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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 2/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 3/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 4/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 5/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 6/6
A FEMINISTA

Esmeraldo Lopes

Sala de professores. Por pouco não tomei um soco quando disse que não cortava cabelo em salão unissex. Uma colega levantou-se dizendo que eu era preconceituoso, machista, inseguro, homofóbico... e que ela tinha muito orgulho por ter um irmão homossexual. Ao fazer tal pronunciamento em jeito e feição de delicadeza de fera, entrou no banheiro arranhando a garganta. O barulho alto de seu escarrar percorreu toda a sala. A mínima parte dele vazou pelo espaço da porta entreaberta, mas o restante se incrustou no mobiliário, nas paredes, nos corpos de alguns colegas. Adveio silêncio. No entra e sai de professores... ou “trabalhadores em educação”, o ambiente se renovando, mas os chegantes sendo infectados pelas partículas odientas desprendendo-se das paredes, do mobiliário, infectados pelas partículas ainda em flutuação no ar. A sala carregada, coberta por sonoridade sombreada, enlutada, sinalizando cautela. E as palavras presas, em segredo, recusando comunhão, escondendo-se na paz das pessoas de paz. Inesperado, uma colega adentra na sala ignorando o estar - às vezes a ignorância se traveste em divindade para salvar a pátria – e começa a falar sobre o sofrimento de uma amiga sua que acabou de descobrir traição do marido. E no toque desse som, a colega, aquela que escarrou e que me descarregou no esgoto, sem se voltar para ninguém, resolveu proclamar a receita para o sucesso conjugal de mulher: - “Homem não presta. São todos assim. Por isso, o trabalho de meu marido é fazer o que mando. Ele vem me trazer, vem me buscar e a gasolina eu controlo. Sei tudo o que ele faz e onde anda. Toda vez que o telefone toca ele tem que atender. Nunca deixo ele saber meus horários. A casa, o apartamento, a poupança..., tudo é em nome de minhas filhas. Sei lá se ele não vai resolver virar sacana!” E a sala foi ficando deserta, silenciosamente deserta.

09-01-18

BACANAS SEM SEMANCOL

Dito Breve

Hoje, por algum não-sei-quê, pus-me a percorrer páginas da web curiando festejos populares de caráter religiosos. E o comum de todos eles: os participantes em brio de decência. Nada fora do lugar: os trajes, os passos, a postura em medida de respeito à divindade, em atenção ao momento. Os assistentes também debruçando os olhos comiserados, postando-se respeitosos, vestidos na melhor roupa, calçando o melhor sapato, com o corpo asseado. E, no meio disso tudo, em grave destoar, agredindo a visão, enfeando o festejo, contrariando prescrições morais, a imagem de um cinegrafista vestido em bermuda e a bermuda caindo, botando o rego da bunda em posição de “tão me vendo?!” Na cabeça um boné com aba atravessada para um dos lados, calçado em sapato desmazelado, caminhando em jeito de esculhambação. A jornalista, de modo igual: camisa regata, decote expondo peitos, vestida com calça pega marreca grudada ao corpo querendo afundar-se bunda adentro, mostrando as linhas da vagina, propagandeando seu relevo. O povo vendo com espanto, calado, esperando a atitude de alguém, de qualquer alguém que diga a essa gente que é preciso respeitar.

INIMIGOS SUTIS DO BRASIL

Esmeraldo Lopes

Os inimigos sutis do Brasil falam português, possuem os mesmos documentos que nós, nasceram aqui, mas não são brasileiros. São simplesmente nascidos no Brasil. Repudiam a noção de pátria, consideram criminosa, anti-humana, qualquer ação em defesa da nação, todo apego à cultura e aos valores nacionais. E quando questionamos suas posições, quando confrontamos atos que praticam, utilizam-se dos direitos conferidos pela cidadania brasileira, para tentar nos calar. Pongam no púlpito das igrejas, disfarçados como líderes religiosos; abancam-se nos jornais, em emissoras de rádios, de televisão como jornalistas; camuflam-se nas salas de aula, nos hospitais, como professores, como médicos. Em unníssono de atos e palavras, avançam sobre adultos, sobre crianças, sobre adolescentes para colonizá-los. Aproveitando-se do descuido, da ingenuidade, da boa fé, da ignorância do povo, ludibriam-o sorrindo-lhe com promessas salvacionistas, ofertando-lhe adjutórios miúdos, empreendimentos de obra qualquer, esmola embrulhada com a capa de justiça social, de política pública. E se fazem cabos-eleitorais, militantes, vereadores, prefeitos, deputados, governadores, presidentes. Depois criam leis que nos cerceiam, e as nos impõem tornando-nos criminosos por nosso pensar, por nosso agir, por nosso querer e, principalmente, por nosso não querer. Intentam esvaziar-nos, retirar-nos de nós. Definem o que é certo, o que é errado, o que somos e como devemos ser. E despejam sobre nossos filhos, sobre nós mesmos, o seu pensar, o seu acreditar, o seu querer. Creem-se iluminados, portadores e mensageiros de verdades absolutas, guias da humanidade. Humanidade... seu deus, acima de qualquer deus que porventura diga ter.

