoestima pelo vínculo com gangs, absorvendo valores de subcultura bandida. E quem fora desse ritmo, quieto-calado, acocorado, no canto!, para não apanhar, para não tomar vaia. Professores desses alunos, dessas escolas? Professores professores como já dito: escarnecidos, odiados. Os “professores” progressistas, os “professores” indiferentes, planejando viagem, calculando a aquisição do próximo veículo, cuidando para pagar as parcelas de suas moradias, esforçando-se para colocar seus filhos em escola bem diferente das que “lecionam”, participando de seminários, de reuniões, de congressos, apresentando atestado médico para abonar faltas e quando de corpo presente nas salas, discursos ideológicos, vômito de qualquer qualquer de algum assunto, mandando os alunos fazerem trabalho de grupo, discutir temas pelo puro achar do próprio achar sem apoio em textos, com apoio textos de uso em cursos de graduação, de mestrado ou pegos em jornais. E isso sem direção de plano, com o  mero objetivo de encher tempo. Observância de conteúdos programáticos? Hum!!! Hum, hum. E assim como os alunos não precisam estudar e observar normas, esses tipos de professor também não, nem cumprem regras. Contudo possuem o atributo mágico de ensinar sem nada ensinar a quem nada aprende e a quem nada quer aprender, e conseguem obtenção de sucesso pleno através da aprovação geral das crianças, dos adolescentes que têm a infelicidade de ser colocados nas classes regidas por eles. Estou sendo leve, nem falei do jeito como alguns professores se trajam para se apresentarem nas escolas: bermuda, chinela, camisa regata, boné, decotes sexualizados, vagina estufando em briga com a calça, calcinha acenando, calça se afundando na bunda de professoras, professores com calça em jeito de pijama, calça descendo, cueca olhando o mundo querendo cair, o rego!... Celular durante a “aula”? Atendem, param a “aula” e atendem. É rosário para reza longa!...

No seguir do debulhamento do rosário de desgraças, a política de redução de exigências para promoção e permanência de estudantes nas escolas, de promoção empurrada, de tolerância sistemática de indisciplina dos alunos. E aí, os alunos sem cuidado em proceder de estudo, sem capacidade de concentração, sem conhecimento para acompanhar os programas das séries em que foram colocados e achando que o assim é assim porque é assim mesmo que deve ser. A maioria dos professores, por seus atos, por suas posturas, alimentando esse pensar, facilitando, arremessando os alunos para frente, fazendo o jogo dos pedagogos, dos diretores, dos coordenadores, do governo. A ação educacional consistente inviabilizada pela falta de pré-requisito dos estudantes, por falta de capacidade intelectual e moral de muitos professores, pelas barreiras postas pelas normas, pelo corpo administrativo e técnico. Empastelamento.

Os estudantes de escola pública avistados pendurados nas pontas do rabicho educacional, arrastando os pés no chão, ficando pelo caminho. Ficando pelo caminho por motivo de evasão, de reprovação. Evasão por não suportarem a agressividade, a relaxidão do ambiente; por não verem sentido no nada fazer oferecido pela escola; por serem atraídos pelo mundo de vadiagem plena. Reprovação pelo fato de não comparecerem às “provas” por motivo à-toa, por não entregarem os “trabalhos” solicitados. Qualquer riscado em papel valeria, mas até disposição para isso, rara. Mesmo assim, às vezes, aprovados, como o acontecer aprovados também alunos há muito transferidos, desistentes, mortos.  No seguir do sucesso empurrado à força de tapeação, os estudantes de escola pública fracassando em provas de seleção para o mercado de trabalho, para concurso, para acesso a cursos de segundo grau, para acesso a cursos universitários. E diante dessa topada, os antigos opositores dos Cieps, “professores” progressistas, “professores” indiferentes, indignados, repudiando o acontecer, reclamando da situação, classificando-a como prática discriminatória, como prática de exclusão resultante de critérios “selvagens” baseados na meritocracia, no elitismo da sociedade promotora de injustiças, de desigualdades sociais. E contra a meritocracia, contra o elitismo, contra as desigualdades, medidas de inclusão social. Medida de inclusão social: cotas; redução de exigência de conhecimento, e até eliminação de qualquer modo de avaliação, para acesso a cursos; expansão da rede educacional sem observância de critério de qualidade; alargamento da oferta de cursos; distribuição de bolsas de estudo; acesso a financiamento para custeio de cursos universitários. Cota para estudantes de escola pública, cota para pobre, cota para negro (e aqui a alquimia de acabarem os mestiços do Brasil, transformando os pardos em negros). Cursos presenciais, semipresenciais, à distância... Faculdades plantadas nas esquinas de cidades grandes, em cidades pequenas. Empresários do setor de educação com os dentes arreganhados, sentindo os bolsos pesando, olhando os estudantes com o mesmo olhar de comerciante verificando mercadoria estocada. Professores, diretores de universidades públicas, de faculdades privadas, falando em pesquisa, em qualidade de ensino, em produção acadêmica... Mas a produção acadêmica, produção de quem faz de conta que faz se apoiando em dizeres vazios com experimento, com pesquisas 90% saliva ensebada; e o “ensino de qualidade” baseado na redução ampliada de exigências com os alunos. E os alunos sem nível para fazer curso de segundo grau de qualidade média, mas pedantes!, u n i v e r s i t á r i o s  sapientes em sabedoria de refrão. Professor criterioso? Ou cai fora ou reprova quase todo mundo. Os alunos cotistas com alegria explodindo pelos cantos da boca, prenhes de orgulho por não precisarem cultivar competência, repudiando caminho de mérito; os alunos dos cursos de instituições privadas, e até de instituições públicas plantados nas esquinas de cidades grandes, de cidades médias, nas cidadezinhas, arrotando analfabetismo aureolado com rótulo universitário. As estatísticas mostrando sucesso. É melhora piorada. É o não sair do lugar, tendo-se impressão de estar caminhando. “Inclusão abstrata, exclusão concreta”. E quando a OAB divulga o resultado da prova de proficiência, bagaceira. E quando é publicado o resultado de concurso público, frustração. “Inclusão!”, inclusão! “A OAB exige demais! Repúdio à exigência da Ordem.” “Cota para negros no serviço público!” Empresas privadas também fazendo recrutamento, impondo critérios. E em resposta aos critérios adotados por elas, acusações de racismo, de discriminação, de não observarem a realidade.