Os inimigos sutis do Brasil defendem a abertura de nosso país a todos os povos, sem barreira ou limite qualquer; trabalham para tornar lei, a ideia de que qualquer estrangeiro que chegue ao nosso país tenha o mesmo direito que nós e seja tratado como brasileiro; querem tornar crime a simples manifestação de descontentamento contra essas proposições ou contra a aceitação do imiscuir-se de estrangeiro nos assuntos de nosso país; defendem como sendo nosso dever agachar-nos diante do islamismo, religião da intolerância, que combate todas as outras religiões e impõe conversão obrigatória todos  e liquida as bases de nossos gostos, de nossos  modos, de nossa cultura, de nossas tradições, de nossas vidas.

Os inimigos sutis do Brasil dizem que os pais não têm direito aos filhos, pois estes pertencem ao Estado. Para eles, a formação moral, cultural, educacional, os costumes... são atribuições do Estado e que os pais têm apenas que aceitar e cumprir aquilo que é definido, pois são moralmente baixos, subnutridos culturais, desqualificados, doutrinadores, estúpidos.

Os inimigos do Brasil não aceitam que sejamos um povo miscigenado, com população mestiça. Declaram-no multiétnico. E assim, no lugar da ideia de povo brasileiro, afrodescendente, euro descendente, índio e escambau. E declaram que não existe mestiço Abominam o termo pardo e condenam quem se identifica desse modo. Mugem que todo pardo é negro. Condenam os brancos, culpando-os por todas os inglórios do país. E plantam ressentimento, ódio e racismo desabrido e odiento em todas as esferas sociais.

Os inimigos sutis do Brasil, na sua obra de destruição do país, apegam-se ao conceito de minoria. E com ele plantam a engenharia da desgraça, dividindo nosso povo por traços raciais, por situação etária, sexual, de origem, religiosa... E criam um rosário sem fim de grupos que se subdividem, e não se entendem e se chocam e se repelem. E tudo isso fabricado em um laboratório vilipendioso formatador de imbecis, de débeis mentais chamado “coletivo”.

Os inimigos sutis do Brasil criam legislação que coloca maridos contra esposas, esposas contra maridos; filhos contra pais, pais contra filhos. E todos se desconfiando, temendo-se.

Os inimigos sutis do Brasil agravaram a situação educacional do país através de legislação, de métodos pedagógicos, de conteúdos e de procedimentos que toleram e estimulam a lassidão, a irresponsabilidade, a indisciplina, premiam a preguiça e dignifica a incompetência de diretores, de coordenadores, de professores, de estudantes.

Os inimigos sutis do Brasil condenam o aprisionamento de criminosos, consideram-nos vítimas da sociedade e reconhecem como legítimas as ações bandidas praticadas por eles.

Os inimigos sutis do Brasil estabelecem leis rígidas contra os cidadãos, criminalizam suas opiniões, pensamentos, sentimentos, modos e lhes cerceam o direito de defesa, desarmando-os e os deixando desprotegidos.

Os inimigos sutis do Brasil consideram retrógrada a defesa da soberania nacional e apregoam como sendo padrão de decência, de civilidade, a submissão total, completa, absoluta, do povo brasileiro, de nosso Estado, aos ditames da ONU, da OEA, e de seus organismos.

Os inimigos sutis do Brasil intentam internacionalizar o nosso território e abrem as portas de nosso país a organizações não governamentais estrangeiras e criam organizações não governamentais, aqui dentro, para defender bandeiras que nos levam à internacionalização. E inscritos nessas bandeiras dizeres defendendo direitos humanos, combate ao ódio, à intolerância, à xenofobia, à homofobia, defesa intransigente da diversidade, da pluralidade. E tudo que não estiver no correr de seus dizeres, e todos que defendendo ideias, ações, tendo posições, em discordância com suas vontades, crime, incitação ao ódio, intolerância, racista, golpista, homofóbico, xenófobo, ser abjeto que deve ser enviado aos porões e cassado da condição de ser humano.

Os inimigos sutis do Brasil querem, exigem, reclamam, a sua, a nossa, submissão. Querem-nos rebanho, mortos, sem ser dentro de corpo sem alma, sem pátria, indistintos, passivos.

Por nossa nação, por nossas crianças, por nós, identifiquemos e confrontemos os inimigos sutis do Brasil, sem obediência a fronteira de lugar, de horário.

28-12-18

DESARMAMENTISMO

Desarmamentismo, além de bandeira irresponsável e de irresponsáveis, é bandeira de idiota sem par. Arma é indispensável na obra da edificação e manutenção da liberdade, para o exercício da igualdade entre os homens, para a garantia da defesa e afirmação do indivíduo e para a conquista da soberania dos povos.

SOBRE HOMOFOBIA

É bom lembrar que o combate à homofobia não autoriza a gayzada a assediar homens. Que eles procurem gente da própria nação, antes de fazem as investidas e observem a natureza dos ambintes sociais. Do contrário, a reação indignada é legítima. E outra: ninguém ó obrigado a gostar de ningém. Pensamento contrário só pode existir na idiotia de poliltcamente corretos, habitantes de espaços etérios

O SONHO

                                                                                                                                                                                                                        Esmeraldo Lopes

Adriano embalança um copo com uma dose de cachaça dentro, bebe um gole. O cheiro dela desperta nele a lembrança de um sonho que fica voltando sem lhe dar trégua. A bem dizer, o sonho só foi sonhado uma vez, contudo seu contínuo reacontecer transportado pela recordação, como se fosse o sonho mesmo!... sonhado agora! E ele, o sonho, insiste, e persiste, e lhe cutuca nos momentos de alegria, de tristeza... e fica fustigando-o, espetando-o... Nesse sonhar, imagens, personagens, situação, sensações, sentimento... tudo muito vivo! Tão vivo que toda vez que Adriano desperta do sonho recordado, vê-se pasmado, estatelado, olhando vazio. E se apavora ao desconfiar que o sonho não seja um sonho. Recapitula-o, e tudo lhe vem muito... muito real, ainda quente, e se enxerga observando Castanho caminhando trôpego, sozinho, indiferente a seus chamados, magoado..., tristemente magoado, desprezando-o. E ouve o toc toc toc, com ritmo quebrado de passadas mancas exalando dor.

Na tentativa de se livrar da lembrança do sonho que o atormenta, Adriano já encomendou trabalho a feiticeiros, já carregou cruz em romaria, já recebeu benção em igreja evangélica, já se socorreu procurando adjutório de psiquiatra, já... Nunca encontrou jeito de colocá-la na prisão de algum canto, de enviá-la para agasalho no degredo do esquecimento.

Castanho fora um cavalo da pertença de Adriano. Um cavalo, não! Fora o cavalo, não só por ter sido o único de sua vida, mas principalmente por terem se feitos parceiros nas pegas de boi, nas andanças no campo, nas festas de vaqueiros, nas peregrinações a bares na cidade, e em povoados, nos dias de feira. Onde um, o outro e ambos se fazendo o mesmo. Enquanto Adriano escorrendo a mão na crina, alisando o lombo de Castanho, despejando sua voz anunciando a capacidade, a grandeza os feitos de seu cavalo, Castanho seguindo-o, parando quando de sua parada, esfregando sua testa, seu focinho, nas costas, na cabeça, de seu parceiro, mantendo-se na porta onde ele entrara, esperando, sem necessidade de amarradio de cabresto. E quando Adriano afogado em cacha, o pipocar de elogios: “Castanho é cavalo bom! É meu amigo! Abaixo de Deus, de meus pais, ele! Nem mulher bonita, ‘porque mulher bonita não é tão difícil, sempre se acha. Mas achar cavalo bom... Aí preciso ter muita sorte!”.

A história dos dois vindo de muito tempo. O pai decidira que o potrinho castanho seria para pertença e montaria de Adriano. Daí por diante, o potro cresceu sob seus olhos, debaixo de seus cuidados. Quando o tempo certo de doma bateu, Adriano deu início à preparação. E no vem cá e vai lá, aceita e recusa, a vitória da disciplina imposta. O potro resistiu com brabeza, mas em um momento se viu forçado a obedecer a cabresto, depois a aceitar montaria. E foram se compreendendo, firmando amizade... Quando pensa que não, estavam se adivinhando.

Se Adriano compreendia Castanho, Castanho mais ainda o compreendia. E se confiavam, e se zelavam. Adriano sem se permitir descuidar da ração, do conforto da sela, do banho de Castanho. Castanho guiando Adriano, sem erro, pelos caminhos de noites claras, de noites escuras, mato adentro, mato afora; abaixando-se, desviando-se dos paus, dos espinhos, evitando saltos perigosos nas barrocas, para livrar Adriano de estrepadas, descangotadas, aleijões. E quando, nas corridas com gado, depois de dar o bote, Adriano se desgrudando da sela, lançando-se sobre a rês, cuidando para mantê-la no chão. Aí, Castanho se aproximando dele, de ré, facilitando seus quartos para que ele alcançasse a corda amarrada na garupa da sela, e amarrasse o animal caído. E, durante todo o prosseguir da ação de Adriano, Castanho ali, parado, aguardando o fim da movimentação, com atenção atenta.

No girado do tempo, Adriano entrou na influência de vida na capital. Esse... caminho apontado para os jovens do lugar. E ele se botou nas providências de fazer apurado para arranjar recursos para a viagem. Vendeu tudo: ovelha, cabra, as duas vacas e as três garrotas que tinha. Castanho não entrara no contado. Mas veio um e veio outro...: “E o cavalo? Quer quanto nele?”. O dinheiro apurado no menos. A esperança de vida nas novidades da capital se clareando nas iluminações da mente de Adriano. Na onda da elevação das ofertas no cavalo, ele fechou negócio no grito do melhor preço. E o comprador já saiu do bar onde o negócio foi feito acompanhado pelo irmão pequeno de Adriano, para ir buscar Castanho na fazenda. Castanho foi levado encabrestado, puxado por um estranho. Aqui, ali, ele volteando o pescoço para trás, estranhando o assunto do acontecer. Quem estava na casa dos pais de Adriano ainda ouviu um relinchar forte de Castanho, ao  sumir na curva da estrada, como se estivesse chamando, pedindo ajuda.