A situação da educação ladeira a baixo... e descambando. Apreciação de incompetência como ato revolucionário, popular, democrático. Solução dos problemas por meio de falsificação, de negação dos fatos, de alteração de nomenclaturas, de criação ou refutação de realidades através da construção de narrativas (narrativa, discurso arbitrário para invenção, para alteração, para desprezo, para anulação de ocorrências, de fenômenos naturais, sociais, históricos). Assim, tudo simples. Para se compreender e explicar uma sociedade basta decorar alguns jargões: “sistema”, “desigualdades sociais”, “racismo”, “capitalismo”, “injustiça”, “exclusão”, “exploração” “formas de opressão”... e botar uns verbos entre as palavras. E, no seguir da mesma linha, para a solução dos problemas, o toque da magia inclusão social e o uso de engenhos astuciosos que elevam os indivíduos, alocando-os nos postos desejados, definindo-lhes papéis, “assegurando-lhes” direitos. Tudo isso sem nenhuma contrapartida com cor de dever, de conquista, de mérito, de autossuperação. Nesse pensar, nada que gere reprovação, tolerado. Reprovar, enquadrar, disciplinar, atos de exclusão. E os comandos: “pagamento de dívida histórica”, “reparação das desigualdades sociais”.  E “os excluídos” postos em postura de incapazes, inválidos, passivos, esmolés, esperando migalhas com sorriso de esperança, acomodando-se, deitando na mediocridade do que lhes for dado. Deixando-se dominar mais e mais, e mais e mais se degradando enquanto guardam o sentimento de que estão superando a sua condição. E a dificuldade para que vejam que esse sentimento é ilusório, inimigo. Dificuldade fortalecida pelo aparente sucesso certificado pela progressão escolar facilitada, pela ocupação de vagas em escolas, em faculdades e em repartições públicas através de cotas; pelo acesso a faculdades particulares, quase sempre fajutas, por meio da combinação cota, bolsa de estudo, financiamento. E os negros sem perceberem que as cotas, ao invés de lhes elevar, confirmam, fortificam o preconceito de sua inferioridade racial. E negros e pobres sem perceberem que as cotas os carimbam com a marca de incapazes, camuflam problemas, perpetuam o descaso educacional. O povo, o nosso povo, tratado como besta. E isso é uma verdadeira caçoada. É uma caçoada cruel. Caçoada cruel vinda dos atos, das palavras, do pensar dos mesmos que condenaram os Cieps.

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Mão no queixo, cabeça triste. 2002. Na UnB alma compadecente se deu que lá quase não havia negros nem como estudantes, nem como professores. “Negro excluído.” Foi aí que veio a ideia: arranjar meio dos negros entrarem na universidade. E o meio engenhoso, cota. E cota foi feita. A discussão se assanhou Brasil adentro. E no bafo dela, a constatação de raros estudantes universitários provenientes de escola pública. “Estudantes de escola pública também excluídos”. Motivo: o caráter ruim-horroso-péssimo-medíocre da educação pública nos níveis fundamental e médio. Mas na escola pública, negros, pobres e pobres mais pobres. Então também cotas entre os pobres. Aí, cotas raciais, cotas sociais para os estudantes de escolas públicas. Ano 2012, Lei de Cotas para correção da dificuldade de acesso de negros, de alunos da rede pública à universidade no Brasil todo. Estudantes negros, estudantes da rede pública em ascensão pelo subir de empurrão, por carona em elevador. Mas o pai, a mãe do problema, lembrem-se, deitado na educação não elitista, na estrutura e funcionamento das escolas “democráticas”. E aqui vem: de 2002 até 2012, qual foi a pá mexida para corrigir o problema da educação pública? E o que foi feito de 2012 até 2017? Silêncio silencioso. Onde andam os inimigos dos Cieps? Inimigos dos Cieps: políticos de esquerda, a elite, professores progressistas, professores indiferentes, sindicatos de professores. Andam defendendo inclusão. E enquanto defendem a inclusão, as escolas públicas pioram, os índices educacionais do Brasil caem, a universidade afunda, os serviços públicos se degradam. E olhe que tivemos treze anos de “governo popular”. E durante o governo popular rachadura, fofo, aceleração da deterioração material, moral, organizacional.

17-10-17

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