Quando Adriano voltou para a fazenda, Castanho entrou a figurar no quadro de lembranças. O lugar onde ele deveria estar, vazio... e o silêncio de seus assopros. “Meu cavalinho...” Esse, o lamento. Acabou. Seus pais, irmãos, dizendo que ele não poderia ter feito o que fez, que desfizesse o negócio. Mas Adriano retrucando: “Homem não desmancha a palavra.” E a viagem, e as luzes da capital, o novo viver... E anos corridos e correndo. Castanho virou história, depois estória, depois um contadinho longínquo, sem atenção de audiência. O mundo do tempo de Castanho desamparado de apoio para lembrança, para significação, desaparecido.

A esposa de Adriano em polvorosa diante da tormenta manifestada pelo marido, dizendo: “Isso não aconteceu! Isso não aconteceu! Eu não mandei. Não foi...Não existiu!” E ao acender a luz, ela se deparou com o e esposo em pé, pálido, tremendo, olhando na direção da parede como se estivesse vendo, acompanhando algum acontecimento. E novo falar: “Você não pode tentar de novo, não faça outra vez! Eu não recebi o dinheiro!” A esposa queria saber, mas a resposta dele, balbuciar de palavras desencontradas, soltas, tremelico das mãos, beiços sem sangue. Ela, então, ministrou-lhe dose forte de calmante. Ele quedou na cama, com expressão de angústia dolorida.

Quando Adriano acordou, as cenas do sonho voltaram com a mesma força. Ele parado, concentrado, assustado, proclamando para si: “Foi só um sonho!” A esposa no pergunta e insiste, ele tergiversando: “Tive um pesadelo, coisa confusa, sem significância. Só isso, mesmo.” Mas ela percebeu traços de incômodo inscritos em sua face. Daí por diante, no inesperado de qualquer horário, de qualquer lugar, as cenas do sonho arrastadas pela lembrança chegando cristalinas, vibrantes, em acontecimento. E embora nunca mais o sonho lhe tenha vindo enquanto dormia, sucedeu-lhe pior: além das recorrentes visitas dele, pela lembrança, frequente, algo o acordando no mais profundo de seu sono, quase todas as noites. E nesse acordar, o barulho e as cenas do sonho desfilando em sua mente, zoando em seus ouvidos, chegando pela recordação, na quietude da solidão e do silêncio noturno. E aí, a vivacidade do passo a passo das cenas do sonhar:

Adriano montado em Castanho no caminho de um açougue. Caminho conhecido, corriqueiro. Parou diante dele, apeou. O açougueiro, sai. Examina Castanho. Avalia seu peso, sua qualidade, canta o preço. Adriano se surpreende. A oferta superior ao que imaginara, aceita. Retira a sela. O açougueiro amarra as pernas de Castanho, derruba-o, com a ajuda de Adriano. E entra no açougue. Sai em seguida com uma faca grande na mão. A lâmina da faca solta reflexos que vão bater dentro do olho de Castanho. Castanho dobra o pescoço mirando o fundo dos olhos de Adriano, com estranheza. Observa o açougueiro se aproximar... se aproximar... dele, segurando a faca nua, limpando-a no pano de um saco. Um camarada do açougueiro chega para ajuda. Empurra o pescoço de Castanho sobre seu corpo, com grosseria, e o segura firme nessa posição. Todas as partes do corpo de castanho tremem, tremem muito! Adriano assiste... calado, imóvel. O açougueiro soca a faca com força, em movimento rápido, à procura do coração de Castanho. Repete o movimento, e o de novo de outra vez, e mais uma. O sangue esguicha forte, lançando-se longe, depois vai minguando e forma uma poça. Castanho se estrebucha, se bate, sacode o rabo, solta sons abafados..., esmorece..., aquieta-se. Seu pescoço derreia na terra..., amolecido. O açougueiro entra, chama Adriano para lhe fazer o pagamento. Quando retira o dinheiro do caixa, admiração:

- Ele levantou, vai saindo! Corre!, pega!

Adriano se volta e vê Castanho se encaminhando na direção de lugar que ele nunca foi, com andar trôpego, dolorido, mas cadenciado; e vai com os olhos decepcionados, magoados, sem brilho, mas bem abertos. O açougueiro corre com a faca para lhe atacar, entretanto, trava, fica parado sem poder ir, nem vir. Adriano também se lança no seguir do andar de Castanho, quer ajudá-lo. Não quer mais vendê-lo, não quer mais que ele seja morto. Castanho, indiferente, em marcha, não sangra mais. E caminha, caminha... Adriano para, descabreado, desencontrado de si. Estático, com olhar imóvel em direção fixa, pôs-se a acompanhar o ir de Castanho. E ele indo, ficando pequeno, desaparecendo na distância. Adriano, com o corpo preso, sem força para sair do lugar. O coração acelerado, a alma sofrente.  E aí, ouve  o “toc, toc, toc...” descompassado de caminhar manco, dolorido, o “fru, fru, fru” de assoprar de cavalo pelas ventas. Com esforço, Adriano consegue voltar o olhar para o lado do açougue, e vê Castanho fazendo o mesmo caminho que já fizera, partindo do lugar onde fora sangrado. E vem, vem coxeando, mancando na mesma cadência do andar de há pouco. O buraco das facadas aparece, mas não há sangue, só o furo seco. Castanho se aproxima em sua marcha, indiferente, sereno. Seu olhar é opaco, morto de esperança. E Adriano sente seu cheiro. Quer se aproximar dele, acena, fala, mas Castanho não olha para ele, não o vê, e passa, “toc, toc, toc...”, sobranceiro.

A cena final do sonho desfilando indefinidamente no olhar, nos ouvidos, de Adriano, imobilizando-o. Castanho sumindo, Castanho recomeçando seu andar a partir do mesmo lugar, no mesmo rumo, na mesma cadência, exprimindo o mesmo sentir, manifestando a mesma indiferença... tudo igual. E Adriano tendo que se arrancar da situação, para não ficar eternamente no mesmo ver, no mesmo ouvir, no mesmo sentir.

 

16-12-18

APOIO AO MOVIMENTO ESCOLA SEM PARTIDO

Esmeraldo Lopes

Documento originalmente escrito em apoio à iniciativa do Vereador Osinaldo, de Petrolina PE

Fui professor do ensino médio e do ensino superior, por 30 anos, inclusive com larga atuação em Petrolina – 1982 a 2009. E, por isso, posso falar. Nos últimos tempos as escolas foram transformadas em campos de doutrinação ideológica de incautos. Na concretização dessa doutrinação, professores, na verdade, impostores, pseudoprofessores, utilizam seus cargos e ocupam os horários destinados às aulas para impor aos estudantes visão e aceitação de pensamento e práticas de esquerda; pontos de vista de minorias e refutação de tudo o que julgam politicamente correto, adequado, justo, verdadeiro. Transformam-se assim em messias de verdades inabaláveis, defensores do universo, soldados do pensamento único, não obstante tragam molhados com suas salivas as expressões: liberdade de expressão, liberdade democrática, pluralidade de ideias. Os estudantes que reagem recusando e questionam a prática e os dizeres desses pseudoprofessores, desses impostores, são, ora sub-repticiamente ora abruptamente, discriminados, ridicularizados, menorizados, escanteados, até reprovados e não encontram nem respeito e nem espaço para o seu existir autônomo. E para se verem livres desses ataques, esses estudantes calam, fingem concordância verbal ou por escrito, em discussões, provas e trabalhos individuais e em grupo. E assim reproduzem piado por piado o piado do impostor, do pseudoprofessor, - que no meu ponto de vista não passa de um tipo de estuprador de mentes, tipo de ser abjeto, mais canalha entre os canalhas. E todo o proceder desses estupradores de mentes, desses pseudoprofessores se desenrola às claras, à vista de diretores, ao alcance dos ouvidos e dos olhos de coordenadores e dos membros daquilo que deveria ser corpo pedagógico – todos cúmplices, omissos, também pseudos, incorrentes na mesma modalidade de estupro, de crime. Os pseudoprofessores, não obedecem aos programas, impõem conteúdos e material pedagógico completamente inapropriados - por serem doutrinários - e nem de longe atentam para a adoção de práticas disciplinares, para o desenvolvimento intelectual e  cultivo da autonomia dos estudantes. E tudo isso em nome de uma rotulada ‘consciência crítica”, que no entender deles alcança plenitude quando os estudantes aprendem a piar o piado que eles, os pseudopressores, piam. E mais grave: agora deram para combater os valores que fundam a família, o cristianismo, a sociedade judaico-cristã, enfim, a sociedade ocidental. E para completar, querem impor a ideologia de gênero nas escolas e obrigar a todos os estudantes a concordarem com práticas homossexuais, bissexuais..., aceita-las e também as vivenciarem.

30/06-18

Monólogo de Finados

                                                                                                                 Esmeraldo Lopes

- O feriado de hoje não é como os outros. Fica tudo assim... diferente, meio quieto. Parece que tem uma tristeza no mundo. As pessoas entram aqui no carro e ficam caladas, olhando... pensando não sei no quê. Acho que em seus mortos. Eu vejo o destino da viagem no aplicativo e sigo. Às vezes dou palavra, mas por resposta, hoje, quase sempre tenho tido silêncio. O destino de muitas pessoas que me chamaram foi algum cemitério ou o retorno de um.  Todo mundo tem mortos. Eu também fui ao cemitério para visita, hoje, com minha mãe, com minha irmã. Mas lá só tinha a sepultura. A gente ficou parada diante dela, olhando, entristecendo em silêncio. Por que a gente vai se lá não tem ninguém? Meu pai, minha avó... os outros parentes... Eles não estão mais lá. Deles, só os ossos. A gente não devia ficar triste. Para que se entristecer, lembrar do que é ruim? A morte não é ruim? Não deveria existir esse negócio de Dia de Finados. A gente tem que se lembrar das coisas boas, alegres...

O carro foi correndo no vácuo do silêncio. A voz do motorista, no passar de tempo curto, voltou:

- Eu nunca tinha pensado nisso, mas se a gente fica triste é porque se lembra das coisas boas, das alegrias que nossos mortos nos deram, da falta que eles nos fazem. Foi isso que eu senti quando estava ao redor da sepultura... e depois fiquei lembrando e pedaços de lembranças vindo, vindo... Talvez se eu não fosse fazer a visita, se não existisse sepultura, eu não tivesse assim... É uma coisa ruim, mas também é uma coisa boa a gente ter recordação de nossos mortos. O pensamento... Fica um filme passando direto, retratos aparecendo, vozes acordando dentro de nós. As pessoas que eu vejo desanimadas andando na rua ou que entram no carro devem estar sentindo o mesmo que eu. Mesmo assim eu penso que quando a gente morre se acaba tudo. O espírito vai... por aí, para algum lugar. Não sei se os espíritos ficam assistindo a gente. É bom que não. Eles iriam ficar tristes ao ver a gente nas dificuldades e sem poderem nos ajudar. Você acredita na existência de espíritos ou é ateu, quem nem um bicho? Tem gente que é assim.

- O lugar marcado é esse, está certo? Desculpe a conversa. Obrigado e boa noite.

A BARRAGEM DE RIACHO SECO E A APREENSÃO DOS BEIRADEIROS E RIBEIRINHOS DE SEU ENTORNO

 

Está disponível no espaço OPINIÃO rascunho do Relatório sobre o Impacto Social da Barrgem de Riacho Seco feito por mim e pelo socílogo Amurabi Oliveira. Junto entrevistas dos beiradeiros a respeito do problema que os angustia. Importante para quem procura conhecer a vida dos beiradeiros do rio São Francisco.

RÉQUIEM

                                                                                          Esmeraldo Lopes

                  Adaptação de texto originalmente escrito para

                 cerimônia familiar.

Onde o início de nosso começo? Em algum ponto da eternidade passada. E daqui para lá, rastros, imagens, lembranças se apagando, esvaindo-se, desaparecendo do assunto do mundo até sumirem e entrarem na eternidade de esquecimento profundo.

Na vida construímos, sonhamos, vencemos, amamos, destruímos, sofremos, iludimo-nos... Nesse trajeto, longo ou curto, fazemos rastros, deixamos impressões, nos marcamos, marcamos, somos marcados. Fazemo-nos testemunhas de nós e dos outros, e os outros se fazem nossas testemunhas. E já não somos apenas o que queremos. Existem os outros a dizer quem somos, e não somos sem eles, e eles não são sem nós. Ligamo-nos pelos encontros, pelos desencontros, e nisso nasce um infinito, berço para infinitas recordações. O filósofo Albert Camus disse: “Se vivêssemos um só dia, ainda assim teríamos recordações para toda a eternidade.” Para toda a eternidade... A eternidade!... Somos tão depressa! Não podemos alcançá-la. Civilizações, mundos, até os cemitérios morrem e somem por completo sem deixar vestígios. Nossa eternidade nesse mundo, se a queremos, ainda que em sua efemeridade, joguemos para o mais distante possível o esquecimento profundo de nosso existir. “A grande derrota, no fundo, é esquecer...”, concluiu o escritor Louis-Ferdnand Céline.  Para sermos justos conosco, com os que vivem ou viveram conosco, com nossos antepassados, com a história, temos que lembrar, sem passar por cima de nada. Só assim podemos ser justos e encontrarmos a nós mesmos e nos vermos e nos compreendermos. Mas ser justo é tão difícil!, tão dispendioso! E se falta força para revelar a verdade? Temos que encará-la e sofrer diante dela, mas não mintamos para nós mesmos - e não nos desculpemos com farsa! Autocrítica, autocrítica, autocrítica e dor. Cientifiquemo-nos: o arrependimento não anula o passado, apenas reconhece um erro. Pior, muito pior que a dor da verdade é o vácuo do esquecimento. “Feliz o destino da inocente vestal, esquecida pelo mundo que ela esqueceu, brilho eterno de uma mente sem lembranças!” “...esquecida pelo mundo que ela esqueceu...” Foi o poeta  Alexander Pope quem disse, mas é possível não ter lembrança e existir como humano? De outro modo: é possível existir no esquecimento?  O esquecimento é a negação, adulteração da própria trajetória, do próprio existir. É também um modo de assassinar, de impingir morte cruel e de condenar àqueles que são esquecidos: Não és nada, não serás nada, não fostes nada, não valeste nada, não tiveste a menor importância. Esquecer é apagar o passado. É lançarmos nossos antepassados no espaço vazio do silêncio eterno... e embarcarmos juntos. Sem a lembrança, somos apenas vulto na insignificância do instante, meros animais. E se queremos ser para além do instante, da animalidade, cultivemo-nos nos que vivem conosco, nos que vieram de nós, e cultivemos, principalmente, nossos mortos, pois neles a nossa origem e o elo de nossa ligação. E só podemos cultivar nossos mortos pela memória. E, através dela, eles despertando dentro de nós, dando-nos as pistas para sabermos quem somos, mostrando-nos do que fomos feitos, proporcionando lastro para o seguir das gerações futuras.

Nossos mortos... Pensamos que os colocamos dentro de tumbas em cemitérios, mas antes disso - bem antes! -, eles deram início à obra de se sepultar em nós. De começo transferiram sua matéria para nossos corpos, imprimindo-nos seus traços ocultos, suas características aparentes e se inscrevendo em nossa estrutura física. Depois, devagarzinho, de modo inconsciente e também com propósito consciente, sem percebermos, a cada momento do convívio conosco, foram se passando para nós, guardando-se em nossas mentes, grudando-se em nossos gestos, fixando-se em nossas lembranças, semeando-se em nossos jeitos de pensar... e de ser. E nos ensinaram a falar como falavam. Colocaram em nossa língua a canção de seus sotaques. Alimentaram e embalaram nossas curiosidades, nossas emoções, despertaram nossos temores, contando-nos histórias acontecidas, supostas, imaginadas. Empurram-nos para seguirmos pelos caminhos que caminhavam e que, supunham, levasse-nos à vida reta! Muitos desses caminhos herdados de seus antepassados, outros abertos pelo andar de seus passos e pelos passos dos que viveram no tempo de seu viver. De mansinho, botaram tempero em nossos gostos e em nossos desgostos, e nos fizeram aprender a sorrir, a chorar, a sonhar, a aguentar dor, a ter esperança... Disseram-nos, mostraram-nos, mas nem sempre os ouvimos, nem sempre enxergamos o que nos expunham. Por vezes só fingíamos lhes dar atenção ou os desdenhávamos ou os desprezávamos. Não percebíamos nossa estupidez ou não procurávamos evitá-la ou não conseguíamos não sermos estúpidos. Eles também no mesmo... e nos atingindo em marcha ininterrupta com dureza, crueldade, aspereza, indiferença, ternura, alegria,  tristeza, serenidade, compreensão... Nós no envolto deles, no cenário, compondo o panorama, atuando em cada situação. E em cada situação, assim como eles, nós em sentimento de vida e de momento perpétuo. Em verdade, nessas ocasiões, eles não eram “eles”, todos éramos nós. A morte fora de conta. Não morreríamos nunca! A vida, as situações, em eterno presente. Presente preso dentro de quadro imóvel como as imagens dos retratos ou como cenas de filmes.

Tic-tac, tic-tac, tic-tac… incessante, procurando o infinito. O tempo não tem preguiça, nem cansa, não atrasa, não adianta, não tem pressa. É monótono, estável, cego, surdo!... não tem coração. Não precisa de elogio, não liga para sorriso, nem para contrariedade, nem para choro, nem para aplauso... O tempo não liga para nada... caminha, caminha... Para onde vai? Não nos responde. Contentemo-nos com nossas suposições. Nós engolidos por ele, navegando nele, mas ele... Ele não nos vê. E, dentro do tempo, nosso ponto de surgimento, e a vir, em um acontecer inevitável, o nosso desaparecimento. Nosso desaparecimento... Quando? Como? A grande angústia seria esse saber. Que o digam os condenados à morte pela justiça, pois a estes foram informados os detalhes do cumprimento da sentença horrenda e conhecem a angústia inclemente alimentada pelo ouvir ininterrupto do tic-tac contínuo do tempo andando em seus passos mudos na direção do dia e da hora marcados para as suas execuções. Mas nós temos a graça da ignorância da data, da circunstância; temos a graça da imaginação, da capacidade de criação e da alteração do sentido das coisas. Não suportaríamos ouvir o barulho da contagem regressiva do tempo sob a regência da morte em espreita e nem o conhecimento dos detalhes da maneira de ser do nosso fim. Afastamos a morte para longe: “Um dia.”; colocamo-na na gaveta do esquecimento forçado: “Não vou ficar lembrando disso!”, dizemos. Criamos a eternidade de momentos e, agarrados à esperança, conseguimos vislumbrarmos o futuro, eliminando dele o enxergar de nosso desaparecimento. E ao invés de nos aturdirmos com o tic-tac que nos empurra rumo ao encontro de nosso destino final, damos-lhe outros significados, e enchemo-lo de sonhos, desejando, por vezes, que ele, o tic-tac, se apresse: “Eu vou crescer logo, aí...”, “O tempo vai passar ligeiro e eu...” E até nos despedimos do passado sorrindo e cantando: “Adeus, ano velho! Feliz ano novo!...” E mesmo aos que, entre nós, com base em todos os critérios da razão e em todas as evidências, foram desenganados de prosseguir neste mundo, ainda resta o recurso da esperança de um milagre. E o milagre, sempre esperado... e às vezes acontece. E quando acontece, a vida ganha da morte. No registro dessa vitória, contam-se minuto, hora, dia... “Um dia a mais!”, apelo de quem agoniza. E, se consegue, ele vai desejar outra hora e outro dia. Isso, quase sempre, menos quando a morte se instala carregada de dor insuportável. Contra a morte, qualquer ganho é incomensurável, diante de sua impassibilidade: ela não sorri, não chora, não se vinga, não se apiedada, não concede. E, sem falta, virá. Virá rápida, calçada “com suas sandálias de silêncio” ou no embalo amedrontador do som de trovão ou na rapidez muda de raio de relâmpago ou caminhando em passo lento... lento... se anunciando serena ou carregando carga pesada de dor, de aflição, para realizar sua obra.

A morte... O terrível da morte: “Não estarei mais aqui e tudo continuará sem mim, depois de mim. E não sei o que serei e se serei e onde estarei.” Haverá onde estar?... Silêncio? Escuridão? Claridade? Barulho ensurdecedor? “Sono sem sonho?”, como o filósofo Sócrates chegou a supor? Morte: vale de mistério aterrador.

Quando pessoas queridas morrem a gente participa do funeral. Se estiver ausente, pode participar também, mas pela imaginação carregada de sentimento, de lembranças. E pensa-se que o funeral se encerra com o sepultamento. Então se diz que ele foi realizado no dia tal. Mas, não. Nesse dia, o morto colocado em uma sepultura. Sepultamento de queridos é empreendimento para obra longa. E às vezes abarca toda a vida. De fato o morto lá na sepultura, mas remoendo por dentro da gente o sentimento recrudescente de um vazio..., e um silêncio!... Então, a gente fica quieta, parada, se procurando, querendo se recolher do mundo. Aí a pessoa querida, falecida, vem habitar dentro de cada um que está assim, para nos fazer companhia e nos acalentar. E fica nos levando pelos lugares onde a gente viveu, falando em nossos ouvidos, se mostrando, mostrando imagens das coisas acontecidas. Isso nos alenta, mas também dolore. As recordações das coisas boas nos lançam na placidez de sorriso interior: as recordações desagradáveis nos deitam no remorso diante de uma constatação: “o passado não pode ser corrigido”. Devagarzinho, a pessoa querida, falecida, se desabitando de nós, deixando-nos só lembranças. A gente leva tempo para aprender a se acostumar com a ausência, com o vazio deixado por ela, mas consegue! Consegue, mas o sepultamento continua! E cada vez que sentimos falta do falecido querido, percebemos que há um novo sepultar, e que a gente vai se sepultando também... de pedaço em pedaço. E luzes perdendo brilho, espaços se esvaziando, alegrias desvanecendo, sorriso ficando sem graça.

Entre lágrimas e suspiros de impotência prestamos as últimas homenagens a nossos mortos. E os acompanhamos na condução de sua derradeira jornada até o cemitério onde jazem. O acompanhamento de jornada assim, quantas vezes já o fizemos? De tanto fazer, de tanto assistir, de tanto acompanhar a morte, começamos a nos acostumar com ela, a pegar sua intimidade e até a imaginar o nosso próprio trajeto final. Aí, pensamos ouvindo, solene, calados, nossa voz: “Nesse dia, todos que me acompanharem voltarão, mas eu ficarei, como ficará, daqui a pouco, quem agora acompanhamos. Ficarei sozinho...” E passamos a encarar o cemitério como ambiente familiar, cheio de parentes, de amigos, de conhecidos. Nele, recordações saltando na gente: “Aqui fulano, ali cicrano, lembra dele? Minha mãe, meus avós, nesta sepultura.” Os mortos reavivados pelas lembranças, reavivando-se pelas inscrições, pelas imagens dos retratos exibidas nos túmulos. E vão brotando, falando de si, contando história, fazendo-nos perguntar. Mas há mortos que emudeceram e desapareceram entrando na eternidade do esquecimento profundo, rápido. Rápido demais, sem deixar resquício... e nem poeira. E seus descendentes vivem, mas vivem sem história, como folhas desprendidas de ramos, de ramos que não sabem de que galho caíram. São os mortos sem monumento.

Cemitério... monturo?, depósito de mortos? Não! Cidade de memória, monumento abrigo de monumentos. Monumento... marco de recordação carregado de significados, avivando lembranças, histórias, colocando-nos no presente do passado, trazendo o passado para o presente. Monumento... Não importa a forma, tanto faz se em imagem, registro em papel, objeto, edificação. Sepultura, monumento, casa de memória, templo de mortos.

Cidade de memória... No seu caminho seguiremos. Lá, uma multidão nos espera para habitar com ela pelo sempre do sempre. Aguarda-nos sem pressa em repouso tranqüilo... no leito do Templo dos mortos.

Onde o início de nosso fim? O início de nosso fim em algum ponto da eternidade futura, a partir da abertura do portal do esquecimento. Daí em diante, rastros, imagens, lembranças se apagando, esvaindo-se, desaparecendo do assunto do mundo... até sumirem e entrarem em esquecimento pleno. Silêncio profundo viajando pelo tempo. E a eternidade do futuro sem a lembrança de nós.

 

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